Ficha de Leitura: O ESCAVADOR DE SILÊNCIOS, Ciro Marcondes Filho

MARCONDES FILHO, Ciro. O escavador de silêncios: formas de construir e de desconstruir
sentidos na comunicação. São Paulo: Paulus, 2004.

3l – ESTRATOS E O IMPERIALISMO SEMIOLÓGICO

Território = substância
Código = forma

Substâncias são a fonte, o repertório, a matéria de onde as coisas vêm, espécie de território-matriz;
forma é uma elaboração a partir da substância, uma definição, algo que se reconhece, um código
[134] (aquilo que se desprende, “desterritorializa-se” da substância). (MARCONDES FILHO, 2004,
p. 133-134)

Deleuze e Guattari se perguntam quando se pode falar de signos, se pode-se colocá-los em toda
parte. Para tanto, distinguem, inicialmente, três tipos de signos: os clássicos índices, símbolos
e ícones, não no sentido [136] peirceano, mas como signos territoriais, desterritorializados e
de reterritorialização, e dizem também que não há sistema de signos que atravesse o conjunto
dos estratos, nem mesmo sob a forma de uma região khôra semiótica, que se suporia prévia à
simbolização. (MARCONDES FILHO, 2004, p. 135-136)

A questão que se coloca, então, agora, é se o significante se aplica a todos os signos, se todos
os signos são dotados de significância, se a semiótica dos signos remete necessariamente a uma
semiologia do significante (pp. 84-85). (MARCONDES FILHO, 2004, p. 136)

Não há signos em todos os estratos, não há significantes em todos os signos, mas há formas de
expressão sem signos (por exemplo, o código genético).
Além do mais, mesmo considerando o termo “signo” (no sentido de signo de desterritorialização
e reterritorialização), observa-se que eles não podem não ser necessariamente significantes.
Para Deleuze e Guattari, “assim como há expressões a-semióticas ou sem signos, há regimes a-
semiológicos, signos a-significantes, simultaneamente nos estratos e nos planos de consistência”
(p. 87). A significância o faz, em verdade, quando ela qualifica um regime de signos, no mais
pernicioso, mais canceroso, mais despótico entre todos. (MARCONDES FILHO, 2004, p. 137)

Não há signos em toda parte que se deseja. Signos não se confundem com linguagem em geral, mas
se definem por regimes de enunciados que são tantos outros usos reais ou funções da linguagem
(MARCONDES FILHO, 2004, p. 140)

3m – “AGENCIAMENTOS”, REGIMES DE SIGNOS, ROSTIDADE

Esses arranjos operam nos estratos, em zonas de descodificação dos meios (ambientes), de onde
eles extraem ou constituem “territórios”: todo arranjo é, em primeiro lugar, territorial (p. 629). Há
sempre alguma territorialidade envolvida pelos arranjos de alguém, de uma pessoa, de um animal,
como, por exemplo, na montagem “minha casa”. (MARCONDES FILHO, 2004, p. 140)

Mas este seria apenas um dos pólos da estruturação (voltado para os estratos, onde opera
com territorialidades); o outro é voltado para linhas de desterritorialização que passam pela
estruturação, seja abrindo-a a outras estruturações, seja descortinando-a para uma terra excêntrica,
imemorial, ainda por vir, seja para máquinas abstratas e cósmicas que o realizam. (MARCONDES
FILHO, 2004, p. 141)

Ao olhar duramente, ao silenciar, ao destruir um trabalho, eu estou “falando” e com isso realizando

igualmente transformações incorpóreas naqueles a quem esses atos são dirigidos.
Os regimes de signos derivam disso. Trata-se de uma estruturação muito particular àquele sistema;
é qualquer formalização da expressão lingüística. Por exemplo, quando o signo remete a outro signo
numa cadeia infinita, temos o regime significante do signo. Mas o signo pode remeter, também, a
um círculo maior. É o caso do marido traído da tripo Hopi, que, numa situação como esta, recolhe-
se e ora, pedindo seca e fome sobre a aldeia. Os círculos concêntricos vinculam uma desordem
doméstica a uma desordem maior: regime de signos as variáveis relacionam-se de modo particular.
Tanto eles como os slogans (as palavras de ordem) e as estruturações formam as condições de
linguagem.
No campo da comunicação, não se trata tampouco de uma “produção de linguagem”, mas a um
regime de signos, quer dizer, de uma máquina de expressão cujas variáveis determinam o uso dos
elementos da língua (p. 114). É que as línguas têm constantes, mas são os regimes de signos que as
possibilitam. Eles são funções de existência desta, cruzam as línguas e as fazem surgir no espaço e
no tempo. (MARCONDES FILHO, 2004, p. 143)

