Ficha de Leitura: Mil Platôs, Vol. 5, de G. Deleuze e F. Guattari

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs – capitalismo e esquizofrenia 2, vol. 5. São
Paulo: Ed. 34, 2008.

14. 1440 – O liso e o estriado

Modelo musical. – Foi Pierre Boulez quem primeiro desenvolveu um conjunto de oposições simples
e de diferenças complexas, mas também de correlações recíprocas não-simétricas, entre espaço liso
e espaço estriado. Criou esses conceitos e esses termos no campo musical, e os definiu justamente
em diversos níveis, a fim de dar conta ao mesmo tempo da distinção abstrata e das misturas
concretas. No nível mais simples, Boulez diz que um espaço-tempo liso ocupa-se sem contar, ao
passo que num espaço-tempo criado conta-se a fim de ocupar. Desse modo, ele torna sensível ou
perceptível a diferença entre multiplicidades não métricas e multiplicidades métricas, entre espaços
direcionais e espaços dimensionais. Torna-os sonoros e musicais. Sua obra pessoal sem dúvida é
feia com essas relações criadas, recriadas musicalmente. (DELEUZE; GUATTARI, 2008, p. 183)

Enquanto no espaço estriado as formas organizam uma matéria, no liso materiais assinalam forças
ou lhe servem de sintomas. (DELEUZE; GUATTARI, 2008, p. 185)

O espaço liso dispõe sempre de uma potência de desterritorialização superior ao estriado.
(DELEUZE; GUATTARI, 2008, p. 187)

No espaço estriado, fecha-se uma superfície, a ser “repartida” segundo intervalos determinados,
conforme cortes assinalados; no liso, “distribui-se” num espaço aberto, conforme freqüências e ao
longo dos percursos (logos e nomos). (DELEUZE; GUATTARI, 2012, p. 188)

Uma intensidade, por exemplo, não é composta por grandezas adicionáveis e deslocáveis: uma
temperatura não é a soma de duas temperaturas menores, uma velocidade não é a soma de duas
velocidades menores. (DELEUZE; GUATTARI, 2008, p. 191)

É que a duração não é de modo algum o indivisível, mas aquilo que só se divide mudando de
natureza a cada divisão (a corrida de Aquiles se divide em passos, mas justamente esses passos não
a compõem como grandezas). (DELEUZE; GUATTARI, 2008, p. 191)

Sucedeu-nos com freqüência encontrar todo tipo de diferenças entre dois tipos de multiplicidades:
métricas e não métricas; extensivas e qualitativas; centradas e acentradas; arborescentes e
rizomáticas; numerárias e planas; dimensionais e direcionais; de massa e de malta; de grandeza e de
distância; de corte e de freqûëncia; estriadas e lisas. (DELEUZE; GUATTARI, 2008, p. 192)

Quanto mais regular é o entrecruzamento, tanto mais cerrada é a estriagem, mais o espaço tende
a tornar-se homogêneo: é nesse sentido que a homogeneidade nos pareceu ser, desde o início, não
o caráter do espaço liso, mas exatamente o contrário, o resultado final da estriagem, ou a forma-
limite de um espaço estriado por toda parte, em todas as direções. E se o liso e o homogêneo
aparentemente se comunicam, é somente porque o estriado não chega a seu ideal de homogeneidade
perfeita sem que esteja prestes a produzir novamente o liso, seguindo um movimento [198] que
se superpõe àquele do homogêneo, mas permanece inteiramente diferente dele. (DELEUZE;
GUATTARI, 2008, p. 197-8)

Examinemos, no nível mais simples, como o espaço escapa aos limites de seu estriamento.
Num pólo, escapa pela declinação, isto é, pelo menor desvio infinitamente pequeno entre a
vertical de gravidade e o arco de círculo ao qual essa vertical é [199] tangente. No outro pólo,
escapa pela espiral ou pelo turbilhão, isto é, uma figura em que todos os pontos do espaço são
ocupados simultaneamente, sob leis de freqûência ou acumulação, de distribuição, que se opõem à

distribuição dita “laminar” correspondente à estriagem das paralelas. (DELEUZE; GUATTARI,
2008, p. 198-9)

Cézanne falava da necessidade de já não ver o campo de trigo, de ficar próximo demais dele,
perder-se sem referência, em espaço liso. A partir desse momento pode nascer a estriagem:
o desenho, os estratos, a terra, a “cabeçuda geometria”, a “medida do mundo”, as “camadas
geológicas”, “tudo cai a prumo”… Sob pena de que o estriado, por sua vez, desapareça numa
catástrofe”, em favor de um novo espaço liso, e de um outro espaço estriado… (DELEUZE;
GUATTARI, 2008, p. 204)

15. – CONCLUSÃO: REGRAS CONCRETAS E MÁQUINAS ABSTRATAS

Agenciamentos.

Os agenciamentos já são algo distinto dos estratos. Contudo, fazem-se nos estratos, mas operam em
zonas de descodificação dos meios: primeiro, extraem dos meios um território. Todo agenciamento
é, em primeiro lugar, territorial. A primeira regra concreta dos agenciamentos é descobrir a
territorialidade que envolvem, pois sempre há alguma […]. O território é feito de fragmentos
descodificados de todo tipo, extraídos dos meios, mas que adquirem a partir desse momento um
valor de “propriedade”: mesmo os ritmos ganham aqui um novo sentido (ritornelos). O território
cria o agenciamento. O território excede ao mesmo tempo o organismo e o meio, e a relação
entre ambos; por isso, o agenciamento ultrapassa também o simples “comportamento” (donde
a importância da distinção relativa entre animais de território e animais de meio). (DELEUZE;
GUATTARI, 2008, p. 218)

Em cada agenciamento é preciso encontrar o conteúdo e a expressão, avaliar sua distinção real,
sua pressuposição recíproca, suas inserções fragmento por fragmento. Mas, se o agenciamento não
se reduz aos estratos, é porque nele a expressão torna-se um sistema semiótico, [219] um regime
de signos, e o conteúdo, um sistema pragmático, ações e paixões. É a dupla articulação rosto-
mão, gesto-fala, e a pressuposição recíproca entre ambos. Eis, portanto, a primeira divisão de todo
agenciamento: por um lado, agenciamento maquínico, por outro, e ao mesmo tempo, agenciamento
de enunciação. (DELEUZE; GUATTARI, 2008, p. 218-219)

Assim como a territorialidade do agenciamento tinha origem numa certa descodificação dos meios,
também se prologa necessariamente nestas linhas de desterritorialização (DELEUZE; GUATTARI,
2008, p. 220)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: