Ficha de Leitura: Até que ponto, de fato, nos comunicamos? – Ciro Marcondes Filho

MARCONDES FILHO, Ciro. Até que ponto, de fato, nos comunicamos? São Paulo: Paulus, 2007.

1. Introdução

“Comunicação é uma palavra da moda. Todos falam em comunicar, pessoas comunicam,
animais, plantas, sistemas comunicam. […] Tudo comunica. O pesquisador Gregory Bateson
e seus colegas do Colégio Invisível, nos Estados Unidos, têm uma frase radical: ‘Não dá para
não comunicar’. Viver é estar comunicando, emitindo sinais, demonstrando participar do
mundo. […] [No entanto] As pessoas continuam a achar que sua maneira de ver o mundo, seus
sentimentos, suas angústias, suas alegrias são fatos internos, íntimos, incomunicáveis. Que,
apesar do volume intenso de aparelhos postos à nossa disposição […] a vida de cada um ainda
é uma caixinha fechada, um universo oculto, um mundo trancado”. (p. 7)

“Esse trancamento em que nos encontramos hoje em dia é um pouco o resultado de uma
época de convivência em massa de pessoas, de ninguém conhecer ninguém, de todos
participarem de grandes metrópoles, onde, na melhor das hipóteses, apenas vemos as
caras das outras pessoas, que são como nós, as vemos nos outros carros, seguindo meio
automaticamente para seus lugares de trabalho, de estudo, de compras, de lazer. Essa
comunidade de mudos, surdos e cegos, de pessoas que nada vêem, mas que tampouco são
vistas, é a sociedade industrial moderna em que nós, uns mais, outros menos, estamos todos
envolvidos. […] Fechados em si mesmos; cada um como uma mônada isolada, trancada, só”.
(p. 9)

“ […] não se pode aceitar cegamente o que dizem as mensagens publicitárias, os jornais, a

voz do povo quando falam que ‘hoje em dia nos comunicamos muito mais do que em outras
épocas’. A intenção deste livro é defender a tese oposta, de que não nos comunicamos ou
de que nos comunicamos, em verdade, muito pouco e em raras ocasiões. Talvez na infância,
nas situações incomuns em que estamos amando outra pessoa, em algumas situações de
diálogo. No mais, a comunicação é uma farsa […]. logramos de fato nos comunicar quando
preenchemos alguns requisitos pouco freqüentes; mesmo assim, essa comunicação jamais
poderá ser absoluta ou plena”. (p. 10)

2. A comunicação, a paixão e o ser humano

“Para ele [Proust], o amor evidencia o desespero da incomunicabilidade e, quando a dualidade
se transforma em unidade, quando o outro não está em outro lugar a não ser aqui onde estou,
quando ele não excede mais minha compreensão, então não há mais comunicação no amor.
Esta se rompe e a relação erótica ou passional desaparece no monólogo, há o tédio. […] A
comunicação, em Proust, tem mais a ver com solidão do que com unidade enquanto realização
do ser. Não há ‘corações em sintonia’: a comunicação íntima e profunda, a reciprocidade entre
duas pessoas é uma miragem. O que existe é a incomunicabilidade que se revela na solidão e
no mistério”. (pp. 12-13)

3. O conceito de comunicação aqui utilizado

“A comunicação não é ontológica, no sentido de não ser algo estável, fixo, consistente; nela
nada se transfere, ela não é ‘uma coisa’, menos ainda uma coisa única que como vai, assim
é recebida. Por isso, ‘não sendo nada’, ela não pode encerrar nenhuma verdade, não pode

ser ‘traduzida’, não há uma chave que nos diga o que a coisa significa, quer dizer, representa.

Comunicação é antes um processo, um acontecimento, um encontro feliz, o momento mágico
entre duas intencionalidades, que se produz no ‘atrito dos corpos’ (se tomarmos palavras,
músicas, idéias também como corpos); ela vem da criação de um ambiente comum em que os
dois lados participam e extraem de sua participação algo novo, inesperado, que não estava em
nenhum deles, e que altera o estatuto anterior de ambos, apesar de as diferenças individuais
se manterem”. (p. 15)

“[…] a comunicação não se realiza no expresso, no intencional, na maquiagem que
pretendemos de nós, de nossas coisas, de nossos produtos, de nossas ações; tudo isso
fornece sinais de nós, que são decodificados livre e aleatoriamente pelos que são por eles
sensibilizados. No não-intencional, na imagem que transmitimos incontroladamente de nosso
corpo, de nossa postura, de nossa expressão, deixamos entrever o que há de mais sincero
em nós. São da mesma forma sinais, só que, desta vez, não-intencionais. Nenhum dos dois é
rigorosamente comunicação.

