Ficha de Leitura: CINEMANCIA, de Júlio Bressane

“Foi no desenho da sombra de alguns de seus [de Robert Bresson] fotogramas onde, pela primeira vez, pensaram-se o signo cinematográfico moderno e suas transrelações. Muitas das obsessões do cinema moderno sentiu-as e pensou-as, pela primeira vez, este mestre do cinema mental. Digno Signo cinematográfico e Cinema pensado como organismo intelectual demasiadamente sensível e que faz limite, pervaga, transpassa, todas as artes, ciências e a vida. Cinema trans-tudo, nômade, desértico, inatual, novo…” (BRESSANE, Júlio. O Homem dos Olhos Doces. In: Cinemancia. Rio de Janeiro, RJ: Imago, 2000, p. 23)

“’Um realizador deve ser pintor, romancista, músico, e depois ser cineasta’, escreveu assim, certa vez, com destemor, A. Astruc.” (BRESSANE, Júlio. O Homem dos Olhos Doces. In: Cinemancia. Rio de Janeiro, RJ: Imago, 2000, p. 23)

“[Bresson fez um] Cinema sensível às revelações da imagem tempo (cronossignos) da imagem legível (lectossignos) e da imagem pensamento (noossignos). Fluxo circulador que imprime no fotograma granulado um sinal, uma mancha pensamento. Cinema que faz sentir. Angulação, movimento de câmera, câmera fixa, mínima, que manifesta relações mentais (Mouchette). Não é câmera-olho, mas olho-espírito, cinema vidência, a descrição substituindo o objeto (Une femme douce).” (BRESSANE, Júlio. O Homem dos Olhos Doces. In: Cinemancia. Rio de Janeiro, RJ: Imago, 2000, p. 24-25)

“[…]cada fotograma-som da mancha química sonorosa, realiza essa coisa pouco simples que é transmitir uma emoção…” (BRESSANE, Júlio. O Homem dos Olhos Doces. In: Cinemancia. Rio de Janeiro, RJ: Imago, 2000, p. 25)

“O cinema é a música da luz, disse, poeticamente o sensível Abel Gance. Retomando a metáfora, diz Bresson: ‘podemos fazer cinema com colcheias e semicolcheias, porque cinema é música’” (BRESSANE, Júlio. O Homem dos Olhos Doces. In: Cinemancia. Rio de Janeiro, RJ: Imago, 2000, p. 225-26)

“Para uma tradução experimental, uma tradução intersemiótica, de uma linguagem para outra linguagem, do texto para o filme, o que se impõe é a necessidade de uma tradução identificadora, que force os limites do meio traduzido. Tradução em cinema faz-se com luz-movimento-angulação-montagem” (BRESSANE, Júlio. Brás Cubas. In: Cinemancia. Rio de Janeiro, RJ: Imago, 2000, p. 49)

“Descobrir a luz, o ritmo, o fino fio de uma tradição de clichês cinematográficos que, transformados, transvalorados, recriados, reinventados, podem, de alguma maneira, nos sugerir, nos remeter, dar-nos uma ideia do formalismo do texto, do objeto, do espírito, do humor, do mau humor, do original.
Esta é a tarefa heroica que, segundo R. Jakobson, não é orientada pela razão, mas, talvez, unicamente, pela intuição…” (BRESSANE, Júlio. Brás Cubas. In: Cinemancia. Rio de Janeiro, RJ: Imago, 2000, p. 49)

“Esta exigência de desleitura, de tradução criativa, dá-se, em se tratando, é claro, de obras individuais, de obras de poetas individuais.” (BRESSANE, Júlio. Brás Cubas. In: Cinemancia. Rio de Janeiro, RJ: Imago, 2000, p. 49)

“Há, como se sabe, uma premonição extraordinária no Brás Cubas: o cinema e, sua alma, a montagem.” (BRESSANE, Júlio. Brás Cubas. In: Cinemancia. Rio de Janeiro, RJ: Imago, 2000, p. 50)

Vemos, intuímos, que a tradução é um devir da obra literária ou artística. A tradução é sinalização histórica do sentido.
O cinema tem sido a história da reprodução de alguns clichês com um entendimento, uma percepção, da luz, em diversos estados, diversos tempos e diferentes técnicas.
O devir da imagem é o devir da luz. A metamorfose dos clichês é a metamorfose da luz desses clichês. Metamorfose da luz desses clichês, quadro a quadro, grão a grão… total.” (BRESSANE, Júlio. Brás Cubas. In: Cinemancia. Rio de Janeiro, RJ: Imago, 2000, p. 59, grifo GPESC)

