Ficha de Leitura: Produção de presença – Hans U. Gumbrecht

GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro, RJ: Ed. PUC, 2010.

Introdução

“A palavra ‘presença’ não se refere (pelo menos, não principalmente) a uma relação temporal. Antes, refere-se a uma relação espacial com o mundo e seus objetos. Uma coisa ‘presente’ deve ser tangível por mãos humanas – o que implica, inversamente, que pode ter impacto imediato em corpos humanos. Assim, uso ‘produção’ no sentido da sua raiz etimológica (do latim producere), que se refere ao ato de ‘trazer para diante’ um objeto no espaço” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 13)

“’produção de presença’ aponta para todos os tipos de eventos e processos nos quais se inicia ou se intensfica o impacto dos objetos ‘presentes’ sobre corpos humanos” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.13)

“Todos os objetos disponíveis ‘em presença’ serão chamados, neste livro, ‘as coisas do mundo’” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.13)

“Ainda que possa defender-se que nenhum objeto do mundo pode estar, alguma vez, disponível de modo não mediado aos corpos e às mentes dos seres humanos, o conceito ‘coisas do mundo’ inclui, nessa conotação, uma referência ao desejo dessa ‘imediatez’” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.14)

“Se atribuímos um sentido a alguma coisa presente, isto é, se formarmos uma ideia do que essa coisa pode ser em relação a nós mesmos, parece que atenuamos inevitavelmente o impacto dessa coisa sobre o nosso corpo e os nossos sentidos.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.14)

“’Metafísica’ refere-se a uma atitude, quer cotidiana, quer acadêmica, que atribui ao sentido dos fenômenos um valor mais elevado do que à sua presença material; a palavra aponta, por isso, para uma perspectiva do mundo que pretende sempre ‘ir além’ (ou ‘ficar aquém’) daquilo que é ‘físico’” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 14)

“Importa compreender que a ênfase do livro em ‘presença’, ‘produção’ e ‘coisas do mundo’ não condena nenhum modo de relação com o mundo que tome o sentido como ponto de partida” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.14)

“A satisfação desse desejo, porém, não deverá acontecer por meio de uma simples substituição do sentido pela presença. Em última análise, o que este livro defende é uma relação com as coisas do mundo que possa oscilar entre efeitos de presença e efeitos de sentido. No entanto, só os efeitos de presença apelam aos sentidos – por isso, as reações que provocam não têm nada a ver com Einfühlung, isto é, com imaginar o que se passa no pensamento da outra pessoa”  (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 15)

 

 

Materialidades/ O não hermenêutico/ Presença: relatório anedótico de mudanças epistemológicas

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“[concebemos] a experiência estética como uma oscilação (às vezes, uma interferência) entre ‘efeitos de presença’ e ‘efeitos de sentido’” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.22)

“Ambos os conceitos – ‘materialidades’ e ‘comunicação’ – pareciam prometer uma alternativa à perpetuidade da interpretação e da narrativa sempre diferente do passado” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.27)

“Esperávamos também […] que a convergência evidente entre ‘materialidades’ e ‘materialismo’ começasse por nos obrigar a uma fidelidade ao marxismo” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.28)

“’Materialidades da comunicação’, foi então decidido [no volume Materialität der Kommunikation, de 1988], ‘são todos os fenômenos e condições que contribuem para a produção de sentido, sem serem, eles mesmos, sentido” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.28)

“a obra de Walter Benjamin, em vez de tentar ser filosófica, celebra o ‘toque’ físico imediato dos objetos culturais” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.29)

“Kittler […] oferecia uma tese ‘psico-histórica’ para o domínio do paradigma da interpretação nas Humanidades, além de um estilo alternatico de pesquisa, sintetizado no conceito de ‘psico-física’. Tal estilo de pesquisa estava relacionado ccom a questão do modo como as inovações tecnológicas e sua aplicação na invenção de novos meios de comujnicação haviam iniciado os movimentos intelectuais” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.29)

“Também queríamos ter como aliado alguém como Jacques Derrida, que, no começo do seu trajeto filosófico (uns bons vinte anos antes do nosso colóquio), havia defendido que a indiferença sistemática da ‘exterioridade do significante’ era uma das principais razões do predomínio devastador […] do ‘logo-fonocentrismo’ na cultura ocidental. Em outras palavras, não levar em conta, por exemplo, a materialidade dos caracteres gravados em cera, papiro ou pergaminho era visto como condição histórica para o predomínio do ‘sentido’ e do ‘espírito’ na cultura do Ocidente” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.30)

“Wilhelm Dilthey, que a tradição alemã rodeara com aura de fundados das Geistwissenschaften, isto é, precisamente da concepção de Humanidades no âmbito da qual se oficializara e sistematizara o predomínio da interpretação no início do século XX, logo se transformou no bode expiatório do discurso interno que se formava com rapidez entre nós. Víamos a ‘hermenêutica’, a reflexão filosófica acerca das condições de interpretação, que Dilthey quisera fomentar, como sinônimo de ‘interpretação’” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.31)

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“O passo em direção às ‘materialidades da comunicação’ abrira nossos olhos para uma multiplicidade de temas fascinantes, que poderiam ser resumidos (pelo menos aproximadamente) nos conceitos de ‘história dos media’ e ‘cultura do corpo’. Nosso fascínio fundamental surgiu da questão de saber como os diferentes meios – as diferentes ‘materialidades’ – de comunicação afetariam o sentido que transportavam. Já não acreditávamos que um complexo de sentido pudesse estar separado da sua medialidade, isto é, da diferença de aspecto entre uma página impressa, a tela de um computador ou uma mensagem eletrônica.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.32)

“Como o desconstrucionismo, por um lado, sempre insistira na impossibilidade de estabelecer estruturas estáveis de sentido e, por outro, abandonara há algum tempo o interesse inicial pela ‘exterioridade do significante’, parecia-nos estar perdendo de vista as constelações de problemas e interesses que conquistáramos sob a égide das ‘materialidades da comunicação’” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.34)

“Quando em 1993 o autor escreveu um epílogo para a edição inglesa de uma seleção de ensaios dos volumes das Materialidades e Paradoxos, pela primeira vez lançou a ideia de que o maior interesse no seu ambiente intelectual se tinha alterado da identificação do sentido (‘interpretação’) para questões relacionadas com a emergência do sentido em nível historicamente específico e em nível meta-histórico” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.34)

