Proust e os Signos – Gilles Deleuze

“Assim, a tarefa do aprendiza é compreender por que alguém é recebido em determinado mundo e por que alguém deixa de sê-lo; a que signos obedecem esses mundos e quem são legisladores e seus papas.” 5

“O signo mundano não remete a alguma coisa, ele a ‘substitui’, pretende valer por seus sentido. Antecipa ação e pensamento, anula pensamento e ação, e se declara suficiente.” 6

“Apaixonar-se é individualizar alguém pelos signos que traz consigo ou emite. É tornar-se sensível a esses signos, apreendê-los. É possível que a amizade se nutra da observação e de conversa, mas o amor nasce e se alimenta de uma interpretação silenciosa. O ser amado aparece como um signo, uma ‘alma’: exprime um mundo possível, desconhecido de nós. O amado implica, envolve, aprisiona um mundo, que é preciso decifrar, isto é, interpretar. Trata-se mesmo de uma pluralidade de mundos; o pluralismo do amor não diz respeito apenas à multiplicidade das almas ou dos mundos contidos em cada um deles. Amar é procurar explicar, desenvolver esses mundos desconhecidos que permanecem envolvidos no amado.” 7

“Não podemos interpretar os signos de um ser amado sem desembocar mundos que se formaram sem nós, que se formaram com outras pessoas, onde não somos, de início, senão um objeto como os outros.” 7-8

“O amado nos emite signos de preferência; mas como esses signos são os mesmos  que aqueles que exprimem mundos de que não fazemos parte, cada preferência que nós usufruímos delineia a imagem do mundo possível onde outros seriam ou são preferidos.” 8

“Os signos amorosos não são como os signos mundanos: não são signos vazios, que substituem o pensamento e a ação; são signos mentirosos que não podem dirigir-se a nós senão escondendo o que exprimem, isto é, a origem dos mundos desconhecidos, das ações e dos pensamentos desconhecidos que lhe dão sentido.” 9

“Uma qualidade sensível nos proporciona uma estranha alegria, ao mesmo tempo que nos transmite uma espécie de imperativo. Uma vez experimentada, a qualidade não aparece mais como uma propriedade do objeto que a possui no momento, mas como o signo de um objeto completamente diferente, que devemos tentar decifrar através de um esforço sempre sujeito ao fracasso.” 10-11

“No princípio, uma intensa alegria, de tal modo que estes signos já se distinguem dos precedentes por seu efeito imediato. Depois, uma espécie de sentimento de obrigação, necessidade de um trabalho do pensamento: procurar o sentimento do signo.”11

São signos verídicos, que imediatamente nos dão uma sensação de alegria incomum, signos plenos, afirmativos e alegres. São signos materiais. Não é apenas sua origem , mas a sua explicação, seu desenvolvimento, que permanece material. Sentimos perfeitamente que Blabec, Veneza… não surgem como produto de uma associação de idéias, mas em pessoa e essência.” 12

“o sentido material não é nada sem uma essência ideal que ele encarna. O erro é acreditar que os hieróglifos representam ‘apenas objetos materiais’. O que permita agora ao intérprete ir mais além é que, nesse meio-tempo, o problema da Arte foi colocado e resolvido. Ora, o mundo da Arte é o último mundo dos signos; e esses signos, como que desmaterializados, encontram seu sentido numa essência ideal. Desde então, o mundo revelado da Arte reage sobre todos os outros, principalmente sobre os signos sensíveis; ele os integra, dá-lhes o colorido de um sentido estético e penetra no que eles ainda tinham de opaco. Compreendemos então que os signos sensíveis já remetiam a uma essência ideal que se encarnava no seu sentido material. Mas sem a Arte nunca poderíamos compreendê-los, nem ultrapassar o nível de interpretação que correspondia à análise da Madeleine. É por esta razão que todos os signos convergem para a arte; todos os aprendizados, pelas mais diversas vias, são aprendizados inconscientes da própria arte. No nível mais profundo, o essencial está nos signos da arte.”13

“A filosofia atinge apenas verdades abstratas que não comprometem, nem perturbam. ‘As idéias formadas pela inteligência pura só possuindo uma verdade lógica, uma verdade possível, sua seleção torna-se arbitrária’. Ela são gratuitas porque nascidas da inteligência, que somente lhes confere uma possibilidade, e não de um encontro ou de uma violência, que lhes garantiria autenticidade. As idéias de inteligência só valem por sua significação explícita, portanto convencional. Um dos temas em que Proust mais insiste é esse: a verdade nunca é produto de uma boa vontade prévia, mas o resultado de uma violência sobre o pensamento. As significações explícitas e convencionais nunca são profundas, somente é profundo o sentido, tal como aparece encoberto e implícito num signo exterior. 15

“O acaso dos encontros, a pressão das coações são os dois temas fundamentais de Proust. Pois é precisamente o signo que é objeto de um encontro e é ele que exerce sobre nós a violência. O acaso do encontro é que garante a necessidade daquilo que é pensado.” 15

