Transe, crença e povo – Ivana Bentes

“Do cinema de Glauber Rocha à filosofia de Gilles Deleuze, foi possível pensar um sistema de retroalimentação, onde um conceito não reaparece em outro campo sem modificar-se ou desdobrar-se. Mais do que superposições ou aplicações, segui alguns desses desdobramentos tendo como ponto de partida um certo gosto dos autores pelo paradoxo, pela imanência radical.” (BENTES, Ivana. Transe, crença e povo. In: CADERNOS DE SUBJETIVIDADE.PUCSP – v.1, n. 1 -1993 p.107 )

“Três noções se impõem, entradas privilegiadas nesse hipertexto complexo que é uma obra, rede acentrada de múltiplos pontos de acesso. Transe, Crença e Povo são conceitos que aparecem no cinema de Glauber, de Barravento à Idade da Terra. Um cinema que parte do modelo dialético do verdadeiro e chega à radicalidade de um plano de imanência, campo de desterritorializações e devir.” (BENTES, Ivana. Transe, crença e povo. In: CADERNOS DE SUBJETIVIDADE.PUCSP – v.1, n. 1 -1993 p.107 )

“Fazer entrar em transe ou em crise seria a primeira figura do pensamento e do cinema moderno. O transe é transição, passagem, devir e possessão. Para entrar em crise ou em transe, é preciso se deixar atravessar, possuir, por um outro.” (BENTES, Ivana. Transe, crença e povo. In: CADERNOS DE SUBJETIVIDADE.PUCSP – v.1, n. 1 -1993 p. 108)

“No cinema de Glauber, acompanhamos a crise da Terra, do homem, das formações sociais. Num primeiro momento, essa crise nasce de uma dialética do verdadeiro, onde a diferença torna-se oposição e contradição.” (BENTES, Ivana. Transe, crença e povo. In: CADERNOS DE SUBJETIVIDADE.PUCSP – v.1, n. 1 -1993 p. 108)

“O que importa no pensamento dialético é o trabalho do negativo. Entretanto, dividir em dois – a alteridade como outro do mesmo – ou multiplicar não basta para chegarmos ao plano de imanência, a diferença pura, ao devir-transe. Glauber começa trabalhando com dualidades, natureza e cultura, misticismo e marxismo, geografia e história. A passagem da natureza à cultura é encenada em Barravento, a partir de três estágios: a convivência entre mitológico e racional, a expulsão desse mitológico e seu retorno desmesurado e incontrolável de forma destruidora ou positiva. A dialética será abandonada no decorrer de seus filmes. Glauber vai desfazer os dualismos de dentro até chegar ao fluxo desestruturante, Terra em Transe, e `suprema liberdade em filmes como Di ou Idade da Terra.” (BENTES, Ivana. Transe, crença e povo. In: CADERNOS DE SUBJETIVIDADE.PUCSP – v.1, n. 1 -1993 p. 108)

“Crise e Transe são as condições de um pensamento e de um cinema diferenciais, que nascem distendendo, rompendo e entravando o esquema da ação e reação. Desqualificando as verdades e valores eternos, para produzir novos encadeamentos e reencadeamentos de conceitos e imagens.” (BENTES, Ivana. Transe, crença e povo. In: CADERNOS DE SUBJETIVIDADE.PUCSP – v.1, n. 1 -1993 p.108 )

“Trata-se de uma pedagogia da crise que se dá quando o cinema moderno vem destituir as verdades motoras do cinema narrativo clássico e pensar o tempo como operador de disjunções. De um lado, percepção-significação-ação, o esquema bergsoniano que caracteriza tanto o peensamento quanto, segundo Deleuze, o cinema da tradição. Esquema que será destituído por algo como a relação percepção-hesitação-problematização. Como se fossemos colocados diante de situações que não podem mais se prolongar em ações. O cinema e o pensamento modernos nascem dessa crise diante do que é ‘terrível demais, belo demais, intolerável’. Algo que excede nossa capacidade sonsório-motora de reação: uma beleza ou dor fortes demais. Em vez de um pensamento ou de um cinema que tolera e suporta praticamente qualquer coisa, Deleuze propõe esse confronto com o impensável, pensar o que escapa ao pensamento, a vida.” (BENTES, Ivana. Transe, crença e povo. In: CADERNOS DE SUBJETIVIDADE.PUCSP – v.1, n. 1 -1993 p.109 )