Comunicação tampouco é instrumento, mas, acima de tudo, uma relação entre mim e o outro
ou os demais. Por isso, ela não se reduz à linguagem, menos ainda à linguagem estruturada e
codificada numa língua. Ela ultrapassa e é mais eficiente que esse formato, realizando-se no
silêncio, no contato dos corpos, nos olhares, nos ambientes”. (p. 16)

4. Um mapa geral das correntes de pensamento: o pensamento antigo

“Cerca de 600 anos antes de Cristo, quando se inicia a filosofia propriamente dita, os filósofos
foram naturalistas. Sua preocupação era buscar o que estava na origem de todas as coisas.
[…] Mas logo uma outra preocupação acometeu os filósofos, que, por isso, abandonaram a
questão ‘o que originou tudo’ para se perguntarem sobre a natureza do ser. É um segundo
momento da filosofia grega”. (p. 17)

“[…] Parmênides dizia que o ser é e o não ser não é […]. Exatamente o oposto da forma como
Heráclito via as coisas. Para este, o devir (a transformação de cada coisa em seu contrário) é
a base de tudo. Todas as coisas separadamente estão em conflito eterno, mas no todo que
a tudo abarca constitui-se uma harmonia. A via parmenidiana dominou a filosofia durante
dois milênios; só modernamente, a partir de Hegel, Nietzsche e os contemporâneos, é que
a via heraclitiana recuperou seu prestígio. Da via parmenidiana derivou-se o platonismo e o
aristotelismo, assim como as doutrinas teológicas medievais até o Iluminismo”. (p. 18)

“O terceiro grande momento da filosofia grega é o das sínteses de Platão e de Aristóteles.
[…] [Para Platão] A dimensão que está acima do mundo sensível é o campo das Idéias. O
termo ‘Idéia’ não corresponde à noção que fazemos hoje dessa palavra. Não se trata de um
conceito, de algo racional, mas de um ser, que existe de forma absoluta. É melhor traduzi-
la por forma, algo a que o pensamento se dirige em estado puro. Ou, antes, é a ‘essência da
coisa’, a coisa em seu estado puro”. (p. 19)

“O aparecimento de Aristóteles já marca uma virada nas preocupações. Se Platão era
meramente abstrato e especulativo, Aristóteles será essencialmente lógico e empírico. […] As
orientações posteriores […] abandonam os temas principais genéricos de Platão e Aristóteles

e se voltam a questões subjetivas e existenciais. No epicurismo, o homem, com suas emoções
e dores, toma o lugar do cidadão, atuante na esfera da política e da vida civil. […] Também
os estóicos ocuparam-se com as sensações. […] Não há a ‘realidade incorpórea’, como queria
Platão, mas algo incorpóreo que eles chamavam de exprimível: é sobre um corpo que uma
causa tem algum efeito incorpóreo. O fogo sobre a madeira produz um efeito incorpóreo, o
queimar-se”. (pp. 20-21)

5. Um mapa geral das correntes de pensamento: a escolástica

“Assim como os helenísticos, [Santo] Agostinho volta-se ao homem singular, à pessoa e, nela
à questão da vontade e da liberdade do homem diante da fé (a razão conhece e a vontade
escolhe)”. (p. 23)

“Em [Santo] Tomás de Aquino ocorre uma inversão da relação essência-existência, passando
a existência a ser mais importante que a essência (sendo esta última, para ele, apenas algo
possível, uma potência do ser). Sua filosofia, assim, centra-se no ente. O ente é o que importa,
pois todas as coisas são entes, incluindo Deus e o mundo (o ser torna-se algo a partir do ente
homem ou do ente Deus)”. (pp. 23-24)

“[…] é com Duns Scot (Escócia, séc. XIII) que se opera a virada fundamental. A partir de
sua ‘teoria da distinção’, ele propõe o conceito de unívoco. Este é aquele mínimo que
une todas as criaturas entre si, é o grau de intensidade mais elementar do ente, o do
ente enquanto passível de todas as predicações, do ser que se obtém quando lhe são
retirados todos os modos específicos pelos quais é concretizado. Unívoco, é um ser ainda
como ‘recipiente’, sem que nada lhe tenha sido ainda acrescentado. Homem e Deus são
unívocos, mas a diferença é que o modo de um é finito, do outro, infinito”. (p. 24)

