Ficha de Leitura: CINEMA BRASILEIRO (ANOS 60, 70), de Cláudio da Costa

Cinema Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria, oscilação e simulacro

de Cláudio da Costa

Introdução

“A Vera Cruz produzia a imagem, por excelência, simétrica: essa que superpõe

e adéqua instâncias diferentes cordialmente. A imagem-cordial alcança, pela

convergência simétrica dos domínios, a identificação de um povo, uma idéia de Brasil

que é uma forma enraizada. A imagem-cordial se define pelo controle à fuga, pela

adequação das diferentes realidades e pelo prolongamento da ação a partir de uma

percepção (COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria, oscilação

e simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p.10)”.

“Na imagem-inação do Cinema Marginal não há uma ação a seguir ou transformação

a ser feita num meio determinado, há somente o ato especular da imagem

apaixonada por essa outra que é ela mesma. O Cinema Marginal está marcado por

uma imaginação neutra que, não sendo de ninguém, é o próprio ato da imagem de

colocar-se entre outras imagens e refletir esse espaço intermediário à margem de todo

centro (COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria, oscilação e

simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p.12)”.

“A desestetização que se operou no cinema dos anos 60/70 vem promover a negação

da ‘forma filme’, do limite imposto á força do filme, recolocando a questão de toda a

modernidade para o caso específico do cinema: ‘para onde vai a arte?’ (COSTA, Cláudio

da. Cinema Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria, oscilação e simulacro . Rio de Janeiro,

RJ: 7letras, 2000, p.13)”.

“O cinema dos anos 60/70 estava à margem da produção e distribuição industrial

porque acreditava, fundamentalmente, na impotência do cinema como sua força:

poder inserir na imagem a fissura, a não-conexão, a relação que é não-relação e,

com isso, experimentar uma nova concepção de tempo e uma outra lógica para

o pensamento. A o invés de propor ligações racionais entre planos ou dimensões

distintas, o cinema investe na linha marginal que, paradoxalmente, une e separa esses

mesmos planos (COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria,

oscilação e simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p.18)”.

“Os anos 60/70 mostram um percurso do audiovisual brasileiro onde a obra de cinema

torna-se ausente como obra para que o pensamento cinematográfico se processe na

margem (COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria, oscilação e

simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p.20)”.

Capítulo 1

A imagem-cordial e o cinema de Vera Cruz

“(…) a circulação da imagem esteve, na produção da Vera Cruz, sempre submetida à

dualidade da simetria: domínios paralelos se comunicam por força de uma ordem que

centraliza e organiza o movimento (COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos 60-70)

– dissimetria, oscilação e simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p.10)”.

“A cordialidade, conceito livremente apropriado do livro Raízes do Brasil de Sérgio

Buarque de Holanda (HOLANDA, 1996), define esse procedimento cinematográfico na

produção da companhia paulista pelo qual os domínios distanciados e as realidades

autônomas existem numa relação de simetria que configura formações e identidades

de partes harmônicas.

Com o enraizamento, a imagem não pode mais continuar sua fuga. (…) A cordialidade

é, portanto, uma imagem do pensamento pela qual a distância e as diferenças são

desprezadas em prol de uma aproximação prematura que permite que uma âncora

seja lançada, possibilitando a determinação do espaço, do tempo e do pensamento

numa forma que identifica o homem no mundo (COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro

(anos 60-70) – dissimetria, oscilação e simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000,

p.24)”.

“O paralelismo simétrico foi, portanto, mais que um simples artifício no cinema da

companhia paulista. A relação de dois mundos e sua conseqüente convergência é a

imagem do pensamento cinematográfico produzida pela empresa de Zampari (COSTA,

Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria, oscilação e simulacro . Rio de

Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p.25)”.

“Na Vera Cruz, a ordem estranha é identificada e o movimento se estabiliza porque a

percepção é o centro organizador da imagem (COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro

(anos 60-70) – dissimetria, oscilação e simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000,

p.25)”.

“A imagem orgânica da relação entre o homem e sua terra estabelece uma unidade

ideal entre elementos simetricamente distanciados (COSTA, Cláudio da. Cinema

Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria, oscilação e simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras,

2000, p.32)”.