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“Esse afastamento da interpretação parecia abrir novas perspectivas de reflexão e pesquisa, que o autor denominou provisoriamente de ‘campo não-hermenêutico’. Procurou estruturá-lo ao redor de quatro pólos, correspondentes ao que ele entendia do conceito de signo de Louis Hjelmslev. Hjelmslev articula a distinção estruturalista entre ‘significante’ e ‘significado’ (refere-se ao significante como ‘expressão’ e ao significado como ‘conteúdo’) com a distinção aristotélica entre ‘substância’ e ‘forma’. Os quatro conceitos resultantes dessa combinação são ‘substância de conteúdo’, ‘forma de conteúdo’, ‘substância de expressão’ e ‘forma de expressão’. Com ‘substância de conteúdo, Hjelmslev remete para o conteúdo do pensamento humano antes de qualquer intervenção estruturante (o conceito está perto do que poderíamos chamar de ‘imaginação’ ou ‘o imaginário’). ‘Forma de conteúdo’, ao contrário, não corresponderia a nenhuma manifestação espacial de complexos de sentido, mas exclusivamente aos conteúdos do pensamento humano em formas bem estruturadas (há uma afinidade óbvia entre esse conceito e a noção de ‘discurso’ de Foucault). ‘Substância de expressão’ seria o conjunto daqueles materiais por meio dos quais os conteúdos podem se manifestar no espaço – mas prévios à sua definição como estruturas: a tinta (e não a cor) seria uma substância de expressão, como o seriam um computador ou um dispositivo técnico. Finalmente, ‘forma de expressão seriam as formas e cores que cobrissem uma tela, os caracteres numa página (e não a tinta), a imagem numa tela (em vez do computador visto como máquina)”

“essa estruturação do campo não hermenêutico sugeria uma sequência – muito esquemática – de três questões, que tornaria substancialmente mais complexa a primeira versão da nossa questão acerca da emergência do sentido. Essas três questões tematizavam (1) a emergência das formas de conteúdo a partir da substância de conteúdo; (2) a emergência das formas de expressão a partir da substância de expressão; finalmente, (3) a fusão das formas de conteúdo e das formas de expressão em signos ou estruturas significantes mais amplas – por exemplo, num texto escrito, num discurso ou num pictograma” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.36)

“infelizmente, não deixava de ser verdade que a questão tripla acerca da emergência do sentido, que o campo não hermenêutico ajudara a formular, só levaria – de algum modo, inevitavelmente – a um conceito muito convencional de ‘signo’ e ‘estruturas de sentido’. Esses conceitos continuam a ser metafísicos, pos continuam a pressupor que a comunicação predominantemente acerca do sentido, acerca de algo espiritual que é transportado e precisa ser identificado ‘para além das superfícies puramente materiais’ do material” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.37)

“o campo não hermenêutico seria útil para desenvolver novas respostas à pergunta que havia estado no centro do paradigma das ‘materialidades da comunicação’, ou seja, a questão (talvez ingênua) de como (se é que de algum modo) a mídia e as materialidades de comunicação poderiam ter algum impacto sobre o sentido que transportavam. Só essa questão transcenderia a dimensão do metafísico, pois só ela abandonaria a límpida separação entre a materialidade e o sentido.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.37)

“[entendo] a palavra ‘presença’, nesse contexto, como uma referência espacial. O que é ‘presente’ para nós (muito no sentido da forma latina prae-essere) está à nossa frente, ao alcance e tangível para nossos corpos. Do mesmo, o autor pretendia usar a palavra ’produção’ na linha do seu sentido etimológico. Se producere quer dizer, literalmente, ‘trazer para diante’, ‘empurrar para frente’, então a expressão ‘ produção de presença’ sublinharia que o efeito de tangibilidade que surge com as materialidades de comunicação é também um efeito em movimento permanente. Em outras palavras, falar de produção de presença implica que o efeito de tangibilidade (espacial) surgido com os meios de comunicação está sujeito, no espaço, a movimentos de maior ou menor proximidade e de maior ou menor intensidade. (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.39)

“qualquer forma de comunicação implica tal produção de presença; […] qualquer forma de comunicação, com seus elementos materiais, ‘tocará’ os corpos das pessoas que estão em comunicação de modos específicos e variados – mas não deixa de ser verdade que isso havia sido obliterado (ou progressivamente esquecido) pelo edifício teórico do Ocidente desde que o cogito cartesiano fez a ontologia da existência humana depender exclusivamente dos movimentos do pensamento humano.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.39)

“Hoje, qualquer reflexão viável acerca da presença terá de quebrar a convenção intelectual (que já está desaparecendo) ‘pós-moderna’, segundo a qual todos os conceitos e argumentos aceitáveis dever ser ‘antissubstancialista’. Em vez disso, uma reflexão sobre a presença considerará pertinente e inevitável qualquer tradição conceitual, a começar pela filosofia de Aristóteles, que tenha a ver com a substância e o espaço” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.39

“A poesia talvez seja o exemplo mais forte da simultaneidade dos efeitos de presença e dos efeitos de sentido – nem o domínio institucional mais opressivo da dimensão hermenêutica poderia reprimir totalmente os efeitos de presença da rima, da aliteração, do verso e da estrofe” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.40)

“as formas poéticas estão numa situação de tensão, numa forma estrutural de oscilação com a dimensão do sentido” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.40)

“os efeitos da presença têm sido tão completamente banidos que agora regressam sob a forma de um intenso desejo de presença – reforçado ou até iniciado por muitos dos nossos meios de comunicação contemporâneos. Nosso fascínio pela presença – ou seja, a tese final deste livro – baseia-se num desejo de presença que, no contexto da contemporaneidade, só pode ser satisfeito em condições de fragmentação temporal extrema” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.42)

 

 

 

Metafísica: breve panorama do que ora está mudando

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“a posição central, institucionalmente incontestada, da interpretação – ou seja, da identificação e da atribuição de sentido – nas Humanidades pode ser comprovada pelo valor positivo que em nossas linguagens atribuímos, mesmo automaticamente, à dimensão ‘profundidade’. Se dizemos que uma observação é ‘profunda’, estamos a elogiá-la, pois oferece um sentido novo, mais complexo e particularmente apropriado a um fenômeno. Ao contrário, se consideramos algo ‘superficial’, isso significa que lhe faltam essas qualidades, pois está implícito que não consegue ir ‘além da’ ou ‘por sob a’ primeira impressão produzida pelo fenômeno em causa (normalmente, não imaginamos que alguma coisa ou alguém não queira ter profundidade). (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.43)

“poderemos chamar de ‘metafísica do cotidiano’ a convergência desses e de outros temas numa configuração de pressupostos inerentes à nossa linguagem comum. […] na sua forma institucionalizada, as Humanidades têm claramente implicações ‘metafísicas’. Tanto a linguagem comum quanto aquilo que às vezes chamamos, um pouco pretensiosamente, de ‘métodos’ das Humanidades implicam que ir ‘além’ (‘meta-‘) do puramente ‘material’ (‘física’) é sempre bom. […] Isso pode ser entendido como resultado […] de vários séculos de reflexão sobre as estruturas do conhecimento e as condições de produção do conhecimento na cultura ocidental. Essa […] ‘história da metafísica’ é o tema do meu segundo capítulo.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.44)

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“’Renascimento’ e ‘início do período moderno’, duas designações que usamos para o período no qual começarei minha narrativa, são exemplos particularmente ricos da divergência entre uma autorreferência cultural predominante e a nossa retrospectiva histórica sobre a ‘realidade’ dessa mesma cultura” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.46)