“Com Guilherme de Ockham, também século XIII, inicia-se a desmontagem da metafísica
(surgindo daí também as bases para a Reforma), que acompanhou a filosofia desde Platão e
Aristóteles. Desenvolve a superioridade do indivíduo sobre o universal, a saber, o primado
da experiência sobre a especulação. O nominalismo, que surge daí, será base para as ciências
modernas”. (p. 24)

6. Um mapa geral das correntes de pensamento: o pensamento moderno

“Suas regras do método [de René Descartes] para se chegar à verdade prescreviam, antes de
mais nada, destruir as certezas provisórias, e a dúvida radical ordenava, para que se chegasse
ao sujeito e à sua liberdade, que se pusesse abaixo todo o conhecimento adquirido. Mas isso
o faz pressentir que tudo começa a trepidar: a realidade do mundo externo é duvidosa, nossos
sentidos nos enganam, ‘e o único de que ainda tenho certeza é que estou pensando nesse
momento’. […] Duvidar é a única prova de sua existência [do homem]: duvido, logo existo;
mesmo sendo enganado, se sou enganado, isso prova exatamente que existo. A certeza,
portanto, já não está mais em Deus, mas no homem, é a autonomia do eu que se inicia aqui”.
(p. 29)

“Leibniz advoga, diferente de Descartes, que as coisas não estão no mundo simplesmente
como ‘coisas extensas’, mas entre elas há a ação de forças. Cada ser vivo tem em seu interior
uma força que o faz agir”. (p. 30)

“A raiz do pensamento empirista é aristotélica. […] Hobbes, Locke, Berkeley e Hume são
os principais nomes. Locke é um pensador que trabalha ativamente pelo princípio de que
as idéias vem da experiência e nas pessoas não há nada de inato. […] Renegando valor de
verdade ao entendimento e à razão em si mesmos, [Hume] advoga, como os epicuristas,
que somente a partir das impressões sensíveis pode-se construir o conhecimento. […] Os
empiristas recusam o eu interno como fonte de verdade. […] Como os estóicos, Hume rompe
com o princípio de causalidade, perguntando o que autoriza o homem a supor que isto cause
aquilo”. (pp. 30-31)

“A síntese entre o racionalismo e o empirismo virá com Kant. Esse filósofo irá se dedicar
ao estudo da realidade sensível, quer dizer, daquilo que sentimos, vemos, pensamos em
relação às coisas que se mostram imediatamente a nós em comparação com aquilo que nos
é impossível de apreender. […] Kant pesquisa as origens da metafísica e sua contínua busca
de certezas e constata o eterno fracasso nessa procura. […] A realidade […] nunca aparece ao
homem como ela é, mas somente como a apreende a faculdade cognitiva humana: nós nunca
apreendemos as coisas em si, mas somente como fenômenos”. (pp. 31-32)

“Kant, diante da crise da metafísica, busca um novo caminho para romper a finitude e
encontrar novamente o absoluto, agora pelo lado da moral”. (p. 33)

7. Um mapa geral das correntes de pensamento: tendências contemporâneas

“A preocupação de Hegel em sua época é que Deus parece ter morrido, a Igreja e as religiões,
fracasso, no sentido de ‘realizar’ o Espírito Absoluto, cabendo, então, ao Estado realizar na
terra o Absoluto, ou, como ele diz, oferecer a ‘identidade do real com o racional’, a unidade
essência/existência, interior/exterior”. (p. 35)

“Nietzsche empreende a crítica mais radical a toda a filosofia que o precedeu desde Platão.
[…] em seu momento atual (final do século XIX), exclui-se a idéia de verdade e, com ela, a das
aparências. É o ponto mais alto da humanidade, diz ele. Fim da metafísica (da pesquisa das
verdades últimas), tudo não passa de interpretação”. (p. 37)

