Ficha de Leitura: FEUERBACH. A OPOSIÇÃO ENTRE AS CONCEPÇÕES MATERIALISTA E IDEALISTA, de Marx e Engels

Marx e Engels
Feuerbach. A oposição entre as concepções materialista e idealista
(Capitulo Primeiro de A Ideologia Alemã, de 1846)

[ I ]

 

1 A ideologia em geral e a ideologia alemã em particular

“A crítica alemã, mesmo nos seus esforços mais recentes, nunca deixou o terreno da filosofia. Longe de examinar as suas bases filosóficas gerais, todas as questões que colocou, sem exceção, surgiram, pelo contrário, no terreno de um sistema filosófico determinado, o sistema hegeliano.” p. 13

“A polêmica que sustentam contra Hegel e entre si limita-se ao seguinte: cada um deles isola um aspecto do sistema hegeliano e volta-se então contra a totalidade do sistema e contra os aspectos isolados pelos outros.” p. 13

 

“toda a crítica filosófica alemã, de Strauss a Stirner, se limita à crítica da verdadeira religião e da teologia propriamente dita. O que se entendia por consciência religiosa, por representação religiosa, foi recebendo designações diversas. O progresso consistia em subordinar igualmente à esfera das representações religiosas ou teológicas as representações metafísicas, políticas, jurídicas, morais e outras, que se consideravam predominantes; proclamava-se também que a consciência política, jurídica e moral era uma consciência religiosa ou teológica, e que o homem político, jurídico e moral, “o Homem” em última instância, é religioso. Postulou-se o domínio da religião. E, a pouco e pouco, declarou-se que toda a relação dominante é uma relação religiosa, e foram assim transformadas em cultos, culto do direito, culto do Estado, etc. Por toda a parte só havia os dogmas e a fé nos dogmas.” p. 14

 

“Apesar de suas frases pomposas, que supostamente “revolucionam o mundo”, os ideólogos da escola jovem-hegeliana são os maiores conservadores. Os mais jovens de entre eles encontraram a expressão exata para qualificarem a sua atividade quando afirmam que lutam somente contra uma fraseologia. Esquecem apenas que eles próprios se limitam a opor a esta fraseologia uma outra fraseologia, e que não lutam o mínimo que seja contra o mundo que existe realmente, ao combaterem unicamente a fraseologia deste mundo. Os únicos resultados a que pôde chegar esta crítica filosófica foram alguns esclarecimentos quanto à história religiosa […]” p. 15

 

“Nunca nenhum destes filósofos teve a ideia de se interrogar sobre a relação entre a filosofia alemã e a realidade alemã, a relação entre a sua crítica e o seu próprio meio material.” p. 15

2 premissas da concepção materialista da história

“A primeira condição de toda história humana é, naturalmente, a existência de seres humanos vivos. O primeiro estado de fato a constatar é assim a constituição corporal desses indivíduos e as relações que lhes cria com o resto da natureza.” p. 17

“Os homens começam a distinguir-se dos animais ao iniciarem a produção dos seus meios de existência, avanço que é conseqüência de sua organização corporal.” p. 17

“Esta produção só aparece com o aumento da população. Pressupõe também relações (verkher) dos indivíduos entre si. A forma dessas relações é por sua vez condicionada pela produção.” p. 18

“[Este modo de produção] representa já um modo determinado da atividade destes indivíduos, uma maneira determinada de manifestarem a sua vida, um modo de vida determinado. A forma como os indivíduos manifestam a sua vida reflete exatamente o que eles são. O que eles são coincide, portanto, com sua produção, não só com o que produzem como também com o modo como o produzem. O que os indivíduos são depende, assim, das condições materiais de sua produção.” p. 18