“Nesses séculos havia uma tradição iconográfica que ainda mostrava o mundo como uma superfície plana sobre a qual erguiam-se esferas como uma cúpula. Essas cenas são apresentadas como se fossem vistas de uma perspectiva externa. Por vezes chegamos a ver, aparentemente desde fora, uma figura alegórica, representando a Humanidade […] Essa dupla inovação (isto é, o Homem como observador externo do mundo e o Homem visto nessa posição) é sintomática de uma nova configuração da autorreferência: os Homens comeam a entender-se como excêntricos ao mundo; tal posição difere da autorreferência predominante durante a Idade Média cristã, em que o Homem se via como sendo parte de e todeado por um mundo resultante da Criação divina” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.46)

“Uma segunda alteração em relação à Idade Média tem a ver com a sugestão […] de que essa figura humana, em sua excentricidade relativa ao mundo, é uma entidade intelectual e incorpórea. […] a única função explícita que se lhe atribui é observar o mundo, e para tal parecem ser suficientes faculdades exclusivamente cognitivas.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.46)

“o mundo que o observador observava e interpretava era puramente material. Claro que essa dicotomização entre ‘espiritual’ e ‘material’ está na origem de uma estrutura epistemológica em que a filosofia ocidental se apoiaria de agora em diante, o ‘paradigma sujeito/objeto’. (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.47)

“No realismo simbólico, cada objeto que constitui o mundo tem um sentido inerente, atribuído por Deus no ato da criação” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.47)

“Para o novo tipo de autorreferência, que defende que os seres humanos são excêntricos ao mundo, […] Torna-se cada vez mais convencional pensar o mundo dos objetos e do corpo humano como superfícies que ‘exprimem’ sentidos mais profundos.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.48)

“A interpretação do mundo começa a ser entendida como uma produção ativa de conhecimento acerca do mundo: é vista, acima de tudo, como algo que ‘extrai sentidos inerentes’ dos objetos do mundo – nesse aspecto está o passo decisivo em direção à Modernidade” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.48)

“O pressuposto de que os fenômenos têm sentidos inerentes não se alterou no limiar entre a cultura medieval e o início da cultura moderna (só a partir do século XIX se passou a entender mais amplamente a interpretação como uma atribuição, e não como uma identificação, de sentido). Durante os séculos medievais, porém, a humanidade nunca fora entendida como produtora ativa de conhecimento. Pensava-se que o conhecimento dos pormenores e de todas as características da Criação só estaria disponível por revelação divina.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.48)

“Acoplada a essa nova [moderna] autoatribuição, porém, apareceria a ideia de o ser humano querer e ser capaz de mudar e transformar o mundo” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.49)

“um sujeito que se acredita capaz de produzir conhecimento também se sentirá capaz de ocultá-lo e manipulá-lo. É significativo, nesse sentido, que a cultura medieval só tenha reconhecido a distinção elementar entre ‘verdade’ e ‘mentira’; nunca chegou a desenvolver conceitos correspondentes aos que entendemos como ‘ficção’ ou ‘fingimento’.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.49)

“Maquiavel considerou Fernando de Aragão o governante mais capaz de seu tempo, pois o julgava capaz de fingir, ou seja, de ‘cobrir suas intenções e planos sob o manto de pretensas motivações religiosas’” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.50)

“essa nova visão moderna […] pode ser descrita como uma interseção de dois eixos. Um eixo horizontal coloca em oposição o sujeito, observador excêntrico e incorpóreo, e o mundo, um conjunto de objetos puramente materiais, que inclui o corpo humano. O eixo vertical será, portanto, o ato de interpretar o mundo, por meio do qual o sujeito penetra na superfície do mundo para extrair dele conhecimento e verdade, um sentido subjacente. Proponho que essa cisão de mundo seja chamado de ‘campo hermenêutico’.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.50)

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“O sacramento da eucaristia, isto é, a produção da Verdadeira Presença de Deus na Terra entre os vivos, era sem dúvida o ritual central da cultura medieval. A celebração da missa, naquele tempo, não era apenas uma comemoração da Última Ceia de Cristo com os seus discípulos: era um ritual por meio do qual a ‘verdadeira’ Última Ceia, e, acima de tudo, o corpo de Cristo e o sangue de Cristo poderiam tornar-se ‘realmente’ e de novo presentes. […] O sangue e o corpo de Cristo se tornariam tangíveis, como substâncias, nas ‘formas’ de pão e vinho. O que dá forma e justificação a esse entendimento pré-moderno da relação entre o corpo de Cristo e o pão, e entre o sangue e o vinho, é o conceito aristotélico de signo.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.51)

“O signo aristotélico reúne, ao invés, uma substância (isto é, aquilo que está presente porque exige um espaço) e uma forma (isto é, aquilo que torna perceptível uma substância), aspectos que incluem um conceito de ‘sentido’ que é estranho para nós.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.51)

“podemos afirmas, de uma perspectiva antropológica, que a eucaristia católica pré-moderna funcionava como um ato mágico, um ato por meio do qual uma substância distante no tempo e no espaço se tornava presente” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.52)

“Com intensos debates teológicos, por várias décadas a teologia do protestantismo redefiniu a presença do corpo e do sangue de Cristo como sendo uma evocação do corpo e do sangue de Cristo ‘sentidos’. Assim, cada vez mais o ‘é’ na expressão ‘este é o meu corpo’ [hoc est enim corpus meum, que indicava a transubstanciação] passou a ser entendido como ‘significa’ ou ‘quer dizer’ o meu corpo.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.52)

“[só no tempo de Calvino] se começou a transformar numa ‘distância histórica’ inultrapassável a distância temporal que separava cada missa e a Última Ceia, o ponto de referência; aqui começamos a entender que existe uma relação entre a concepção emergente, especificamente moderna, da significação e a dimensão da historicidade” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.52)

“Assim como, na teologia do protestantismo, a substância do corpo de Cristo e a substância do sangue de Cristo iam sendo substituídas pelo corpo e pelo sangue como sentido, no teatro a atenção dos espectadores passava dos corpos dos atores para os personagens que eles incorporavam.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.53)

“os corpos dos atores foram afastados do alcance dos espectadores. Em outras palavras, no início da modernidade, quando começa a ser decifrado o sentido que está em jogo, tudo que é tangível, tudo que pertence à materialidade do significante torna-se secundário e de fato é afastado do palco da significação” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.53)

“Em contraste, grande parte do teatro na Idade Média parecia funcionar de modo muito diferente […:] descobriremos com frequência que é impossível identificar uma narrativa – ou seja, qualquer desenvolvimento progressivo de uma ação, muito menos de personagens. (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.53)

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“Nas obras [de Corneille, Molière e Racine], a produção de complexidade semântica era esmagadoramente predominante – em detrimento de quaisquer efeitos de presença. Nas tragédias de Corneille ou de Racine, os atores dispunham-se em semicírculo no palco e recitavam textos muito abstratos, na forma pesada do verso alexandrino. Nenhum outro estilo teatral, antes ou depois, foi mais ‘cartesiano’ do que o teatro clássico francês. Refiro-me aqui, é claro, à famosa reflexão de René Descartes – contemporâneo de Racine e de Corneille -, o primeiro a tornar a ontologia da existência humana, como res cogitans, explícita e exclusivamente dependente da capacidade de pensar; em consequência disso, ele subordinou não só o corpo humano mas todas as coisas do mundo, como res extensae, ao pensamento.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.56)