“O que quer dizer aquele que diz ‘eu quero a verdade’? Ele só quer ser coagido e forçado. Só a quer sob o império de um encontro, em relação a uma determinado signo. Ele quer interpretar, decifrar, traduzir encontrar o sentido do signo.” 15

“O tempo perdido não é apenas o tempo que passa, alterando os seres e anulando o que passou; é também o tempo que se perde (por que, ao invés de trabalharmos e sermos artistas, perdemos tempo na vida mundana e nos amores?). E o tempo redescoberto é, antes de tudo, um tempo que redescobrimos no âmago do tempo perdido e que nos revela a imagem da eternidade; mas é também um tempo original absoluto, verdadeira eternidade que se afirma na arte.” 16

“Em arte ou literatura, quando a inteligência intervém, é sempre depois, nunca antes. ‘A impressão é para o escritor o mesmo que a experimentação é para o sábio, com a diferença de ser neste anterior e naquele posterior o trabalho de inteligência’. Em primeiro lugar, é preciso sentir o efeito violento de um signo, e que o pensamento seja como que forçado a procurar o sentido do signo.” 22

“Mas no caso do tempo que se perde e do tempo perdido, é a inteligência, e apenas ela, que é capaz de tornar possível o esforço do pensamento, ou de interpretar o signo; é ela que o encontra, contanto que venha ‘depois’. Dentre todas as formas de pensamento, só a inteligência extrai as verdades dessa ordem.” 22

“Graças a inteligência, descobrimos então o que não podíamos saber no início: que, quando pensávamos perder tempo, já fazíamos o aprendizado dos signos.” 23

“O signos mundanos implicam principalmente um tempo que se perde; os signos do amor envolvem particularmente o tempo perdido. Os signos sensíveis muitas vezes nos fazem redescobrir o tempo, restituindo-o no meio do tempo perdido. Finalmente, os signos da arte nos trazem um tempo redescoberto, tempo original absoluto que compreende todos os outros.” 23

“Pensamos que o próprio  ‘objeto’ traz o segredo do signo que emite e sobre ele nos fixamos, dele nos ocupamos para decifrar o signo. Por comodismo, chamemos objetivismo essa tendência que nos é natural ou pelo menos habitual.” 26

“Confundimos o significado do signo com o objeto que ele designa.” 26

“Em seus primeiros amores, ele faz o ‘objeto’ se beneficiar de tudo o que ele próprio sente: o que lhe parece único em determinada pessoa parece-lhe também pertencer a essa pessoa. Tanto que os primeiro amores são orientados para a confissão, que é justamente a forma amorosa de homenagem ao objeto.” 27

“Pois a percepção acredita que a realidade deva ser vista, observada, mas a inteligência acredita que ela deve ser dita e formulada.” 28

“Ao mesmo tempo ele aprende que a confissão não é o essencial do amor e que não é necessário, nem desejável, confessar: estaremos perdidos, toda a nossa liberdade estará perdida, se enriquecermos o objeto com signos e com as significações que não lhe pertencem.” 30

“É decepcionante, por natureza, uma literatura que interpreta os signos relacionando-os com objetos designáveis (observação e descrição),  que se cerca de garantias pseudo-objetivas do testemunho e da comunicação (conversa, pesquisa), que confunde o sentido com significações inteligíveis, explícitas e formuladas (grandes temas).” 31

“Cada linha de aprendizado passa por esses dois momentos: a decepção provocada por uma tentativa de interpretação objetiva e a tentativa de remediar essa decepção por uma associação subjetiva, em que reconstruímos conjuntos associativos. (…) o signo é sem dúvida mais profundo do que o sujeito que o interpreta, mas ainda se liga a esse sujeito, se encarna pela metade em uma série de associações subjetivas.” 34

“É apenas no nível das artes que as essências são reveladas. Mas, uma vez manifestadas na obra de arte, elas reagem sobre todos os outros campos: aprendemos que elas já se haviam encarnado, já estavam em todas as espécies de signos, em todos os tipos de aprendizado.” 36

“Nisto consiste a superioridade da arte sobre a vida”todos os signos que encontramos na vida ainda são signos materiais e seu sentido, estando sempre em outra coisa, não é inteiramente espiritual.” 39

“O que é uma essência, tal como é revelada na obra de arte? É uma diferença, a Diferença última e absoluta. É ela que constitui o ser, que nos faz concebê-lo. Porque só a arte, no que diz respeito à manifestação das essências, é capaz de nos dar o que procurávamos em vão na vida.” 39