“A distância que promove a autonomia dos domínios paralelos da imagem só o faz

com a finalidade de configurar a forma, impedindo que as ordens autonomizadas

continuem a circular desordenadamente. Toda imagem tem, portanto, uma raiz que

é o próprio homem (COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria,

oscilação e simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p.38)”.

“Se a cordialidade, como pensava Holanda, une o homem e a terra através de uma

integração natural porque raiz, a cordialidade na Vera Cruz os torna equivalentes

por prolongamento ou adequação harmônica. A imagem fica, assim, dominada

em sua circulação, ancorada a uma pátria, impedida de errar entre os mundos

distintos (COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria, oscilação e

simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p.38)”.

Capítulo 2

O cinema-terra de Glauber Rocha

“É incontestável, na obra e no pensamento de Glauber, esse movimento oscilatório

entre o ímpeto iluminista da ação de esquematizar e ordenar com a finalidade de

compreensão do mundo e a força da impotência, da profusão passiva de elementos

desgarrados. Por um lado, um esforço racional de representar através de universais;

por outro, a força irracional do indeterminado que arrebata e dilacera (COSTA, Cláudio

da. Cinema Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria, oscilação e simulacro . Rio de Janeiro,

RJ: 7letras, 2000, p.40)”.

“O formalismo de O pátio diz respeito a uma autonomia da imagem em relação ao

determinado. Afirma o circuito anônimo da imagem com a virtualidade que é nada

de ser (COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria, oscilação e

simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p.44)”.

“Nesse filme, Glauber já sugere o estatuto da imagem que ele vai perseguir durante

toda a sua carreira cinematográfica: a imagem audiovisual é cruel e violenta porque

dissimétrica: por um lado a forma da atividade, por outro a força da impotência

(COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria, oscilação e

simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p.44)”.

“Se em O pátio o corpo falta como forma de ação, no último filme do cineasta, Idade

da Terra, há a mesma ausência do organizado que presentifica a troca dissimétrica

das sensações. Anteriormente, Barravento, Deus e o Diabo na terra do sol e Terra em

Transe alcançaram deformar a ação e a representação orgânica afirmando o devir

da forma e do pensamento. O transe como a ausência de qualquer fundamento é o

que se pode dizer que funda a cinematografia de Glauber Rocha. Corpo dilacerado

pelo transe, com excesso de membros e cujos sentidos particulares são incapazes de

produzir uma integração. O corpo histérico não é a interioridade de um sujeito, mas

uma subjetividade que está sempre por fora, num espaço e tempo absolutamente

longínquos com o qual o filme se relaciona e constitui seu circuito. Esse é o sentido do

transe na obra de Glauber: buscar o fora da imagem enquanto ela própria. Passado

o momento do transe pelo qual o corpo se desorganiza, o filme Idade da Terra

presentifica a troca de sensações (COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos 60-70) –

dissimetria, oscilação e simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p.44 – 45)”.

“Glauber alcança uma superação da dicotomia subjetivo/objetivo da imagem. Ou seja,

estabelece a percepção fílmica como sendo formada por duas matérias originárias

e disjuntivas, ao mesmo tempo que por dois atos de subjetivação inseparáveis. O

espectador fica também impotente para conformar e totalizar qualquer sistema,

experimentando a dispersão passivamente. Todo ato de ordenação que tenta

produzir se dissipa no instante em que se instaura. O pensamento que o espectador

experimenta está sempre mais distante dele, o que o obriga a ir buscá-lo sem que essa

busca possa parar (COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria,

oscilação e simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p.48)”.

“A montagem de Idade da Terra cria relações virtuais com o Tempo, o coletor de

todos os tempos e de todos os espaços, a ‘cloaca do Universo’, o orifício por onde

passam todas as imundícies de todos os tempos (dos romanos dos descobridores,

dos imperialistas), mas também a foca que os coleta. São relações não lógicas entre

espaços quaisquer desconectados (COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos 60-70)

– dissimetria, oscilação e simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p.53)”.