“Os homens, diz Nietzsche, sofrem com o peso da história em seus ombros, o que os torna
fracos. Ele investe também contra a crença na verdade no ser, afirmando que tudo que é reto
mente, e contra a possibilidade de a existência supor uma essência simples, transparente, não
contraditória e estável. […] Nietzsche provocou, de certa forma, pelo menos dois movimentos
intelectuais importantes que o sucederam: o de Freud e o de Weber. Ambos vêem a civilização
de forma negativa e pessimista, ambos vêem no inconsciente a efetiva energia produtiva. […]
Se a religião em Nietzsche era danosa ao homem, em Freud provocava todo o mal-estar na
cultura”. (p. 38)

“Por fim, no século XX, a filosofia desdobra-se em correntes que retomam as antigas fórmulas
ou que fundem tendências. Há uma busca generalizada de cientificidade nos filósofos. É
a ‘reinvenção’ da ciência buscando livrá-la dos subjetivismos. Vemos isso no positivismo, na
fenomenologia, no pragmatismo, no atomismo lógico ou neopositivismo e no estruturalismo”.
(p. 38)

“A fenomenologia falava ‘vamos à própria coisa!’, buscando apreender as coisas pela intuição

sensível (de um só golpe, sem conceitos), livre dos vícios intelectuais de nosso pensamento.
Nada acontece por acaso, tudo tem sua intencionalidade. Merleau-Ponty continua a obra de
Husserl, buscando depurar a fenomenologia dos últimos elementos cartesianos, que ainda
apostavam num sujeito auto-suficiente. […] a consciência existe apenas como interface com o
corpo e o mundo. O mundo nos envolve, está em nós e isso antes da própria reflexão”. (p. 39)

“O desenvolvimento do empirismo nos Estados Unidos assume a forma de pragmatismo: a
experiência não é apenas a fonte do conhecimento, mas é abertura para o futuro. […] Para ele
[Peirce], o método baseia-se em formular hipóteses e submetê-las à verificação. E a verdade
seria algo por se fazer: as idéias verdadeiras são aquelas cujos efeitos são comprovados
pela ocorrência prática, pelo êxito, que, contudo, nunca é definitivo. […] ele acredita numa
verdade, se bem que ela ‘jaz no futuro’, estando seu empirismo, assim, voltado ao devir,
investindo no controle contínuo do conhecimento”. (pp. 40-41)

“Por fim, as tendências da filosofia da linguagem procuraram ‘depurar’ a linguagem de todos
os atributos históricos, culturais e sociais, vendo-a como uma coisa”. (p. 41)

“[O estruturalismo] critica o subjetivismo idealista, o humanismo, o historicismo e o
empirismo, num projeto radicalmente anticartesiano de destronar o sujeito (a consciência,
o espírito) e sua autodeterminação em favor de estruturas profundas e inconscientes,
onipresentes e onideterminantes, para dar efetiva cientificidade às ciências humanas. Para o
estruturalismo (Saussure, Lévi-Strauss, Lacan, Althusser), há pouca liberdade de ação efetiva
das pessoas. […] Os seres não mais existem, mas apenas relações entre eles. Em vez de sujeito,
a estrutura age por si”. (p. 43)

8. Breve história da comunicação: os primórdios

“Heráclito, Parmênides, Górgias e Platão duvidam da comunicação. Mas por motivos
diferentes, até mesmo opostos. Parmênides e Platão duvidam partindo da imutabilidade
do ser e do fato de as aparências encobrirem um ser ‘verdadeiro’ que estaria escondido. As
palavras só pegam esse ser aparente: referem-se às qualidades e não à ‘essência’ imutável
do ser. Heráclito duvida, partindo da mutabilidade do ser. Para ele, os homens também
enganam-se pela aparência, mas não há uma ‘essência imutável’ atrás dos véus. Há uma
impenetrabilidade na alma que seria profunda e ilimitada. É também a direção de Górgias, que
é descrente de qualquer capacidade humana de atingir o universo além das palavras. Só que
para ele, o segredo não está nem no mundo das Idéias de Platão nem na alma insondável de
Heráclito, mas na própria interioridade, na incomunicabilidade humana profunda”. (p. 49)

“Aristóteles ocupou-se com a linguagem, mas de outra perspectiva. Trabalha mais com a
questão lógica do que com a essência da linguagem. […] A linguagem, para ele, torna-se pura
ferramenta funcional, existente para estabelecer relações de implicação ou de exclusão entre
sujeito e predicado”. (pp. 50-51)

