Ficha de Leitura: COMUNICAÇÃO E SEMIÓTICA, de Santaella e Nöth

ImagemSANTAELLA, Lucia; NÖTH, Winfried. Comunicação e semiótica. São Paulo: Hacker Editores, 2004.

Introdução

“Quando afirmamos que a semiótica é uma ciência, o termo ‘ciência’ não deve ser tomado no sentido positivista ou neo-positivista, de um corpo sistematizado e acabado de conhecimentos, legitimador da verdade de conclusões a serem obtidas pela pesquisa. De resto, nas próprias ciências da natureza e, mesmo a partir da matemática, esse conceito de ciência foi dramaticamente envelhecendo no decorrer de todo o século 20, em função de grandes descobertas que […] abalaram os alicerces da tradicional cientificidade positivista […].

“Sob esse ponto de vista, tanto a semiótica quanto a comunicação, tal como esta vem se desenvolvendo até o dia de hoje, são ciências. Entretanto, dada a natureza inter, multi e transdisciplinar de ambas, elas não serão aqui tratadas como disciplinas científicas com recortes bem definidos, mas muito mais como campos de saber, no sentido que nos é apresentado por Bourdieu […]. Uma noção de campo, aliás, que faz eco à concepção radical que Peirce tinha de ciência como coisa viva, em permanente metabolismo e crescimento, uma atividade exercida por pessoas que apresentam um certo modo de vida, ou seja, hábitos que são próprios daqueles que se dedicam à busca do conhecimento”. (pp. 8-9)

1. A relevância da semiótica na comunicação

“[…] não há consenso sobre a relevância da presença da semiótica entre as teorias da comunicação, especialmente na América Latina, incluindo o Brasil […]. Uma das explicações para isso se encontra no fato de que os estudos da comunicação no continente foram fecundados dentro de uma tradição de resistência política”. (p. 10)

“[…] até o final dos anos 70, a semiótica no Brasil estava mais ligada à área de letras, lingüística e literatura do que à comunicação. […] Nessa época, Décio Pignatari publicou o livro Semiótica da Literatura (1974) com o qual inaugurava os estudos da semiótica peirceana no Brasil, junto com a tradução do livro Pequena Estética, de Max Bense (1972), que contava com uma longa introdução à semiótica peirceana, de autoria de Haroldo de Campos”. (p. 15)

“Partindo de uma tradição de estudos literários e, por isso mesmo, voltada, nesse primeiro momento, para as relações intersemióticas, ou seja, para as influências mútuas entre comunicação e literatura – manifestas, por exemplo, no cinema, vídeo, etc.; entre comunicação e arte, como, por exemplo, na fotografia, publicidade –, essa aliança da comunicação com a semiótica estava longe de coincidir com as tendências dominantes das investigações em comunicação na América Latina, voltadas hegemonicamente, naquele momento, para a denúncia dos meios de comunicação. Em razão disso, em sua constituição como um campo especializado de competência, a semiótica tendia a ser vista como mais uma área de subordinação à razão instrumental, descomprometida com a militância política”. (p. 16)

“Por essa época [início dos anos 90], o boom da semiótica dos anos 70 já havia cedido e, justamente nesse ponto, a síntese possível entre a tradição marxista e os estudos semióticos, que é própria dos estudos culturais, conduziu ao arrefecimento os precedentes antagonismos latino-americanos entre a comunicação e a semiótica. De fato, frente à multidimensionalidade das práticas comunicacionais, a sociologia da cultura, em que os estudos culturais se abrigam, são sensíveis à incorporação da semiótica. Nem podia ser diferente, dado que os processos de hibridização não são simplesmente de meios, mas, antes de tudo, trata-se de hibridizações simbólicas, cuja heterogeneidade, nos centros urbanos em crescimento e nos ambientes do ciberespaço, cresce exponencialmente”. (p. 19)

“Embora os especialistas evitem a panacéia de que ‘tudo é comunicação’ e defendam uma autonomia do campo a ser construída, há um consenso generalizado entre eles de que o aumento de complexidade da comunicação abriu caminho à consciência crescente de seu estatuto transdisciplinar e da inexistência de uma estrutura explicativa única ou de objetos previamente recortados para a diversidade fenomênica da comunicação […]. Em um tal quadro de reconhecimento da inter, multi e mesmo transdisciplinaridade da comunicação, não deveria haver mais lugar para quaisquer reservas quanto à relevância das suas relações com a semiótica. Mesmo assim, contudo, muito especialmente para aqueles que se mantiveram fiéis ao pé e à letra das teorias críticas, a semiótica é ainda vista como uma mera metodologia formal, incapaz de trazer contribuições próprias para o campo da comunicação. […] Para outros, não obstante reconheçam as contribuições que a semiótica tem a dar, restringem essa contribuição à sua instrumentalidade para a leitura das linguagens empíricas da comunicação: publicidade, jornal, cinema, vídeo, etc.”. (pp. 21-22)

2. Pontos de contato

“Devido justamente ao fato de a emergência do pensamento sobre a comunicação ter se dado em função do surgimento dos meios de comunicação de massa, existe infelizmente uma tendência para se restringir o campo da comunicação ao limite estrito da comunicação de massa, ou, o que é pior, meramente ao dos meios de comunicação de massa. […] Assim como a comunicação, também os signos, isto é, a produção e troca simbólicas, sempre existiram e são fatores de constituição da própria condição humana. Por isso mesmo, a semiótica, mesmo que nem sempre com esse nome, enquanto reflexão sobre a linguagem e seus sentidos, teve suas origens já no mundo grego e atravessou, com características próprias de cada época, toda a história humana desde então”. (pp. 23-24)

“Outro ponto de contato entre a comunicação e a semiótica encontra-se na nítida expansão de seus campos. A área de abrangência de ambas vem se alargando. […] Há, entretanto, um descompasso nítido no tipo de desenvolvimento da semiótica e da comunicação como campos de conhecimento. A semiótica teve várias paternidades quase simultâneas e, em todas elas, desenvolveu-se de chofre, com um seqüenciamento de pouco mais de uma geração, no máximo. Os pais – Peirce, Saussure, Hjelmslev, o formalismo russo, o círculo de Praga e o círculo de Bakhtin – foram seguidos por Charles Morris e Thomas Sebeok, nos Estados Unidos, pela semiologia de extração lingüística, principalmente com Barthes, pela semiótica narratológica e discursiva de Greimas, ainda na França, pela escola de Tartu, na antiga União Soviética e pela semiótica funcionalista de Halliday. Desde então, o desenvolvimento teórico da semiótica, de certa forma, estancou”. (pp. 26-27)

“O campo da comunicação, por seu lado, não teve paternidades vultosas, tendo crescido gradativamente, mas sempre diversificando-se em muitas tendências nas diversas partes do mundo; seus fundamentos teóricos foram, com o tempo, sendo melhor definidos e enriquecidos através de várias contribuições até atingir uma ebulição produtiva […]. Uma das razões para um tal descompasso entre campos do saber que, em princípio, deveriam estar tão próximos, encontra-se muito provavelmente no fato de que, diferentemente da comunicação, cuja institucionalização, tanto no mercado empresarial e de trabalho, quanto no terreno do ensino e [da] pesquisa, cresce ininterruptamente, a semiótica, com pouquíssimas exceções no mundo, quase sempre marginais, não conseguiu institucionalizar-se”. (pp. 27-28)

Cap. 1 – Panorama do Campo Comunicacional

1. O que é comunicação

“Dada a natureza evolutiva dos fenômenos comunicacionais empíricos, e dada a rapidez vertiginosa com que essa evolução vem se dando desde meados do século 20, seria surpreendente que houvesse um consenso sobre a natureza e o recorte específico de ‘um objeto’ ou mesmo de ‘objetos’ de estudo da comunicação”. (p. 34)

“[…] há ainda a se considerar que, mesmo se o quadro da comunicação não se apresentasse de modo tão difuso quanto atualmente, sabe-se que ‘o’ objeto de qualquer ciência não é jamais um dado previamente definido, um território recortado de antemão, mas sim fruto da própria construção do conhecimento. […] Daí termos optado por falar da comunicação como um campo em construção”. (p. 35)

2. Visões sobre o campo de estudos da comunicação

“Tanto quanto podemos ver, não obstante a multiplicidade aparente de pontos de vista, são três as visões dominantes sobre o campo de estudos da comunicação […] (2.1) a visão de que a investigação deve abranger todos os processos de comunicação, estejam eles onde estiverem; (2.2) a visão que identifica a comunicação com as teorias dos meios de comunicação e, mais recentemente, das mídias em geral; (2.3) a visão que considera a comunicação como parte da realidade sócio-histórica humana, localizando seus estudos sob o guarda-chuva da sociologia da cultura, da sócio-política ou da teoria geral da sociedade”. (pp. 35-36)

2.1 Os processos de comunicação

“O ponto de vista que elege os processos de comunicação como campo de estudos coloca ênfase na comunicação como relação, transmissão, agenciamento, influência, troca e interação. Para que qualquer um desses fatores seja realizado, é preciso que existam pelo menos duas entidades e um meio de conexão entre ambas. Vem dessa necessidade a condição básica para a ocorrência da comunicação: a tríade do emissor, mensagem e receptor”. (p. 36)

“É certo que, ao longo do tempo, muitas variações terminológicas foram introduzidas para esses termos até culminar nos conceitos de Ego (comunicante) – comunicação – Alter (destinatário), estabelecido por Luhmann […] Entretanto, nenhuma das variações chegou a modificar drasticamente a posição lógica que os elementos ocupam no processo de comunicação”. (p. 37)

Comunicação na biologia

“Quando se deu a descoberta da estrutura química do código genético por Watson e Crick, em meados do século passado, houve uma convergência da biologia molecular com a teoria da informação. Desde então, toda a biosfera passou a ser concebida como uma rede complexa de sistemas de comunicação […] para ser explicada, a célula passou a exigir a consideração de princípios de organização que são descritos nos conceitos de informação, código, mensagem, programa, comunicação, inibição, repressão, controle, etc. Tendo alcançado tal sofisticação, o processo de comunicação atinge aí o nível da troca e mesmo da interação. […] no nível biológico, as trocas já são mediadas por programas codificados, só faltando a mediação simbólica, a fala e seus sucedâneos, para atingir a complexidade da comunicação no mundo humano”. (p. 39)

Comunicação nas máquinas

“[…] o conceito central envolvido em suas teorias [de Shannon e Weaver] é o de informação que, à luz da matemática, se reduz a uma grandeza física, um sinal que pode ser mensurado. A eficácia do sinal depende de sua capacidade de provocar reações em um dado sistema. Desse modo, a problemática da interação fica aí reduzida à forma otimizada de transmissão de sinais, sem ruídos, através de um canal, de uma fonte a um destino”. (p. 41)

“Definida meramente como uma propriedade estatística dos sinais, reduzida ao aspecto quantificável da probabilidade de um sinal, a informação é independente de seu significado. Ela pode ser calculada, através de métodos matemáticos, por sua probabilidade de aparição num dado sistema”. (p. 42)