“Glauber estilhaça os englobantes, os agentes totalizantes para que assim possamos

atingir a nuvem do caos, os ruídos, as condições da vida (COSTA, Cláudio da. Cinema

Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria, oscilação e simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras,

2000, p.55)”.

“Glauber deseja ultrapassar toda visão já codificada da realidade nacional, latino-

americana, terceiro-mundista; aumentar a possibilidade do conhecimento das forças

que concorrem nesta realidade através da visão de um mundo trans-real (COSTA,

Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria, oscilação e simulacro . Rio de

Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p.55)”.

Capítulo 3

O transe como potência da imagem

“A ação é, em Barravento, uma idéia que segundo Glauber define a ‘função lateral

do cinema’. Mas essa idéia, concebida de forma grande (idéias ‘universais’, como diz),

é feita tão imensa que perde as medidas humanas. Assim, a ação é engendrada no

imensurável do pensamento de um corpo pequeno mas não humano. Dessa maneira

a ação em Barra vento tem uma figura que a deforma. É por isso que a narração é

descentrada e oscila entre dois níveis contraditórios (COSTA, Cláudio da. Cinema

Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria, oscilação e simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras,

2000, p.58)”.

“(…) o transe é o procedimento principal no cinema de Glauber que tem como objetivo

a inserção de uma potente energia desestabilizadora que força o impossível na

realidade da ação (COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria,

oscilação e simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p.60)”.

“Os personagens de Deus e o Diabo passam de uma fase a outra da história segundo

a ação de uma violência, de um crime. O crime nesse filme é justamente o que torna

possível a passagem (COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria,

oscilação e simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p.61)”.

“O filme de Glauber afirma uma organização convulsiva e não harmônica do corpo.

Dividido entre partes opostas (Deus/Diabo, messianismo/cangaço) e entre momentos

de espera e de espasmos, o filme constitui uma ordem não orgânica do corpo (COSTA,

Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria, oscilação e simulacro . Rio de

Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p.61)”.

“A imagem como corpo é uma força errante, intolerável e super-ativa que produz o

transe, a convulsão e a vertigem. O ritual no cinema de Glauber (…) é, portanto, essa

cerimônia: o corpo que tem fé na ‘fagia’ e na autofagia que mistura as forças internas

e se desorganiza para expressar o bruto da linguagem, o lugar de onde ela começa:

os fluxos do desejo (COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria,

oscilação e simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p.65)”.

“Faz parte do ritual esse corpo cuja postura titânica permite forças descomunais,

pois a cerimônia é a de violência do corpo que perdeu todos os limites orgânicos e

que pôde mesmo cometer crimes horrendos, como um sacrifício para os santos ou o

assassinato de um homem-santo (…) (COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos 60-

70) – dissimetria, oscilação e simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p.65)”.

“Para Glauber, o artista ou o intelectual não tem a função de amparar ou proteger

os oprimidos. A arte é uma técnica que insere dentro das relações produtivas para

transformá-la e não para representá-la (COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos 60-

70) – dissimetria, oscilação e simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p.67)”.

“Antônio das Mortes, como diz Glauber, é uma ‘consciência em transe’ o que significa

tanto uma passagem para uma nova configuração como um modo pelo qual essa

passagem se efetua. O transe é tanto a convulsão pela fissura quanto o trânsito entre

as ordens. Com efeito, o transe é a única relação possível entre as ordens fissurada.

Não é uma possibilidade lógica, mas uma comunicação dos sentidos possibilitada pela

histeria (COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria, oscilação e

simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p.69)”.

“Em relação à histeria, Glauber distingue três formas de discurso flamejantes: o

anarquismo dos jovens, o sectarismo da arte que faz má política e a tentativa de

sistematizar a arte popular. A essas três formas de discursos histéricos, o cineasta

responde: ‘O engano de tudo isso é que nosso possível equilíbrio não resulta de um

corpo orgânico, mas de um titânico e autodevastador esforço no sentido de superar

a impotência’ (ROCHA, 1981:29) (COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos 60-70) –

dissimetria, oscilação e simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p.81)”.