3 A produção e as relações dos indivíduos. Divisão do trabalho e formas de propriedade: tribal, antiga, feudal

“As relações entre as diferentes nações dependem da fase de desenvolvimento de cada uma delas no que diz respeito às forças produtivas, à divisão do trabalho e às relações internas. Este princípio é universalmente reconhecido. Contudo, não só as relações de uma nação com as outras nações, mas também toda a estrutura interna da própria nação, dependem do nível de desenvolvimento da sua produção e das suas relações internas e externas” p. 19

“reconhece-se facilmente o grau de desenvolvimento pelas forças produtivas de uma nação pelo grau de desenvolvimento que atinge a divisão do trabalho. […] qualquer força de produção nova tem como conseqüência um novo aperfeiçoamento da divisão do trabalho.” p. 19

 

“A divisão do trabalho no interior de uma nação implica primeiro a separação entre o trabalho industrial e comercial, de um lado, e o trabalho agrícola, de outro; e, consequentemente, a separação entre a cidade e o campo e a oposição dos seus interesses. O seu desenvolvimento ulterior conduz à separação entre o trabalho comercial e o trabalho industrial. Simultaneamente, devido à divisão do trabalho no interior dos diferentes setores, assiste-se ao sucessivo desenvolvimento de diferentes subdivisões entre os indivíduos que cooperam em trabalhos determinados.” p. 20

 

“A posição destas subdivisões particulares, na sua relacionação mútua, é condicionada pelo modo de exploração do trabalho agrícola, industrial e comercial (patriarcado, escravatura, ordens e classes). As mesmas relações aparecem quando as trocas são mais desenvolvidas nas relações das diversas nações entre si.” p. 20

“As diversas fases de desenvolvimento da divisão do trabalho representam outras tantas formas diferentes de propriedade; ou seja, cada nova fase da divisão do trabalho determina igualmente as relações dos indivíduos entre si, em referência à matéria, aos instrumentos e aos produtos do trabalho.” p. 20

 

A primeira forma de propriedade é a propriedade da tribo. […] A divisão do trabalho é ainda incipiente e limita-se a uma maior extensão da divisão do trabalho natural tal como se apresenta na família: os chefes da tribo patriarcal, abaixo dos quais se encontram os membros da tribo e, finalmente, os escravos. […] A segunda forma de propriedade é a propriedade comunal e propriedade de Estado que encontramos na antiguidade e que provém sobretudo da reunião de diversas tribos numa só cidade, por tratado ou por conquista, e na qual subsiste a escravatura. Paralelamente à propriedade comunal desenvolve-se já a propriedade privada, mobiliária e mais tarde imobiliária, mas como forma anormal e subordinada à sociedade comunal. Esta forma é a propriedade privada comunitária dos cidadãos ativos que, em face dos escravos, são obrigados a conservar esta forma natural de associação. Razão por que toda estrutura social nela baseada, e com ela o poder do povo, se desagregam à medida que se desenvolve em particular a propriedade privada imobiliária. A divisão do trabalho é já mais acentuada.” p. 20-21

“Com o desenvolvimento da propriedade privada, vemos aparecer, pela primeira vez, as relações que reencontramos na propriedade privada moderna, mas em escala mais vasta: por um lado, a concentração da propriedade privada, que começou em Roma bastante cedo […]; por outro lado, […] a transformação dos pequenos camponeses plebeus num proletariado a quem sua situação intermédia entre os cidadãos e os escravos impediu qualquer forma de desenvolvimento independente.” p. 21

 

“A terceira forma é a propriedade feudal ou a propriedade por ordens. […] já não são os escravos, como no sistema antigo, mas os pequenos camponeses, reduzidos à servidão, que constituem a classe diretamente produtora. Paralelamente ao desenvolvimento completo do feudalismo, surge a oposição às cidades. A estrutura hierárquica da propriedade fundiária e a suserania militar que a acompanhava conferiram à nobreza um poder total sobre os servos. Esta estrutura feudal, tal como a antiga propriedade comunal, era uma associação contra a classe produtora dominada […].” p. 21-22

