Ficha de Leitura: MIL PLATÔS, Vol. 4, de G. Deleuze e F. Guattari

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs – capitalismo e esquizofrenia, vol. 4. São Paulo:
Ed. 34, 2012.

Não dizemos absolutamente que o ritornelo seja a origem da música, ou que a música comece com
ele. Não se sabe muito bem quando começa a música. O ritornelo seria antes um meio de impedir,
de conjurar a música ou de poder ficar sem ela. Mas a música existe porque o ritornelo existe
também, porque a música toma, apodera-se do ritornelo como conteúdo numa forma de expressão,
porque faz bloco com ele para arrastá-lo para outro lugar. […] A música submete o ritornelo a esse
tratamento muito especial da diagonal ou da transversal, ela o arranca de sua territorialidade. A
música é a operação ativa, criadora, que consiste em desterritorializar o ritornelo. Enquanto que
o ritornelo é essencialmente territorial, territorializante ou reterritorializante, a música faz dele
um conteúdo desterritorializado para uma forma de expressão desterritorializante. (DELEUZE;
GUATTARI, 2012, p. 106)

Ora, o problema da música é diferente, se é verdade que seja o do ritornelo. Desterritorializar
o ritornelo, inventar linhas de desterritorialização para o ritornelo, implica procedimentos e
construções que nada têm a ver com os da pintura (a não ser vagas analogias, como os pintores
tentaram às vezes). (DELEUZE; GUATTARI, 2012, p. 107)

É preciso, portanto, levar em conta muitos fatores: as territorialidades relativas, as
desterritorializações respectivas, mas também as reterritorializações correlativas, e ainda
muitos tipos de reterritorializações, por exemplo intrínsecas como as coordenadas musicais, ou
extrínsecas como a decadência do ritornelo em refrão, ou da música em cançãozinha. (DELEUZE;
GUATTARI, 2012, p. 110)

Devir nunca é imitar. (DELEUZE; GUATTARI, 2012, p. 113)

Quinto teorema: a desterritorialização é sempre dupla, porque implica a coexistência de uma
variável maior e de uma variável menor, que estão ao mesmo tempo em devir (num devir, os dois
termos não se intercambiam, não se identificam, mas são arrastados num bloco assimétrico, onde
um não muda menos que o outro, e que constitui sua zona de vizinhança). – Sexto teorema: a dupla
desterritorialização não simétrica permite determinar uma força desterritorializante e uma força
desterritorializada, mesmo que a mesma força passe de um valor ao outro conforme o “momento”
ou o aspecto considerado; e mais do que isso, o menos desterritorializado sempre precipita a
desterritorialização do mais desterritorializante, que reage mais ainda sobre ele. (DELEUZE;
GUATTARI, 2012, p. 115)

A música envia fluxos moleculares. Certamente, como diz Messiaen, a música não é privilégio
do homem: o universo, o cosmo é feito de ritornelos; a questão da música é a de uma potência de
desterritorialização que atravessa a Natureza, os animais, os elementos e os desertos não menos
do que o homem. Trata-se, antes, daquilo que não é musical no homem, e daquilo que já o é na
natureza. E mais o que os etólogos descobriam do lado do animal, Messiaen o descobria do lado da
música: não há qualquer privilégio do homem, com exceção dos meios de sobrecodificar, de fazer
sistemas pontuais. (DELEUZE; GUATTARI, 2012, p. 119)

Sublinhou-se muitas vezes o papel do ritornelo: ele é territorial, é um agenciamento territorial.
[…] Ora se vai do caos a um limiar de agenciamento territorial: componentes direcionais, infra-
agenciamento. Ora se organiza o agenciamento: componentes direcionais, intra-agenciamento.
Ora se sai do agenciamento territorial, em direção a outros agenciamentos, ou ainda a outro
lugar: interagenciamento, componentes de passagem ou até da fuga. E os três juntos. Forças do
caos, forças terrestres, forças cósmicas: tudo isso se afronta e concorre no ritornelo. (DELEUZE;
GUATTARI, 2012, p. 124)

