Ficha de Leitura: MIL PLATÔS, Vol. 2, de G. Deleuze e F. Guattari

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Felix. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia 2, vol. 2. São
Paulo, Ed. 34, 2011.

Uma regra de gramática é um marcador de poder, antes de ser um marcador sintático. A ordem não
se relaciona com significações prévias, nem com uma organização prévia de unidades distintivas,
mas sim o inverso. A informação é apenas o mínimo estritamente necessário para a emissão,
transmissão e observação das ordens consideradas como comandos. […] A linguagem não é a vida,
ela dá ordens à vida; a vida não fala, ela escuta e aguarda. Em toda palavra de ordem, mesmo de
um pai a seu filho, há uma pequena sentença de morte – um veredito, dizia Kafka. (DELEUZE;
GUATTARI, 2011, p. 13)

O esquema mais geral da informática admite, em princípio, uma informação máxima ideal, e faz
da redundância uma simples condição limitativa que diminui este máximo teórico para impedir
que seja encoberto pelo ruído. Dizemos, ao contrário, que aquilo que é primeiro é a redundância
da palavra de ordem, e que a informação é apenas a condição mínima para a transmissão das
palavras de ordem (é por isso que não há como opor o ruído à informação, mas, antes, opor
todas as indisciplinas que trabalham a linguagem, à palavra de ordem como disciplina ou
“gramaticalidade”). A [17] redundância tem duas formas, frequência e ressonância, a primeira
concernente à significância da informação, a segunda (EU = EU) concernente à subjetividade da
comunicação. Mas o que surge desse ponto de vista é justamente a subordinação da informação e da
comunicação, ou, mais ainda, da significância e da subjetivação, em relação à redundância. Ocorre
que informação e comunicação se separam; e, igualmente, que se destacam uma significância
abstrata da informação e uma subjetivação abstrata da comunicação. Mas nada disso nos dá uma
forma primária ou implícita da linguagem. Não existe significância independente de uma ordem
estabelecida de sujeição. Ambas dependem da natureza e da transmissão das palavras de ordem em
um campo social dado. (DELEUZE; GUATTARI, 2011, p. 17-18)

Passamos dos comandos explícitos às palavras de ordem como pressupostos implícitos; das
palavras de ordem aos atos imanentes ou transformações incorpóreas que eles expressam; depois,
aos agenciamentos de enunciação dos quais eles são as variáveis. Quando essas variáveis se
relacionam de determinado modo em um dado momento, os agenciamentos se reúnem em um
regime de signos ou máquina semiótica. (DELEUZE; GUATTARI, 2011, p. 24)

[…] não é ao descobrir ou representar um conteúdo que uma expressão entra em relação com ele.
É por conjugação de seus quanta de desterritorialização relativa que as formas de expressão e de
conteúdo se comunicam, umas intervindo nas outras, estas interferindo naquelas.
Podem-se tirar daí conclusões gerais acerca da natureza dos Agenciamentos. Segundo um
primeiro eixo, horizontal, um agenciamento comporta dois segmentos: um de conteúdo, o outro
de expressão. Por um lado, ele é agenciamento maquínico de corpos, ações e de paixões, mistura
de corpos reagindo um sobre os outros; por outro lado, agenciamento maquínico coletivo de
enunciação, de atos e de enunciados, transformações incorpóreas sendo atribuídas aos corpos.
Mas, segundo um eixo vertical orientado, o agenciamento tem, de uma parte, lados territoriais ou
reterritorializados que o estabilizam e, de outra parte, picos de desterritorialização que o arrebatam.
(DELEUZE; GUATTARI, 2011, p. 31)

O conteúdo não é um significado nem a expressão um significante, mas ambos são as variáveis do
agenciamento. (DELEUZE; GUATTARI, 2011, p. 35)

Uma constante, uma invariante se definem menos por sua permanência e sua duração do que por
sua função de centro, mesmo relativo. No sistema tonal ou diatônico da música, as leis de
ressonância e de atração determinam, em todos os modos, centros válidos, dotados de estabilidade e
de poder atrativo. Esses centros são assim organizadores de formas distintas, distintivas, claramente

estabelecidas durante determinadas porções de tempo: sistema centrado, codificado, linear, de tipo
arborescente. É verdade que o “modo” menor, em virtude da natureza de seus intervalos e da menor
estabilidade de seus acordes, confere à música tonal um carácter fugidio, evasivo, descentrado. Isso
explica a ambiguidade de ser submetido a operações que o alinham pelo modelo ou padrão maior,
mas entretanto também a de fazer valer uma certa potência modal irredutível à tonalidade, como se
a música viajasse, e reunisse todas as ressurgências, fantasmas [41] do oriente, recantos
imaginários, tradições de todas as partes. Porém, é o temperamento, o cromatismo temperado, que
apresenta uma outra ambiguidade, ainda maior: a de estender a ação do centro aos tons mais
longínquos, mas igualmente preparar a desagregação do princípio central, substituir as formas
centrais pelo desenvolvimento contínuo de uma forma que não para de se dissolver ou de se
transformar. […] é preciso esperar que o cromatismo se desencadeie, devenha um cromatismo
generalizado, se volte contra o temperamento, e afete não somente as alturas, mas todos os
componentes do som, durações, intensidades, timbres, ataques. Assim, não se pode mais falar de
uma forma sonora que viria organizar uma matéria; nem mesmo se pode mais falar de um
desenvolvimento contínuo da forma. Trata-se, antes, de um material deveras complexo e bastante
elaborado, que tornará audíveis forças não sonoras. O par matéria-forma é substituído pelo
acoplamento material-forças. […] a efervescência que afeta o próprio sistema tonal, em um longo
período dos séculos XIX e XX, e que dissolve o temperamento, amplia o cromatismo, conservando
ainda um tonal relativo, reinventa novas modalidades, conduz o maior e o menor para uma nova
mescla, e ganha a cada vez domínios de variação contínua para esta ou aquela variável. Essa
eferverscência passa para o primeiro plano, se faz ouvir por si mesma, e faz ouvir, por seu material
molecular assim trabalhado, as forças não sonoras do cosmos que sempre agitavam a música – um
pouco de tempo em estado puro, um grão de Intensidade absoluta… Tonal, modal, atonal, não
significam [42] mais quase nada. Não existe senão a música para ser a arte como cosmos, e traçar as
linhas virtuais da variação infinita. (DELEUZE; GUATTARI, 2011, p. 40-42)