“O nome de Descartes e o adjetivo ‘cartesiano’ referem-se aqui ao ponto final no desenvolvimento, que durou um século, da histoire dês mentalités, um desenvolvimento que se estende desde as primeiras manifestações da cultura renascentista até a revelação total do campo hermenêutico” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.56)

“o que hoje chamamos Querelle dês anciens et dês modernes [dos anos 1700] foi um passo à frente para demonstrar as múltiplas conseqüências do campo hermenêutico. O que considero muito importante nessa Querelle não é tanto se os diferentes intervenientes favoreciam uma ou outra protoforma, no que viria a ser um novo estilo de ‘cultura histórica’ durante o século XVIII e, principalmente, no XIX. A característica epistemológica mais elementar – e a mais importante – que acontecimentos como a Querelle começaram a institucionalizar na cultura ocidental moderna foi a prioridade da dimensão temporal sobre a dimensão espacial, numa cultura que deixara de centrar-se num ritual de produção de ‘presença real’, passando a se basear na predominância do cogito – predominância que ainda haveria de se cristalizar num ritual próprio.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.56)

“O Iluminismo foi uma época em que a atividade humana na produção de conhecimento se transformou em condição para a aceitabilidade do conhecimento; então, a atividade humana, como vontade de transformar ativamente o mundo com base nessa revisão crítica do conhecimento, começou a dar forma à esfera da política. Foi mais um passo […] no desdobramento das implicações do campo hermenêutico” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.57)

“o Iluminismo foi o ápice da visão de mundo metafísica” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.57)

“o conhecimento revelado e, pelo mesmo motivo, o conhecimento que era reconhecido como parte dessa tradição estavam sujeitos a um rigorosíssimo processo de revisão.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.57)

“A ânsia de reunir o novo conhecimento e colocá-lo em circulação o mais amplamente possível dez do século XVIII a grande era dos dicionários e enciclopédias. […] As enciclopédias continham a expectativa utópica de que um dia o conhecimento sobre o mundo seria total, e esse conhecimento total seria o ponto de partida para criar novas instituições sociais e políticas perfeitamente adaptadas às necessidades da humanidade.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.57)

“Nessa época começou a desenvolver-se uma nova ideia acerca do espaço público e da política. O espaço público era visto como a esfera de deliberação em que todos os participantes abdicariam de seus interesses pessoais e de grupo, tendo em vista obter consenso” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.58)

“o parlamento[:] lugar onde, supostamente, a competição de diferentes opiniões se transformaria em consenso e as diferentes visões de futuro convergiriam para uma visão única” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.58)

“Na visão de mundo metafísica, […] a política parlamentar transformava-se num ritual tão central e emblemático como fora a eucaristia na cultura medieval.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.58)

“precisamente nessa época [meados do século XVIII] surgem as primeiras fendas no edifício da Modernidade. Vista a partir da história da filosofia ocidental no século XIX, a obra de Immanuel Kant, por exemplo, aparece como um momento único que expressa de modo emblemático uma ambigüidade: é, ao mesmo tempo, um avanço culminante do pensamento iluminista e um sintoma do começo da dissolução da epistemologia na qual o Iluminismo se baseou.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.58)

“Inicialmente, o pensamento de Kant parece ter sido provocado pela consciência da distância entre o sujeito e o mundo dos objetos, uma distância que parecia suficientemente grande para desafiar a hipótese filosófica contemporânea sobre os modos de apropriação do mundo. Mas até mesmo os que defendem que Kant conseguiu eliminar essa dúvida, ao demonstrar que as faculdades humanas bastavam para apreender o mundo, mesmo esses admitem que sua motivação inicial surgiu das dúvidas sobre a viabilidade do paradigma sujeito/objeto.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.59)

“os editores da Encyclopédie [Diderot e d’Alembert] partiam de uma dupla complementaridade. Esperavam que as contribuições dos diferentes autores de cada entrada do Dictionnaire raisonné se conjugassem em descrições unívocas do objeto ou do conceito em causa; não anteviam tensões ou contradições. […] Apesar disso, a realidade da publicação revelou que muitas entradas com autores múltiplos eram descrições contraditórias ou mesmo contrárias dos objetos e dos conceitos de que tratavam. Além disso, a esperança dos editores de identificar uma (e só uma) estrutura básica para todo o mundo das coisas e sua representação por meio de elemtnos do conhecimento não se concretizou sequer no plano hipotético que, numa folha desdobrável, precedia o primeiro volume da Encyclopédie, um quadro confuso que distribuía os assuntos […] sem qualquer princípio dominante de plausibilidade. (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.60)

“O conhecimento se tornou muito mais centrífugo do que seria de esperar, mas o fascínio intelectual com o pensamento ‘materialista’ e até mesmo a emergência da estética como subcampo da filosofia no século XVIII tornam claro que, contrariamente às premissas do campo hermenêutico, a apropriação do mundo pelo corpo humano, ou seja, pelos sentidos, reaparecia agora como alternativa epistemológica.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.60)

“Michel Foucault demonstrou como, nessas condições do início de uma ‘crise da representação’, a atividade de dar nome às coisas do mundo estava se transformando num empreendimento precário e, por isso, obsessivo” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p.60)

“num desenho de seus Caprichos, Francisco de Goya criou uma nova visão emblemática do filósofo iluminista [d’Alembert] quando, deliberadamente, jogou com a ambigüidade semântica do famoso subtítulo El sueño de La razón produce monstruos” […] Assim, elogia convencionalmente e, ao mesmo tempo, destrona grotescamente os poderes da razão. (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 61)

5

“Durante a segunda década do século XIX, quando as sociedades européias emergiram de quase trinta anos de revoluções e reformas que tinham começado com a esperança de tornar verdadeiro o que o Iluminismo lhes prometera […] o mundo estava – ou, no mínimo, ainda estava – longe das generosas expectativas propagadas pela geração dos ‘filósofos’. […] múltiplos fenômenos se conjugavam para reforçar aqueles sintomas, (inicialmente) isolados, de inconsistência epistemológica que identificamos na produção intelectual do final do século XVIII – e para finalmente causar uma crise generalizada na visão de mundo metafísica. Para uma descrição desse momento epistemologicamente decisivo remeto ao livro As palavras e as coisas, a inovadora obra de Foucault sobre a crise de la représentation, e à distinção entre ‘observadores de primeira ordem’ e ‘observadores de segunda ordem’, desenvolvida por Niklas Luhmann” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 61)

“O papel do observador, surgido no início da era moderna como elemento-chave do campo hermenêutico, era apenas encontrar a distância apropriada em relação aos objetos, mas o observador de segunda ordem, que haveria de dar forma à epistemologia do século XIX, era um observador condenado – mais do que privilegiado – a observar a si mesmo no ato da observação” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 62)