“A esta estrutura feudal da propriedade fundiária correspondia nas cidades a propriedade corporativa, organização feudal das profissões.” p. 23

 

“A principal forma de propriedade consistia portanto, na época feudal, por um lado na propriedade fundiária à qual estava ligado o trabalho dos servos, e por outro no trabalho pessoal apoiado num pequeno capital que regia o trabalho dos companheiros. A estrutura de cada uma destas duas formas era condicionada pelas relações de produção pouco desenvolvidas […]. No apogeu do feudalismo, a divisão do trabalho estava pouco evoluída.” p. 23

 

“A reunião de domínios de uma certa extensão em reinos feudais era uma necessidade tanto para a nobreza proprietária de terras quanto para as cidades. Razão por que a organização da classe dominante, ou seja, a nobreza, teve sempre um monarca à cabeça.” p. 23

 

4 A concepção materialista da história. Ser social e consciência social

“Eis os fatos: indivíduos determinados que têm uma atividade produtiva segundo um modo determinado entram em relações sociais e políticas determinadas. É necessário que, em casa caso particular, a observação empírica mostre pelos fatos, e sem qualquer especulação ou mistificação, a relação entre a estrutura social e política e a produção. A estrutura social e o Estado resultam constantemente do processo vital de indivíduos determinados; mas não de como estes indivíduos podem aparecer nas suas próprias representações ou nas de outros, mas sim do que eles são na realidade, ou seja, tal como trabalham e produzem materialmente. Portanto, tal como agem sobre bases e em condições e limites materiais determinados e independentes da sua vontade.” P. 25

 

“As representações, o pensamento e as relações intelectuais dos homens surgem […] como a emanação direta do seu comportamento material. O mesmo acontece com a produção intelectual tal como se apresenta na linguagem da política, do direito, da moral, da religião, da metafísica, etc., de todo um povo. São os homens os produtores das suas representações, das suas ideias, etc., mas os homens reais, atuantes, tal como são condicionados por um determinado desenvolvimento das suas forças produtivas e do modo de relações que lhes corresponde, incluindo as formas mais amplas que essas possam assumir. A consciência é sempre o Ser consciente, e o Ser dos homens é o seu processo de vida real.” P. 26

“Ao contrário da filosofia alemã, que desce do céu para a terra, aqui sobe-se da terra para o céu. Ou seja, não se parte daquilo que os homens dizem, imaginam […][;] parte-se dos homens na sua atividade real.” P. 26

“Não é a consciência que determina a vida, mas sim a vida que determina a consciência. Na primeira forma de considerar as coisas, parte-se da consciência como sendo o indivíduo vivo; na segunda forma, que corresponde à vida real, parte-se dos próprios indivíduos reais e vivos e considera-se a consciência unicamente como a sua consciência.” P. 27

“Acabam as frases ocas sobre a consciência que devem ser substituídas por um saber real. A partir do momento em que se começa a expor a realidade, a filosofia deixa de poder existir autonomamente.” P. 29

 

 

 

[ II ]

1 Condições para uma real libertação dos homens

“Claro que não vamos nos dar ao trabalho de explicar aos nossos sábios filósofos que, ao dissolverem na ‘consciência de si’ filosofia, teologia, substância e tudo o mais, ao libertarem ‘o homem’ da ditadura que nunca o oprimiu, não avançaram um passo na ‘libertação’ de ‘o homem’; que não é possível realizar uma libertação real a não ser no mundo real e apenas por meios reais; que não se pode abolir a escravatura sem a máquina a vapor e a mulejenny, nem abolir a servidão sem fazer progredir a agricultura; que, generalizando, não se pode libertar os homens enquanto eles não estiverem completamente aptos a satisfazerem suas necessidades de comida e bebida” P. 31