“[…] se seguirmos a cronologia da pesquisa na teoria da informação, desde Shannon e Weaver (1949), percebe-se que o interesse e o progresso nessa área foram declinando desde os anos 70. […] Quando temos de ligar com aspectos individuais e locais dos processos de comunicação, a teoria falha, em sua versão estatística, porque a teoria clássica das probabilidades também falha (MARCUS 1997:42) […] Paradoxalmente, enquanto no terreno das pesquisas avançadas o interesse pela teoria matemática da informação foi decrescendo, o termo ‘informação’, por outro lado, foi sendo apropriado de forma bastante imprecisa em todos os campos”. (p. 44)

“Contribuiu grandemente para a proliferação dos usos do termo informação a linguagem binária das máquinas computacionais às quais o termo tecnicamente se aplica”. (p. 45)

“[…] teóricos da comunicação […] sentem falta, na interação ser humano-máquina, de uma dialogicidade. Definir essa interação como comunicação seria dar ao computador a função de um comunicante. É verdade que computadores podem transmitir a seus usuários informações ou até mensagens. Entretanto, qualquer livro também pode fazer o mesmo e está evidente que não é o livro e sim seu autor que é o real comunicante”. (p. 46)

Comunicação humana: diálogo, congruência, intencionalidade, reflexividade, recepção

“[…] o protótipo de um processo de comunicação é o diálogo, no qual, numa troca recíproca de papéis, o emissor torna-se receptor e o receptor, emissor. Esta reversibilidade dos papéis na comunicação pressupõe um sistema de referência comum através do qual os comunicantes possam entrar em contato, seja este sistema um ‘horizonte de referência’ comum (LUHMANN 1984:194) ou um código”. (p. 49)

“O ideal de uma congruência ou simetria entre a mensagem que o emissor quer transmitir e sua interpretação por parte do receptor já é etimologicamente inerente ao conceito de comunicação, pois a palavra latina communicare significa ‘transmitir’ no sentido de ‘tornar algo comum’”. (p. 50)

“Em oposição a Habermas, Luhmann (1984:160) acentua o aspecto da diferença entre os comunicantes, sendo que a primeira diferença encontra-se na decisão do receptor em aceitar ou rejeitar um ato comunicativo. O receptor processa a mensagem oferecida pelo emissor não devido a uma mera recepção da informação que lhe foi remetida, mas sim através de uma participação própria e ativa na seleção e focalização das ofertas de estrutura de uma mensagem. […] Somente quando a sugestão é levada em consideração e o estímulo é processado é que a comunicação ocorre”. (p. 51)

“Não obstante a ênfase que alguns autores colocam na intencionalidade comunicativa, ela não pode ser sustentada de modo universal, sendo alias um princípio baseado em um pressuposto bastante linguocêntrico da comunicação, visto que, principalmente para a comunicação não-verbal e visual, a condição da intencionalidade não pode ser mantida. […] Na psicanálise encontra-se o questionamento mais radical da crença na atuação racionalista de um sujeito que tudo intenciona. Desde Freud, não se acredita mais na ficção de um indivíduo comunicante ‘indivisível’, pois comunica-se através de mensagens simultâneas que são transmitidas por diversas instâncias, às vezes de maneira contraditória”. (p. 52)

“Para ele [Luhmann], há comunicação auto-referencial devido à sua dupla contingência e às expectativas de expectativa por ela geradas. O ‘círculo auto-referencial’ da comunicação baseia-se nas constelações reflexivas básicas ‘eu faço o que você quer, se você faz o que eu quero’ ou ‘eu não deixo que você determine o que eu faça, se você não me deixar determinar o que você faça’”. (pp. 53-54)

“Tendo por base especialmente os estudos culturais de origem britânica e a obra do colombiano Martin Barbero, para caracterizar os processos de comunicação, foi bastante enfatizado na América Latina, a partir dos anos 80, o conceito de recepção e, com ele, o de mediação”. (p. 54)

“Substituindo o behaviorismo mecanicista, de um lado, e o marxismo simplificado, de outro, pela inserção da recepção no contexto dos estudos culturais, essa linha de pesquisa produziu um deslocamento no modo como a interação entre cultura e política pode ser analisada, ao privilegiar as mediações por meio das quais os processos de recepção se operam […] [estes] são complexos e criativos, envolvendo necessariamente reinterpretações e ações de resistência ativa. Há mediações culturais na construção do sentido que produzem leituras diferenciais de uma mesma linguagem, de acordo com o grupo social do destinatário. Sem negar o grande avanço que essas pesquisas sobre recepção representaram em relação às tendências anteriores, o problema […] [está] na imprecisão conceitual do termo ‘mediação’”. (pp. 55-56)

2.2 Os canais, os meios, as mídias

“[…] a grande expansão do sentido de ‘meios’ só seria alcançada com a repercussão produzida pela obra de McLuhan. À luz de sua concepção dos ‘meios como extensões do homem’ (1969), a palavra ‘meios’ passou a se referir a todos os meios de comunicação: a oralidade, os meios impressos (livros, quadrinhos, revistas e jornais) e os meios de comunicação de massa (foto, cinema, rádio e televisão)”. (p. 58)

“Apesar de Martino tomar a precaução de situar os meios como fator de socialização no seio das novas formas de organização coletiva que eles instauram, está longe de haver um consenso quanto à consideração dos meios de comunicação como objeto dos estudos em comunicação. Rüdiger (2003:15), por exemplo, é bastante enfático em sua negação dessa tendência, quando diz que ‘comunicação social e meios de comunicação, não obstante se confundam cada vez mais em nosso tempo, não são a mesma coisa; remetem a problemáticas de estudo, que não se reduzem uma à outra na esfera do saber’”. (p. 60)

“Enfim, a palavra ‘mídias’ se tornou, especialmente no Brasil, a grande vedete – para não dizer, o grande fetiche – dos discursos comunicacionais, cujo emprego só serve, muitas vezes, para encobrir a falta da discussão sobre aquilo que realmente importa: a enorme complexidade do funcionamento semiótico e sócio-cultural das mídias”. (p. 61)

2.3 Comunicação sob a égide da teoria social

“Para ele [Rüdiger (2003:17)], o termo ‘comunicação’ deve ser reservado à interação humana, à troca de mensagens entre os seres humanos […] ‘a comunicação representa um processo social primário, com relação ao qual os chamados meios de comunicação de massa são simplesmente a mediação tecnológica: em suas extremidades, encontram-se sempre as pessoas, o mundo da vida em sociedade’”. (pp. 62-63)

“Por fazer parte do ser social do homem, ‘pelo qual ele se relaciona com seu semelhante e elabora coletivamente seu universo de conhecimentos’, a comunicação não é compreensível sem o homem, precisando ‘ser entendida como um princípio de sociabilidade dotado de fundamentos históricos e culturais determinados’ [ibid.: 33] […] Disso se conclui que sua ‘fundamentação conceitual básica não deve ser baseada no registro teórico da comunicação, mas numa teoria crítica da sociedade’ (ibid.: 134)”. (pp. 63-64)

3. O consenso sobre a inter, multi e transdisciplinaridade do campo comunicacional

“Para Barbero (1999), a mudança de fundo provocada principalmente pela expansão dos limites que demarcavam o campo da comunicação abriu caminho para a ‘consciência crescente do estatuto transdisciplinar do estudo da comunicação, evidenciada pela multidimensionalidade dos processos comunicativos e sua gravitação cada dia mais forte sobre os movimentos de desterritorialização e hibridizações que a modernidade latina produz’”. (p. 65)

“Para Sodré (2002:223), o núcleo teórico da comunicação está na ‘vinculação entre o eu e o outro’, ou seja, na ‘apreensão do ser-em-comum (individual ou coletivo)’ […] Propõe-se, sim, a ‘vinculação como radicalidade de diferenciação e aproximação entre os seres humanos’, o que inclui ‘as tensões constitutivas do comum, em qualquer nível’, pois ‘o eu e o outro não são entidades prontas e acabadas a serem conectadas por um nexo atrativo. Apreender cognitivamente o si-mesmo, compreender a dinâmica identitária – portanto, o vínculo entre o si genérico e o si mesmo singular, mediado pela transcendência do Outro, está no cerne do problema comunicacional’. […] O que se tem aqui presente é o sentido ético-político do bem comum, o que torna ‘a questão comunicacional política e cientificamente maior do que a que se constitui exclusivamente a partir da esfera midiática’”. (pp. 66-67)

Cap. 2 – Panorama do campo semiótico

1. A semiótica é uma ciência?

“No caso da semiótica, sempre houve um certo consenso na indicação de seu objeto, a saber, todos os processos sígnicos na natureza e na cultura. O problema […] reside na impossibilidade de recortar o território da realidade empírica que esse objeto abrange, pois processos sígnicos estão em toda parte, atravessando áreas que pertencem às mais diversas ciências, das humanidades e ciências sociais até as ciências naturais. […] com o que ela acaba por colocar em questão a própria compreensão que se tem do que é o objeto de uma ciência. Vem daí a incerteza que sempre rondou a semiótica quando a sua constituição como uma ciência e todas as especulações daí decorrentes”. (p. 70)

“[…] é característica fundamental da ciência viva estar continuamente rompendo fronteiras, do que decorre não poder haver pré-determinação imposta de fora sobre seus limites”. (p. 71)

2. Uma ciência por se fazer

“[Saussure] alertou para a possibilidade de se conceber uma ciência que estudasse a vida dos signos no seio da vida social. […] batizou-a de Semiologia e propôs que ela nos ensinaria em que consistem os signos, que leis os regem. […] ‘A Lingüística não é senão uma parte dessa ciência geral; as leis que a Semiologia descobrir serão aplicáveis à Língüística’, [disse ele]. […] quando Saussure afirmou isso, em 1911-12, Charles Sander Peirce já havia erigido o edifício da sua semiótica concebida como lógica em um sentido amplo, uma dentre as disciplinas de sua arquitetura filosófica”. (p. 71)

“Décadas depois de Saussure, a semiótica continuou sendo tida por muitos autores mais como um projeto do que uma ciência estabelecida, e isso ‘não apenas devido ao ritmo necessariamente lento de uma ciência em seu início, mas também devido a uma determinada incerteza quanto a seus princípios e conceitos fundamentais (DUCROT & TODOROV 1972:90).” (p. 72)

3. O que é semiótica

“O campo semiósico parece invadir todos os outros. […] Há signos em todas as partes. Esse se constitui no objeto de estudo da semiótica. Isso, no entanto, não pode nos levar a pensar que a semiótica está, em razão disso, usurpando territórios alheios. […] Para a semiótica, o que interessa são todos os tipos possíveis de signos, verbais, não-verbais e naturais, seus modos de significação, de denotação e de informação; e todo o seu comportamento e propriedades”. (p. 76)

“Não fica difícil perceber que, dentre todas as ciências ou campos de conhecimento, aquele que mais perto está da semiótica é, sem dúvida, a comunicação. Não pode haver comunicação sem ação de signos e vice-versa. Argumenta-se que a comunicação não deve ser reduzida à transmissão de mensagens. Embora isso seja verdadeiro, também não se pode negar que, sem a transmissão de algum tipo de mensagem, não há comunicação. Ora, se não estivermos presos à visão muito vaga e pobre de que aquilo que uma mensagem transmite é informação, e se também não estivermos limitados a uma concepção linguocêntrica do signo, pode-se afirmar que toda e qualquer mensagem é feita de signos das mais variadas espécies. De fato, signos são os materiais de que as mensagens são feitas. Se a semiótica estuda os signos, o ponto em que comunicação e semiótica se cruzam aí fica nítido.

