Veneno do Amor

por Daniel Feix (Zero Hora)

A Erva do Rato não é um filme fácil, como podem presumir os cinéfilos que conhecem a obra de seu diretor, Júlio Bressane. Mas se trata de um dos seus trabalhos mais acessíveis – e um dos melhores, além disso. O longa foi inexplicavelmente esquecido em listas e premiações de fim de temporada no país, a exemplo do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro. Chega agora ao DVD, em lançamento da pequena distribuidora de filmes nacionais Microservice. É Bressane, ou seja, não é programa leve para ver relaxado, sem exercitar a reflexão, mas A Erva do Rato vale a pena.

A história é a do encontro de uma mulher (Alessandra Negrini) que tem um passado obscuro com um homem solitário (Selton Mello). Ele fica obcecado por ela. Oferece proteção, mas em troca a submete às suas vontades. Usa-a primeiro pedindo para ela escrever os textos que ele recita, depois para posar para suas fotografias. Trata-se de uma exploração da figura feminina, que começa no campo intelectual e vai migrando para o físico – embora o sexo, mesmo que sugerido a toda hora, não apareça de fato consumado.

Bressane buscou inspiração para a história em dois, como diz, engramas da obra de Machado de Assis: as presenças de um rato e de um esqueleto, respectivamente nos contos A Causa Secreta e O Esqueleto, que são marcantes para as relações pessoais estabelecidas. A narrativa é pontuada por imagens que não possuem função dramática explícita, razão pela qual essa fruição depende, em parte, da imaginação do público. Bressane, que tem 64 anos e um currículo que inclui filmes importantes como Matou a Família e Foi ao Cinema (1969), é um provocador, mas muitos de seus comentários sobre a relação conjugal são propositadamente vagos: incitam o espectador a tirar suas próprias conclusões. Essa proposta, ressalte-se, só é bem-sucedida porque o filme está livre de invencionices gratuitas de montagem e roteiro que poderiam por ventura dificultar a compreensão da base da trama.

Ainda mais destaque merecem a sintonia da excelente dupla de atores e a fotografia de Walter Carvalho, que trabalha a luz de cada composição com o rigor de um pintor. Por onde quer que se analise, A Erva do Rato é, apesar da falta de barulho em torno de si, um dos melhores filmes brasileiros dos últimos tempos.

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