“A ‘libertação’ é um fato histórico e não intelectual, e é provocada por condições históricas, pelo progresso da indústria, da agricultura, do comércio…; são elas que provocam depois, em função das suas diferentes fases de desenvolvimento, esses absurdos: a substância, o sujeito, a consciência de si e a crítica pura, tal como o absurdo religioso e teológico, eliminando-os de novo quando já estiverem suficientemente desenvolvidos.” P. 31

“[Na] Alemanha, onde o desenvolvimento histórico atual é miserável, estes desenvolvimentos de ideias, estas pobrezas idealizadas e ineficazes, substituem os desenvolvimentos históricos ausentes” P. 32

2 Crítica do caráter contemplativo e da inconseqüência do materialismo de Feuerbach

“para o materialista prático, ou seja, para o comunista, trata-se de revolucionar o mundo existente, de atacar e transformar na prática o estado de coisas que encontrou.” P. 33

 

“[Feuerbach] não vê que o mundo sensível que o rodeia não é um objeto dado diretamente para toda a eternidade e sempre igual a si próprio, mas sim o produto da indústria e do estado da sociedade, e isto no sentido de que é um produto histórico, o resultado da atividade de uma série de gerações, cada uma das quais ultrapassava a outra, aperfeiçoava a sua indústria e o seu comércio e modificava o seu regime social em função da transformação das necessidades.” P. 34

 

“segundo esta concepção que vê as coisas tal como são na realidade e realmente se passaram, qualquer problema filosófico profundo se reduz simplesmente a um fato empírico” P. 34

 

“Tomemos, por exemplo, a importante questão das relações entre o homem e a natureza […]. Esta questão, de onde nasceram todas as ‘obras de uma grandeza insondável’ sobre a ‘substância’ e a ‘consciência de si’, reduz-se afinal à compreensão do fato de que a célebre ‘unidade do homem e da natureza’ sempre existiu na indústria” P. 34

 

“A indústria e o comércio, a produção e a troca das necessidades vitais condicionam por um lado a distribuição e a estrutura das diferentes classes sociais, para serem por sua vez condicionadas por estas no seu modo de funcionamento. Razão por que Feuerbach apenas vê, por exemplo em Manchester, fábricas e máquinas, onde há um século havia apenas teares e oficinas de fiação” P. 35

 

“Mesmo em relação à ciência da natureza dita ‘pura’ não são afinal o comércio e a indústria, a atividade material incessante dos homens, que lhe conferem um objetivo e lhe fornecem os materiais?” P. 35

 

“Confessamos que Feuerbach tem sobre os materialistas ‘puros’ a grande vantagem de reconhecer que o homem é também um ‘objeto sensível’; mas abstraiamos do fato de o considerar apenas como ‘objeto sensível’ e não como ‘atividade sensível’, pois aí ainda se encontra agarrado à teoria e não integra os homens no seu contexto social determinado, nas condições de vida que fizeram deles o que são; não há dúvida que nunca chega aos homens que existem e agem realmente, fixa-se numa abstração, ‘O Homem’” P. 36

 

“[Feuerbach] Não faz a crítica das condições de vida atuais. Nunca chega, portanto, a considerar o mundo sensível como a soma da atividade viva e física dos indivíduos que o compõem; […] recai, por consequência, no idealismo, precisamente onde o materialista comunista vê simultaneamente a necessidade e a condição de uma transformação radical na indústria e na estrutura social.” P. 36

 

3 Relações históricas originais ou aspectos essenciais da atividade social: produção da vida material, produção de novas necessidades, procriação (família), coopereação, consciência

“O primeiro fato histórico é assim a produção dos meios que permitem satisfazer estas necessidades [de comer, beber, ter onde se alojar, vestir-se e mais algumas coisas], a produção da própria vida material” P. 37

 

“mesmo quando a realidade sensível é reduzida a um pedaço de madeira […], implica a atividade que produz esse pedaço de madeira” P. 37

 

