Ficha de Leitura: O UNIVERSO DAS IMAGENS TÉCNICAS, de Vilém Flusser

FLUSSER, Vilém. O universo das imagens técnicas: Elogio da superficialidade. São Paulo:
Annablume, 2008.

O mundo não se apresenta mais enquanto linha, processo, acontecimento, mas enquanto plano,
cena, contexto – como era o caso na pré-história e como ainda é o caso para iletrados. (FLUSSER,
2008, p. 15)

Os olhos percebem as superfícies dos volumes. As imagens abstraem, portanto, a profundidade da
circunstância e a fixam em planos, transformam a circunstância em cena. A visão é o segundo gesto
a abstrair (abstrai a profundidade da circunstância); graças a ele o homem transforma a si próprio
em homo sapiens, ou seja, em ente que age conforme projeto. (FLUSSER, 2008, p. 16)

Pois é isto a imagem técnica: virtualidades concretizadas e tornadas visíveis. (FLUSSER, 2008, p.
24)

Por certo, sem os aparelhos programados as imagens técnicas não podem ser produtivas, porque
o “material” com o qual os aparelhos funcionam (os elementos pontuais) são humanamente
inagarráveis, inimagináveis e inconcebíveis. Mas, tais como programados, os aparelhos não servem
para produzir imagens informativas. É, pois, preciso utilizar os aparelhos contra seus programas. É
preciso lutar contra a sua automaticidade. (FLUSSER, 2008, p. 28)

Ao observarmos fotografia sob lupa, veremos grãos. Ao nos aproximarmos de televisor, veremos
pontos. Ao observarmos a produção de imagens sobre tela de computador, veremos como os pontos
se organizam em planos. Em todas as imagens técnicas observamos que são pontos computados. A
fim de vermos isto, é preciso observarmos tais imagens. Sob olhar superficial, as imagens técnicas
parecem planos, mas se dissolvem, deixam de ser imagens, quando observadas. (FLUSSER, 2008,
p. 39)

Sugiro pois que o termo “imaginar” significa a capacidade de concretizar o abstrato, e que tal
capacidade é novaque; que foi apenas com a invenção de aparelhos produtores de tecno-imagens
que adquirimos tal capacidade; que as gerações anteriores não podiam sequer imaginar o que o
termo “imaginar” significa; que estamos vivendo em mundo imaginário, no mundo das fotografias,
dos filmes, do vídeo, de hologramas, mundo [42] radicalmente inimaginável para as gerações
precedentes; que esta nossa imaginação ao quadrado (“imaginação2”), essa nossa capacidade de
olhar o universo pontual de distância superficial a fim de torná-lo concreto, é emergência de nível
de consciência novo.
Elogio da superficialidade (FLUSSER, 2008, p. 41-42)

Redefinamos “imaginar” no significado aqui pretendido: imaginar é fazer com que aparelhos
munidos de teclas computem os elementos pontuais do universo para formarem imagens e destarte,
permitirem que vivamos e ajamos concretamente em mundo tornado impalpável, inconcebível e
inimaginável por abstração desvairada. […] Em suma: a definição de “imaginar” foi formulada
para articular a revolução epistemológica, ético-política e estética pela qual estamos passando. Para
articular a nova sensação vital emergente.
A definição faz o elogio da superficialidade. (FLUSSER, 2008, p. 45)

No entanto, essa “história” nossa, essa história inflada, não é história verdadeira. Não é mais
resultado de gesto que visasse modificar o mundo, não é mais expressão de liberdade, mas sim
resultado de gesto que visa imagem. O “progresso” atual acelerado não é mais progresso rumo
ao futuro mas sim queda, como no caso de rio que se precipita em cataratas ao encontrar uma
barragem. As imagens se nutrem de pseudo-história espetacular e é por isto que não caem em
entropia, mas entusiasmam. (FLUSSER, 2008, p. 62)

A circulação entre imagem e homem que ameaça cair em entropia, tal inversão do nosso estar-
no-mundo em estar-face-à-imagem, constitui, conforme creio, o núcleo mesmo da sociedade
informática emergente. Creio que tal circulação, na qual cabe à imagem o papel ativo e ao homem
o papel reativo, é precisamente o significado que o termo “sociedade informática” pretende. O atual
isolamento de indivíduo e a atual massificação, esses sintomas evidentes da sociedade emergente,
não passam, a meu ver, de conseqüências dessa circulação íntima entre imagem e homem, graças à
qual a imagem programa o homem para que este reprograme a imagem. Creio que é somente [63]
depois de termos nos conscientizado dessa situação espectral que podemos passar a considerar a
transformação da sociedade em areia, uma areia composta de grãos isolados que formam dunas
movediças; que podemos considerar tal dispersão e diversão da sociedade; que podemos considerar
o atual divertimento. (FLUSSER, 2008, p. 62-63)

O problema da criatividade se descola e assume a seguinte forma: como evitar que a cultura da qual
participo se degrade? Porque, a não ser que eu crie algo de novo, minha memória se decomporá e
eu serei esquecido por ter esquecido tudo. Se nada de novo surgir na minha cultura, esta decairá
no amorfo da cultura de massa; se nada de novo surgir na minha memória, esta se decomporá em
atrofia. Todo engajamento criativo passa a ser visto não mais como tarefa revolucionária, mas sim
como tarefa conservadora. (FLUSSER, 2008, p. 110)

As imagens técnicas são “arte pura”, no sentido em que apenas a música é arte pura. Eia a razão
porque sugiro que, com a emergência do universo das tecno-imagens, adquirimos novo nível de
consciência, nível no qual se tornou possível fazer música imaginativa. (FLUSSER, 2008, p. 146)

A esta altura se torna óbvio que na imagem técnica música e imagem se juntam, que nelas
música se torna imagem, imagem se torna música, e ambas se superam mutuamente. Por certo,
existem aparelhos (os eletronic intermixers) capazes de traduzir automaticamente imagem em
música e música em imagem. No entanto, esses aparelhos são arcaicos e interessam pouco. Na
imagem técnica, não se trata de intermix, mas de mútua superação de música e imagem. Toda
música pré-aparelhística e toda imagem [147] pré-aparelhística não passam de elementos de duas
tendências convergentes que estão atualmente se juntando. O “mundo da vontade” e o “mundo da
representação” convergem. É isto que o termo “audiovisual” procura articular, mas falha, por ser
termo proveniente de nível de consciência ultrapassado.
A musicalização da imagem e a imaginação da música podem ser constatadas a partir de pelo
menos o início do século XX (pintura abstrata), partituras da música moderna), mas somente os
nossos netos sintetizadores de imagens estarão realmente aptos a compor música de câmera com
imagens precisamente por serem compositores. Por isto proponho, em resposta a Schopenhauer, que
o universo das tecnoimagens seja considerado o mundo da música imaginativa. (FLUSSER, 2008,
p. 146-7)

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