“Cada sujeito exprime o mundo de um certo ponto de vista. Mas o ponto de vista é a própria diferença, a diferença interna e absoluta. Cada sujeito exprime, pois, um mundo absolutamente diferente e, sem dúvida, o mundo expresso não existe fora do sujeito que o exprime (o que chamamos de mundo exterior é apenas a projeção ilusória, o limite uniformizante de todos esses mundos expressos).  Mas o mundo expresso não se confunde com o sujeito: dele se distingue exatamente como a essência se distingue da existência e inclusive de sua própria existência. Ele não existe fora do sujeito que o exprime, mas é expresso como a essência, não do próprio sujeito, mas do Ser, ou da região do Ser que se revela ao sujeito. Razão pela qual cada essência é uma pátria, uma país; ela não se reduz a um estado psicológico, nem a subjetividade psicológica, nem mesmo a uma forma qualquer de subjetividade superior. A essência é a qualidade última no âmago do sujeito, mas essa qualidade é mais profunda que o sujeito, é de outra ordem: ‘Qualidade desconhecida de uma mundo único”. Não é o sujeito que explica a essência, é, antes, a essência que se implica, se envolve, se enrola no sujeito. Mais ainda: enrolando-se sobre si mesma ela constitui a subjetividade. Não são os indivíduos que constituem o mundo, mas os mundos envolvidos , as essências, que constituem os indivíduos: ‘Esses mundos que são os indivíduos e que sem arte jamais conheceríamos’. A essência não é apenas arte individual, é individualizante.” 40-41

Talvez as essências tenham, elas próprias, se aprisionado,  se envolvido nas almas que elas individualizam. Não existem fora desse cativeiro, mas não se separam da ‘pátria desconhecida’ com que elas se envolvem em nós. São nosso ‘reféns’: morrem se morremos, mas se são eternas, de algum modo somos também imortais. Elas tornam a morte menos provável; a única prova, a única chance é estética.” 41-42

“Por essa razão, podemos dizer com todo o rigor que só a obra de arte é nos faz redescobrir o tempo: a obra de arte é o ‘único meio de redescobrir o tempo perdido’. Ela porta os signos mais importantes, cujo sentido está contido numa complicação primordial, verdadeira eternidade, tempo original e absoluto.” 44

“O verdadeiro tema da de uma obra não é o assunto tratado, sujeito consciente e voluntário que se confunde com aquilo que as palavras designam, mas os temais inconscientes, os arquétipos involuntários, dos quais as palavras, como as cores e os sons, tiram seu sentido e a sua vida. A arte é uma verdadeira transmutação da matéria. Nela a matéria se espiritualiza, os meios físicos se dematerializam, para refratar a essência, isto é, a qualidade de uma mundo original. Esse tratamento da matéria é o ‘estilo’.” 45

“Isso significa que o estilo é basicamente metáfora. Mas a metáfora é essencialmente metamorfose e indica como os dois objetos permutam suas determinações, e até mesmo a palavra que os designa, no novo meio que lhes confere a qualidade comum.” 45

“O estilo não é o homem, é a própria essência.”46

“É que a essência é em si mesma a diferença, não tendo entretanto, o poder de diversificar e de diversificar-se, sem a capacidade de se repetir, id6entica a si mesma. Que poderíamos fazer da essência, que é diferença última, senão repeti-la, já que ela não pode ser substituída, nada podendo ocupar-lhe o lugar. Por essa razão, uma grande música deve ser tocada muitas vezes; um poema, aprendido de cor e recitado. A diferença e a repetição só se opõem aparentemente e não existe um grande artista cuja obra não nos faça dizer: ‘a mesma e no entanto outra’.” 46

“Na verdade, diferença e repetição são as duas potências da essência, inseparáveis e correlatas.” 47

“Na arte, a matéria se torna espiritualizada e os meios desmaterializados. A obra de arte é, pois, um mundo de signos que são imateriais e nada têm de opaco, pelo menos para olho  ou ouvido artistas. Em segundo lugar, o sentido desses signos é uma essência que se afirma em toda a sua potência. Em terceiro lugar, o signo e o sentido, e essência e a matéria transmutada se confundem ou se unem numa adequação perfeita. Identidade de um signo como estilo e de um sentido como essência: esta é a característica da obra de arte.” 47

“A essência é sempre uma essência artista. Mas, uma vez descoberta,  ela não se encarna apenas nas matérias espiritualizadas, nos signos imateriais da obra de arte. Ela também se encarna nos outros domínios, que serão, desde então, integrados naquela obra.” 48

“As reminiscências são metáforas da vida; as metáforas são reminiscências da arte. Ambas, com efeito, têm algo em comum: determinam uma relação entre dois objetos inteiramente diferentes, ‘para subtrair às contingências do tempo’. Mas só a arte realiza plenamente o que a vida apenas esboçou. As reminiscências, na memória involuntária, são ainda vida: arte no nível da vida, consequentemente metáforas ruins. Ao contrário, a arte em sua essência, a arte superior a vida, não se baseia na memória involuntária, nem mesmo na imaginação e nas figuras inconscientes. Os signos da arte se explicam pelo pensamento puro como faculdade das essências. Dos signos sensíveis em geral, quer se dirijam a memória ou mesmo a imaginação, devemos dizer ora que vêm antes da arte e que a ela nos conduzem, ora que vêm depois da arte e que dela captam apenas os reflexos mais próximos.”52

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