“uma vez satisfeita essa primeira necessidade, a ação de a satisfazer e o instrumento já adquirido para a sua satisfação provocam novas necessidades” p. 38

 

“os homens, que renovam diariamente a sua própria vida [pelos dois movimentos acima mencionados], criam também outros homens, reproduzem-se; é a relação entre homem e mulher, pais e filhos, é a família. Esta família, que é inicialmente a única relação social, transforma-se depois numa relação subalterna, quando o aumento das necessidades engendra novas relações sociais e o aumento da população engendra novas necessidades; por consequência, este tema da família deve ser tratado e desenvolvido a partir dos fatos empíricos existentes e não segundo o ‘conceito de famílias’”  p. 38

“não se devem compreender estes três aspectos da atividade social como três fases diferentes, […][mas como] três ‘momentos’ que coexistiram desde o início da história e desde os primeiros homens” p. 39

 

“produzir a vida, quer seja a própria através do trabalho quer seja a de outrem pela procriação, aparece-nos agora como uma relação dupla: por um lado, como uma relação natural, por outro como uma relação social – no sentido de se tratar de uma ação conjugada de vários indivíduos” p. 39

 

“conclui-se daqui que um modo de produção ou um estádio industrial determinados estão constantemente ligados a um modo de cooperação ou a um estádio social determinados, e que este modo de cooperação é ele próprio uma ‘força produtiva’; conclui-se igualmente que a massa das forças produtivas acessíveis aos homens determina o estado social, e que se deve consequentemente estudar e elaborar sempre a ‘história dos homens’ em ligação com a história da indústria e do comércio” p. 39

 

“o homem tem também uma ‘consciência’. Mas não se trata de uma consciência que seja logo consciência ‘pura’. […] A linguagem é tão velha como a consciência – a linguagem é a consciência real, prática, existente também para outros homens, o que quer dizer que, portanto, existe também apenas para mim próprio e, tal como a consciência, a linguagem só aparece com a necessidade do comércio com outros homens. Onde quer que haja uma relação, ela existe para mim. O animal não está em relação com nada, não conhece qualquer tipo de relação. Para o animal, suas relações com os outros não existem enquanto relações. A consciência é, assim, um produto social” p. 40

 

“a consciência da necessidade de entrar em relação com os indivíduos que o rodeiam marca para o homem o início da consciência do fato de que vive sobretudo em sociedade. Este início é tão animal como a própria vida social o é nesse estádio; é uma simples consciência gregária, e o homem nessa época só se distingue do carneiro pelo fato de a consciência tomar nele o lugar do instinto, ou de o seu instinto ser um instinto consciente. Esta consciência gregária ou tribal desenvolve-se e aperfeiçoa-se ulteriormente devido ao aumento da produtividade, das necessidades e da população, sendo este último a base dos dois elementos precedentes.” P. 40

“Assim se desenvolve a divisão do trabalho, que primitivamente só existia no ato sexual, seguindo-se a divisão do trabalho que se faz por si própria ou ‘naturalmente’, em virtude das disposições naturais (vigor físico, por exemplo), das necessidades, do acaso, etc.” p. 41

 

“A divisão do trabalho só se torna efetivamente divisão do trabalho a partir do momento em que se opera uma divisão entre o trabalho manual e o intelectual. A partir desta altura, a consciência pode realmente imaginar que é outra coisa além da consciência da prática existente, que representa efetivamente qualquer coisa sem representar qualquer coisa de real. A partir desta altura, a consciência está em condições de se emancipar do mundo de passar à formação da teoria ‘pura’, da teologia, da filosofia, da moral, etc.” p. 41

 

“estes três momentos, a força produtiva, o estado social e a consciência podem e devem entrar em conflito entre si porque, devido à divisão do trabalho, […] a atividade intelectual e a manual – o prazer e o trabalho, a produção e o consumo cabem na partilha a indivíduos diferentes; e a possibilidade de estes elementos não entrarem em conflito reside apenas numa nova abolição da divisão do trabalho” p. 42

