Da fome à falta de razão – Arnaldo Carrilho

“O ponto crucial, o essencial da vida e obra de Glauber identifica-se com esta militância: uma ação em favor da arte revolucionária.” ( CARRILHO, Arnaldo. O discurso (geo)político de Glauber. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: Papirus, 1996 p.236)

“No ritmo desordenado dessa trajetória artístico-filosófica, mesclam-se as destruições e as reconstruções, as antinomias e as ambigüidades; ela comporta tanto afirmação quanto ironia de si, tanto dúvida quanto imitação, e níveis metafísicos e existenciais.”

( CARRILHO, Arnaldo. O discurso (geo)político de Glauber. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: Papirus, 1996 p.236)

“Será sempre necessário apelar para o conjunto das opinioes da teoria política, da psicanálise, da antropologia, da lingüística, ao opinar sobre o fenômeno Glauber Rocha, pois sua lógica interna atrai curiosidades inter-disciplinares. As rupturas que ele causou, em níveis afetivos ideológicos e outros, nos diversos setores da intelligentsia, da opinião pública e da sociedade em seu tempo, representam, como um desafio, as bases de uma reflexão para toda tentativa de esclarecer nossas razoes de viver e sobreviver.”

( CARRILHO, Arnaldo. O discurso (geo)político de Glauber. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: Papirus, 1996 p.237)

“Glauber é produto cultural desse hiato histórico dos ‘anos JK’, durante os quais ele conserva sempre um radicalismo crítico de natureza subversiva.” ( CARRILHO, Arnaldo. O discurso (geo)político de Glauber. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: Papirus, 1996 p.237)

“A obra cinematográfica de Glauber apresenta inúmeras originalidades, sendo a maor o fato de ela representar a ilustração visual de seu pensamento. Conseguiu, mais do que qualquer outro cineasta do Terceiro Mundo, inscrever-se na lista muito restrita dos artistas mais revolucionários.” ( CARRILHO, Arnaldo. O discurso (geo)político de Glauber. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: Papirus, 1996 p.238)

“Na verdade, cada um dos seus filmes é um ato de provocação, inclusive em relação aos anteriores.” ( CARRILHO, Arnaldo. O discurso (geo)político de Glauber. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: Papirus, 1996 p.238)

“O importante é que Glauber foi um mestre na política da arte e que a realidade insuportável de sua morte obriga a reconsiderar, com mais atenção, todo o frágil equilíbrio cuja a tensão ele insistia em manter, como se ele próprio fosse campo de sua dialética.” ( CARRILHO, Arnaldo. O discurso (geo)político de Glauber. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: Papirus, 1996 p.239)

“Ele se indispôs com os bem pensantes a partir do momento em que entreviu uma luz tênue, imperceptível aos outros, indicando uma saída para o seu país. A atitude que ele preconizava era a da anti-ruptura. E, por esse discruso, foi imediatamente desprezados pelos intelectuais brasileiros e, em conseqüência, pelos europeus por… contra-alienação.” ( CARRILHO, Arnaldo. O discurso (geo)político de Glauber. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: Papirus, 1996 p.239)

“A especificidade do cinema novo derivaria de uma não compreensão recíproca entre as culturas civilizadas e primitivas, cuja origem, segundo ele, consistiria na ‘ilusória paixão pela verdade’, pertencente às primeiras, que qualifica de ‘mito infiltrado na retórica latina’. Em outros termos, a cultura dita civilizada, não teria os meios para analisar a verdade da arte brasileira, porque o mundo da opulência não conhece a violência e a fome. Assim, o ‘velho humanismo colonizador’ não poderia compreender que ‘esta violência é penetrada de um amor de ação e de transformação, ela não é um amor de complacência ou de contemplação. A partir de então, os únicos pontos de contato entre o cinema novo e o cinema mundial, se limitariam ‘a suas origens técnicas, industriais e artísticas’. Em suma, conclui, só um pensamento enfraquecido pela fome, em delírio, poderia explicar o Cinema Novo.” ( CARRILHO, Arnaldo. O discurso (geo)político de Glauber. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: Papirus, 1996 p.241)

“O importante nesse texto (Eztetyka do Sonho) é que, com ele, Glauber separe-se: a) da razão dominante os das tipologias norte-americanas, soviéticas, euro-ocidentais ou chinesas; b) do cinema ‘engajado’ de origem libertário-terceiro-mundista do tipo de La hora de los hornos; c) do próprio cinemanovismo sociestatizante. Aliás, ele abandonou a fome como motor exclusivo da história e o revolucionarismo extremado. Ele define a revolução nesse texto como o produto de uma iluminação mágica, de origem mística, e desemboca brutalmente no sonho, citando os delírios borgesianos como um dos exemplos do verdadeiro caminho da arte, o mais interessante para o mundo dos homens.” ( CARRILHO, Arnaldo. O discurso (geo)político de Glauber. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: Papirus, 1996 p.242-243)

“(…) a falta de razão era o centro da órbita na qual desabrochava a criação artístico-revolucionária.” ( CARRILHO, Arnaldo. O discurso (geo)político de Glauber. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: Papirus, 1996 p.243)

Aconteceu evidentemente um caso de descontinuidade foucaultiana. Aliás, em Terra em Transe, em si já cheio de descontinuidades, anunciava um tipo de montagem que, já experimentado em certos momentos de Deus e o Diabo, daria em seguida impulso a todos os seus outros filmes, a exceção de Dragão da maldade, para explodir finalmente em A idade da terra, que pode ser projetado a partir de qualquer momento do filme, podendo repetir as cenas e corta-las a vontade. (…) Glauber inicialmente chamou esse processo de ‘montagem de preciitações’ para depois rebatiza-lo de ‘montagem nuclear’.” ( CARRILHO, Arnaldo. O discurso (geo)político de Glauber. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: Papirus, 1996 p.243)

“(…) o engajamento de Glauber, é fundamentalmente uma questão de opção pelo cinema de poesia, no sentido pasoliniano da expressão. Os filmes de Glauber estruturam-se na vanguarda. Mas que vanguarda? Para tirar o rótulo do intelectualismo da esquerda burguesa, sua vanguarda era a do subdesenvolvimento. No entando, ele não a aplicava ao subdesenvolvimento como os modernistas de 1922, ou os arquitetos corbusierianos dos anos 30. A poesia de Glauber era formalmente estruturada pelo subdesenvolvimento – o delírio da fome – gerador da violência amorosa da ‘regeneração’, e, em seguida, pelo sonho libertador inspirado por uma carga mística.” ( CARRILHO, Arnaldo. O discurso (geo)político de Glauber. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: Papirus, 1996 p.243)

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