Se levarmos ainda em consideração que o estudo da ação dos signos não se reduz a um mero formalismo descritivo das propriedades internas dos signos, mas inclui suas relações de referência, suas ligações contextuais, seus processos de emissão, os efeitos que estão aptos a produzir nos receptores e, sobretudo, se levarmos em conta que signo é mediação entre algo a que ele se refere ou aplica-se e os efeitos que serão produzidos no receptor, o que inclui as conseqüências que disso podem advir no futuro, as relações entre a comunicação e a semiótica ficam mais intrincadas e muito mais substanciais do que pode parecer à primeira vista. Todavia, há um grande complicador incluso nessas colocações: o fato que ‘signo’ não é um termo univalente e que cada escola semiótica o define ao seu próprio modo, do que decorre que há tantos signos quantas escolas semióticas existem”. (p. 77)

4. As diferentes concepções de signo

“A mais divulgada e conhecida definição de signo é a de Saussure. Trata-se de uma concepção diádica da relação existente entre um significante, imagem acústica, e um significado, conceito”. (pp. 77-78)

“Hjelmslev desdobrou a dicotomia saussuriana em duas dicotomias: substância de expressão e substância de conteúdo, forma de expressão e forma de conteúdo. Tanto Saussure quanto Hjelmslev fundaram a tradição do signo concebido a partir de um paradigma lingüístico”. (p. 78)

“[…] o conceito central para os semioticistas dessas escolas [de Moscou e Tartu] não estava no signo, mas no texto concebido não só como fala lingüística, mas também como fenômenos culturais e estéticos em geral (pintura, filme, música, comportamento não-verbal etc.). Bakhtin, por seu lado, desenvolveu uma teoria do signo e do texto independente das posições fundamentais dos formalistas russos. Sua teoria da semioticidade das ideologias, trabalhada em conjunto com Voloshinov e Medvedev, está baseada na natureza inalienavelmente ideológica de todo signo”. (p. 78)

5. A expansão do campo semiótico

“Quando o boom dos estudos semióticos emergiu na década de 60, suas raízes vinham da lingüística saussuriana e hjelmsleviana, e o primeiro campo a se expandir sob a influência estruturalista foi o dos estudos literários […] Nos anos 70, sob a influência da tradução para o francês e inglês de trabalhos originários da Escola de Moscou, Tartu e do Círculo de Bakhtin, o próximo passo na expansão dos estudos semióticos direcionou-se para a cultura em geral. Nessa mesma década, a rica herança […] deixada por Charles Sanders Peirce começou a ser tirada do esquecimento graças ao sinal de alerta emitido por Roman Jakobson […]”. (p. 79)

“Para Sebeok, a semiose começa com as origens da vida. Assim, a semiótica e a biologia têm o mesmo objeto de estudo, embora as perspectivas de estudo difiram. […] na medida em que as investigações semióticas prosseguiam, elas foram levando ao reconhecimento de uma variedade de processos sígnicos, da bio e ecossemiose até as mais diversas semioses humanas”. (p. 80)

Cap. 3 – A Comunicação na Semiótica Estruturalista

1. Ferdinand de Saussure: O circuito da fala e a simetria da comunicação verbal

“Mais do que de processos comunicativos, o seu Curso de lingüística geral trata de sistemas e de estruturas semióticas. Nem por isso, no mesmo Curso, com o fim de descrever ‘o lugar da língua nos fatos da linguagem’, Saussure nos dá um esboço do modelo da comunicação verbal em diálogo”. (p. 82)

1.1 O circuito da fala

“O circuito da fala descreve o caminho de sinais acústicos como um fluxo de signos em duas direções, do falante A ao ouvinte B e deste ouvinte B (que se torna, por sua vez, um segundo falante, A’) de volta ao primeiro falante A (que desta vez vira o ouvinte B’) de B (aliás A’). Trata-se aí de um modelo de comunicação em diálogo. Em sua descrição deste processo, Saussure está interessado, em primeiro lugar, pelo lado fonético”. (pp. 83-84)

1.2 O circuito da fonação e audição

“Em comparação com os modelos lineares da comunicação […] os modelos circulares reconhecem não só o papel ativo do emissor, mas também do receptor das mensagens. Porém, no modelo saussuriano, esse papel ativo do intérprete da mensagem não é inteiramente reconhecido. […] O ativo e o passivo do processo comunicativo pertencem […] a duas fases distintas do circuito, o ativo pertence à fase da produção, que Saussure chama de executiva, o passivo à fase da recepção da mensagem. Neste ponto, revela-se o defeito da simetria perfeita nos circuitos saussurianos. A circularidade dos modelos é, na realidade, uma mera conexão de duas cadeias de comunicação lineares”. (pp. 84-85)

“A dupla simetria especular entre os processos cognitivos nos cérebros de A e B, […] Saussure admite, não é perfeita, mas, mesmo assim, é significante: ‘Entre todos os indivíduos assim ligados pela linguagem, estabelecer-se-á uma espécie de meio termo: todos reproduzirão – não exatamente, sem dúvida, mas aproximadamente – os mesmos signos unidos aos mesmos conceitos’”. (p. 85)

“O conceito da imagem acústica é uma contribuição importante e significativa da semiologia saussuriana à teoria da comunicação que, infelizmente, foi ignorada ou esquecida em muitos modelos da teoria da comunicação do século 20. A ‘imagem acústica’ das palavras articuladas é o lado mental do processo acústico e auditivo da fala. O lado acústico da fala pertence portanto a dois mundos semióticos ao mesmo tempo, ao mundo exterior do meio ambiente físico de A e B e ao mundo interior ou mental de ambos”. (p. 86)

“[…] o lado acústico da expressão dos signos verbais não pertence somente ao canal acústico da comunicação, como certos modelos na tradição de Shannon e Weaver sugerem, mas a expressão acústica dos signos verbais começa na mente do falante com a imagem acústica que, em seguida, causa a produção dos sons físicos”. (pp. 86-87)

1.3 Elementos de uma semiologia geral da comunicação

“[…] Toda coisa material é já para nós um signo: quer dizer impressão que nós associamos a outra coisa. […] A única particularidade do signo lingüístico é a de produzir uma associação mais precisa do que todo outro, e talvez veremos que está lá a forma mais perfeita de associações de idéias (Saussure 1974: 40)”. (p. 88)

2. Buyssens: A semiótica funcionalista no estudo da comunicação

“O semioticista belga Eric Buyssens foi um dos primeiros a seguir Ferdinand de Saussure no projeto de fundar uma semiologia geral dos sistemas sígnicos. Sua abordagem ao estudo da comunicação pode ser caracterizada como funcionalista. […] Buyssens (1967: 22) define a semiologia como uma ‘ciência de comunicação’. […] Processos sígnicos não-comunicativos não são um assunto desta nova ciência da semiologia”. (p. 89)

2.1 A comunicação numa perspectiva funcionalista

“Para Buyssens, comunicação é um meio para ‘obter a colaboração dos outros’ (1967: 27), e ‘o ponto de vista semiológico obriga-nos a voltar à função primordial das linguagens: agir sobre outrem’ (ibid.: 22)”. (p. 89)

“Significação é o ‘meio indireto pelo qual podemos saber o que se passa no espírito dos outros indivíduos’ […] A significação, em resumo, ‘é um fato social e é precisamente isto que nos permite conhecê-la melhor do que o pensamento individual’”. (p. 90)

“Na perspectiva que o funcionalismo lhe dá, Buyssens tem a tendência de exagerar a função comunicativa e de negligenciar outras funções dos signos, tal como a função expressiva. Para ele, até o bebê não quer outra coisa senão comunicar no sentido de agir sobre outrem”. (pp. 90-91)

2.2 Comunicação não é fluxo de informação, mas reconstituição de “estados de consciência”

“Buyssens afirma que ‘nosso estado de consciência não pode ser percebido por nenhum outro indivíduo; e não existe meio algum de transportar nosso estado de consciência de outra pessoa’ […]. Esta idéia da impossibilidade de ‘transportar’ uma mensagem de um indivíduo para o outro foi tematizada mais tarde por Luhmann (1995: 20)”. (p. 91)

“Em vez de transmissão, fluxo ou intercâmbio de mensagens, o que ocorre num processo de comunicação, conforme Buyssens (1967:27), é a reconstituição das idéias e intenções de um comunicador por um intérprete […]”. (p. 92)

2.3 A intencionalidade e a simetria da comunicação

“A intencionalidade da mensagem do comunicador é […] um critério necessário, mas não suficiente de um ato comunicativo. Para ser completo, o ato comunicativo também precisa da participação ativa de um intérprete da mensagem”. (p. 93)

2.4 A convencionalidade da comunicação

“Buyssens […] define os meios convencionais como ‘os meios reconhecidos como meios’”. (p. 93)

“’Sempre que um falante fala, ele escolhe, entre os processos que existem simultaneamente em sua memória, processos que supõe existirem simultaneamente também na memória de seu ouvinte. Este acordo social é precisamente o que se chama de convenção’. Convencionalidade, nesta perspectiva, é o critério da comunicação que verdadeiramente garante a simetria comunicativa no ato sêmico, pois, conforme este critério, o ‘fato perceptível’, usado pelo comunicador e o intérprete, é convencional na medida em que é “reconhecido como um meio pelos dois indivíduos que estão interessados nele [BUYSSENS, 1967:31]”. (p. 94)

2.6 Dos efeitos causais aos meios comunicativos: Causalidade VS. Intencionalidade

“Embora o semiólogo belga queira excluir do domínio dos estudos semiológicos todos os signos aos quais falta a intencionalidade de um comunicador, ele acaba apresentando um panorama sutil dos fenômenos não ou pré-comunicativos até a comunicação verbal. Desta maneira, abre uma porta para uma descrição pré-semiológica dos fenômenos da ‘linguagem dos objetos’ via ‘comunicação não-verbal’ que, para Buyssens, na maioria dos casos, não é mesmo comunicação, mas mera manifestação indicial”. (p. 97)

3. Prieto: Instrumentalidade e indicação notificativa da comunicação

“Nos elementos da teoria semiótica funcionalista da comunicação de Buyssens baseia-se também a semiologia da comunicação do argentino Luís Prieto (1926-1996), um dos sucessores de Ferdinand de Saussure na cátedra de lingüística geral da universidade de Genebra. Para Prieto, os sinais dos atos de comunicação são instrumentos na vida social. Com Morris, que distingue entre comunicação e semiose, e Buyssens, que determina comunicação em oposição à indicação, Prieto opõe a comunicação à indicação não-comunicativa, mas propõe uma definição dos índices mais ampla, introduzindo a categoria do índice notificativo, que indica a comunicação como tal”. (pp. 100-101)

3.1 A instrumentalidade do ato comunicativo

“Os instrumentos usados em atos de comunicação são os sinais, cuja função consiste em transmitir mensagens. A utilidade dos sinais consiste no fato de que eles ‘permitem ao homem exercer uma influência sobre aquilo que o cerca’ e o lugar onde se manifesta a utilidade dos sinais no ato comunicativo é o significado da mensagem (PRIETO 1966: 10-11)”. (p. 101)

“A analogia entre o ato comunicativo e o ato instrumental fica expressa no seguinte: enquanto um sinal tem significação, um instrumento tem utilidade, o que sugere que os instrumentos são semelhantes aos signos, tendo sua significação em sua utilidade”. (p. 102)