Vimos atrás que a linguagem nunca possui universalidade em si mesma, ela sempre irá remeter a
estruturações extralingüísticas. Da mesma forma, quando se fala que o signo remete a outro signo
numa cadeia significante, quando se fala dessa viciosidade semiológica, dizemos de um significante
como signo redundante do signo, de uma rede sem começo nem fim, que projeta sua sombra sobre
um continuum amorfo atmosférico, que faz as vezes de um significado, mesmo deslizando sob o
significante. (MARCONDES FILHO, 2004, p. 144)

O fechamento operacional não é rígido (como nas máquinas mecânicas, cujo funcionamento
interno é trivial e calculável), mas flexível e sujeito a imprevisibilidades. No interior dos sistemas,
ocorrem dois processos básicos: a auto-organização, responsável pela construção de estruturas, que
respondem pela direção interna no sentido da auto-reprodução do próprio sistema, e a autopoiese,
que irá determinar o estado seguinte do sistema. Na auto-organização, são levadas em conta
tanto a memória do processo (memória específica, não o passado integral do mesmo) quanto sua
expectativa (o sentido que se supõe que ele tome) […] As estruturas aí construídas são categorias
menos rígidas do que as do estruturalismo clássico, sendo, antes, produtos internos, jamais
importados, espécie de “aprendizagem” que se constitui a cada vez e por repetição. Elas condensam
traços básicos e os generalizam para outras circunstâncias […]. A autopoiese justifica que nada vem
do ambiente externo, que o sistema se autoproduz a si mesmo, como uma célula.
O acoplamento estrutural marca as relações de um sistema fechado com o mundo circundante.
Trata-se de um equipamento voltado à produção de “irritações” no interior do sistema.
(MARCONDES FILHO, 2004, p. 427)

O mundo não interfere nos sistemas fechados, mas ele existe.

A existência de um mundo externo provoca irritações no sistema; irritações essas que serão
transformadas em informações e tornar-se-ão estruturas. Somente de forma muito restrita as
irritações provocam efeitos no sistema. Diferente da teoria da complexidade de Prigogine, a ordem
não vem do ruído, pois não está claro que o sistema transforme ruídos em informação. O sistema
seleciona acontecimentos (reduz a complexidade externa) para aumentar sua própria complexidade
[…]. Contudo, a complexidade desenvolvida acaba virando quase uma “deformação” da autopoiese,
pois aumenta a dependência a mundo externo.
As irritações remetem às estruturas e só são aceitas se tiverem que ver com as expectativas do
sistema: é a partir destas que configura-se uma perturbação e faz com que a autopoiese reaja,
identificando-a ou recusando-a, […] A informação é um acontecimento que atualiza as estruturas.
(MARCONDES FILHO, 2004, p. 428)

Diferenciar é estabelecer um limite: para ver aquilo que eu não escolhi (o outro lado) devo cruzar

esse limite. E isso me toma tempo, só posso fazê-lo mais tarde. Por isso, um observador só pode ver
um lado de cada vez.
Observar é igualmente uma atividade interna dos sistemas, não é nenhum acesso a uma realidade
exterior. O observador não é nenhum acesso a uma realidade exterior. O observador não é nenhuma
pessoa (um sistema psíquico ou uma consciência) […]. Com isso, Luhmann exclui da sociologia
a vinculação a um sujeito, a um agir apoiado em indivíduos e opera num campo sistêmico sem
sujeito. (MARCONDES FILHO, 2004, p. 429)