“o observador de segunda ordem percebeu que cada elemento do conhecimento e cada representação que ele pudesse produzir dependeriam sempre, necessariamente, do ângulo específico de observação. Assim, começou a ver que existia uma infinidade de descrições para cada objeto potencial de referência – e essa proliferação, em última análise, destruía a crença na estabilidade dos objetos de referência. Ao mesmo tempo, o observador de segunda ordem redescobria o corpo humano, mais especificamente os sentidos humanos, como parte integral de qualquer observação do mundo. Essa outra consequência da função do observador de segunda ordem […] levaria também a questionar a possível compatibilidade entre um apropriação do mundo pelos conceitos (a que chamarei ‘experiência’) e uma observação do mundo pelos sentidos (a que chamarei ‘percepção’).” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 62)

“a solução pode ser caracterizada como uma mudança de um estilo de representação do mundo em espelho (no qual cada conceito ou elemento do conhecimento supostamente correspondia a um único fenômeno) para um estilo no qual cada fenômeno seria identificado por meio de uma narrativa. Refiro-me, como é óbvio, aos discursos paralelos da filosofia da história (de tipo hegeliano) e ao evolucionismo (de tipo darwiniano).” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 63)

“os discursos narrativos abrem um espaço no qual a mukltiplicidade de representações pode ser integrada e ganhar a forma de uma sequ^ência. Juntamente com a filosofia da história e o evolucionismo, o ‘realismo’ literário do século XIX foi outro discurso que produziu uma pletora de reações aos desafios do novo multiperspectivismo na visão do mundo.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 63)

“As diferentes perspectivas que (por exemplo) os protagonistas de Flaubert ‘encarnam’ nunca acabam por juntar-se numa visão homogênea que seria o ‘seu’ mundo” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 63)

“[já] o problema da (não) compatibilidade de uma apropriação do mundo por meio de conceitos e de uma apropriação do mundo por meio dos sentidos, não produziu sequer a ilusão de uma solução. […] vemos apenas uma série infindável de tentativas, às vezes violentas mas nunca eficazes, de juntar a experiência e a percepção” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 64)

“Algumas das primeiras dessas reações podem resumir-se na metáfora de uma ‘des-regulação do signo’. Por ‘des-regulação do signo’ entenda-se as várias experiências para tentar modificar a distinção muito nítida, inerente ao campo hermenêutico, entre a superfície puramente material do significante e a profundidade puramente espiritual (ou conceitual) do significado.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 64)

“[Verlaine e Rimbaud] pretendiam investir de sentido, ou pelo menos de alguns sentidos conotativos, as estruturas sonoras dos seus textos. Um poema como Um coup de dé, de Mallarmé, parece sugerir que a disposição das palavras na página pode corresponder ao seu sentido e ao seu som potencial. O programm-Musik de Richard Wagner, finalmente, propôs a inserção de sentido nos sons e nos ritmos da música de orquestra.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 64)

“o objetivo explícito da série de vinte romances de Émile Zola, les RougonMarquart [era] explicar a história de várias gerações de uma família pela convergência da sua disposição genética e da influência de ambientes sociais múltiplos” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 64.

“Friedrich Nietzsce, que fascinou Heidegger como o último metafísico (ou o primeiro filósofo europeu a ultrapassar a metafísica), sempre elogiou a concentração acadêmica no valor filológico da superfície dos textos e na superficialidade material das máscaras, expondo ao ridículo os esforços para encontrar o sentido e a verdade últimos por baixo ou atrás deles […] Antes de estabelecer os fundamentos da psicanálise como único método interpretativo na obra A interpretação dos sonhos, publicada em 1900, Sigmund Freud trabalhara mais de uma década em vários esquemas destinados a integrar o pensamento humano na fisiolofia humana. Por fim, tal como outros pensadores do seu tempo, Henri Bérgson estava convencido de que a memória humana era um fenômeno que, conceitualmente dissecado, haveria de revelar as ligações entre a mente e o cérebro.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 65)

“É significativo que pensadores como Bérgson, Freud e Nietzsche […] tenham lutado em seu tempo – na maioria dos casos, em vão – para obter respeitabilidade acadêmica. O mundo oficial das universidades seguia rapidamente em direção a soluções radicais para reagir ao problema da mediação entre experiência e percepção, soluções que acabavam por sugerir formas diferentes de separação dessas duas dimensões. Em nível epistemológico, uma dessas soluções era apontada pelo estilo filosófico fundado por Edward Husserl, a que podemos chamar ‘fenomenologia’. Numa viragem polêmica contra a crença ‘ingênua’ dos cientistas naturais de que poderiam ‘apreender’ as coisas do mundo, Husserl sugeriu (pelo menos muitos de seus leitores entenderam assim) que os objetos exteriores ao pensamento humano eram pura e simplesmente inacessíveis. Era um dos finais do paradigma sujeito/objeto, do campo hermenêutico e da metafísica ocidental. A filosofia fenomenológica em breve se concentraria exclusivamente nos esforços introspectivos para descrever os mecanismos pelos quais o próprio pensamento humano produz (‘constroi’) visões do mundo exterior. Tornou-se assim uma matriz de outros estilos ou escolas contemporâneas […] que caracterizamos como ‘construcionistas’ – por causa do princípio geral de que tudo que analisam ou com que se relacionam são ‘construções’ (ou projeções) da mente humana.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 66)

“Um passo institucional paralelo ocorreu na Universidade de Berlim durante a última década do século XIX. […] E, 1893, o filósofo William Dilthey conseguiu impedir que a Universidade de Berlim contratasse Hermann Ebbinghaus, um eminente representante da psicologia ‘científica’, a quem acusava de ‘transgressões para o campo da fisiologia’. Precisamente dez anos depois, Dilthey e catorze dos seus colegas propuseram ao Ministério da Cultura que todos os estudiosos que praticavam aquele modo de pesquisa forrem institucionalmente separados. Tal secessão (que acabaria por se concretizar) foi o início da independência institucional das Geistwissenschaften [ciências do espírito], um grupo de disciplinas que, na esteira do programa de Dilthey, concentrou-se na interpretação como prática nuclear e na hermenêutica como espaço de reflexão.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 66

“O preço que as Humanidades tiveram de pagar por esse passo foi evidente: a perda de todas as referências do mundo que não fossem cartesianas nem estivessem fundadas na experiência.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 67)

6

“Motivadas pela convergência da recepção ampla (quase ‘popular’) e entusiástica da fenomenologia de em toda Europa e da influência institucional de Dilthey e de sua escola, as Humanidades concentraram-se mais do que nunca nas dimensões de sentido e na linguagem como lugares e instrumentos da construção do mundo.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 67)

“a fenomenologia, o construcionismo e os estudos culturais comparados, a nova crítica e o alto modernismo, em todas as suas variedades internas, como reações e movimentos intelectualmente ‘revolucionários’, formavam apenas um de dois ramos de reações iniciadas pelos efeitos de longo prazo da crise epistemológica do século XIX. Esse era o ramo a que ainda hoje se chama ‘progressista’. A outra sequência de reações relacionadas à mesma origem caracterizava-se por um sentimento comum de perda e por uma nostalgia daquela referência ao mundo dos objetos, em cuja disponibilidade a metafísica acreditara tão longa e tão fortemente. Durante várias décadas, pesquisadores de diferentes áreas apontaram, às vezes com gestos dramáticos de lamento ou de remorso, a perda de uma (crença numa) referência ao mundo. A filosofia analística, no seu início institucional, pretendia provar que se poderia atingir pelo menos um grau mínimo de referência ao mundo com a linguagem ou, pelo menos, com frases elementares cuidadosamente engendradas. Ao mesmo tempo, mas tanto quanto se possa imaginar divergindo da filosofia analítica nos seus estilos intelectuais, pensadores ferozes e artistas de gestos loucos, como Georges Bataille ou Antonin Artaud, acusavam a cultura ocidental de ter perdido o contato com o corpo humano.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 70)