“O interessante nos estóicos é que eles sentem a comunicação como algo além da frase,
pura e simplesmente. Uma palavra não é só uma palavra, ela produz, ao ser pronunciada,
algo de novo, inesperado, estranho que se acrescenta a ela. […] Eles não questionam se
nós comunicamos ou não, mas deixam transparecer uma possibilidade de ‘diálogo de

consciências’, de entendimento tácito por meio dos incorpóreos. São as comunicações
invisíveis”. (p. 53)

9. Breve história da comunicação: os contemporâneos

“O tema ‘Comunicação’ foi apropriado pela lingüística, que buscou subordiná-lo à linguagem,
quando, na verdade, o que ocorre é o contrário: as línguas são uma forma de comunicação,
e a comunicação é que é o conceito mais amplo e genérico, sendo a língua apenas uma de
suas manifestações. Por isso, é equivocado dizer-se que ‘tudo é linguagem’ ou que tudo
está necessariamente subordinado às formas lingüísticas, pois há muitas outras formas de
comunicação que vão além das linguagens […] Essa aspiração dominadora que exerce a
lingüística no campo das ciências humanas e da comunicação acaba por tentar reduzir tudo ao
universo da linguagem, restringindo o mundo ao que é formalmente expresso”. (p. 55)

“Saussure incorre em dois erros: acreditar que se possa estudar a língua como um sistema
fechado ao mundo e que, ao se falarem, as pessoas efetivamente se comuniquem […]. O
problema de seu formalismo é que ele não se preocupa com a manifestação concreta da
língua quando praticada pela fala individual […]”. (p. 58)

“[Jakobson] também não acredita nas coisas, mas nas relações e caminha igualmente em
busca de uma língua universal, a Forma de todas as formas […] Ele encara o sentido – que,
para nós, é o momento-chave da comunicação, aquilo que de forma impactante e única
emana da interface palavra-coisa – de forma trivial: ele não passa do resultado da relação que
um signo pode entreter com outros elementos do mesmo código”. (pp. 59-60)

“Ludwig Wittgenstein segue as pegadas de Russel ao ser seu aluno em Cambridge. Sua posição
é de que a linguagem tem a propriedade de reproduzir a realidade de forma semelhante à da
pintura e que o mundo e a língua estão na mesma relação de representação que o disco, a
música, a partitura e as ondas sonoras. Não que a figuratividade de língua seja semelhante à
fotografia ou que o desenho seja fiel à aparência que ele queira representar. O termo imagem
aqui significa signo, quer dizer, uma estrutura lógica pela qual as coisas podem ser traduzidas
(música se traduz em partitura)”. (p. 61)

“Ele [Wittgenstein] diz que não é possível falar da realidade senão pela linguagem; contudo,
uma proposição pode representar a realidade, mas não consegue representar o que ela tem
em comum com a realidade para poder representá-la, isto é, a forma lógica. Para representar a
forma lógica é preciso nos situarmos fora da lógica, nos posicionarmos no exterior do mundo.
O que se exprime na linguagem não podemos exprimir pela linguagem. Ou seja, há coisas que
não se pode falar […]. Quando se refere às questões místicas ou morais, não se pode chegar
ao sentido, pois o sujeito ‘não pertence ao mundo’, está no seu limite. […] Os limites da língua
são, assim, os limites do mundo, e a experiência de vida é singular e incomunicável”. (p. 62)

10. Breve história da comunicação: os pragmáticos e o neocartesianismo

“[Peirce] é o criador do pragmatismo, que, em comunicação, significa que o que importa são
os efeitos experimentais concebíveis da linguagem. Quer dizer, as idéias verdadeiras nunca o
são a partir da minha mente ou de minha intuição, mas quando seus efeitos são comprovados
pela ocorrência prática ou constatados empiricamente. […] O homem, para ele, é apenas

pensamento, e o pensamento só é possível em signos. O signo, diferente dos conceitos
aristotélicos convencionais, é algo vivo, ele vai se realizando – quer dizer, sua verdade vai se
demonstrando – com o tempo”. (pp. 63-64)

“John Searle também opõe-se a Ferdinand de Saussure, dizendo que não se pode investir
o valor de uma frase no seu enunciado, que o que importa de fato é a diacronia, a fala, o
contexto, em suma, o conjunto da enunciação. A enunciação sujeita-se a regras convencionais,
mas distintas das da fala. Com Searle, a linguagem centra-se mais na comunicação do que na
significação. Vale mais a intenção, ou seja, o que está fora do escrito. A unidade mínima de
comunicação lingüística não está na frase, mas na produção desta, no ato de linguagem”. (pp.
65-66)