É a diferença que é rítmica, e não a repetição que, no entanto, a produz; mas, de pronto, essa
repetição produtiva não tinha nada a ver com uma medida reprodutora. Esta seria a “solução crítica
da antinomia”. (DELEUZE; GUATTARI, 2012, p. 126)

Há território a partir do momento em que há expressividade do ritmo. (DELEUZE; GUATTARI,
2012, p. 127)

O território não é primeiro em relação à marca qualitativa, é a marca que faz o território. As
funções num território não são primeiras, elas supõem antes uma expressividade que faz território.
(DELEUZE; GUATTARI, 2012, p. 128)

O ritornelo é o ritmo e a melodia territorializados, porque devindo expressivos – e devindo
expressivos porque territorializantes. Não estamos girando em círculo. Queremos dizer que há um
automovimento das qualidades expressivas. (DELEUZE; GUATTARI, 2012, p. 130)

Debussy criticava Wagner comparando os leitmotiv a marcos de sinalização que indicariam as
circunstâncias ocultas de uma situação, os impulsos secretos de um personagem. E é assim, num
nível ou em certos momentos. Mas quanto mais a obra se desenvolve, mais os motivos entram em
conjunção, mais conquistam seu própio plano, mais tomam autonomia em relação à ação dramática,
aos impulsos, às situações, mais eles são independentes dos personagens e das paisagens, para
devirem eles próprios paisagens melódicas, personagens rítmicos que não param de enriquecer suas
relações internas. (DELEUZE; GUATTARI, 2012, p. 133)

De um modo mais geral, o lied é a arte musical da paisagem, a forma mais pictural da música, a
mais impressionista. Mas os dois polos estão tão ligados que, também no lied, a Natureza aparece
como personagem rítmico de transformações infinitas. (DELEUZE; GUATTARI, 2012, p. 134)

Num sentido geral, chamamos de ritornelo todo conjunto de matérias de expressão que traça
um território, e que se desenvolve em motivos territoriais, em paisagens territoriais (há ritornelo
motores, gestuais, ópticos, etc.). (DELEUZE; GUATTARI, 2012, p. 139)

Um território está sempre em vias de desterritorialização, ao menos potencial, em vias de passar a
outros agenciamentos, mesmo que o outro agenciamento opere uma reterritorialização (algo que
“vale” pelo em-casa)… (DELEUZE; GUATTARI, 2012, p. 144)

Mesmo num agenciamento territorial, é talvez o componente o mais desterritorializado, o vetor
desterritorializante, como o ritornelo, que garante a consistência do território. (DELEUZE;
GUATTARI, 2012, p. 146)

O filósofo Eugène Dupréel havia proposto uma teoria da consolidação; ele mostrava que a vida não
ia de um centro a uma exterioridade, mas de um exterior a um interior, ou antes de um conjunto
vago discreto à sua consolidação. Ora, esta implica três coisas: que haja não um começo de onde
derivaria uma sequência linear, mas densificações, intensificações, reforços, injeções, recheaduras,
como outros tantos atos intercalares (“não há crescimento senão por intercalação”); em segundo
lugar, e não é o contrário, é preciso que haja acomodação de intervalos, repertição de desigualdades,
a tal ponto que, para consolidar, às vezes é preciso fazer um buraco; em terceiro lugar, superposição
de ritmos disparatados, articulação por dentro de uma inter-ritmicidade, sem imposição de medida
ou de cadência. A consolidação não se contenta em vir depois; ela é criadora. É que o começo não
começa senão entre dois, intermezzo. (DELEUZE; GUATTARI,2012, p. 148)

O agenciamento territorial é um consolidado de meio, um consolidado de espaço-tempo, de

coexistência e de sucessão. O ritornelo opera com os três fatores. (DELEUZE; GUATTARI, 2012,
p. 149)