“Vou fazer uma observação, não histórica ou ideológica, sobre um tema. Mas uma observação estética. Uma visão marginal. Marginal que faz da margem um novo centro. Um novo centro de observação” (BRESSANE, Júlio. Vida Luz Deserto. In: Cinemancia. Rio de Janeiro, RJ: Imago, 2000, p. 61, grifo GPESC)

“Vejamos o que é sombra, seu conceito. Sombra relaciona duas coisas: falta localizada de luz e fidelidade ao contorno. Fidelidade deve ser entendida de duas maneiras:
1) a inseparabilidade da sombra daquilo que ela é sombra
2) A semelhança da figura com a que ela não traduz mais do que o contorno projetado.” (BRESSANE, Júlio. Vida Luz Deserto. In: Cinemancia. Rio de Janeiro, RJ: Imago, 2000, p. 63)

“Vemos, lentamente, palmo a palmo, que a tradução é um devir da obra literária ou artística.
O que é a mise en scène?
Mise en scène consiste em operar uma passagem da escritura dramática à escritura cênica e adicionar à metamorfose do texto um jogo em termos de realidade cênica. Projetar no espaço o que o texto projetou no tempo. Projetar no espaço significa luz. “ (BRESSANE, Júlio. Vida Luz Deserto. In: Cinemancia. Rio de Janeiro, RJ: Imago, 2000, p. 64)

“Para uma tradução intersemiótica, do texto para o filme, o que se impõe é uma necessiadade identificadora que force os limites do meio traduzido, encontrando o fino fio detradição de clichês cinematográficos que poderiam, de alguma maneira, sugerir, nos remeter, ao formalismo do texto original.” (BRESSANE, Júlio. Vida Luz Deserto. In: Cinemancia. Rio de Janeiro, RJ: Imago, 2000, p. 64)

“Em ‘Vidas Secas’ os clichês escolhidos, apropriadamente, são os da tradição do neo-realismo italiano. Clichês e procedimentos agora renovados, transvalorados, recriados com uma técnica fotográfica dos movimentos modernos da nouvelle vague francesa e italiana. Sendo isto outro excelente exemplo de assimilação de novas descobertas. Ou de antropofagia.” (BRESSANE, Júlio. Vida Luz Deserto. In: Cinemancia. Rio de Janeiro, RJ: Imago, 2000, p. 64)

“A câmera na mão, a mais perturbadora posição de câmera no cinema, trinca, racha a moldura do quadro e o próprio quadro. Desestabilizando, perturbando a captação da luz, abalando a paisagem e expondo a nervura sensível do desespero humano. Do flagelo geográfico e social. A câmera na mão é a câmera-ideia. O enquadramento e o movimento de câmera manifestam uma relação mental.
No contraponto da câmera na mão, a imagem fixa, o movimento imóvel, a percepção sem objeto perceptível. Alucinação.”  (BRESSANE, Júlio. Vida Luz Deserto. In: Cinemancia. Rio de Janeiro, RJ: Imago, 2000, p. 66)

“O que está colocado em primeiro plano é uma mistura de metafísica da luz, una e indivisível, com sua natureza compósita e sua extrema plasticidade que, aqui, são centrais. As combinações, os matizes luz-luz e sombra-sombra não são exclusivamente questões de fotografia. Mas de um feixe de combinações, de rimas, de ideias, entre luz-movimento-lente-angulação.” (BRESSANE, Júlio. Vida Luz Deserto. In: Cinemancia. Rio de Janeiro, RJ: Imago, 2000, p. 66)

“O cinema, talvez como a pintura, tem sido a história da reprodução de alguns clichês com um entendimento, uma percepção da luz em diversos estados e diversos tempos e diferentes técnicas; a metamorfose dos clichês a metamorfose da luz desses clichês. O devir do quadro é o devir da luz…” (BRESSANE, Júlio. Vida Luz Deserto. In: Cinemancia. Rio de Janeiro, RJ: Imago, 2000, p. 67)