“Chomsky […] propõe-se a estudar como uma língua é gerada. […] A gramática gerativa
ou geradora permite fazer surgir, além da gramática superficial, a estrutura profunda que
organiza a língua. Por meio de um número finito de operações, ela permite engendrar todo
um sistema de regras capazes de produzir uma estrutura apropriada a um número infinito de
frases pronunciadas ou inéditas”. (pp. 66-67)

11. Breve história da comunicação: o além da linguagem

“O mais importante está fora da linguagem, reconhecia Wittgenstein. Para ele, como
para Górgias, a experiência da vida é singular e incomunicável. Como incomunicável
também é a vivência do Holocausto, o inconsciente, a vida solitária da alma de Husserl.
Sem dúvida, incomunicável para a língua disponível. Como dizia Foucalt, o maior de todos
os enclausuramentos é o do outro pela razão clássica: o discurso deve sua existência à
necessidade de instituir qualquer coisa para conter o desejo, para domesticá-lo e submetê-lo”.
(p. 72)

“Quando eu falo ou quando eu entendo, eu sinto a presença do outro em mim e de mim
no outro, diz ele [Merleau-Ponty]. […] Linguagem, em Merleau-Ponty, é o lugar onde a
universalidade do sentido e da percepção se reconhecem como tal. É lá que o para-mim e o
para-os-outros tornam-se uma única e mesma coisa”. (p. 73)

“Não é correto, como supõe o estruturalismo, que haja uma existência antes da palavra: a
linguagem e seus termos são a modulação da existência”. (p. 73)

12. Breve história da comunicação: corpo e linguagem

“Sigmund Freud acredita que na sessão analítica, quando o paciente se coloca diante do
médico para expor seu problema, desenrola-se um discurso paralelo àquele que o paciente
utiliza verbalmente. […] quando relata sua vida, seus problemas e seus sonhos, quando o
paciente uma história, esse relato sofre, de repente, bruscas interrupções. O paciente se cala.
[…] No ato falho, diz a psicanálise, ocorre, do ponto de vista do inconsciente […] um ato bem-
sucedido: o inconsciente conseguiu vencer a barreira da censura do consciente e manifestar-
se”. (p. 75)

“Esse vício estruturalista de achar que a linguagem é uma instituição que se renova por si
mesma, como um dispositivo cibernético, dispensando os homens, ignora que a linguagem é

algo criativo, aberto, sempre em renovação […] Lacan e seus seguidores não falam, mas quem
fala por intermédio deles é a ‘coisa’, descentrando as pessoas”. (p. 77)

“Do outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos, Gregory Bateson e seus colaboradores
falam que o corpo não consegue não comunicar. E que a lógica do corpo não permite mal-
entendidos; a pura presença da pessoa, queira ou não, já comunica”. (p. 77)

“O corpo, para ele [Merleau-Ponty], não é o da ciência, o corpo anatômico, mas aquilo que ele
chama de corpo próprio, ou corpo fenomenal, aberto ao mundo e aos outros corpos, portador
de sentido e jamais excluído do campo de significação pelas formas superiores de linguagem.
[…] Há uma continuação entre o corpo que sente e aquilo que é sentido, que é a própria
estrutura e a matéria da interioridade, a da carne viva, que está desperta e que é um fato
imperceptível a um sujeito distanciado. Merleau-Ponty chama de ‘carne’ a esse envolvimento
do visível sobre o corpo que vê, do tangível sobre o corpo que toca, constituindo uma única e
mesma coisa. […] nós e o mundo formamos uma única carne, as coisas passam por dentro de
nós e nós por dentro das coisas, somos ativos e passivos. Abro-me aos fenômenos do mundo,
mas eles só existem quando eu os vivo”. (pp. 79-80)

13. Será que, de fato, nos comunicamos? [Teses]

[I] “Não nos comunicamos pela língua estruturada, porque ela mascara a comunicação”

“Na origem da civilização, não está a fala, mas os sentimentos. Eles é que deram origem aos
primeiros contatos entre humanos […]. No início não havia o Verbo, diz Nietzsche, mas a
sensação. É a mesma interpretação de Rousseau: no início havia a paixão, foi ela que, por meio
da música, ditou as primeiras vozes. […] Contra o uso lógico, racional e analítico, Nietzsche
fala de uma natureza essencialmente figurativa, pictórica, encantadora e poética que deveria
revestir a palavra” (p. 83)