“Essa confluência entre o gestus brechtiano e a gestualidade corporal de Astaud

está presente no cinema de Glauber, onde o ato político é a atitude de um corpo

presente cujo esgotamento leva-o a experimentar o intolerável de um corpo não

vivo; corpo, portanto, ausente. A obra de Glauber não representa a possibilidade de

uma ação política, mas produz a performance política da impossibilidade, as atitudes

de um corpo extenuado como o de Paulo Martins em Terra em Transe ou de um

corpo despedaçado como o de Cristo em Idade da Terra (COSTA, Cláudio da. Cinema

Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria, oscilação e simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras,

2000, p.82)”.

Capítulo 4

O Cinema Marginal:

A imagem-oscilação e a imagem-inação

“Antes que o mundo se fixe como forma na imagem, ela pede a morte do mundo

para que possa oscilar entre a luz da alvorada e a sombra da noite. Idade da Terra

presentifica essa oscilação da imagem: seu surgimento enquanto sol que se levanta

(alvorada da imagem vista na primeira seqüência do filme) e seu desaparecimento,

seu escoar para a ‘cloaca do universo’, o abismo da noite que insiste ainda que haja

o som da festa (último plano do filme no qual se ouve a música de um ritual que não

se vê) (COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria, oscilação e

simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p.84)”.

“Quando (…) a aproximação com uma outra realidade é infinitamente prorrogada

pela oscilação, nenhum mundo pode ser identificado como referente. Nesse caso a

imagem é apenas uma passagem, o movimento em direção a uma realidade que está

por vir (COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria, oscilação e

simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p.84)”.

“Cara a cara é um comentário sobre a complexidade do espaço no cinema ao mesmo

tempo que uma afirmação da ambigüidade da imagem fílmica: fascinação pelo

longínquo absoluto e dissimulado e dissimulação do longínquo em relação ao próximo,

à ação (COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria, oscilação e

simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p.86)”.

“Em Cara a cara o cinema se tornou objeto do seu próprio olhar (COSTA, Cláudio da.

Cinema Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria, oscilação e simulacro . Rio de Janeiro, RJ:

7letras, 2000, p.86)”.

“Talvez (…) seguindo a indeterminação dos espaços, o olho da câmera também não

possua um dono que se possa nomear. É um olho sem dono, anônimo, uma câmera do

exílio, olho da própria imagem obcecada pela morte. Em Cara a cara, a imagem tem

seu próprio fetiche (COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria,

oscilação e simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p.88)”.

“Em Cara a cara, a morte é esse tabu que a imagem deseja, sua transgressão radical,

onde o princípio de realidade que permite a identificação do crime e do criminoso

deixa de valer (COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria,

oscilação e simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p.89)”.

“Raul, em Cara a cara, e os personagens de O anjo nasceu não desejam estar em

lugar algum, não falam de desejos. O desejo é uma idéia fixa como a obsessão de Raul

por Luciana ou a de Santa Maria pelo anjo. A obsessão drena toda vontade desses

personagens e lhes restitui uma idéia fixa: não ter vontade alguma. Nessa falta de

vontade pode-se experimentar essa realidade outra que não se encontra nem na

sociedade, nem na história (COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos 60-70) –

dissimetria, oscilação e simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p.90)”.

“(…) a morte não proporciona a conciliação da fissura entre as partes. É como se elas

jamais tivessem pertencido a um todo. A morte é o silencio da imagem, sua recusa

de conjugar séries irreconciliáveis, mundos distantes (COSTA, Cláudio da. Cinema

Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria, oscilação e simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras,

2000, p.91)”.

“A autonomia é fruto de uma transgressão radical que, entretanto, não dá fruto

algum. A imagem continua a buscar um objeto que é indefinido, uma imagem que

é inexistente; ao mesmo tempo, a autonomia que ela encontra não permite que o

objeto se defina, que passe a existir. A autonomia só pode existir quando a imagem

abandona o mundo do reconhecimento para experimentar o desconhecido, essa outra

que é ela mesma: a sombra (COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos 60-70) –

dissimetria, oscilação e simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p.92)”.

“O experimental não é a qualidade de um estilo, mas a transgressão de todos os estilos

e de todos os gêneros. Não é, portanto, uma adjetivação de um momento na história

da arte cinematográfica, mas a substância que atravessa todos os tempos sempre

no limite entre não ser ainda histórico, mesmo que, o sendo já. O experimental é a

substância que não se substancializa, como uma origem que já nasceu morta (…).