 

 

4 Divisão social do trabalho e suas conseqüências: propriedade privada, estado, ‘alienação’ da atividade social

“Esta divisão do trabalho implica simultaneamente a repartição do trabalho e dos seus produtos, distribuição desigual tanto em quantidade como em qualidade; ela implica a propriedade, cuja primeira forma, o germe, se encontra na família, onde a mulher e os filhos são escravos do homem” p. 43

 

“A escravatura, ainda muito rudimentar e latente na família, é a primeira forma de propriedade que, aliás, corresponde já perfeitamente à definição dos economistas modernos segundo a qual ela é a livre disposição da força de trabalho de outrem.” P. 43

 

“divisão do trabalho e propriedade privada são expressões idênticas – enuncia-se na primeira, em relação à atividade, o que se enuncia na segunda em relação ao produto dessa atividade” p. 43

 

“além disso, a divisão do trabalho implica ao mesmo tempo a contradição entre o interesse do indivíduo singular ou da família singular e o interesse coletivo de todos os indivíduos que se relacionam entre si: ou seja, esse interesse coletivo não existe isoladamente, digamos, na representação de ‘interesse universal’, mas antes de tudo na realidade como dependência recíproca dos indivíduos entre os quais se divide o trabalho” p. 44

 

(…)

 

6 Resultados da concepção materialista da história: dependência universal, transformação da história em história mundial, a revolução comunista impõe-se

“A história não é mais do que a sucessão das diferentes gerações em que cada uma explora os materiais, os capitais, as forças produtivas que lhes são transmitidas por todas as gerações precedentes; assim, cada geração continua, por um lado, o modo de atividade que lhe é transmitido, mas em circunstâncias radicalmente transformadas e, por outro lado, modifica as antigas circunstâncias, dedicando-se a uma atividade totalmente diferente; estes fatos são desnaturados pela especulação, ao fazer-se da história presente o fim da história passada; é assim, por exemplo, que se atribui à descoberta da América [o fim de] ajudar a eclodir a Revolução Francesa; atribui-se, assim, à história objetivos particulares e faz-se dela uma ‘personagem ao lado de outras’” p. 51

 

“quanto mais as esferas individuais, que agem umas sobre as outras, se expandem no decorrer deste desenvolvimento, e mais se destrói o isolamento primitivo das diversas nações pelo modo de produção aperfeiçoado pela circulação e pela divisão do trabalho entre as nações que daí resulta espontaneamente, mais a história se transforma em história mundialp.  52, grifo GPESC

“Acrescente-se que essa transformação da história em história universal não é, digamos, um simples fato abstrato da ‘consciência de si’, do Espírito do mundo ou de qualquer outro fantasma metafísico, mas uma ação puramente material, que pode ser verificada de maneira empírica, uma ação de que cada indivíduo é a prova, ao comer, beber e vestir-se.” P. 52

7 Resumo da concepção materialista da história

“Esta concepção da história tem, portanto, como base o desenvolvimento do processo real da produção, e isso a partir da produção material da vida imediata; ela concebe a forma das relações humanas ligadas a esse modo de produção e originada pela sociedade civil nas suas diferentes fases, como o fundamento de toda a história, o que significa representá-la na sua ação enquanto Estado e explicar por ela o conjunto das diversas produções teóricas e das formas da consciência, religião, filosofia, moral, etc., e seguir sua gênese a partir destas produções” p. 55

 

“Não é obrigada, como a concepção idealista da história, a procurar uma categoria em cada período, permanecendo sempre sobre o solo real da história; não explica a prática pela ideia, explica a formação das ideias pela prática material; chega, por consequência, a conclusão de que todas as formas e produtos da consciência podem ser resolvidos não graças à crítica intelectual, pela redução ‘consciência de si’ ou à metamorfose em ‘espectros’ […], mas unicamente pelo derrubamento prático das relações sociais concretas donde nasceram estas ridicularias idealistas” p. 55