3.2 Semiologia da comunicação VS. Semiologia da significação

“Prieto concorda com Buyssens em excluir da semiologia e da ciência da comunicação o estudo de índices naturais e espontâneos, […] [que não têm] significação, porque sua capacidade de ser índice depende de um dado natural e não social. Apesar disso, o campo semiótico de Prieto não é inteiramente restrito aos atos comunicativos. Neste respeito, Prieto vai além de Buyssens em sua semiologia. Ao lado da semiologia da comunicação, ele esboça os fundamentos de uma segunda semiologia, que ele chama de semiologia da conotação (1975a) ou semiologia da significação (1975b). Os índices, que a semiologia da significação estuda, são convencionais, ‘determinados por uma sociedade […], que estabelece a conexão entre o índice e o indicado’ (ibid: 128), mas eles não são intencionais ou não [são] interpretados como intencionais. Prieto os define como índices convencionais, o que implica que eles têm significação”. (pp. 102-103)

“[…] a semiologia da comunicação está inclusa no campo do estudo da semiologia da significação, pois ambos estudam índices convencionais, enquanto só a semiologia da comunicação estuda os signos convencionais produzidos com uma intenção comunicativa”. (p. 104)

3.3 Indicação notificativa da comunicação

“Na interpretação de Prieto, […] os sinais comunicativos e os índices não são duas categorias semióticas que se excluem mutuamente. O índice é uma categoria semiótica mais geral, que inclui os sinais da comunicação humana como índices convencionais e intencionais. Assim, cada sinal comunicativo inclui também um índice. O índice, que se encontra incluído em cada sinal de um ato comunicativo, é um índice deste mesmo ato e do propósito do emissor de comunicar. Prieto (1966:32) o chama de indicação notificativa”. (p. 104)

“Em resumo, a indicação notificativa se insere no processo do ato comunicativo desta maneira: um emissor usa um sinal com a intenção de transmitir uma mensagem para um receptor. Assim, ele fornece uma indicação a um receptor. O receptor percebe que o sinal indica o propósito do emissor, e tenta interpretar os sinais como uma mensagem do emissor”. (p. 106)

3.4 Indicação significativa e comunicação como seleção

“O aspecto mais importante do ato comunicativo é a sua indicação significativa. Numa primeira abordagem, pode-se dizer que o sinal indica a sua significação. […] Porém, a indicação significativa de um sinal é mais complexa. O sinal indica a sua mensagem como qualquer significante de um signo indica o seu significado. Desta maneira se estabelece uma relação entre dois planos semióticos ou ‘universos de discurso’, o plano do indicante e o plano do indicado. O primeiro é o campo semático (campo dos ‘semas’) e o segundo é o campo noético (campo das ‘idéias’, dos significados)”. (p. 107)

“‘Ao fornecer a indicação significativa, um sinal não se refere apenas às mensagens que ele admite, mas a todas as mensagens, admitidas ou não, que constituem possibilidades em jogo no plano do indicado’ [Prieto 1966:37]. Essa idéia de que um sinal não só indica o que ele significa, mas também o que ele não significa entre todas as alternativas que o código apresenta, é essencialmente estruturalista. Para um estruturalista, significação não é só a indicação de um significado por um significante, mas devido à sua oposição implícita com os outros signos do mesmo sistema, o signo também se refere àqueles signos que estão excluídos na intenção do comunicador no momento do ato comunicativo”. (pp. 107-108)

“Seleção, de fato, é um elemento essencial na descrição da comunicação de Prieto. No ato comunicativo, a seleção de uma interpretação se torna possível pelos índices circunstanciais […] Para o receptor da mensagem, seleção significa que ele escolhe uma interpretação do sinal de uma classe de mensagens ou interpretações possíveis, sabendo que a mensagem do emissor admite certas interpretações, mas exclui outras, e considerando várias circunstâncias da emissão da mensagem que restringem a classe das interpretações possíveis […]”. (pp. 108-109)

3.6 Auto-referência na comunicação

“A indicação notificativa da comunicação reflete o aspecto auto-referencial da comunicação, pois o princípio da indicação do ato comunicativo como comunicação é um processo semiótico que faz referência ao processo da comunicação ele mesmo e não à mensagem comunicada. A oposição entre a indicação notificativa e a indicação significativa da comunicação tem um paralelismo significante entre os princípios de auto-referência e alo-referência, que são centrais para a teoria da comunicação de Luhmann (1988, 1995; cf. NÖTH 2001a). Em seu aspecto alo-referencial, a comunicação se refere a algo de outro, ela contém informação (Luhmann), significação ou uma mensagem (Prieto). No seu aspecto auto-referencial, a comunicação é indicada como uma relação social e uma expressão verbal com uma realidade diferente daquela que a mensagem indica. O que importa no processo comunicativo é a diferença entre os dois – isso é uma das teses centrais de Luhmann […]”. (p. 111)

3.7 A duplicidade da indicação e o processo da seleção

“A teoria da duplicidade da indicação de Prieto tem um paralelo com uma teoria que Luhmann (1988:15) chama de duplicação da comunicação: esta duplica a realidade. Ela cria duas versões, uma versão ‘sim’ e uma versão ‘não’, e assim ela obriga a uma seleção. E é exatamente nesse fato de que alguma coisa tem de acontecer […] que reside a autopoiese do sistema, isto é, sua autonomia em relação ao ambiente, que garante a sua própria continuidade. A focalização para a alternativa da aceitação ou rejeição não é outra coisa senão a autopoiese da própria comunicação. Apesar das semelhanças, a interpretação de Luhmann também deixa aparecer diferenças fundamentais. Para o estruturalista, a duplicidade da indicação constitui essencialmente um ‘jogo de diferenças’ ao qual o receptor está sujeito de uma maneira mais ou menos passiva e certamente não autopoiética. […] Para o teórico dos sistemas, a duplicidade básica da comunicação envolve uma rejeição ou uma aceitação da informação”. (pp 112-113)

4 Greimas: Comunicação como enunciação

“A semiótica discursiva de Algirdas Greimas (1917-1992) trata do tema da comunicação no contexto da teoria da enunciação. Em vez da cadeia comunicativa ‘emissor – mensagem – receptor’, Greimas reflete sobre o papel do sujeito discursivo e sobre o processo da enunciação de um discurso que um destinador produz para um destinatário”. (p. 113)

4.1 Comunicação e o fazer comunicativo

“Greimas restringe o tema da comunicação no quadro de sua semiótica. Para ele, o específico dos atos comunicativos revela-se no quadro de uma teoria da ação, cujo fundamento está na distinção entre duas dimensões semióticas e duas modalidades de fazer: o fazer operatório ou a atividade de produção, que pertence à dimensão pragmática, e o fazer manipulativo, que pertence à dimensão cognitiva da semiótica discursiva”. (p. 114)

4.2 O sujeito da comunicação e intencionalidade comunicativa

“Ao contrário do princípio da unicidade do sujeito, que se manifestaria num emissor unicamente responsável por todas as enunciações da mensagem, a semiótica discursiva parte do princípio da heterogeneidade enunciativa […] a semiótica discursiva se baseia numa teoria da intencionalidade, que rejeita a idéia da intenção comunicativa como finalidade de um sujeito consciente no ato da comunicação […]”. (p. 116)

“O conceito de intencionalidade […] tem as suas raízes na teoria greimasiana do sentido. Sentido, numa perspectiva fenomenológica, manifesta-se numa intencionalidade do sujeito num trajeto a percorrer até ao seu ponto de chegada (Greimas 1970:63). Intencionalidade, nesta trajetória, manifesta-se numa ‘visada do mundo, numa relação orientada, transitiva, graças à qual o sujeito constrói o mundo enquanto objeto’ […]”. (p. 116)

4.3 Comunicação fática

“Comunicação, para Greimas e Courtés (1979:181), tem um fundamento naquilo que Malinowski chamava de comunhão fática, quer dizer, numa situação de interação social não baseada em informação nem em manipulação, mas num fazer comunicativo, que não procura outra coisa senão estabelecer e manter o contato comunicativo com o outro e que pode manifestar-se num mero ‘falar de tudo e de nada’. […] Greimas considera o fático não como uma função entre outras, mas como um fator fundamental e onipresente nos processos comunicativos. Em vez de função, Greimas fala de uma intenção fática onipresente no fundamento da comunicação”. (p. 117)

4.4 Os actantes no processo comunicativo

“Os papéis principais na cena da enunciação são desempenhados pelo destinador e pelo destinatário. Os termos, adotados de Jakobson, são equivalentes aos termos emissor e receptor da teoria da comunicação, cuja abordagem ‘mecanicista’ Greimas rejeita para substituí-la por um ‘ponto de vista mais humanizante’ […]”. (p. 118)

4.5 Simetrias e assimetrias da comunicação

“Entre o enunciador e o enunciatário da comunicação, há uma simetria no sentido em que o enunciatário não é apenas um recipiente passivo da mensagem do destinador, ‘mas também sujeito produtor do discurso, por ser a leitura um ato de linguagem (um ato de significar) da mesma maneira que a produção do discurso propriamente dito’ (GREIMAS e COURTÉS 1979:150)”. (p. 120)

“Do outro lado, aparecem assimetrias nas duas instâncias da comunicação, que se manifestam em diferenças lógicas e diferenças do saber e do poder. A assimetria lógica entre as duas instâncias actanciais consiste na pressuposição unilateral, que existe entre o destinador e o destinatário”. (p. 121)

4.6 Comunicação como contrato e troca de valores

“A relação entre o enunciador e o enunciatário tem, em vários respeitos, o caráter de um contrato. Além do contrato implícito fundamental, discutido acima, comunicação pressupõe um contrato enunciativo, que precisa ser aceito pelo destinatário e mantido pelo destinador […] não só o enunciador, mas também o enunciatário é onipresente no discurso como um sujeito implícito da enunciação. […] Na construção de um discurso que deixa assim aparecer a presença do enunciatário, o enunciador também constrói o enunciatário”. (p. 122)

4.8 Comunicação como construção de simulacros

“A questão da verdade do discurso não se pode colocar como um problema da relação entre os signos e o mundo designado por eles, porque a semiótica discursiva se baseia no dogma estruturalista que ‘exclui qualquer relação [dos signos] com um referente externo’ (GREIMAS e COURTÉS 1979:485). Como o discurso não pode ter um objeto fora do discurso mesmo, ‘a teoria saussuriana forçou a semiótica a inscrever entre suas preocupações, não o problema da verdade, mas o do dizer-verdadeiro, da veridicção’ (ibid.) […] o discurso, ao fim e ao cabo, ‘constrói a sua própria verdade’ (Barros 1988:94), e, em conseqüência, a comunicação se revela como uma produção de simulacros”. (p. 125)

“Numa mensagem assim construída como um simulacro, então, não se pode mais achar sentido, mas meramente efeitos de sentido: ‘O enunciador não produz discursos verdadeiros ou falsos, mas constrói discursos que criam efeitos de sentido de verdade […], que parecem verdadeiros. O parecer verdadeiro é interpretado como ser verdadeiro, a partir do contrato de veridicção assumido’, é o resumo de Barros (1988:94). Desta maneira, o discurso não se situa numa realidade, mas meramente numa ‘impressão de realidade produzida pelos nossos sentidos’”. (p. 126)