“Nesse contexto, nenhum pensador foi mais longe na crítica e na revisão da visão de mundo metafísica do que Martin Heidegger. Iniciado com a publicação de Ser e tempo em 1929, esse esforço logo atraiu a atenção internacional. Heidegger substituiu o paradigma sujeito/objeto pelo novo conceito de ‘ser-no-mundo’, que, por assim dizer, deveria devolver a autorreferência humana ao contato com as coisas do mundo” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 70)

“Contra o paradigma cartesiano, Heidegger reafirmava a substancialidade corpórea e as dimensões espaciais da existência humana; ele começou a desenvolver a ideia de um ‘desvelamento do Ser’ (nesse contexto, a palavra Ser refere-se sempre a alguma coisa substancial) para substituir o conceito metafísico de ‘verdade’” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 70)

7

“durante as primeiras décadas do século XX houve dois tipos paralelos de reação à perda da referência ao mundo e da dimensão da percepção: as várias formas de construcionismo, por um lado, e as diferentes tentativas de reaver a referência e a percepção, por outr. O contraste e a tensão entre esses dois tipos veio a ser uma alternância entre estilos intelectuais ‘duros’ e ‘suaves’ no âmbito das Humanidades por volta da década de 50.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 71)

“Desde o final da década de 1950, porém, sucederam-se ondas simultâneas de paradigmas aparentemente ‘mais duros’. Entre eles, estava a recepção dos estudos literários ao estruturalismo, à lingüística cultural e ao chamado ‘formalismo russo’. Pelo menos na ambição de ultrapassar a subjetividade da interpretação pura, essas teorias corresponderam a um novo entusiasmo por todos os tipos de abordagens sociológicas, incluindo as diferentes variedades do marxismo e da história da recepção literária. Só dez anos depois, nas décadas de 1970 e 1980, o ensino ‘pós-moderno’ da literatura, sob a influência ‘suavizante’ da desconstrução e do novo historicismo, fez o que podia para tornar tão ingênuo quanto possível o desejo anterior de rigor teórico e metodológico. Apesar de divergências filosóficas internas, a desconstrução e o novo historicismo começaram por (diferentes) críticas ao estruturalismo (isto é, a um paradigma ‘duro’), e tanto uma quanto o outro encontraram recepção mais fértil entre uma geração de acadêmicos da literatura que haviam sido educados no estilo interpretativo da nova crítica.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 72)

“Já deve ter-se tornado evidente que entendo a alternância entre práticas ‘duras’ e ‘suaves’ nas Humanidades como uma reação tardia ao trauma de nascenção do grupo de disciplinas cujo principal ponto de convergência e identidade era uma exclusão, nomeadamente a exclusão das dimensões epistemológicas da percepção e da referência. Mas essa tese ainda não é uma resposta à pergunta com a qual iniciei este capítulo: por que estamos tão ansios para ‘ultrapassar a metafísica’? Uma resposta que este capítulo tornou possível é que ‘ultrapassar a metafísica’ pode ser entendido, em retrospectiva, como uma tentativa de nos redimir da alternância, em última análise inútil, entre práticas intelectuais ‘suaves’ e ‘duras’. Espero, portanto, que meu interesse na emergência do sentido e, acima de tudo, na oscilação entre efeitos de sentido e efeitos de presença, tão diferente do tópico ‘materialidades da comunicação’, deixe de ser atribuído exclusivamente a uma ou a outra dessas polaridades […] Se não é a solução para ‘como ultrapassar a metafísica’ ou para ‘como abandonar a metafísica’, pelo menos a interrupção da alternância entre paradigmas duros e paradigmas suaves pode ser um modo de escapar da (ou de esquecer a metafísica) como campo de forças intelectual.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 73)

 

Para além do sentido: posições e conceitos em movimento

1

“[em Gramatologia, Derrida] escreve sobre ‘a era do signo’ (penso que se refere ao que tenho chamado ‘metafísica’). […] lê-se que ‘a era do signo talvez nunca venha a ter um fim. O seu encerramento histórico, porém, está traçado’” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 75)

“Há bons argumentos para terminar com a era da polaridade entre o significante puramente material e o significado puramente espiritual, mas não é claro – a partir do texto de Derrida, certamente não – que de fato queiramos recorrer a esses argumentos de um modo que definitivamente significaria o fim da metafísica. […] quem terá paciência suficiente – infinita paciência – para concordar com Derrida?” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 76)

“[Paul] De Man defendia que tinha terminado a ilusão do que chamamos de ‘leitura semiótica’ – mas, ao lamentar tão fielmente a perda da referência e do sentido estável, tornou impossível esquecê-los” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 76)

“Ora, o que significaria – e o que implicaria – pôr fim à era do signo? […e] o fim da metafísica? […] julgo que o ‘para além’, em metafísica, só pode querer dizer algo somado à interpretação – isso, é claro, sem abandonar a interpretação como prática intelectual elementar e provavelmente inevitável. Seria o mesmo que tentar desenvolver conceitos que nos permitiriam, nas Humanidades, nos relacionar com o mundo de um modo mais complexo do que a simples interpretação, o que, em si, já é mais complexo do que a simples atribuição de sentido ao mundo (ou, para usar uma topologia mais antiga, mais complexo do que extrair sentido do mundo)” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 76)

“provavelmente não existe maneira de acabar com o domínio exclusivo da interpretação, nem de abandonar a hermenêutica e a metafísica nas Humanidades, sem recorrer a conceitos que os possíveis inimigos intelectuais não caracterizem polemicamente como ‘substancialistas’, ou seja, conceitos como ‘substância’, ‘presença’ e quem sabe até ‘realidade’ e ‘Ser’” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 77)

“acreditar na possibilidade de nos referirmos ao mundo sem ser pelo sentido tornou-se sinônimo do grau mais elevado de ingenuidade filosófica” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 77)

“Apesar de suas ideias revolucionárias e da crença de que possui o potencial intelectual para ‘encerrar’ para sempre a ‘era do signo’, a desconstrução, em grande medida, tem recorrida a um suave terror para consolidar a ordem vigente nas Humanidades” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 78)

2

“neste capítulo […] tento alcançar e pensar em uma camada nos objetos culturais, e em nossa relação com eles, que não é a camada do sentido. […] também será bom lembrar algumas afinidades importantes no cenário contemporâneo das Humanidades” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 78)