“Fazer da violência, do transe e da fome uma estética ou um pensamento. Eis o que significa instaurar um plano de imanência, no dito de Deleuze, é a necessidade de ‘ultrapassar a experiência, não em direção às condições a priori de toda experiência possível, mas em vista das condições concretas de toda a experiência real’. Nos primeiros filmes de Glauber, essa máxima significa transformar beatos, vaqueiros, matadores de alguel em agentes da revolução. Para Glauber, a violência é ‘um amor de ação e transformação’.” (BENTES, Ivana. Transe, crença e povo. In: CADERNOS DE SUBJETIVIDADE.PUCSP – v.1, n. 1 -1993 p.111 )

“A violência não é um simples sintoma, é um desejo de transformação, é a ‘mais nobre manifestação cultural da fome.’ O marxismo de Glauber tem algo de sádico e histérico. Para explodir, a revolução tem que ser precedida por um crime, um massacre.” (BENTES, Ivana. Transe, crença e povo. In: CADERNOS DE SUBJETIVIDADE.PUCSP – v.1, n. 1 -1993 p.111 )

“O negativo se nega em nome de um devir. Negação como qualidade da vontade de potência ou como reação. Como em Nietzsche, o niilismo, a vontade de nada e o nada de vontade anunciam a morte do homem em nome de um devir infra ou sobre-humano.” (BENTES, Ivana. Transe, crença e povo. In: CADERNOS DE SUBJETIVIDADE.PUCSP – v.1, n. 1 -1993 p. 112)

“Todos pertencem à Terra, são manifestações da sua cólera, seu transe.” (BENTES, Ivana. Transe, crença e povo. In: CADERNOS DE SUBJETIVIDADE.PUCSP – v.1, n. 1 -1993 p. 112)

“A crise e o transe operam essa desestruturação. E a crença de um acordo originário entre homem e mundo que não mais se sustenta (é horrível demais ou belo demais). É essa perda do mundo que é condição do pensamento moderno.” (BENTES, Ivana. Transe, crença e povo. In: CADERNOS DE SUBJETIVIDADE.PUCSP – v.1, n. 1 -1993 p.112 )

“Deleuze diz: ‘O fato moderno é que já não acreditamos nesse mundo. Nem mesmo nos acontecimento que nos acontecem – amor e morte – como se nos dissessem respeito apenas pela metade’. É o vínculo do homem com o mundo que se rompeu. Por isso, é o vínculo que deve se tornar objeto de crença, ele é o impossível que só pode ser restituído pela crença. Crença neste mundo aqui, não em outro mundo.” (BENTES, Ivana. Transe, crença e povo. In: CADERNOS DE SUBJETIVIDADE.PUCSP – v.1, n. 1 -1993 p.112 )

“O homem está no mundo como numa situação ótica e sonora pura. Vê, sente e não sabe mais como agir. Torna-se vidente. A Crença substitui a ação, diz Deleuze. ‘Somente a crença no mundo pode religar o homem com o que ele vê e ouve. Restituir-nos a crença no mundo, eis o poder do cinema e do pensamento moderno. Cristãos e ateus em nossa universal esquizofrenia, precisamos de razões para crer nesse mundo’.” (BENTES, Ivana. Transe, crença e povo. In: CADERNOS DE SUBJETIVIDADE.PUCSP – v.1, n. 1 -1993 p. 112-113)

“Acreditar no mundo, diz Deleuze, significa principalmente suscitar acontecimentos, mesmo pequenos, que escapem ao controle, engendrar novos espaços-tempos, mesmo de superfície ou de volume reduzidos. Acreditar no mundo é criar mundos.” (BENTES, Ivana. Transe, crença e povo. In: CADERNOS DE SUBJETIVIDADE.PUCSP – v.1, n. 1 -1993 p.113 )

“Destituídos da terra, desterritorializados, destituídos dos ideais da religião, destituídos dos ideais da revolução, os personagens de Glauber vagam procurando uma nova terra, um novo corpo.” (BENTES, Ivana. Transe, crença e povo. In: CADERNOS DE SUBJETIVIDADE.PUCSP – v.1, n. 1 -1993 p.113 )

“A crença é um princípio de conversão e transmutação.” (BENTES, Ivana. Transe, crença e povo. In: CADERNOS DE SUBJETIVIDADE.PUCSP – v.1, n. 1 -1993 p.113 )