“Bergson fala que somos seres formados por duas camadas principais: uma profunda, a dos
nossos sentimentos, ‘de nossa substância’, sempre em movimento, e outra […] das frases
e pensamentos que já recebemos feitos e que permanecem em nós, sem jamais serem
assimilados à nossa substância. […] Não se deve surpreender, diz ele, se as idéias que nos
pertencem são as que menos podem ser expressas em palavras”. (p. 85)

[II] “Não existe comunicação porque somos ‘sistemas fechados’”

“Para ele [Luhmann], a comunicação é algo muito difícil porque pessoas e sistemas não estão
mais preocupados em transmitir informações, mas apenas em se voltarem a si mesmos,
buscando a auto-regulagem. Luhmann dá o nome de ‘sistema’ a tudo que se auto-regula. […]
os sistemas estão sempre se adaptando, se corrigindo, se tornando mais complexos. Ele chama
a isso de autopoiese. Os sistemas não se comunicam com o mundo externo, mas este irrita
continuamente o sistema”. (pp. 85-86)

“É pela comunicação que o sistema continua a subsistir, ou seja, a reproduzir a si mesmo
realizando seleções internas do que deve e do que não deve passar. Mas, nas relações do
sistema com o mundo externo, não há efetivamente comunicação. O que o sistema faz
é ‘observar’ o mundo externo”. (p. 87)

[III] “As comunicações são antes extralingüísticas e promovidas pela interação humana”

“Uma criança nasce, encontra no mundo outros comportamentos com os quais se entrelaça,
mas irá assumir a consciência de si mesma, saberá que está no mundo, que se mantém sempre
atada a um si-mesmo, num certo fundo existencial, que não se dissolve jamais no outro”. (p.
90)

“As palavras transportam o que fala e o que ouve para um universo comum que possibilita
uma comunicação nova, diz Merleau-Ponty. […] ele quer apenas dizer que habitamos a mesma
carne do mundo, que passamos a partilhar uma mesma atmosfera, que nos integramos e
dessa colaboração recíproca surge algo de novo que não tínhamos antes, nem ele, nem eu,
mas que nossa interioridade permanece inatingível ao outro. Não se trata de um espírito único
do qual passamos a participar: o que ocorre é que a fala nos arrebata, nos seduz, diz ele, nos
transforma um no outro, abole os limites do eu e do não-eu por participarmos de um mundo
só”. (p. 91)

[IV] “Na linguagem estruturada, a comunicação torna-se ritualizada, não diz nada, por isso
buscamos outras formas, menos codificadas, menos ineficazes. Por exemplo, no silêncio, no
toque físico, nos ambientes”

“Para se captar o mundo, jamais podemos nos prender apenas às palavras. […] Pode-se falar
tudo, nada é proibido, pela linguagem verbal tento controlar o mundo à minha volta e me
empenhar para que ele tenha uma imagem boa de mim. Mas o mundo me olha por muitos
outros canais. O que eu sou, de fato, não é transmitido pela linguagem”. (p. 93)

“Além da fala do silêncio, há a dos ambientes, do corpo como signo espontâneo. Podem existir
pensamentos – ainda conforme Nietzsche – mesmo onde não existem palavras, pois o corpo
pensa, mas não fala. E só uma parte consciente realiza-se em falas e esta é uma parte ínfima
do pensamento”. (p. 97)

[V] “Há labirintos na comunicação, pelos quais a realização da comunicação é o poder de
driblar a proibição de se comunicar imposta pela ‘sociedade da comunicação’”

“[…] o sentido produz-se sempre novo e em cada nova situação. Não há nenhum sentido
prévio, instalado, consagrado nas palavras, nas frases, nos enunciados. Tudo se constrói no
momento, no choque, no atrito entre os componentes do processo […] os estóicos, a crítica da
metafísica e do empírio-pragmatismo, a fenomenologia nos dizem muito mais da comunicação
do que qualquer lingüística, ao acrescentar ao conhecimento da língua a experiência da língua
em nós. No comunicar, a percepção não se traduz em linguagem objetiva, esta é pobre, estéril,
mero formalismo. Ela é antes sentida, vai além dos signos, como diz Merleau-Ponty, ‘rumo ao
silêncio deles’”. (p. 101)

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