Originar e desaparecer: essa é a obsessão da imagem experimental (COSTA, Cláudio

da. Cinema Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria, oscilação e simulacro . Rio de Janeiro,

RJ: 7letras, 2000, p.93)”.

“A oscilação caracteriza os filmes marginais. (…) Essa câmera (…) não existe em função

de nenhuma âncora, de nenhuma raiz (COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos 60-

70) – dissimetria, oscilação e simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p.94)”.

“Em Cara a cara, a câmera oscila justamente porque não existe em função de qualquer

identificação, seja de um personagem e seu meio ou do narrador no interior da

narrativa. Ela insiste, apenas, no desfazimento de todas as identificações, oscilando

entre opostos irônica e despropositadamente (COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro

(anos 60-70) – dissimetria, oscilação e simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000,

p.94)”.

“A imagem, sonora e visual, perde, em O bandido da luz vermelha, seu lugar de

origem, porque ela não é nada mais que um jorrar hemorrágico sem centro ou

direção. O Eu que narra não é mais o centro e a origem da narrativa (e, do mesmo

modo, o Eu receptor também não é visado pois não se quer nem identificação nem

conscientização). O Eu narrador não passa de uma inscrição, cursiva ou em forma, nas

malas que o bandido carrega (COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos 60-70) –

dissimetria, oscilação e simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p.95)”.

“O Eu é hemorrágico porque desliza em um outro (que pode até mesmo ser o

espectador), conectando-se a ele. O que importa não é nem o Eu nem o outro, mas a

distância que os separa e os conecta, por isso o bandido coleciona identidades (COSTA,

Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria, oscilação e simulacro . Rio de

Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p.95)”.

“A conciliação entre a imagem e o referente no mundo permite a adequação que

autentifica o mundo justamente porque a troca tem um fim. É um momento em que

se pode falar: ‘isso é isso’. A conciliação possibilita configurações, mas a dissimetria é

anterior e posterior ao mundo verdadeiro que fixa a luz ao olho, que adéqua a imagem

à coisa. A dissimetria é um simulacro, um mundo de sombras oscilando em fazer-se

luz e voltar às trevas. A luz queima a sombra, mata a imagem enquanto simulacro

que é. Por isso ela deseja a morte, ela que voltar a ser sombra, retornar ao ‘mundo-

sem-limite’. O mundo das configurações dos seres se opõe ao mundo oscilatório

da imagem, essa que deseja fugir, escapar ao mundo dos limites e tornar-se reflexo

que não reflete nada. Pôr fim a essa fuga é impor os limites que proporcionam a

designação ou significação de um mundo: a imagem como simetria de um mundo

idealizado ou realizado (COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos 60-70) –

dissimetria, oscilação e simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p.97)”.

“A solidez do tempo em Câncer não remete, porém, a algo que aparece e se realiza,

mas justamente àquilo que, devido a seu desmesurado peso, faz tudo desaparecer

antes mesmo de ter começado a aparecer. O câncer remete, portanto, a essa

temporalidade negativa: não poder chegar ao fim e não poder sair do começo. Esse é o

tempo da improvisação.

Em Câncer, a própria morte não passa de improvisação. Tanto o personagem não pode

morrer como também a imagem não pode terminar porque ainda não começou. O

câncer como doença da imagem não é o que permite a morte, mas o que prolonga a

vida. O câncer impede a morte que poderia salvar a imagem dessa circulação sem fim

e constituir um mundo verdadeiro (COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos 60-70)

– dissimetria, oscilação e simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p.99)”.

“A morte é impossível em Câncer (e nos filmes marginais de modo geral) porque

ela não torna possível a produção de uma ação que transforme o mundo. O meio (a

situação) não é a potência para uma ação, mas a impotência que cria uma imagem-

inação (COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria, oscilação e

simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p.99)”.