Cap. 4 – Modelos da Teoria da Comunicação na Semiótica

“As teorias semióticas da comunicação que ficaram mais conhecidas, provavelmente devido à grande penetração das obras de Umberto Eco mundo afora, são aquelas que tomaram por base o modelo informacional da comunicação de Shannon e Weaver, adaptando-o à complexidade da comunicação humana”. (p. 127)

1. Jakobson e as funções da comunicação

1.1 Comunicação e semiótica

“De acordo com Jakobson (1970b: 25), a ciência da comunicação é o quadro mais geral no qual a semiótica e a lingüística se inserem como setores mais específicos […] Inspirado pela antropologia estruturalista de Claude Lévi-Strauss, Jakobson distingue três níveis de comunicação social: (a) comunicação por mensagens (o assunto da lingüística e da semiótica), (b) comunicação na forma de troca de bens e de serviços (o assunto da economia) e (c) comunicação na forma dos parceiros sexuais (o assunto dos estudos sobre o parentesco e o matrimônio na antropologia social). Todos esses campos de pesquisa em comunicação se encontram incluídos numa outra ciência, que estuda processos de comunicação de um ponto de vista ainda mais fundamental – a biologia”. (p. 128)

“Jakobson (1970b:21) sublinha a necessidade de uma concepção de comunicação muito mais ampla, que  não se restringe só à comunicação interpessoal, mas inclui também a comunicação intrapessoal, por exemplo, a ‘fala interior, penetrantemente concebida por Peirce como um ‘diálogo interno’ […que] serve de conexão com o passado e o futuro da pessoa [self]”. (p. 129)

1.2 O modelo dos ‘engenheiros da comunicação’ e o paradigma da teoria da informação

“‘Analisemos os fatores fundamentais da comunicação lingüística: qualquer ato de fala envolve uma mensagem e quatro elementos que lhe são conexos: o emissor, o receptor, o tema [topic] da mensagem e o código utilizado. […] Um processo de comunicação normal opera com um codificador e um decodificador. O decodificador recebe uma mensagem. Conhece o código. A mensagem é nova para ele e, por via do código, ele a interpreta. […] É a partir do código que o receptor compreende a mensagem. […] O decodificador é um destinatário virtual da mensagem [Jakobson (1953: 19,23)]”. (p. 130)

1.3 A teoria dos códigos e da codificação

“Os interlocutores pertencentes à  mesma comunidade lingüística podem ser definidos como os usuários efetivos de um único e mesmo código lingüístico, que compreende os mesmos legi-signos. Um código comum é o seu instrumento de comunicação, que fundamenta e possibilita efetivamente a troca de mensagens [Jakobson 1961: 77]”. (p. 131)

“O código da linguagem verbal não é um repertório fechado de elementos de escolha para uma mensagem, mas ‘um código conversível com todas as flutuações de subcódigo para subcódigo e todas as mudanças que sofre continuamente (ibid: 79)”. (p. 132)

1.4 A teoria das funções comunicativas

“Esta teoria contextualiza-se na tradição do funcionalismo semiótico e se baseia na tese de que comunicação é um instrumento que serve a várias finalidades”. (p. 132)

“O REMETENTE envia uma MENSAGEM ao DESTINATÁRIO. Para ser eficaz, a mensagem requer um CONTEXTO a que se refere (ou ‘referente’, em outra nomenclatura algo ambígua) apreensível pelo destinatário, e que seja verbal ou suscetível de verbalização; um CÓDIGO total ou parcialmente comum ao remetente e ao destinatário (ou, em outras palavras, ao codificador e ao decodificador da mensagem); e finalmente, um CONTATO, um canal físico e uma conexão psicológica entre o remetente e o destinatário, que os capacite a ambos a entrarem e permanecerem em comunicação [Jakobson 1960: 123]”. (pp. 133-134)

2. Lotman: Comunicação, código e cultura

“Júri M. Lotman (1922-1993), o fundador da semiótica da cultura de Tartu na Estônia, estudou a comunicação na base das teorias clássicas da informação e da comunicação, sobretudo na sua mediação por Roman Jakobson. […] Os elementos mais originais da semiótica de Lotman, do ponto de vista da teoria da comunicação, encontram-se em sua interpretação dos códigos, da autocomunicação e da semiosfera como o contexto cultural da comunicação”. (pp. 135-136)

2.1 Comunicação, linguagens e sistemas de signos

“Os estudos da comunicação de Lotman estão mais voltados para o estudo dos sistemas do que para os processos de comunicação. Seguindo a tradição estruturalista da semiótica, Lotman (1970:35) define qualquer ‘sistema de comunicação que utiliza signos ordenados de modo particular’ como uma linguagem”. (p. 136)

“Um sistema semiótico que não serve de meio de comunicação e que é portanto um campo de estudo semiótico além dos processos comunicativos, manifesta-se nas ‘formas de atividade humana que não se ligam diretamente e pelo seu objetivo para a acumulação e para a transformação de uma informação’ […] fica claro que o conceito de comunicação, para Lotman, está indissoluvelmente conectado com o conceito de informação”. (p. 137)

“[…] para Lotman, o conceito de signo se orienta pelo modelo do signo verbal: só é signo o que se destaca de uma maneira visível ou audível de um fundo não-sígnico. Comunicação sem signos, neste sentido, é portanto comunicação ‘extra-semiótica’”. (p. 137)

2.2 O ideal da comunicação como transmissão de informação

“[Para Lotman] há um paralelismo significante entre os conceitos básicos da lingüística saussuriana e da teoria da informação: A dicotomia da fala e da língua, na lingüística estrutural, corresponde à dicotomia da informação e do código na teoria da informação. Porém, o código, no sentido dos engenheiros da comunicação, é menos do que uma língua. Na interpretação de Lotman (1999:15-16) o código, neste sentido, é um sistema sem memória […]”. (p. 138)

2.3 A dinâmica das diferenças entre os códigos do emissor e do receptor

“Há sempre e necessariamente diferenças entre os códigos do emissor e do receptor, porque um código, conforme Lotman […] não é só um sistema de regras para codificar e decodificar mensagens, mas também consiste da totalidade da experiência verbal e da memória dos indivíduos […]”. (p. 140)

“‘O intercâmbio de informação dentro dos limites das partes interseccionadas do espaço de sentido continua sofrendo do mesmo vício da trivialidade. O valor do diálogo resulta unido não à parte que se intersecciona, mas à transmissão de informação entre as partes que não se interseccionam. Isso nos coloca diante de uma contradição insolúvel: estamos interessados na comunicação justamente devido a essa situação que torna a comunicação difícil e, no limite, a torna impossível. Ou melhor, quanto mais difícil e inadequada for a tradução de uma parte não interseccionada do espaço à língua da outra, mais precioso, nas relações informativas sociais, torna-se o fato dessa comunicação paradoxal. Pode-se dizer que a tradução do intraduzível vem a ser de um valor elevado para o portador da informação’ [Lotman 1999:17]”. (p. 141)

2.4 Autocomunicação

“O efeito da autocomunicação é uma transformação do eu, uma reconstrução da própria personalidade, ‘visto que a essência da personalidade pode ser pensada como um conjunto individual de códigos socialmente significantes, e esse conjunto muda durante o ato da comunicação”. (p. 142)

2.5 Comunicação na semiosfera

“A semiosfera constitui o contexto cultural da comunicação. […] O destinador e o destinatário da comunicação se encontram ‘imersos’ neste espaço semiótico, e ‘fora da semiose não há comunicação’. Nesse espaço contextual surge o paradoxo de que ‘todos os participantes do ato comunicativo precisam ter experiência comunicativa, ter familiaridade com semiose, de maneira que a experiência comunicativa precede o ato comunicativo’. Assim, a semiosfera existe tanto antes da comunicação quanto ela se cria e é transformada por ela. Essas pré-condições da comunicação impedem os comunicadores de serem instâncias inteiramente autônomas, pois não são só eles que comunicam, mas também a semiosfera, e, através dela, a memória cultural” (p. 143).

3. Eco e o paradigma da teoria clássica da comunicação

“A semiótica da cultura de Umberto Eco (1932-) combina os fundamentos da semiologia estruturalista de Louis Hjelmslev e do estruturalismo francês com elementos da teoria clássica da comunicação, da cibernética e da teoria da informação dos anos 1950 e 1960”. (pp. 143-144)

3.1 Semiótica da comunicação e semiótica da significação

“A distinção entre a semiótica da comunicação e a semiótica da significação, que Eco estabelece, é fundamentalmente diferente daquela que Buyssens e Prieto estabeleceram com inspiração em Barthes (cf. PONZIO 1993:21-27). Naquela tradição, a semiótica da significação é um campo de pesquisa que começa com a interpretação dos índices não-intencionais no mundo natural e cultural do sintoma diagnosticado até o comportamento não-verbal observado. Continua ainda com o estudo dos processos comunicativos mais complexos. Comunicação, nesta tradição, inclui significação, mas os dois se distinguem pelo critério da intencionalidade. Enquanto comunicação pressupõe intenção e significação, significação pode ser não-comunicativa. Para Eco, a relação entre os dois ramos de sua semiótica da cultura é justamente o oposto disso. A semiótica da comunicação inclui a semiótica da significação, mas comunicação é possível sem significação. Comunicação começa com meros estímulos, que evocam reações automáticas. O simples fluxo de informação que pode ser encontrado até em máquinas já é comunicação. Qualquer transmissão de sinais não-intencionais de uma fonte a um receptor é comunicação, mas comunicação ainda sem significação. Significação pressupõe sentido, não só sinais, mas signos, emitidos e recebidos por seres humanos na base de um código, que leva a uma interpretação humana. Significação, assim definida, possui a comunicação como seu pressuposto. A definição subjacente é aquela que também se encontra no dicionário de Greimas e Courtés (1979:418): ‘produção de sentido’ ou ‘sentido produzido’”. (pp. 144-145)

3.2 Estrutura elementar da comunicação: O modelo cibernético

“O signo de Eco se chama de sinal na semiótica de Prieto, enquanto o sinal de Eco é o que Prieto define como índice. A terminologia de Eco está mais em conformidade com aquela usada pelos engenheiros da informática”. (p. 145)

“O fluxo automático da informação nesta cadeia comunicativa elementar representa uma seqüência de causalidades. A fonte é a primeira, o destinatário é a última causa da seqüência dos eventos interligados. O uso de cadeias comunicacionais deste tipo, tendo em vista dominar máquinas, situações no nosso meio ambiente e até processos de interação humana, constitui o programa da cibernética”. (p. 147)

3.3 Comunicação por estímulos

“Em resumo, há duas formas principais de comunicação sem significação: aquela por meio de sinais em máquinas, que se baseia em códigos, e a comunicação em processos de estímulo-resposta, que ocorre sem ser codificada. O que os dois processos têm em comum, na interpretação de Eco, é o fato de que se trata de um fluxo de informação num processo diádico, que é um processo de causalidade”. (p. 148)

3.4 Comunicação humana, significação e cultura

“Uma das teses centrais da semiótica da cultura de Eco (1976:5) é: ‘A semiótica estuda todos os processos culturais como processos de comunicação’. Evidentemente, o oposto não segue, pois nem todos os processos de comunicação são processos culturais. […] Se a cultura se manifesta, então, sempre em formas de comunicação humana, e a comunicação, por seu lado, nem sempre pressupõe cultura, qual é a diferença específica da comunicação humana? A resposta, que Eco (1976:6) dá, situa o conceito de significação no centro da comunicação humana e cultural: ‘Quando o destinatário é um ser humano […], vemo-nos […] em presença de um processo de significação, desde que o sinal não se limite a funcionar como simples estímulo, mas solicite uma resposta interpretativa por parte do destinatário. […] Todo processo de comunicação entre seres humanos […] pressupõe um sistema de significação como pré-condição necessária’”. (pp. 148-149)