O acoplamento estrutural seriam as pequenas frestas que o sistema abre para observar o ambiente
externo hostil […]. Esses acontecimentos são moderadamente apropriados como “irritações”
no interior do sistema e geram fórmulas para descarregá-las, torná-las inócuas, aumentando a
complexidade do próprio sistema, Isto o torna, opostamente, mais frágil diante das investidas
externas. (MARCONDES FILHO, 2004:430)

O sistema é um movimento de contínuas e necessárias operações que se atrelam umas nas outras o
tempo todo. Essas operações precisam adequar-se ao movimento anterior (memória) e dirigem-se a
um sentido interno do sistema, à sua expectativa. A operação aferra-se ao passado, projeta-se para o
futuro servindo-se dessa memória, que é seletiva. (MARCONDES FILHO, 2004:431)

O que antes se colocava na ciência social como relação sujeito/objeto Luhmann traduz agora
pela distinção operação/observação. São as duas funções principais do sistema autopoiético. A
reprodução exige a capacidade de agregar a cada operação uma nova operação do mesmo sistema,
mantendo, assim, o fechamento operacional. Para uma operação se enlaçar na seguinte existe a
estrutura (por exemplo, a escrita na passagem de uma sociedade iletrada à letrada). É através dela
que uma operação encontra a seguinte que seja compatível com ela, ou seja, que uma operação
produza a si mesma.
Todo o processo é conduzido por um observador (que pode ser o próprio sistema), que observa o
decurso das operações como uma espécie de “cérebro” (maquínico, organizacional etc.) de todo
o processo: é o próprio sistema se cuidando, aparando as diferenças, reproduzindo-se, mantendo-
se vivo. Não há nenhuma [432] interferência humana aí. A observação é um modo específico de
operação que se apóia na diferenciação. (MARCONDES FILHO, 2004:431-2)

[…] quando Luhmann fala de operação, ela já está excluindo estruturas e processos permanentes
instalados: para ele os sistemas se constroem conforme um tipo de operação que eles mesmos
produzem e só há esse tipo de sistema. (MARCONDES FILHO, 2004:432)

Não somente sistemas são “fatos reais”, a própria observação deles o é. Assim se estrutura sua
teoria do conhecimento, observando a observação, criando uma observação em segundo grau,
referindo-se esta, agora, ao “como” a coisa é observada. Em vez da dualidade sujeito/objeto
(ontológica, criando ilusão de realidade), [433] de um mesmo objeto sendo observado por vários
sujeitos, importa agora observar e observar e observar. Daí as operações comunicativas baterem-
se mutuamente e não existir, em princípio, nenhum sujeito “por trás”delas. Esse é o sentido que
Luhmann dá à comunicação: a capacidade de sistemas observarem e de se observar sua observação.
É nessa dupla operação que os sistemas vivem e sobrevivem. (MARCONDES FILHO, 2004:432-3)

[…] somente as próprias estruturas do sistema podem determinar suas operações. (MARCONDES
FILHO, 2004, p. 433)

O ambiente só atua sobre o sistema produzindo as tais irritações, que são trabalhadas internamente.
Essas irritações, não estando no ambiente externo, mas se dando no interior do sistema, são a
confrontação de acontecimentos com as estruturas deste, constituindo, de fato, “auto-irritações”,
mesmo que oriundas de acontecimentos do ambiente. (MARCONDES FILHO, 2004, p. 433)

Mas quem seria este observador? Seguramente, não uma “consciência pensante”, que se afirma
como sujeito. Implícito está que o pensar não muda o mundo dos objetos, apenas os descreve como
verdadeiros ou falsos. A linha metafísica que vem de Descartes até Kant (e Husserl-Merleau-Ponty)
dissolveu a diferença entre sujeito e objeto, mas ela mesma deve ser desconstruída na medida que se
vê que também os objetos podem ser sujeitos, isto é, observações realmente operantes, observações
que observam o observador. (MARCONDES FILHO, 2004, p. 438)

Assim, no processo de autodescrição da sociedade, sempre permanecem, ao mesmo tempo, dois
campos que não estão marcados (ou indicados): o que não é a sociedade (o ambiente, por exemplo)
e aquela operação pela qual se realiza a observação. (MARCONDES FILHO, 2004, p. 439)

