Roland Barthes: uma Biografia Intelectual

Escrever uma nova biografia de Barthes não faria sentido depois dos esforços de Jean-Louis Calvet. Explicar suas obras de forma didática já foi uma tarefa executada por Michael Moriarty e Jonathan Culler. Assim, uma biografia intelectual que explicasse Barthes por meio de sua obra foi o caminho escolhido por Leda Tenório, sua aluna na École des Hautes Études e, depois, uma entre centenas de interessados que se aglomeraram na porta do Collège de France para assistir ao seminário Proust e a Fotografia, interrompido com a morte do escritor, em 25 de março de 1980. A professora analisou cuidadosamente cada uma das 5.500 páginas em papel-bíblia que integram sua obra completa (ou quase) publicada pela francesa Éditions du Seuil, antes de se lançar à empreitada.
(Antonio Gonçalves Filho – O Estado de S. Paulo – http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,roland-barthes-ganha-biografia-intelectual,802972,0.htm)

Além do livro de Leda Tenório da Motta, que será lançado na terça-feira, outros estão a caminho. Entre eles destaca-se Com Roland Barthes, que a WMF Martins Fontes publica em 2012 e traz a correspondência entre o pensador francês e a professora emérita da USP Leyla Perrone-Moisés, tradutora de Roland Barthes por Roland Barthes (Editora Estação Liberdade, 2003). Barthes a considerava sua parceira, por conta dos inúmeros escritos que a professora de Literatura dedicou ao semiólogo.

A reedição corrigida e aumentada de suas obras e a publicação de inéditos mostram não só o interesse da academia por Barthes, mas, principalmente, buscam explicar essa figura solitária e algo melancólica que permanece ainda hoje uma incógnita, “um labirinto”, como reconhece a autora de Uma Biografia Intelectual. Esse “sujeito incerto”, mestre dividido entre o rigor da vida acadêmica e a preguiça do flâneur, nunca defendeu uma tese de doutorado e ainda assim é hoje mais popular que Sartre, grande influência na formação do pensamento filosófico de Barthes – O Grau Zero da Escritura, de 1953, deve muito às reflexões do filósofo existencialista em O Que É a Literatura (1948), dois livros “próximos entre si no tempo e no espaço”, segundo a Leda Tenório.

Sobre o começo dessa bela amizade, ela diz: “Ao deixar o sanatório, Barthes volta na condição de um condenado e encontra uma França bem armada pela cartilha marxista”. Com o fim da guerra, ao retomar a vida acadêmica, ele passa a contribuir com a publicação esquerdista Combat, vindo a conhecer Albert Camus, outra grande influência. As críticas à “escritura burguesa” em O Grau Zero da Escritura atestam a filiação ideológica do estruturalista Barthes, assim como as de Mitologias “definem sua posição contra uma França pequeno-burguesa” dominada pela propaganda. A autora diz ainda que Barthes foi politizado pelo teatro de Brecht, a quem admirava tanto quanto a Sartre e Camus, até o rompimento com o autor de O Estrangeiro.

“Barthes reconheceu em Camus uma nova sensibilidade, o mais próximo do ‘grau zero’ da escritura, isso no ano da publicação de O Estrangeiro, mas depois se decepcionou, pois o escritor argelino não era o autor perfeito para receber o título de neutro.” Especialmente depois de A Peste, uma alegoria da Ocupação – Barthes era avesso a representações metafóricas. Seu eleito foi Robbe-Grillet, representante do nouveau roman, mas também este o desapontou, ao ficar “mais falante e menos opaco” do que gostaria. “Barthes atravessa rapidamente a vanguarda para chegar aos clássicos, após atestar que o caráter trágico que ele havia identificado em Camus, herdado dos gregos, havia se perdido.” O semiólogo acreditava numa arte literal – “em que as pestes não são mais que pestes” – e, de modo algum, admitia a literatura como veículo de discursos ideológicos. Defendia, enfim, uma “literatura branca”, neutra, que Robbe-Grillet, no começo de carreira, parecia ser capaz de dar ao mundo.