“Na imagem-inação de Câncer, não há qualquer vetor englobador que conecte e

totalize as partes num organismo. Por outro lado, os personagens não encarnam

forças, eles são afetos puros, personagens alegóricos desenraizados, tipos sem

territórios que vagueiam pelo espaço (…) (COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos

60-70) – dissimetria, oscilação e simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p.100)”.

“Os personagens e os movimentos são sempre estéreis, infecundos e infrutíferos.

Pode-se mesmo dizer que os tipos alegóricos não são nem personagens, mas atores

profissionais (ou não) que estão a produzir uma performance (…)(COSTA, Cláudio da.

Cinema Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria, oscilação e simulacro . Rio de Janeiro, RJ:

7letras, 2000, p.100)”.

“Na imagem-inação do Cinema Marginal, ninguém age. Só existe o próprio ato da

imagem, esse deslizar-se de uma para outra. É o ato especular que a própria imagem

pratica, o duplicar-se, o ver-se em duplo. Não há, entretanto, uma coisa ou um alguém

determinado que seja duplicado. A partir do momento que alguma coisa se duplica

na imagem, ela nega a sua origem, esse separar-se de si mesma (COSTA, Cláudio da.

Cinema Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria, oscilação e simulacro . Rio de Janeiro, RJ:

7letras, 2000, p.101)”.

“O ato reflexivo ou especular da imagem é essa busca incessante da imagem por ela

mesma, sempre se repetindo, recomeçando em seu processo de aparecer (COSTA,

Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria, oscilação e simulacro . Rio de

Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p.102)”.

“Essa afirmação negativa da imagem – isto é, de que ela não configura um outro, não

significa um mundo, de que ela não é um ser, enfim, mas que está no mundo dos seres

criando problema e se problematizando a si mesma – é seu modo de ser que, nessa

especularidade, nessa oscilação sem limite, cria um espaço infinito de acúmulos e de

dobras (COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria, oscilação e

simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p.102)”.

“Rejeitando a configuração, a imagem, em O pátio, Idade da Terra, Câncer, mas

também em Cara a cara, O bandido e outros filmes do Cinema Marginal, busca seu

ser ‘enigmático e precário’, esse espaço negativo do configurável que não é senão

a errância da imagem entre imagens: uma multiplicação de imagens e citações que

incorpora as estórias em quadrinhos e a cultura de massa em geral (…), mas também

a chamada cultura culta. (…) A errância nessa cinematografia era um modo de

incorporar, um procedimento intertextual (COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos

60-70) – dissimetria, oscilação e simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p.103)”.

“Essa prática da colagem permitiu à imagem errar sem precisar enraizar-se num

determinado tempo-espaço, sem precisar tomar uma direção ou chegar a um fim.

Uma vez começada a errância, o espaço da imagem é o indeterminado onde ela se

busca a si mesma (COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria,

oscilação e simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p.104)”.

“Se o pop-dadaísmo dos marginais brasileiro é político, como afirmou Ismael, é antes

por sua irreverência e ceticismo relativo à afirmação dos valores hierarquizados,

afirmação que dá à obra de arte poder para representar e portanto conscientizar o

povo (COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria, oscilação e

simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p.104/105)”.

“Rompendo com a obra de arte enquanto valor superior, os marginais afirmam o

abismo da obra, sua incapacidade de constituir qualquer perspectiva. Para que a

imagem fílmica não volte a enraizar-se como clichê entre os clichês pelos quais erra,

a incorporação dos Marginais inclui aquele cinema que ele rejeita. Como vimos, é

crítica, mas também tributo, a citação de Terra em Transe (a música de candomblé) no

filme de Sganzerla (COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria,

oscilação e simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p.105)”.

“Afirmar o espaço virtual da circulação, da oscilação entre as imagens, é potencializar o

domínio da visualidade e sua irredutibilidade em relação à representação.

É nesse espaço potencial que a imagem do Cinema Marginal vai se descobrir errando

entre os estilos e gêneros cinematográficos (o policial, o horror, o filme B, o musical,

a chanchada, etc.) e, virtualmente, entre outras expressões artísticas (a literatura, as

artes visuais, a performance, etc.). É na errância e na oscilação que o cinema descobre

o ‘si mesmo’ da imagem cinematográfica como o irreal indeterminado de si mesmo,

a imagem-oscilação e a imagem-pêndulo, imagens que, se tem um ponto de partida,

jamais encontram seu lugar de chegada. Na maioria das vezes, a origem e a finalidade

faltam porque o filme marginal rejeita centros enraizadores e torna impossível a

determinação de uma perspectiva qualquer, desautorizando totalmente a crença

num sentido único, num telos (COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos 60-70) –

dissimetria, oscilação e simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p.106)”.