“Essa possibilidade de uma semiótica da significação independente de uma semiótica da comunicação parece, à primeira vista, surpreendente, visto que significação pressupõe comunicação, mas, de fato, não há aqui contradição, pois Eco não fala de uma significação que pode ser independente da comunicação, mas de uma independência entre a semiótica da significação e a semiótica da comunicação. Uma vez que a semiótica da comunicação é uma semiótica da cultura (excluindo a comunicação pré-cultural), ela é necessariamente uma semiótica que trata exclusivamente de processos que envolvem significação”. (p. 150)

3.6 O código: fonte e chave para a comunicação

“O código da comunicação humana é o sistema que estabelece correlações entre os signos e significados. O significado de um signo que se baseia num código ‘é um fenômeno de cultura descrito pelo sistema de relações que o código define como aceito por determinado grupo em determinada época” (Eco 1968:35). Assim, o código é uma espécie de chave necessária para entender a mensagem. […] Os significados, estabelecidos pelo código, são a fonte da significação, instância semiótica que falta no modelo cibernético. […] ‘Existe pois entre emissor e destinatário um código em comum e, por isso, uma série de regras que atribui ao signo um significado. […] O signo não é apenas um elemento que entra num processo de comunicação (posso também transmitir e comunicar uma série de sons privados de significado), mas é uma entidade que entra num processo de significação’ [ECO 1973:26-27]. […] A presença obrigatória do código no processo de comunicação cria restrições aos seus participantes e, no fim das contas, faz com que a mensagem não seja só uma mensagem do emissor, mas também do código. Assim, o código vira fonte e co-autor da mensagem. O falante é ‘falado pelo código’. Aqui aparece um dos grandes temas do estruturalismo dos anos 1960-70, o tema do homem capturado na prisão da linguagem e dos códigos dos quais ele não pode escapar”. (pp. 151-153)

3.7 O remetente: fonte e emissor

“Enquanto o destinatário é necessariamente um ser humano, não é preciso que a fonte de uma mensagem significativa também o seja. Eco (1976:6) prevê a possibilidade de uma fonte não-humana que pode ‘emitir um sinal conforme as regras conhecidas do destinatário humano’. Com essa extensão da definição da fonte, o quadro dos estudos semióticos da comunicação se estende para incluir interações entre seres humanos e máquinas, como por exemplo o diálogo de um homem com um computador inteligente. A semiótica, que se estende nessa direção, vai além dos limites daquelas teorias semióticas da comunicação que insistiam no critério da intencionalidade da mensagem […]”. (pp. 153-154)

“A circunstância introduz-se no universo semiológico, que é um universo de convenções culturais, com o peso de uma realidade ineliminável […] Visto que o destinatário precisa, na decodificação, mobilizar tantos recursos não indicados explicitamente na mensagem nem inscritos no código, Eco chega à conclusão de que a mensagem, sem a atividade interpretativa do destinatário é uma ‘forma aberta’ ou ‘vazia’ […] ‘a que se podem atribuir vários sentidos possíveis”. (p. 155)

Cap. 5 – A comunicação na Semiose e na Dialogia

1. A semiótica peirceana também é uma teoria da comunicação

“Essa semiótica ou lógica é sobretudo uma filosofia concebida como filosofia científica que possui toda a generalidade necessária a um corpo filosófico de pensamento. Suas concepções foram tratadas com a mesma espécie de cuidado pela precisão de um matemático e ‘com uma compreensão de propósitos, uma penetração nos fundamentos e uma devoção aos detalhes de seu desenvolvimento teórico até hoje sem paralelos’ na história da filosofia (RANSDELL 1977:158)”. (pp. 156-157)

1.1 A semiótica como uma filosofia científica

“A lógica ou semiótica foi […] concebida como um método para o desenvolvimento de um conceito altamente abstrato de mente, conceito esse derivado de tudo aquilo que está implícito na tendência para a verdade que habita os arcanos da alma humana. Afirmando-se de modo breve, aí está exposto o desideratum mais geral de sua filosofia”. (pp. 157-159)

1.2 A generalidade do signo

“Tendo em vista o objeto da teoria, para Peirce, os próprios seres humanos são signos. Toda nossa vida e pensamento são signos. No entanto, ele foi ainda mais longe: qualquer outra coisa que qualquer coisa possa ser, ela também é signo. Para aquém do limiar logocêntrico e mesmo do limiar antropocêntrico, a generalidade do conceito de semiose vai até o ponto da afirmação de que ‘o universo inteiro está permeado de signos, se é que não seja composto exclusivamente de signos’”. (p. 159)

“[…] além de ser uma filosofia científica, a semiótica geral também pretende funcionar como uma teoria fundacional, como um método geral da e para a investigação científica, ou mesmo como um mapa de orientação fenomenológica e epistemológica para ser usado por qualquer disciplina de qualquer espécie […]. Se isso é verdadeiro para qualquer campo científico ou disciplina, é ainda mais verdadeiro para a comunicação como campo de conhecimento, visto que a semiótico não apenas pode ser vista como uma teoria da comunicação, mas também pode-se dizer que a noção peirceana de semiose está enraizada num processo comunicacional”. (pp. 159-160)

1.3 O pensamento como diálogo

“[…] a semiose é, antes de tudo, um processo de interpretação, pois a ação do signo é a ação de ser interpretado em um outro signo. Por isso mesmo, o significado de um signo é um outro signo e assim por diante, processo através do qual a semiose está em permanente devir. Como poderia haver comunicação se não houvesse produção de signos para serem interpretados? Em um nível ainda mais profundo, a concepção peirceana de semiose, que é um modelo comunicacional abstrato, tem início no dictum de que todo pensamento deve ser considerado como dialógia na sua forma […] Nessa visão dialógica do pensamento, ser pensante significa distinguir dentro de si diferentes papéis em um diálogo contínuo de um eu presente que se dirige a um eu futuro emergindo no fluxo do tempo. Em sua forma mais simples, o pensamento envolve dois papéis, o do eu crítico e o do eu inovador. Quando pensamos, é o eu inovador que tenta persuadir o eu crítico. Este último representa os hábitos da pessoa, enquanto o primeiro desafia esses hábitos. Dialogicidade, neste sentido mais amplo, não pressupõe nenhuma intencionalidade dirigida pela consciência”. (pp. 161-62)

1.4 A troca de signos na conversação

“‘A ação do signo geralmente ocorre entre duas partes, o emissor e o intérprete […]’[Peirce (MS 318:17] emissor e receptor alternam-se, pois o que importa, no caso, é o fluxo dos signos”. (p. 162)

“‘O signo do falante só pode ser uma parte de sua idéia sobre sua própria vida’, e ele é sempre somente ‘uma cópia de um pedaço’ de sua vida. Quanto ao intérprete, este se ocupa de uma segunda cópia deste pedaço copiado e tem de saber onde exatamente, ‘no seu próprio panorama da vida universal, ele pode encaixá-la’ (MS 318:194-95)”. (p. 163)

1.5 A semiose como estrutura abstrata do diálogo

“[…] objeto-signo-interpretante é a tríade na qual a tríade do emissor-enunciado-intérprete se transformou quando esta última foi levada até à sua essência lógica. […] [Peirce] procura os elementos que podem virtualmente desempenhar os papéis significantes de emissor e intérprete”. (p. 164)

“O interpretante é um conceito muito vasto que inclui o intérprete, mas não se reduz a ele. O intérprete corresponde apenas a um dos níveis do interpretante, que Peirce chama de interpretante dinâmico”. (p. 166)

1.6 O objeto como ingrediente essencial do emissor

“Em última instância, o emissor de um signo, de qualquer fenômeno interpretável, é a realidade em si mesma. Isso é verdadeiro mesmo no caso de um falante humano, quando somos levados a pensar que é a realidade que fala através do falante. Essa postulação peirceana pode ser complementada na sua afirmação de que a linguagem não está em nós, mas somos nós que estamos na linguagem”. (pp. 166-167)

1.7 A semiose como via explicativa da comunicação

“A partir dessa definição [do signo de Peirce] alguns aspectos da tríade podem ser colocados em relevo, a saber: (a) o signo é determinado por um objeto, isto é, o objeto causa o signo, mas (b) o signo representa o objeto e, por isso mesmo, é um signo, (c) o signo só pode representar o objeto parcialmente e (d) representar o objeto significa que o signo é capaz de afetar uma mente, isto é, produzir um certo efeito nessa mente, (e) esse efeito é chamado de interpretante do signo; (f) o interpretante é imediatamente devido ao signo e mediatamente devido ao objeto, quer dizer, (g) é o objeto que determina o intepretante, mas somente o pode determinar pela mediação do signo”. (pp. 168-169)

1.8 Os processos comunicativos numa moldura de interfaces

“Nas interfaces da objetivação, significação e interpretação, os processos de comunicação podem ser vistos como um jogo entre um conjunto de práticas e processos através dos quais diversas perspectivas se fundem na perspectiva inclusiva e ampla da semiose ou ação dos signos”. (p. 170)

2. Charles Morris: Comunicação, semiose e comunagem

“Semiose pode ser não-comunicativa e comunicativa, e tanto a semiose em geral quanto a comunicação pode ser humana ou animal. O estudo da semiose pertence à pragmática, o ramo da semiótica que trata ‘da relação dos signos com os seus interpretes’ ou ‘dos aspectos bióticos da semiose’ (Morris 1938: 17,50)”. (p. 171)

2.1 Semiose

“Semiose, na definição de Morris (1938:13), é ‘o processo pelo qual algo funciona como signo’. Para Morris, um tal processo envolve três fatores: (a) o veículo do signo [S], quer dizer, ‘aquilo que funciona como signo’, (b) o designatum [D], ‘aquilo a que o signo se refere’ e (c) o interpretante [I], que, para Morris, é ‘o efeito sobre um intérprete em virtude do qual a coisa em questão é um signo para esse intérprete’ (ibid.). A distinção entre o interpretante e o intérprete é importante: ‘O intérprete de um signo é um organismo; o interpretante é o hábito do organismo de responder, por causa do veículo do signo, a objetos ausentes, que são relevantes para uma situação problemática presente, como se estivessem presentes’ (ibid.: 53)”. (p. 171)

2.2 Comunicação: o comunicador e o destinatário

“[…] comunicação é um processo que pressupõe um comunicador e um destinatário. Morris cria os neologismos ingleses communicator e communicate para sublinhar a simetria na situação comunicativa. O comunicador, na definição do behavorista Morris, é ‘um organismo que produz um signo, que é um estímulo do comportamento social para um organismo (o destinatário)’, e o destinatário é ‘um organismo que interpreta um signo produzido por um comunicador’”. (p. 172)

2.3 Mediação, instrumentalidade dos signos e o alcance dos comunicadores

“Por meio da comunicação, o horizonte do comunicador se estende do imediato para o distante. Antecipando Marshall McLuhan, que falaria mais tarde das mídias como extensões do homem, Morris diz que os signos e a comunicação têm a finalidade de estender o alcance dos comunicadores no tempo e no espaço […]”. (p. 173)