“O Cinema é a música da luz, é uma afirmação inspirada e de grande penetração mental. Qualquer afirmação sobre a arte do filme, sem esta afirmação, é uma afirmação sem afirmação…” (BRESSANE, Júlio. Vida Luz Deserto. In: Cinemancia. Rio de Janeiro, RJ: Imago, 2000, p. 67)

“Man Ray, o grande artista americano conectado com a vanguarda mundial, fez cinema experimental e poético. Arrojado cinema experimental e poético: cinema sem cãmera. Trabalhou diretamente, à mão, na película, riscando-a, manchando-a, marcando-a, de múltiplas técnicas e formas. Esse traço concreto de seu cinema, de seu estilo, o aproxima e muito da música de Augusto de Camposno CD “Poesia é Risco”. (BRESSANE, Júlio. Hi-Fi. In: Cinemancia. Rio de Janeiro, RJ: Imago, 2000, p. 69)

“Abrigando os noosignos de Emerson, Nietzsche coloca-os dentro de uma tradição do pensamento, fazendo assim com que a filosofia da exist~encia encontre em Emerson seu lugar. Seu primeiro lugar.” (BRESSANE, Júlio. Emerson em Movimento. In: Cinemancia. Rio de Janeiro, RJ: Imago, 2000, p. 75)

“Existe hoje uma extensa bibliografia de teses, livros e ensaios das relações Emerson-Nietzsche. Emerson aí cresce enormemente, pois foi a leitura entusiasmada e visionária de Nietzsche que jogou luz, iluminando fortemente o valor do pensamento poético de Emerson. O acoplamento nocional entre as ideias de Emerson e Nietzsche, a intertextualidade de seus escritos, sua arte alusiva, hoje, vem sendo investigada, recenseada e demonstrada, embrião a embrião, feto a feto…” (BRESSANE, Júlio. Emerson em Movimento. In: Cinemancia. Rio de Janeiro, RJ: Imago, 2000, p. 75)

“Salta do poema [Brahma, de R. W. Emerson], transcriado em filme, uma rima para os olhos. A sombra em movimento, a música da luz, são a voz, o encanto da rima, para o ouvido… e na ordem da sensibilidade sinestésica que Emerson busca as imagens.” (BRESSANE, Júlio. Emerson em Movimento. In: Cinemancia. Rio de Janeiro, RJ: Imago, 2000, p. 79)

“A construção do poema [Brahma, de R. W. Emerson] dá-se por germinações sucessivas, por oxímoros, coincidência de opostos, repetições e deslocamentos temporais expressivos. Movimento expressão em imagens-tempo. Cronossignos. Colapsos de tempo.” (BRESSANE, Júlio. Emerson em Movimento. In: Cinemancia. Rio de Janeiro, RJ: Imago, 2000, p. 79)

“A inscrição rupestre, primeiro e pequeno cantão intelectual de nosso mundo, é o movimento inicial que fez o homem em direção à letra, à arte. Ao alfabeto. O caos inicial começa a acalmar-se e prenunciar a forma, um derreter e escorregar para fora do mundo, início da caminhada sensível para o signo que divinizou o homem.” (BRESSANE, Júlio.O Brasil Encoberto. In: Cinemancia. Rio de Janeiro, RJ: Imago, 2000, p. 85)

“Infelizmente, este torrão brasileiro [Itacoatiara do Ingá, PB], pequeno rincão de Deus, tesouro de nossa pré-história (nossa melhor história), encontra-se, como tudo entre nós que signifique sensibilidade e beleza, abandonado, perdido e sem sentido…” (BRESSANE, Júlio.O Brasil Encoberto. In: Cinemancia. Rio de Janeiro, RJ: Imago, 2000, p. 87)

Júlio Bressane

Aqui vejo eu: como é grotesco, horrendo, fero e temeroso o esforço nacional em macaquear as sociedades ricas de consumo. Toda uma porcariada que em imagens e sons enfiam, corpo adentro, em uma população despreparada, em uma sociedade sáfara que tem um pé na antiguidade e o outro no… abismo! População encoberta quepoderia, se tratada de maneira decente, descobrir, camada a camada, a valiosa acepção do sinal, que trespassa, fio a fio, a textura de seu Signo…” (BRESSANE, Júlio.O Brasil Encoberto. In: Cinemancia. Rio de Janeiro, RJ: Imago, 2000, p. 87, grifo GPESC)

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