“Somente com a oscilação a imagem do cinema brasileiro se tornaria

verdadeiramente marginal, ou seja, ela não seria mais somente produzida à margem

do centro (da indústria), mas desarticularia todo e qualquer centro (COSTA, Cláudio da.

Cinema Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria, oscilação e simulacro . Rio de Janeiro, RJ:

7letras, 2000, p.106)”.

“(…) o que marca o Cinema Marginal é esse querer o disforme a um tal nível de

radicalidade que forma e conteúdo tornam-se uma massa plástica indiferenciada ,

um ‘mundo-sem-limite’ tratado com ironia devido a sua própria sordidez e abjeção

(COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria, oscilação e

simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p.106)”.

“A sordidez do Cinema Marginal está antes relacionada ao que não é nem do homem

nem do mundo, mas do reflexo que é o si mesmo da imagem (COSTA, Cláudio da.

Cinema Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria, oscilação e simulacro . Rio de Janeiro, RJ:

7letras, 2000, p.107)”.

“A imagem desse cinema fascina, portanto, mas por sua capacidade de dissimulação

e oscilação: por vezes um abismo inencontrável, por vezes uma superfície sem

representação alguma. É a impossibilidade da imagem de recuar do abismo para

produzir um mundo humano, ao mesmo tempo que uma capacidade desmedida de

produção de reflexos (COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria,

oscilação e simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p.107)”.

Capítulo 5

À procura de uma imagem ou A invenção do Rio de Janeiro

“O cinza é esse traço lacônico na textura da imagem que apaga os limites definidos

entre as séries ou ordens da imagem, entre o fundo e o primeiro plano, entre a

profundidade e a superfície planar. O cinza permite que a imagem continue sua viagem

oscilatória de eterna fuga, seu vai-e-vem entre ser luz e ser sombra, entre o visível

e o invisível, entre a imagem e o som. O cinza possibilita à imagem estar sempre

nesse espaço intermediário, exterior a todas as ordens: o entrever. Em A família do

barulho, Bressane continua a experimentar o cinza que ele já havia buscado em seus

primeiros filmes como Cara a cara, O anjo nasceu e Matou a família, e que chegou a

ser confundido com falta de apuro técnico (COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos

60-70) – dissimetria, oscilação e simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p.109/

110)”.

“O cinema de Bressane é fundamentalmente voyeurista e tem como desejo obsessivo

voltar à origem (COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria,

oscilação e simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p.111)”.

“A obsessão pelo retorno no cinema de Bressane (retorno ao que está morto) não

remete á pretensão de trazer de volta o morto (o noir, o musical, o carnavalesco, etc.)

mas de inventar a cada filme um novo cinema (COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro

(anos 60-70) – dissimetria, oscilação e simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000,

p.112)”.

“(…) o cinema de Bressane não busca na imagem o que ela tem de semelhança com o

mundo, mas aquilo que se assemelha a ela mesma, a analogia como problema é aqui

pertinente (COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria, oscilação

e simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p. 113)”.

“O filme é apenas uma dança da luz e não tem nenhuma finalidade. Sua beleza está

nessa simplicidade, sua potência está nessa falta de presunção. Uma música que se

compõe de vazios para uma dança rarefeita (COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro

(anos 60-70) – dissimetria, oscilação e simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p.

114)”. [sobre A família do Barulho]

“(…) se em Brás Cubas Bressane transpõe para o cinema Machado de Assis, em A

família do Barulho a transposição é dos sentidos e das sensações da fotografia e da

música, bem como da dança (COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos 60-70) –

dissimetria, oscilação e simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p. 114)”.