“Para entender melhor a teoria instrumental e a idéia da mediação por signos, vale a pena considerar o oposto, a ação e a interação imediata entre dois organismos. Um cachorro que come um osso age, mas a sua ação não é semiose na teoria semiótica instrumentalista. […] Dois boxeadores num combate, também não comunicam. Na medida em que a interação deles é uma mera troca de socos, eles não trocam signos […] Comportar (‘to behave’) é o conceito chave do behavorismo. O comportamento precede tanto a semiose como a comunicação”. (p. 174)

2.5 O destinatário como garantidor da comunicação e a simetria entre os comunicantes

“Enquanto a semiótica de Morris reconhece a situação unilateral, em que o comunicador falta, como uma situação de semiose, a teoria não tem um lugar igualmente sistemático para descrever uma situação unilateral do lado do emissor do signo. Uma situação em que um signo é emitido por um emissor sem que haja receptor, igual a um pregador no deserto, não é comunicação nem semiose. Porém, ela pode ser o que Morris chama de auto-comunicação”. (p. 175)

2.7 “Comunagem” e “comunização”

“[…] comunicação pressupõe elementos de bilateralidade e simetria entre o emissor e o receptor dos signos. Ambos precisam ter uma significação em comum, o que Morris descreve pelo neologismo de comunagem (ingl. commonage) […] ‘tornar comuns certas propriedades para vários objetos’ […] Morris restringe o conceito de comunicação ao ‘uso de signos para estabelecer comunagem de significação’ e pressupõe a possibilidade de uma comunagem sem signos. Para a descrição de um tal processo, ele introduz o neologismo de comunização (ingl. communization). Na sua definição, comunização é o ‘estabelecimento de comunagem outra que aquela de significação – seja por signos ou outros meios. Para entender a tese de Morris de que possa haver comunagem sem signos é preciso lembrar que sua semiótica behaviorista distingue entre signos e comportamento não-semiótico (behavior)”. (p. 176)

3. Bakhtin: Comunicação dialógica

3.1 A crítica à teoria dos códigos e das mensagens

“Todorov (1981:87) salienta as diferenças com que as posições de Bakhtin se distinguem do modelo clássico: ‘Não é por acaso que Bakhtin usa enunciado mais do que mensagem, linguagem mais do que código, etc.: é porque, de fato, ele recusa deliberadamente a linguagem dos engenheiros para falar da comunicação verbal’”. (p. 179)

“Para Bakhtin, as instâncias da comunicação não são autônomas ou independentes umas das outras, mas se constituem unicamente pela própria comunicação. Sobretudo, a mensagem não existe previamente e não é transmitida à maneira de uma carta ou um telegrama, mas ela se constrói pelo processo comunicativo”. (pp. 179-180)

“A comunicação verbal  não é só verbal, mas inclui uma mensagem determinada pelo contexto situacional. Para Bakhtin, ‘o não dito é também comunicação’ (apud MACHADO 1995:70). Os fatores que Bakhtin enumera são ‘o espaço e o tempo da enunciação (onde e quando), o objeto ou tema do enunciado (aquilo de que se fala) e a relação dos locutores ao que se passa (a avaliação)’ e a ‘situação social’ (apud TODOROV 1981:69)”. (p. 181)

3.2 O enunciado da comunicação verbal

“A teoria da enunciação está no centro de uma nova abordagem da comunicação verbal que Bakhtin (1929:157-160) postula com o nome de metalingüística. Essa nova disciplina seria uma extensão da lingüística, uma translingüística, capaz de lidar com aspectos da ‘vida do discurso’ que a lingüística deixa de lado na sua restrição ao estudo da linguagem como sistema”. (p. 182)

“A unidade elementar do estudo metalingüístico é o enunciado. ‘Toda a comunicação verbal, toda a interação verbal se desenvolve na forma de uma troca de enunciados, quer dizer na forma de um diálogo’ (apud TODOROV 1981:71). […] ‘O enunciado se constrói entre duas pessoas socialmente organizadas, e não há interlocutor real, nós o pressupomos. […] O discurso é orientado para o interlocutor, orientado para aquilo que é o interlocutor’ (ibid.: 70)”. (p. 183)

3.3 O desaparecimento do enunciador na voz do outro

“‘Nenhum membro da comunidade verbal jamais encontra as palavras da língua que soem neutras, vazias de aspirações e de avaliações do outro, inabitadas da voz do outro. Não, ele recebe a palavra pela voz do outro, e essa palavra fica prenhe disso. Ela intervém no seu próprio contexto a partir de um outro contexto, penetrado das intenções do outro. Sua própria intenção encontra uma palavra já habitada’ [BAKHTIN apud TODOROV 1981:77]”. (p. 184)

“‘O discurso (como em geral todo signo) é interindividual. Tudo que é dito, exprimido, encontra-se fora da ‘alma’ do locutor e não lhe pertence unicamente. Não podemos atribuir o discurso a um só locutor. O autor (o locutor) tem seus direitos inalienáveis sobre o discurso, mas o ouvinte também tem seus direitos, e também os têm aqueles cujas vozes ressoam nas palavras encontradas pelo autor (pois não existem palavras que não pertencem a ninguém). O discurso é um drama que comporta três papéis (não é um duo, mas um trio). Ele ocorre fora do autor, e é inadmissível que ele o projete em si [ibid.:83] ’”. (p. 186)

3.4 Comunicação dialógica e heteroglóssia

“Se Bakhtin afirma que o discurso não é só um monólogo mas um diálogo, se ele continua dizendo que o discurso não é um duo mas um trio, ele não demora em falar da polifonia do discurso. Isto é o tema daquilo que ele chama de heteroglóssia, o ‘falar em muitas línguas alheias’”. (p. 186)

“A dialogicidade é a característica fundamental de um mundo heteroglossálico. ‘Toda compreensão verdadeira é dialógica’, escreve Voloshinov (1930:102). Bakhtin eleva o status do dialógico inclusive a um princípio de vida: ‘Ser significa comunicar-se pelo diálogo. Quando termina o diálogo, tudo termina. Daí o diálogo, em essência, não poder nem dever terminar. […] Tudo é meio, o diálogo é o fim. […] Duas vozes são o mínimo de existência’ (BAKHTIN 1929:223). Não existe nenhum significado, nenhum pensamento que não seja dialógico, pois ‘tudo significa e é compreendido como parte de um todo maior – há uma interação constante de significados; todos trazem, em si, o potencial de determinar os demais’ (BAKHTIN 1981:426)”. (p. 187)

“A dialogicidade não decorre somente da comunicação com o outro, mas também do diálogo interior. Através dele, constitui-se o eu (self), que se confronta com o outro também enquanto um mesmo antigo ou posterior e, assim, constitui um mesmo sempre em transformação […] O princípio dialógico de Bakhtin aponta para paralelos surpreendentes com Peirce, que descreve o processo da semiose como dialógica e ilimitada (SANTAELLA 1986)”. (p. 188)

Cap. 6 – A Semiótica na Comunicação

2. Informação

“Segundo nossa hipótese, o conceito de informação pode ser redefinido dentro de um paradigma semiótico ou, como querem alguns, ser substituído pelo conceito de semiose (ver Silva 2000)”. (p. 190)

“Como já foi afirmado por Marcus [1997:21], os principais parâmetros da teoria estatística da informação, a saber, entropia e redundância, servem para descrever os aspectos globais de um processo de comunicação. Deve vir disso o grande poder de penetração que esse conceito encontrou nesse campo”. (p. 191)

“Na semiótica de C. S. Peirce, o conceito de informação está relacionado com um dos tipos de signos, a saber, o símbolo”. (p. 193)

“A ela [definição de signo de Peirce] foi adicionada uma grade de diferentes funcionamentos sígnicos. A que ficou mais conhecida é a tríade do ícone, índice e símbolo, como se segue.

Se o signo em si mesmo é uma qualidade, quali-signo (por exemplo, uma cor azul clara), em relação ao objeto a que ele se assemelha, esse signo só pode funcionar como ícone (do céu em um dia de sol que o azul sugere) e em relação ao interpretante, que ele está apto a produzir, o quali-signo icônico só pode ser um rema, signo hipotético ou conjectural (o azul claro pode sugerir o céu, mas também pode sugerir outras coisas azuis).

Se o signo em si mesmo é um existente, sin-signo (por exemplo, uma foto na capa de um jornal diáro), em relação ao objeto que ele indica (uma determinada situação da realidade que a foto capturou), esse signo funciona prioritariamente como um índice e em relação ao interpretante que ele está apto a produzir, o sin-signo indicial será interpretado como um dicente, signo de existência concreta (seria possível ter acesso à situação fotografada por outros meios, especialmente o testemunho).

Se o signo em si mesmo é um legi-signo (por exemplo, este parágrafo em língua portuguesa que o leitor está agora lendo), em relação ao objeto que ele representa (a classificação dos signos de Peirce), esse signo funcionará como símbolo e em relação ao interpretante que deve produzir, o legi-signo simbólico será interpretado como um argumento, princípio de seqüência (o efeito de significação que este parágrafo produz na mente daquele (a) que nos lê).

Para Peirce, o conceito de informação, que está relacionado a dois outros conceitos, o de denotação e conotação, aplica-se apenas ao símbolo. A denotação de um símbolo, também chamada de extensão do símbolo, caracteriza-se pelos objetos aos quais o símbolo se aplica ou se refere. Enquanto a denotação concerne ao aspecto quantitativo, a conotação, também chamada de significação, concerne ao aspecto qualitativo do conteúdo de um símbolo”. (pp. 194-195)

“A relação entre a extensão, a conotação (ou compreensão) e a informação expressa-se na seguinte equação: a informação é o produto da denotação e da conotação do símbolo. Mas Peirce dá prioridade à conotação porque a soma dos caracteres (conotativos) do símbolo governa sua aplicabilidade. Assim, numa definição mais precisa, a informação estaria mais conectada com a compreensão (e, portanto, com a conotação) do que com a extensão, visto que a informação é definida como ‘a quantidade de compreensão que um símbolo tem além daquilo que limita sua extensão’ (Peirce 1982: 287)”. (p. 196)

“[…] para se compreender o funcionamento de situações comunicativas não-verbais, a saber, a natureza de suas mensagens, sua contextualização e os processos de recepção que estão aptas a produzir, o conceito de semiose é muito mais eficaz [que o de informação]. […] Não apenas o símbolo envolve outros elementos além da informação, quanto também o discurso verbal está entremeado de outros tipos de signos, além do símbolo”. (p. 197)

3. Representação e mediação

“A semiótica peirceana é uma teoria complexa e multifacetada da representação. […] A despeito de sua complexidade, a representação é apenas uma face de um conceito mais geral que é o conceito de mediação. A chave para a compreensão de todas essas noções está nas definições e classificações peirceanas de signos […]”. (pp. 198-199)

3.1 A representação como uma faceta da mediação

“Não é a natureza existencial de algo que faz esse algo ser signo, nem ser objeto, nem ser interpretante, pois qualquer um dos três elementos pode pertencer a qualquer ordem de existência, inclusive a existência de uma ficção ou de uma alucinação. O que os faz funcionar como signo, objeto e interpretante é a relação lógica que se estabelece entre eles, ou seja, o modo como essa tríade se articula. […] A posição do signo é mediadora entre o objeto e o interpretante, tanto no vetor da representação quanto no vetor da determinação. O signo faz face simultaneamente em duas direções: ele faz face para o objeto em uma posição passiva de ser determinado, ao mesmo tempo em que está na posição ativa de representar o objeto para o interpretante, fazendo, então, face para o interpretante em uma posição ativa de determinação”. (p. 201)

“[…] enquanto a função mediadora é uma função geral, a função representativa corresponde apenas a um dos vetores da função mediadora do signo. Por representar o objeto é que o signo pode cumprir a função mediadora”. (p. 202)

3.2 Mediação e meios

“A mediação do signo é inalienável porque não pode haver conexão direta entre uma mente e outra, entre um objeto e uma mente. Nesse sentido, o signo como medium de comunicação não se confunde com aquilo que, desde as primeiras décadas do século 20, passou a ser chamado de meios de comunicação, pois estes, na realidade, referem-se aos veículos de massa […] Ora, veículos em si não cumprem funções mediadoras. Essas funções são desempenhadas pelos fluxos de signos que neles circulam” (pp. 202-203).