É por isso que uma classificação dos ritornelos poderia se apresentar assim: 1) os ritornelos
territoriais, que buscam, marcam, agenciam um território; 2) os ritornelos de funções
territorializadas, que tomam uma função especial no agenciamento (a Cantiga de Ninar, que
territorializa o sono e a criança, a de Amor, que territorializa a sexualidade e o amado, a de
Profissão, que territorializa o ofício e os trabalhos, a de Mercado, que territorializa a distribuição
e os produtos…); 3) os mesmos, enquanto marcam agora novos agenciamentos, passam para
novos agenciamentos, por desterritorialização-reterritorialização (as parlendas seriam um caso
muito complicado: são ritornelos territoriais, que não se canta da mesma maneira de um bairro
para outro, às vezes até de uma rua para outra; elas distribuem papéis e [138] funções de jogo no
agenciamento territorial; mas também fazem o território passar pelo agenciamento de jogo que
tende, ele próprio, a se tornar autônomo); 4) os ritornelos que colhem ou juntam as forças, seja no
seio do território, seja para ir para fora (são ritornelos de afrontamento, ou de partida, que engajam
às vezes um movimento de desterritorialização absoluta “Adeus, eu parto sem olhar para trás”. No
infinito, esses ritornelos devem reencontrar as canções de Moléculas, os vagidos de recém-nascidos
dos Elementos fundamentais, como diz Millikan. Eles deixam de ser terrestres para tornarem-se
cósmicos: quando o Nomo religioso desabrocha e se dissolve num Cosmo panteísta molecular;
quando o canto dos pássaros dá lugar às combinações da água, do vento, das nuvens e das brumas.
“Fora o vento, a chuva…” O Cosmo como imenso ritornelo desterritorializado). (DELEUZE;
GUATTARI, 2012, p. 145)

Cada vez que um agenciamento territorial é tomado num movimento que o desterritorializa (em
condições ditas naturais ou, ao contrário, artificiais), diríamos que se desencadeia uma máquina.
É essa a diferença que queríamos propor entre máquina e agenciamento: uma máquina é como
um conjunto de pontas que se inserem no agenciamento em vias de desterritorialização, para
traçar suas variações e mutações. Pois não há efeitos mecânicos, isto é, eles dependem de uma
máquina diretamente conectada com o agenciamento e liberada pela desterritorialização. O que
nós chamamos de enunciados maquínicos são esses efeitos de máquina que definem a [155]
consistência onde entram as matérias de expressão. Tais efeitos podem ser muitos diversos, mas
eles jamais são simbólicos ou imaginários, eles sempre têm um valor real de passagem e de
alternância. (DELEUZE; GUATTARI, 2012, p. 155)

As máquinas são sempre chaves singulares que abrem ou fecham um agenciamento, um território.
(DELEUZE; GUATTARI, 2012, p. 156)

A música moleculariza a matéria sonora, mas devém assim capaz de captar forças não sonoras
como a Duração, a intensidade. Tornar a Duração sonora. (DELEUZE; GUATTARI, 2012, p. 168)

É óbvio que é preciso um som muito puro e simples, uma emissão ou uma onda sem harmônicos,
para que o som viaje, e que viajemos em torno do som (sucesso de La Monte Young nesse
aspecto). Você encontrará tanto mais disparates quanto mais você estiver numa atmosfera rarefeita.
(DELEUZE; GUATTARI, 2012, p. 171)

[…] nada garante que as moléculas sonoras da música pop não disseminem, aqui e ali, atualmente,
um povo de um novo tipo, singularmente indiferente às ordens do rádio, aos controles dos
computadores, às ameaças da bomba atômica. É nesse sentido que a relação dos artistas com o povo
mudou muito: o artista deixou de ser o Um-Só retirado em si mesmo, mas deixou igualmente de
dirigir-se ao povo, de invocar o povo como força constituída. Nunca ele teve tanta necessidade de
um povo, no entanto ele constata no mais alto grau que falta o povo – o povo é o que mais falta.
(DELEUZE; GUATTARI, 2012, p. 173)