“Na hermenêutica atual, [Gianni] Vattimo pertence àqueles maximalistas que estão convencidos de que a crença […] em que a interpretação é a única maneira de nos relacionarmos com o mundo já atingiu há muito as ciências e, como resultado, enfraqueceu todas as reivindicações científicas de facticidade: ‘O mundo como conflito de interpretações, e nada mais, não é uma imagem do mundo que tenha de ser defendida contra o realismo e o positivismo da ciência. É a ciência moderna, herdeira e remate da metafísica, que transforma o mundo num lugar onde (já) não há fatos, apenas interpretações” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 79)

“Vattimo talvez estivesse de acordo comigo sobre o que Heidegger quer dizer com ‘história do Ser’ – mas nossas reações a esse conceito não poderiam ser mais divergentes. Eu pretendo virar a substancialidade do Ser contra a tese da universalidade da interpretação, enquanto Vattimo quer que o Ser (o desejo de Ser?) desapareça por sob uma reiteração infindável de interpretações” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 80)

“Que Vattimo, além disso, chame à sua posição antipresença e antissubstancialista de ‘leitura esquerdista de Heidegger’ revela o que pretendo dizer quando afirmo que a hermenêutica e a interpretação, nos discurso das Humanidades, estão protegidas por gestos de intimidação intelectual” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 80)

“[Umberto Eco] defendeu a anacrônica tese do regresso a uma forma de interpretação textual que, em vez de ser uma produção infindável de variantes, produzisse resultados definitivos ou pudesse ao menos resultar em critérios que permitissem distinguir interpretações melhores e interpretações piores. ‘Os limites da interpretação’, diz Eco […], ‘coincide com os direitos do texto (o que não quer dizer os direitos do autor)’” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 80)

“há razões para duvidar que tal retorno voluntário à ingenuidade epistemológica, em última análise, possa ser viável, depois de todas as crises na história da filosofia ocidental do século XX. Hoje, é o paradigma sujeito/objeto que exclui qualquer simples referência ao mundo – e é precisamente nesse paradigma que Eco não toca (ou inadvertidamente restaura) quando se compromete com os ‘direitos do texto’. Por isso, exatamente, creio que deveríamos tentar restabelecer o contato com as coisas do mundo fora do paradigma sujeito/objeto (ou numa versão modificada desse paradigma), tentando evitar a interpretação – sem mesmo criticar a altamente sofisticada e altamente autorreflexiva arte de interpretação que as Humanidades há muito instituíram” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 81)

“Também por essa razão sinto forte afinidade com a premissa do livro de Jean-Luc Nancy, The Birth to Presence […]: ‘Chega um momento em que só se pode sentir raiva, uma raiva absoluta, contra tantos discursos, tantos textos que não têm outro objetivo senão fazer um pouco mais de sentido, ou refazer ou aperfeiçoar delicadas obras de significação’” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 81)

“Nancy alude a uma concepção de presença que é difícil – ou impossível – reconciliar com a moderna epistemologia ocidental, pois torna a trazer a dimensão de proximidade física e de tangibilidade” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 82)

“uma presença que escapa à dimensão do sentido tem de estar em tensão com o princípio da representação: [diz Nancy que] ‘a presença não vem sem apagar a presença que a representação gostaria de designar (os seus fundamentos, a sua origem, o seu tema)’” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 82)

“a presença não pode passar a fazer parte de uma situação permanente, nunca pode ser uma coisa a que, por assim dizer, nos possamos agarrar.

Deve ser essa a razão pela qual Nancy […] associa esse conceito àquilo que chamo de condições de ‘temporalidade extrema’. Para Nancy, a presença, pelo menos a presença nas condições contemporâneas, é o nascimento, ‘a chegada que apaga a si mesma e devolve a si mesma’” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 82)

“[Para Karl Heinz Bohrer], o ‘súbito’, o caráter efêmero de certos surgimentos e partidas, é a característica fundamental da experiência estética, e ele se refere a isso como a ‘negatividade estética’: ‘a negatividade da consciência da presença evanescente’. O que, nessas condições, se torna evidente no conceito de experiência estética segundo Bohrer é obviamente a substância, não o sentido. Mas parece ser exclusivamente a substância do significante. Ao referir-se, por exemplo, à famosa reflexão de Kafka acerca da impressão que nele deixou um grupo de atores judeus, Bohrer escreve que ‘Kafka não lê as expressões do ator em relação ao que o ator exprime (isto é, o seu papel), lê apenas a partir da expressão” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 83)

“Uma forma – maliciosa, reconheço – de caracterizar o construtivismo seria dizer que é uma versão gasta da premissa fenomenológica segundo a qual só podem ser objeto de análise filosófica os conteúdos da consciência humana. Com base numa consequência necessária dessa posição (ou seja, no postulado de que o que quer que identifiquemos como ‘realidade/realidades’ só pode ser abordado como projeção ou ‘construção’ da nossa consciência), acrescentado da tese dupla, mais precária, de que nessas construções é possível identificar traços de uma consciência partilhada por todos os seres humanos (o ‘sujeito transcendental’), e que se podem encontrar também vestígios desses traços partilhados em todas as sociedades existentes (‘mundos da vida’), o construtivismo acaba por concluir que todas as realidades que partilhamos com os outros seres humanos são ‘construções sociais’. Contrariando, penso, suas origens filosóficas, o construtivismo transformou-se hoje na crença trivial de que tudo, desde ‘sexo’ até ‘paisagem’, via ‘cultura’, está facilmente ao dispor da vontade humana de mudar” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 85)

“a obra de Judith Butler, Bodies That Matter (1993) […], ao trazer para a discussão a ‘materialidade’ do corpo e a inércia que essa materialidade opõe a qualquer tipo de transformação, […] provocou o construtivismo como ponto de partida largamente aceito nas discussões então abertas na filosofia de gênero: ‘o que proponho no lugar dessas concepções de construção é um regresso à noção de matéria, não como sítio ou superfície, mas como processo de materialização que estabiliza ao longo do tempo para produzir o efeito de fronteira, fixidez e superfície que chamamos matéria.’ Butler quer dizer que não basta uma simples decisão para alterar o gênero de uma pessoa […]; são necessárias formas de comportamento e de ação, mantidas ao longo do tempo (nesse contexto, Butler recorre ao conceito de ‘performance’), capazes de moldar e de produzir diferentes formas e identidades corporais” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 86)

“Ao concentrar-se na questão de saber como a substância corporal pode se transformar – questão que, tanto quanto sei, nunca foi excluída por nenhuma filosofia que operasse com o conceito de ‘substância’ -, Butler pretende provar que é possível abandonar a doxa construtivista sem abdicar do valor político do direito e da capacidade de mudança do sujeito” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 86)

“Sob o termo ‘aparência’, [Martin] Seel reúne as condições com as quais o mundo nos é dado e apresentado aos sentidos humanos (outra palavra que ele usa no mesmo contexto é Wahrnehmung, ‘percepção’). Como é óbvio, uma estética da aparência é uma tentativa de nos devolver, à consciência e ao corpo, a coisidade do mundo” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 88)

“o que quer que ‘apareça’ está ‘presente’ porque se oferece aos sentidos do ser humano. Existem dois aspectos a que ele dá particular atenção. Em primeiro lugar, a aparência das coisas, para Seel, produz sempre uma consciência das limitações do controle humano sobre tais coisas [Unverfügbarkeit]. Em segundo lugar, e esta parece ser a questão central para a reflexão de Seel, procura identificar e compreender as condições e instrumentos com os quais é possível produzir aparência num ambiente social e cultural em que a atribuição de sentido – e não a percepção sensorial – é institucionalmente primordial” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 89)