3.3 Os signos genuínos e os quase-signos

“Por ter baseado sua semiótica na fenomenologia, ele [Peirce] pôde estender a noção de signo tão longe de modo a considerar como signos também os fenômenos que não são inerentemente triádicos, isto é, fenômenos de secundidade e de primeiridade. Desse modo, mesmo uma ação ou reação meramente diádicas podem funcionar como signos tão logo encontrem um intérprete […]”. (p. 204)

“São essas extensões da noção de signo, essas misturas e classes de signos às quais elas dão origem, os vários graus de semiose degenerada, que comparecem nas variadas classes de signos de Peirce, que podem funcionar como ferramentas analíticas para o estudo dos diferentes graus de representação que vão da representação convencional, passam pela apresentação, pela quase-representação até chegar ao limite da presentificação, cujos exemplos vicejam nas artes, na música e na poesia. À luz desses conceitos peirceanos, não precisamos denegrir a representação ou apelar para uma pretensa crise da representação para fazermos jus aos fenômenos fragilmente representativos, tais como meras qualidades de cores, luzes, formas e sons no lusco-fusco das impressões com que nossa sensibilidade pode ser presenteada. À luz da semiótica peirceana o mundo não é visto em preto e branco, mal e bem, representação e anti-representação, mas em uma sutileza de graus que se espraiam no contínuo”. (pp. 205-206)

3.4 Da representação à apresentação

“Tradicionalmente, uma distinção importante foi feita entre representação e apresentação. ‘A apresentação se refere à presença direta de um conteúdo na mente, enquanto a representação está reservada à consciência de um conteúdo que necessariamente envolve elementos de reprodução e duplicação (Scheerer et al. 1992:827)”. (p. 206)

“No caso das relações diádicas, temos signos de secundidade, isto é, índices. Em vez de representações, os índices são meros casos de apresentações. […] Isso se dá particularmente porque, devido às relações existenciais que os índices implicam, a maior parte deles está envolvida em processos perceptivos, nos quais o elemento indicial predomina”. (p. 207)

“Diferente da tradição, a teoria da percepção peirceana é triádica. Em todo processo perceptivo, três elementos estão envolvidos: o percepto, o percipuum e o juízo perceptivo. O percepto corresponde àquilo que comumente é chamado de estímulo. Algo, fora de nós, se apresenta à nossa percepção. Bate insistentemente à porta dos nossos sentidos. Não podemos evitar atentar para aquilo que está lá para ser percebido, pois nossos sentidos funcionam como janelas abertas para tudo que a eles se apresenta. O que está lá fora, aparecendo aos sentidos, é o percepto. Tão logo o percepto atinge os nossos sentidos, ele é imediatamente convertido em percipuum. […] No terceiro nível, surge mais propriamente o juízo perceptivo. Tão logo o percepto é recebido sob a forma de percipuum, este é imediatamente capturado pelos esquemas gerais de interpretação com que o ser humano está provido. Esse elemento de generalidade corresponde aos princípios condutores ou hábitos mentais que regulam a formação do juízo de percepção. É através do juízo perceptivo que reconhecemos aquilo que é percebido”. (pp. 207-209)

“Os juízos perceptivos são, portanto, inferências lógicas, elementos generalizantes que pertencem à terceiridade e que fazem com que o percipuum se acomode a esquemas mentais e interpretativos mais ou menos habituais. […] Embora sejam inferências lógicas, os juízos perceptivos se forçam sobre a nossa aceitação e nosso reconhecimento através de processos mentais sobre os quais não temos o menos domínio consciente, processos que estão totalmente fora de nosso controle”. (pp. 208-209)

“[…] o juízo perceptivo não representa logicamente o percepto. Ele o indica, como um sintoma que é forçado a corresponder a seu objeto (CP 7.628). […] Esse nível apresentativo da percepção, que está implicado nos signos indiciais, é grandemente responsável pelo caráter de apresentação desses signos. Índices se apresentam à percepção para que se possa, a partir de sua existência, constatar sua indexicalidade em relação a um outro existente de que o índice é parte”. (p. 209)

3.5 Da apresentação à presentificação

“No caso da mônada, somos confrontados com signos de primeiridade, a saber, ícones, que são signos no mais alto grau de degeneração e, portanto, quase-signos. Aqui, em vez de representação, ou mesmo de apresentação, falamos em quase-representação, visto que, por serem meros quali-signos, os ícones não têm poder de representação”. (p. 210)

“[…] no caso extremo dos ícones puros, a natureza da quase-representação é ainda mais rudimentar, atingindo o limite da presentificação”. (p. 211)

“[…] Peirce estava buscando decantar a noção do ícone até o extremo de algo que só pode ter uma natureza mental, mas em estado ainda tão rudimentar que não chega a se constituir nem mesmo como uma idéia, retendo-se na abertura indefinida de uma mera possibilidade”. (p. 212)

“Quando esse estado mental pré-emergencial do ícone, mera possibilidade à beira de uma estruturação, coagula-se em uma forma, essa forma é pura, pois não nasce da cópia de algo pré-existente. É configuração que se engendra e que está na medula de toda criação, na medida em que a verdadeira criação não busca simplesmente assemelhar-se à forma de algo, mas quer essencialmente dar forma. […] É por isso que a criação estética, quanto mais radicalmente criadora for, tanto mais será qualidade de sentimento que toma corpo em uma forma”. (p. 213)

“No ícone puro, enfim, está a possibilidade de algo original, nos seus inícios, nascente […] O ícone como mônada é fruto do potencial de nossa mente para produzir configurações que não foram copiadas de algo prévio, mas que irrompem sob o governo selvagem das associações, sob as engenhosas fabulações do demônio das similitudes que faz sua festa na mente dos artistas. Festa similar é reencenada no efeito estético que as grandes obras de literatura e arte produzem em nós. Por isso mesmo, para Borges, o efeito estético é uma forma de felicidade, instante de mergulho na eternidade fugidia da comunhão dos sentidos”. (p. 214)

“Além dos ícones puros, […] há também aquilo que, em Santaella (2000, 2001, 2003d), foi chamado de ícone atuais, ou seja, os ícones perceptivos que são de fundamental importância para se compreender as finíssimas gradações que se espraiam entre a apresentação e quase-representação e entre a quase-representação e a presentificação”. (pp. 214-215)

3.6 Gradações entre a quase-representação e a presentificação

“Há vários aspectos através dos quais o papel do ícone é desempenhado na percepção. Para chegarmos a eles, temos de considerar que todos os três – percepto, percipuum e juízo perceptivo – apresentam, cada qual, sua própria dimensão de primeiridade. É nessa dimensão que o papel do ícone se evidencia”. (pp. 215-216)

“No percipuum em nível de primeiridade, ficamos bem perto do ícone puro e da presentificação, com a diferença, entretanto, de que, quando falamos do percipuum, estamos nos referindo a um percepto externo que produz uma reação sobre a consciência. […] Além do aspecto de primeiridade, o percipuum apresenta um elemento de secundidade e de terceiridade. A secundidade se manifesta na dualidade típica das situações perceptivas entre algo, lá fora, que se apresenta à percepção e aquele que percebe. Neste caso, estamos diante da apresentação que é típica dos processos indiciais, conforme foi examinado acima. Mas há ainda o nível de terceiridade do percipuum em que este é absorvido nos esquemas gerais que regulam os juízos perceptivos”. (pp. 217-218)

“Todo ato de percepção deve incluir um ingrediente icônico. Esse ingrediente icônico corresponde ao aspecto monádico que está encapsulado no juízo perceptivo. Toda percepção tem um caráter esquemático. Nunca percebemos mais do que uma seleção extremamente limitada dos aspectos formais daquilo que é percebido. Embora a identidade material entre o objeto percebido e o modo pelo qual ele é percebido seja radicalmente distinta, há, contudo, uma comunhão na identidade formal de ambos. […] Entretanto, a variação espaço-temporal nos ângulos perceptivos rompe com essa identidade, evidenciando a disparidade material e abrindo o fosso entre o perceber (percipuum) e o percebido (percepto). É por isso que a percepção imediata, em sua imediaticidade, corresponde à identidade formal, antes da insinuação da disparidade material entre perceber e percebido. […] a imediaticidade é justamente aquilo que continuamente escapa, fazendo escapar a identidade material e abrindo a brecha entre o perceber e o percebido. Perceber é, assim, movimento de reunião e separação. Reunião formal (primeiridade, mônada) e separação material (secundidade, díada), para serem reintegradas cognitivamente em uma mediação intelectual que se dá no juízo perceptivo”. (pp. 219-220)

3.7 Apresentação e presentificação dentro da representação

“Mesmo quando não é conscientemente apreendido, há sempre um nível de apresentação dentro da representação. Antes de ser a representação de alguma outra coisa, um signo se apresenta a si mesmo. […] Para ser um signo, algo não precisa deixar de ser uma coisa perceptível em si mesma. […] dentro da secundidade, ou realidade existencial do signo, há sempre um certo grau de presentificação, não importa quão imperceptível ele possa ser”. (p. 222)

“Quando os poetas colocam as palavras em versos ou quando os quebram, o desenho do verso ou de suas quebras fazem parte da proeminência que a poesia coloca no aspecto de presentificação das palavras […] que se estende para a música das palavras e para as imantações de sentidos que elas propiciam. Essa inclusão da primeiridade e da secundidade dentro da terceiridade é também uma chave para a compreensão das diferenças entre representação, referência e imaginação. Em si mesmo, um signo genuíno, ou melhor, um símbolo, como foi chamado por Peirce, seria um mero sonho desencarnado. Para se corporificar, o símbolo precisa estar conectado ao seu objeto. Para esse propósito, índices são indispensáveis”. (pp. 222-223)

Conclusão

“[…] mensagens são signos, cadeias de signos ou complexos de signos. Se não há comunicação sem mensagens e se os signos, seus contextos, suas situações de emissão, suas significações e suas interpretações estão no campo de estudos da semiótica, as relações indissolúveis entre a comunicação e a semiótica ficam aí explicitadas”. (p. 226)

“Enfim, se seria um exagero afirmar que comunicação e semiótica são irmãs siamesas, o conteúdo deste livro nos permite concluir que o parentesco entre esses campos do conhecimento deve estar entre os mais próximos na extensa e densa rede das ciências na contemporaneidade”. (p. 227)

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