“Matou a família começa e termina com closes das duas personagens olhando

diretamente para fora do quadro onde se encontra o espectador. Esse mesmo

artifício aparecerá em A família do barulho e O rei do baralho. Essa relação com o

espectador não supõe que a obra fragmentária possa ser completada por ele, ou

que o filme problemático terá a solução com o espectador. Tensionar a relação com

o espectador é mais um mecanismo de remissão da obra para si mesma, mas tem

sua especificidade. Afirma que a potência da imagem não está apenas no ato criador

executado pelo artista, mas na relação da obra com o olhar passivo do espectador.

Passividade que pressupõe uma atividade interminável: uma leitura eu só pode referir-

se a outra imagem, que por sua vez precisa ser lida e assim sucessivamente. Essa

passividade do olhar que é paradoxalmente uma atividade enquanto leitura redefine a

arte cinematográfica como uma escrita ainda que específica: o cinema como escrita da

imagem (COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria, oscilação e

simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p. 117)”.

“A escrita da imagem é uma forma de jogo que afirma a interação infinita entre

palavra (som) e a imagem (fotografia), a conjugação em reversibilidade entre duas

dimensões do audiovisual. Tal reversibilidade infinita torna impossível qualquer

adequação ou mesmo estabilização num ponto final (COSTA, Cláudio da. Cinema

Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria, oscilação e simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras,

2000, p. 118)”.

“O olhar do espectador evocado e exigido pelo close frontal do filme de Bressane não

pressupõe a atividade de um sujeito da consciência, mas uma passividade de um olhar

voyeurista, ainda que essa passividade seja uma atividade interminável de remissões

a imagens anteriores e a suspensão da origem dessas imagens. O espectador jamais

chega a um conhecimento de algo representado, pois seu lugar na representação

não está definido (COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria,

oscilação e simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p. 118)”.

“Faz parte do cinema de Bressane esses jogos que simulam um cruzamento das

ordens e dos elementos da imagem cinematográfica. O espaço da entrevisão ou entre-

imagens é esse espaço dissimétrico da simulação, da criação da imagem, da invenção

do simulacro (COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria,

oscilação e simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p.1119)”.

“O passado é um tempo morto onde o cineasta se instala para fazer a gênese do

cinema, produzir o nascimento da arte cinematográfica. Assim o espectador deve

proceder com as imagens do filme: instalar-se nesse tempo sem tempo da obra para

buscar de lá o movimento do pensamento que se produz (COSTA, Cláudio da. Cinema

Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria, oscilação e simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras,

2000, p. 121)”.

“Não é um mero saudosismo que faz Bressane rever o passado, mas a potência que

há nesse espaço entre-imagens (COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos 60-70) –

dissimetria, oscilação e simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p. 123)”.

“O eco é essa potência de reflexibilidade da imagem que permite a repetição, que

presentifica a marca deixada pela imagem no mundo surdo das coisas e dos homens,

esse fantasma que duplica todas as imagens e se apaga por entre elas tornando-se

rumor inaudível que pode atravessar os espaços e os tempos sumindo, entretanto,

depois de eclosão repentina (COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos 60-70) –

dissimetria, oscilação e simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p.123/124)”.

“A reflexividade é, mais uma vez, um procedimento da obra de Bressane: um cinema

que se olha para poder ver uma imagem pela primeira vez e fundar o cinema que

jamais foi visto (COSTA, Cláudio da. Cinema Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria,

oscilação e simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras, 2000, p.124)”.

Conclusão

A dissimetria como diferença íntima

“O cinema dissimétrico brasileiro narra ou descreve esses devires da imagem; isto é,

imagens ainda não substantivadas, como o transe e a oscilação que devoram a lucidez

conformadora e instauram a instabilidade labiríntica (COSTA, Cláudio da. Cinema

Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria, oscilação e simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras,

2000, p.142)”.

“É o cinema brasileiro produzindo uma escrita da imagem do pensamento sem ter

como modelo a adequação homem/mundo, mas a diferença íntima que os separa,

jogando-os no abismo de uma imaginação neutra (COSTA, Cláudio da. Cinema

Brasileiro (anos 60-70) – dissimetria, oscilação e simulacro . Rio de Janeiro, RJ: 7letras,

2000, p.142)”.

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