Assim também, é desde sempre que a pintura se propôs a tornar visível, ao invés de reproduzir o
visível, e a música a tornar sonoro, ao invés de reproduzir o sonoro. […] É só quando a matéria é
suficientemente desterritorializada que ela própria surge como molecular, e faz surgir puras forças
que não podem mais ser atribuídas senão ao cosmo. […] não há quase história senão da percepção,
enquanto que aquilo do que se faz a história é antes a matéria de um devir, não de uma história.
(DELEUZE; GUATTARI, 2012, p. 174)

Mas, justamente, por que o ritornelo é eminentemente sonoro? De onde vem esse privilégio da
orelha quando já os animais, os pássaros nos apresentam tantos ritornelos gestuais, posturais,
cromáticos, visuais? […] O problema, mais modesto, seria o de comparar as potências ou
coeficientes de desterritorialização dos componentes sonoros e dos componentes visuais. Parece que
o som, ao se desterritorializar, afina-se cada vez mais, especifica-se e devém autônomo, enquanto
que a cor cola mais, não necessariamente ao objeto, mas à territorialidade. […] É uma linha
filogênica, um phylum maquínico, que passa pelo som, e faz dele uma ponta de desterritorialização.
E isto não acontece sem grandes ambiguidades: o som nos invade, nos empurra, nos arrasta,
nos atravessa. Ele deixa a terra, mas tanto para nos abrir a um cosmo. Ele nos dá [176] vontade
de morrer. Tendo a maior força de desterritorialização, ele opera também as mais maciças
reterritorializações, as mais embrutecidas, as mais redundantes. Êxtase e hipnose. Não se faz um
povo se mexer com cores. As bandeiras nada podem sem as trombetas, o lasers modulam-se a partir
do som. O ritornelo é sonoro por excelência, mas ele desenvolve sua força tanto numa cançãozinha
viscosa, quanto no mais puro motivo ou na pequena frase de Vinteuil. E às vezes um no outro:
como Beethoven tornando-se uma “vinheta sonora”. Fascismo potencial da música. (DELEUZE;
GUATTARI, 2012, p. 175-76)

Mas, de todo modo, o que é um ritornelo? Glass harmonica: o ritornelo é um prisma, um cristal
de espaço-tempo. Ele age sobre aquilo que o rodeia, som ou luz, para tirar daí vibrações variadas,
decomposições, projeções e transformações. O ritornelo tem igualmente uma função catalítica:
não só aumentar a velocidade das trocas e reações naquilo que o rodeia, mas assegurar interações
indiretas entre elementos desprovidos de afinidade dita natural e através disso formar massas
organizadas. O ritornelo seria do tipo cristal ou proteína. (DELEUZE; GUATTARI, 2012, p. 176))

O ritornelo fabrica tempo. (DELEUZE; GUATTARI, 2012, p. 177)

É curioso como a música não elimina o ritornelo medíocre ou mau, ou o mau uso do ritornelo, mas,
ao contrário, arrasta-o ou serve-se dele como de um trampolim. (DELEUZE; GUATTARI, 2012, p.
177)

Num concerto, Schummann precisa de todos os agenciamentos da orquestra para fazer com
que o violoncelo deambule, como uma luz se afasta ou se apaga. Em Schummann, é todo um
trabalho melódico, harmônico e rítmico erudito, que desemboca neste resultado simples e sóbrio,
desterritorializar o ritornelo. Produzir um ritornelo desterritorializado, como meta final da música,
soltá-la no Cosmo, é mais importantedo que fazer um novo sistema. Abrir o agenciamento a uma
força cósmica. (DELEUZE; GUATTARI, 2012, p. 179)

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