Em Luhmann, sistemas e meio externo são mundos diferentes: os sistemas mantêm-se distantes do
ambiente. Ou melhor, eles absorvem os conflitos originários no ambiente, enfraquece-os, e exaure
seus participantes. (MARCONDES FILHO, 2004, p. 439)

Nas relações entre sistema e ambiente, o ambiente é um campo muito mais complexo que o
sistema, há um notório desequilíbrio. Desta forma, o sistema, não podendo atender ponto a ponto
as exigências da complexidade maior, promove essa redução da complexidade acoplando-se ao
meio ambiente por um corte estreito, uma seção mínima: ele ignora, recusa setores que não lhe
interessam, criando indiferenças em relação àquelas questões com as quais não se relaciona. A
essa redução Luhmann dá o nome de generalização. Assim explicara Luhmann a capacidade de
mudanças do sistema: ele só consegue impô-la através da delimitação de setores. O holismo não
tem vez para Nicklas Luhmann. (MARCONDES FILHO, 2004, p. 445)

[…] cada diferenciação traduz o mundo em formas próprias e não autoriza nenhum acesso ao mundo
objetivo independente do observador. […] a observação altera necessariamente o mundo com o qual
se defronta. (MARCONDES FILHO, 2004, p. 451)

Em lugar, assim, de sujeito/objeto, colocam-se as categorias operação/observação, nas quais
cada fato ou dado remete às operações de um sistema auto-poiético. Contudo, Luhmann insere
no observar a observação um índice de incompletude, ao estilo mesmo de Gödel: há um certo
ponto cego que estará sempre fora do campo da observação: as observações não estão jamais em
condições de observar as distinções que elas mesmas fazem. (MARCONDES FILHO, 2004, p. 451)

[…] tudo o que acontece, acontece simultaneamente; tudo ocorre pela primeira e única vez. Um
observador constata semelhanças, repetições, percebe um antes e um depois, mas só o faz pelas suas
diferenciações e no espaço dessa mesma simultaneidade. (MARCONDES FILHO, 2004, p. 453)

O futuro, por seu lado, é construído como oscilador funcional: ele não é previsível, mas tem a
função de copiar eventos imprevisíveis, a saber, substituindo o desconhecido por uma função
binária. Com isso, a irritação torna-se informação no passar do tempo. Nas decisões, assim,
introduzem-se, diz Luhmann, “novos passados e novos futuros, num mundo incalculável, nunca
igual”. (MARCONDES FILHO, 2004, p. 454)

Para ele, sentido é uma forma de ordenação, é o que permite a produção seletiva, aquilo que atrela
uma comunicação a outra comunicação. Sentido é uma espécie de exigência necessária para a
construção de formas, sem ele elas não se constituem; através dele, elas podem exprimir o medium.
(MARCONDES FILHO, 2004, p.455)

Comunicação, assim, não pode ser identificada à transmissão. O que ocorre, diz Luhmann, é a
redundância: uma comunicação inventa sua própria memória num pulsar constante, em que o

sistema se expande ou se contrai com cada redundância e com cada nova seleção. Não se trata
de peças concretas, que, precisassem ser reunidas por alguém: comunicação é somente a própria
seletividade que se constrói na própria comunicação. (MARCONDES FILHO, 2004, p. 462)

Como Luhmann, os estóicos refutam as ponderações ontológicas da semiologia aristotélica (as
coisas não são, estão sendo), enquanto atribuem ao mesmo tempo uma posição central. Da mesma
forma, refutam a cópula aristotélica (entre um sujeito e um predicado), dizendo, como o conceito
de comunicação para o sociólogo alemão, que não há penetração alguma. A árvore não é verde, ela
verdeja. (MARCONDES FILHO, 2004, p. 471)

À afirmação naturalmente equivocada dos lingüistas, que dizem que “tudo na sociedade é
linguagem”, Luhmann responde que tudo necessariamente é comunicação. (MARCONDES FILHO,
2004, p. 493)

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