“Não é a Crítica, mas sim a revolução que é a força motriz da história, da religião, da filosofia e de qualquer outra teoria. Esta concepção mostra que o objetivo da história não é o de se resolver em ‘consciência de si’ como ‘espírito do espírito’, mas que em cada fase se encontram dados um resultado material, uma soma de forças produtivas, uma relação com a natureza e entre os indivíduos, criados historicamente e transmitidos a cada geração pela que a precede, uma massa de forças de produção, de capitais e de circunstâncias que, por um lado, são modificadas pela nova geração mas que, por outro, lhe ditam as suas próprias condições de existência e lhe imprimem um determinado desenvolvimento, um caráter específico: por consequência, as circunstâncias influem tanto nos homens como os homens nas circunstâncias” p. 56

 

“Esta soma de forças de produção, de capitais, de formas de relações sociais, que cada indivíduo e cada geração encontram como dados existentes, é a base concreta daquilo que os filósofos representaram como ‘substância’ e ‘essência do homem’” p. 56

 

“São igualmente essas condições de vida, que as diversas gerações encontram já elaboradas, que determinam se a agitação revolucionária, que se produz periodicamente na história, será suficientemente forte para destruir as bases de tudo o que existe; os elementos materiais de uma transformação total são, por um lado, as forças produtivas existentes e, por outro, a formação de uma massa revolucionária que faça a revolução, não só contra as condições particulares da sociedade passada, mas contra a própria ‘produção da vida’ anterior, contra o ‘conjunto da atividade’ que é seu fundamento; se estas condições não existem, é perfeitamente indiferente, para o desenvolvimento prático, que a Ideia desta transformação já tenha sido expressa mil vezes… como o prova a história do comunismo” p. 56

 

8 Resumo da concepção materialista da história

“Até aqui, todas as concepções históricas ou deixaram completamente de lado esta base real da história, ou consideraram-na como uma coisa acessória, não tendo qualquer ligação com o curso da história. Assim, a história deve ser sempre escrita segundo uma norma situada fora dela. A produção real da vida aparece na origem da história, enquanto que o que é propriamente histórica aparece como separado da vida ordinária, com extra e supraterrestre” p. 57

 

9 Crítica complementar a Feuerbach e à sua concepção idealista da história

“Toda a dedução de Feuerbach, no que diz respeito à relações recíprocas entre os homens, visa unicamente provar que os homens têm necessidade uns dos outros e que sempre assim foip. 61

 

“[Feuerbach] desenvolve a ideia de que o Ser de um objeto ou de um homem é também a sua essência, que as condições de existência, o modo de vida e a atividade determinada de uma criatura animal ou humana são aquelas em que a sua ‘essência’ se sente satisfeita. Aqui, compreende-se expressamente cada exceção como um acaso infeliz, como uma anomalia que não se pode mudar” p. 62

 

Karl Marx
Teses sobre Feuerbach
(Escrito em 1845, publicado em 1888)

I

“[Feuerbach] does not conceive human activity itself as objective [gegenständliche] activity.”

 

“[Feuerbach] regards the theoretical attitude as the only genuinely human attitude, while practice is conceived and fixed only in its dirty-judaical form of appeareance.”

II

“The question wether objective truth can be attributed to human thinking is not a question of theory but is a practical question. In practice man must prove the truth, that it, the reality and Power, the this-sidedness of his thinking. The dispute over the reality or non-reality of thinking which is isolated from practice is a purely scholastic question”

VII

“[Feuerbach] does not see that the ‘religious sentiment’ is itself a social product, and that the abstract individual whom he analyses belongs in reality to a particular form of society”

XI

“The philosophers have only interpreted the world, in various ways; the point, however, is to change it”

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