Camus, trocando cartas com Barthes, reconheceu ser mesmo um ideólogo a serviço de uma causa (no caso, a dos argelinos que lutam contra a peste, como a Resistência francesa lutou contra os nazistas). Desviando-se do que a professora chama de “a gritaria sempre fugaz dos novos”, Barthes voltou-se progressivamente para o “zero escritural” dos grandes clássicos, de Balzac a Proust. O último é o “neutro” barthesiano por excelência, define Leda Tenório. O estado de espírito do “neutro”, lembra, é a lassidão – e a literatura de Proust nasce justamente de uma combinação da sonolência com a doença e a preguiça. O herói proustiano é sexualmente ambíguo – neutro, portanto. Os exemplos são inúmeros e a professora ainda propõe algumas outras figuras possíveis do “neutro” proustiano, como a dos seres que apreciam um bom distanciamento brechtiano – crítico – dos fatos.

Politicamente, Barthes se comportou dessa maneira, diz ela, lembrando que, ao voltar da China, numa viagem feita em 1974 com Philippe Sollers, Julia Kristeva e François Wahl, não hesitou em mostrar seu desapontamento com o regime maoista, numa época em que toda a esquerda francesa endeusava Mao e rezava pela cartilha de seu livrinho vermelho. Muitos equívocos foram cometidos por outros contemporâneos de Barthes – e ela cita o apoio dado por Foucault à revolução iraniana de Khomeini, que se revelaria um déspota pior que o xá Reza Pahlevi.

A neutralidade de Barthes, obviamente, não significava recuar diante dos fatos. De alguma forma, ele pensava não só no tempo presente como no futuro, ao imaginar um mundo nada autoral como o do hipertexto internético, décadas antes do advento da web. Barthes dizia que o nascimento do leitor correspondia automaticamente à morte do autor, introduzindo o conceito de écriture (escritura) para falar das enormes dificuldades de ser um escritor contemporâneo do qual seus leitores jamais descobrirão as verdadeiras intenções – sendo ainda obrigados a recriar o texto numa outra dimensão. “Foi a força de um autor que recua, sem demonstrar emoção, que fez Barthes se apaixonar por O Estrangeiro“, analisa a professora. De certa maneira, o prólogo do livro de Camus era como um diário íntimo, notas abreviadas bem próximas do Diário de Luto de Barthes, que seria publicado após sua morte, ou seja, não pensadas para outro leitor além do próprio autor – e que, paradoxalmente, tanto apaixonam os compradores do livro.

Nem sempre foi assim, observa a autora da biografia intelectual do francês, citando um livro demolidor, Le Roland Barthes sans Peine, da dupla Michel Antoine Burnier e Patrick Rambaud, em que a obra do semiólogo é reduzida a um jogo sintático, “maneirista e cheio de truques”. Barthes, acrescenta a professora, foi alvo de tantos adjetivos hostis – de charlatão a impostor, passando por esnobe e formalista – que uma biografia escrita de maneira apaixonada não seria de todo inconveniente. “Barthes era passional, defendia a liberdade de ser um crítico passional”, diz, concluindo que o “mestre não deixou de ser um pensador para ser um ensaísta vacilante, mas sim um prosador afetivo”.

A autora lembra também que Barthes foi odiado pelos publicitários por atacar a mídia como qualquer semiólogo marxista o faria, denunciando a americanização dos costumes, a vulgaridade da literatura e das artes, sempre com ironia, como no provocativo Mitologias. Por trás de cada mitologia se dissimula uma ideologia – e as imprecações contra o sistema da moda não impedem que ele seja também pioneiro no estudo do mundinho fashion, que apenas se esboçava na época em que o livro saiu (1957).

Outras brigas são lembradas na biografia intelectual de Leda Tenório, como a do modo equivocado de ler Racine na Sorbonne, onde se licenciou em letras clássicas nos anos 1930 – e que a autora compara à querela entre Haroldo de Campos, leitor de Barthes, e a USP. “Ele era um excêntrico, voltado para si, com um desgosto profundo pelo mundo”, diz a professora, não sem notar que o labiríntico semiólogo francês precisava anotar o tempo todo para sair do lugar onde estava confinado, o de autor. Sendo que nenhuma biografia poderia dar conta de explicar o escritor, sua escritura, contudo, está preservada, à espera de novos leitores.

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