A música ligou a voz e os instrumentos de maneiras bastante diversas; mas, como a voz é canto,
tem por papel principal “manter” o som, preenche uma função de constante, circunscrita a uma
nota, ao mesmo tempo em que é acompanhada pelo instrumento. É somente quando relacionada
ao timbre que ela desvela uma tessitura que a torna heterogênea a si mesma e lhe dá uma potência
de variação contínua: assim não é mais acompanhada, é realmente “maquinada”, pertence a uma
máquina musical que coloca em prolongamento ou superposição em um mesmo plano sonoro as
partes faladas, cantadas, sonoplastizadas, instrumentais e eventualmente eletrônicas. (DELEUZE;
GUATTARI, 2011, p. 42)

O que denominamos um estilo, que pode ser a coisa mais natural do mundo, é precisamente
o procedimento de uma variação contínua. Ora, dentre todos os dualismos instaurados pela
linguística, existem poucos menos fundados do que aquele que separa a linguística da estilística:
sendo um estilo não uma criação psicológica individual, mas um agenciamento de enunciação, não
será possível impedi-lo de fazer uma língua dentro de uma língua. (DELEUZE; GUATTARI, 2011,
p. 44)

Proust dizia: “as obras-primas são escritas em um tipo de língua estrangeira”. É a mesma coisa
que gaguejar, mas estando gago da linguagem e não simplesmente da fala. Ser um estrangeiro,
mas em sua própria língua, diferente da sua. Ser bilíngue, multilíngue, mas em uma só e mesma
língua, sem nem mesmo dialeto ou patuá. Ser um bastardo, um mestiço, mas por purificação da
raça. É aí que o estilo cria língua. É aí que a linguagem devém intensiva, puro contínuo de valores
e intensidades. É aí que toda língua devém secreta, e entretanto não tem nada a esconder, ao invés
de talhar um subsistema secreto na língua. Só se alcança esse resultado [46] através de sobriedade,
subtração criadora. A variação contínua tem apenas linhas ascéticas, um pouco de erva e água pura.
(DELEUZE; GUATTARI, 2011, p. 45-46)

“Potencial”, “virtual” não se opõem precisamente ao real; ao contrário, é a realidade do criativo,
o colocar em variação contínua das variáveis, que se opõe somente à determinação atual de suas
relações constantes. (DELEUZE; GUATTARI, 2011, p. 46)

5.
587 a.C.-70 d.C – SOBRE ALGUNS REGIMES DE SIGNOS

Denominamos regime de signos qualquer formalização de expressão específica, pelo menos quando
a expressão for lingüística. Mas parece difícil considerar as semióticas nelas mesmas: na verdade,
há sempre uma forma de conteúdo, simultaneamente inseparável e independente da forma de
expressão, e as duas formas remetem a agenciamentos que não são [64] principalmente lingüísticos.
Entretanto, podemos considerar a formalização de expressão como autônoma e suficiente. Pois,
mesmo nessas condições, há tanta diversidade nas formas de expressão, um caráter tão misto
dessas formas, que não se pode atribuir qualquer privilégio especial à forma ou ao regime do
“significante”. Se denominamos semiologia a semiótica significante, a primeira é tão somente um
regime de signos dentre outros, e não o mais importante. Por isso a necessidade de voltar a uma
pragmática, na qual a linguagem nunca possui universalidade em si mesma, nem formalização
suficiente, nem semiologia ou metalinguagem gerais. É então, antes de tudo, o estudo do regime
significante que dá testemunho da inadequação dos pressupostos linguísticos, em nome dos próprios
regimes de signos. (DELEUZE; GUATTARI, 2011, p. 64)

O regime significante do signo (o signo significante) possui uma fórmula geral simples: o signo
remete ao signo, e remete tão somente ao signo, infinitamente. (DELEUZE; GUATTARI, 2011, p.
64)

Estamos na situação descrita por Lévi-Strauss: o mundo começou por significar antes que se
soubesse o que ele significava, o significado é dado sem ser por isso conhecido. (DELEUZE;
GUATTARI, 2011, p. 65)

A forma vem sempre do significante. (DELEUZE; GUATTARI, 2011, p. 67)

Os principais estratos que aprisionam o homem são o organismo, mas também a significância e a
interpretação, a subjetivação e a sujeição. São todos esses estratos em conjunto que nos separam
do plano de consistência e da máquina abstrata, aí onde não existe mais regime de signos, mas
onde a linha de fuga efetua sua própria positividade potencial, e a desterritorialização, sua potência
absoluta. (DELEUZE; GUATTARI, 2011, p. 94)

É como se fosse necessário distinguir três tipos de desterritorialização: umas relativas, próprias
aos estratos, e que culminam com a significância; outras absolutas, mas ainda negativas e
referentes aos estratos, que surgem na subjetivação (Ratio e Passio); enfim, a eventualidade de
uma desterritorialização positiva absoluta absoluta no plano de consistência ou corpo sem órgãos.
(DELEUZE; GUATTARI, 2011, p. 95)

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