“O impossível é restituído por uma crença.” (BENTES, Ivana. Transe, crença e povo. In: CADERNOS DE SUBJETIVIDADE.PUCSP – v.1, n. 1 -1993 p.114 )

“Diante do intolerável e da miséria, saída pelo mito e pelo místico, pela revolta armada é uma estratégia, uma composição possível. Os desterritorializados encontram no corpo armado do cangaceiro, no santo guerrilheiro, na máquina de guerra do mercenário, no poder de aglutinação do místico, na força do escravo, a possibilidade de constituir um plano de imanência, uma Terra. Esse encontro, que tem como ponto de partida o mito e o místico, opera reinvenções, mais do que repetições. O mito e o sagrado em G;lauber, se dão como atualização. Deleuze dirá sobre esse cinema que ele vai ‘extrair do mito um atual vivido, que seria como o intolerável, o invivível, a impossibilidade de viver agora nesta sociedade. Trata-se em seguida de arrancar o invivível um ato de fala que não se poderia calar, um ato de fabulação que não seria um retorno ao mito, mas uma produção de enunciados coletivos capazes de elevar a miséria a uma estranha positividade, à invenção de um povo’.” (BENTES, Ivana. Transe, crença e povo. In: CADERNOS DE SUBJETIVIDADE.PUCSP – v.1, n. 1 -1993 p. 114)

“O Povo, que falta. ‘Os povos não preexistem. De certa maneira, o povo é o que falta’. Dá-me um povo! Eis o que falta a arte e ao pensamento, diz Deleuze, novos povoamentos. Um povo é uma minoria que não tem modelo, é um devir, um processo. O povo é sempre uma minoria criadora, povoamentos, inúmeros povos dentro de um mesmo território.” (BENTES, Ivana. Transe, crença e povo. In: CADERNOS DE SUBJETIVIDADE.PUCSP – v.1, n. 1 -1993 p.115 )

“O que nos interessa no cinema de Glauber e no pensamento de Deleuze, é a possibilidade de uma fabulação comum ao povo e à arte. ‘O artista não pode senão apelar para o um povo, ele tem a necessidade dele no mais profundo dee seu empreendimento. Mas quando um povo se cria, é pelos seus próprios meios, mas de maneira a reencontrar algo da arte ou de maneira que a arte encontre o que lhe faltava. Há uma fabulação comum ao povo e à arte’.” (BENTES, Ivana. Transe, crença e povo. In: CADERNOS DE SUBJETIVIDADE.PUCSP – v.1, n. 1 -1993 p.115 )

“A impossibilidade de se viver no intolerável de cada sociedade leva à produção de enunciados coletivos capazes de elevar esse intolerável a uma estranha positividade. Estética da fome, estética da violência, diria Glauber.” (BENTES, Ivana. Transe, crença e povo. In: CADERNOS DE SUBJETIVIDADE.PUCSP – v.1, n. 1 -1993 p.115 )

“Não supor um povo, mas contribuir para a sua invenção. ‘Tudo se passa como se o cinema político moderno não se constituísse mais de sobre uma possibilidade de uma evolução e de revolução como o cinema clássico, mas sobre impossibilidades’.” (BENTES, Ivana. Transe, crença e povo. In: CADERNOS DE SUBJETIVIDADE.PUCSP – v.1, n. 1 -1993 p.115 )

“A pedagogia da violência em Glauber traz um sentido ativo para a dor, um sentido externo, como em Nietzsche. ‘A dor não é argumento contra a vida, mas ao contrário um excitante da vida (…), um argumento em seu favor. Ver sofrer ou mesmo infligir o sofrimento é uma estrtura da vida como vida ativa’ (Deleuze). Pedagogia da dor e da violência em Glauber que é o primeiro momento da constituição de um povo, de fabulação.” (BENTES, Ivana. Transe, crença e povo. In: CADERNOS DE SUBJETIVIDADE.PUCSP – v.1, n. 1 -1993 p. 116)

“Não há mais sentido, só imagens. E é através das imagens que os novos marginalizados ferem e violentam o mundo que os rejeitou.” (BENTES, Ivana. Transe, crença e povo. In: CADERNOS DE SUBJETIVIDADE.PUCSP – v.1, n. 1 -1993 p.119 )

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