“Hans-Georg Gadamer, que, mais do que qualquer outro filósofo do nosso tempo, está associado à hermenêutica (incluindo sua reivindicação de universalidade) e à interpretação como produção contínua de sentido, sugeriu que se desse maior reconhecimento ao não semântico, ou seja, às componentes materiais dos textos literários.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 89)

“[Em entrevista recente, Gadamer elabora] uma posição que de fato desafia a assunção de que o sentido é sempre e necessariamente a dimensão predominante na leitura de um poema:

‘Mas – poderemos de fato supor que a leitura desses textos é uma leitura exclusivamente concentrada no sentido? Não cantamos o texto [Is es nicht ein singen]? Será que o processo pelo qual o poema fala só deve ser conduzido por uma intenção de sentido? Não existe ao mesmo tempo uma verdade na sua performance [eine Vollzugswahrheit]? É esta, penso, a tarefa com que o poema nos confronta’

Gadamer chama à dimensão não hermenêutica do texto literário o seu ‘volume’ e faz corresponder à tensão entre as suas componentes semânticas e não semânticas a tensão entre ‘mundo’ e ‘terra’ que Heidegger desenvolve no ensaio A origem da obra de arte. É a sua componente ‘terra’ que permite à obra de arte ou ao poema ‘firmar a si mesmo’; é a ‘terra’ que dá à obra de arte existência no espaço.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 90)

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“do ponto de vista de Heidegger, a fenomenologia de Husserl era o ponto de chegada de uma trajetória filosófica milenar, na qual o paradigma sujeito/objeto – ou seja, a configuração conceitual da contínua divergência entre a existência humana e o mundo como esfera puramente material – conduzira a cultura ocidental a um estado extremo de alienação do mundo. Mais do que Husserl (que tinha boas razões para chamar ‘cartesiana’ à sua filosofia), Descartes era o objeto explícito da crítica de Heidegger: por isso, Ser e tempo apresenta como pecados originais da filosofia moderna o fundamento cartesiano da existência humana no pensamento (e só no pensamento) e as subsequentes dissociações entre a existência humana e o espaço e entre a existência humana e a substância. Visto dessa perspectiva, o passo conceitual decisivo no livro de Heidegger é, como disse, a caracterização da existência humana como ‘ser-no-mundo’, ou seja, como uma existência que está sempre já em contato substancial, e, por isso, espacial com as coisas do mundo” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 91)

“‘Ser-no-mundo’ é um conceito perfeitamente ajustado a um tipo de reflexão e análise que tenta recuperar a componente de presença em nossa relação com as coisas do mundo. Nas páginas que se seguem, porém, eu gostaria de revelar a complexidade de outro conceito-chave de Heidegger […] É o conceito de Ser […] Espero que o esforço de revelar as várias dimensões do conceito […] possa produzir uma consciência mais nítida de até onde deveria ir uma transformação em nosso estilo conceitual atual se, de fato, quiséssemos tentar desenvolver um discurso mais ajustado [à reflexão sobre a] presença” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 92)

“o Ser, na arquitetura da filosofia de Heidegger, toma o lugar da verdade (ou, para ser mais preciso, toma o lugar do conteúdo da verdade) que havia sido ocupado, desde o tempo de Platão […], pelas ‘ideias’. […] Heidegger fala da verdade como algo que acontece [ein Geschehen].” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 93

“o Ser, enquanto está sendo revelado, por exemplo, numa obra de arte, não é nem espiritual nem conceitual. Ser não é um sentido. Ser pertence à dimensão das coisas” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 93)

“a função da obra de arte é ‘mostrar algo que tem o caráter de coisa’ […] Se o ser tem o caráter de coisa, quer dizer que tem substância e, por isso, ao contrário de algo puramente espiritual, ocupa espaço “(GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 93

“‘Com o nosso questionar[’, diz Heidegger, ‘]entramos numa paisagem; estar dentro dessa paisagem é um requisito fundamental para restabelecer o enraizamento do histórico Dasein.’ Ter uma substância e, assim, ocupar espaço implica a possibilidade de o Ser revelar um movimento: ‘O Ser como phusis é o balanço em fusão’.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 94)

“o movimento do Ser no espaço acaba por se revelar multidimensional (tridimensional, para ser mais exato) e […], na sua total complexidade, esse movimento multidimensional explica o que Heidegger chama de ‘acontecimento da verdade’.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 94)

“[Diz Heidegger:] ‘Phusis é o balanço emergente, o suster-se-ali-em-si-mesmo, a constância. Ideia, o aspecto como o que é visto, é a determinação do constante como aquilo que, e apenas na medida em que, se sustém do lado oposto ao ver. Mas Phusis como balanço emergente é também já aparecer. Certamente, é justo que aparecer tenha dois sentidos. Primeiro, aparecer denota o evento autocoletor de fazer-com-que-se-sustenha e, assim, suster-se no coligido. Mas aparecer também quer dizer: uma coisa que já se sustém ali, para oferecer uma zona de entrada, uma superfície, um olhar como um oferecer-se para ser olhado.’

Julgo que está correto associar a dimensão vertical [de balanço] no movimento do Ser ao simples fato de estar ali (mais exatamente, à sua emergência em estar ali e ocupar um espaço), ao passo que a dimensão horizontal [de ideia e aspecto] aponta para o Ser como estando a ser percebido, o que também quer dizer o Ser oferecendo-se à vista de alguém (como uma aparência e como um ‘ob-jeto’, uma coisa que se move ‘em direção a’ ou ‘contra’ um observador).” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 95)

“Heidegger sugere que o Ser ‘se retira em vez de se oferecer a nós’, de modo que ‘as coisas que aparecem’ na retirada do Ser ‘deixam de ter o caráter de objetos’. Estou convencido de que essa retirada é parte do movimento duplo de ‘revelção’ e ‘retirada’ que, como vimos, constitui o acontecimento da verdade, e que a parte da ‘revelação’ contém tanto o movimento vertical de ‘balanço’ (de emergência e do seu resultado: estar ali), quanto o movimento horizontal de ‘ideia’ (como o que se apresenta, a aparência).” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 95)

“[o Ser] pretende referir-se às coisas do mundo independentemente da (ou anteriormente à) sua interpretação e da sua estruturação por meio de uma rede qualquer de conceitos histórica ou culturalmente específicos. Dito de outro modo, penso que o Ser se refere às coisas do mundo antes de elas se tornarem parte de uma cultura (ou, para usar a figura retórica do paradoxo, o conceito refere-se às coisas do mundo antes de elas fazerem parte de um mundo).” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 95)

“o Ser só será Ser fora das redes da semântica e de outras distinções culturais. Para que pudéssemos ter a experiência do Ser, porém, este teria de atravessar o limiar entre, de um lado, uma esfera (que podemos pelo menos imaginar) livre das grelhas de qualquer cultura específica e, de outro, as esferas bem estruturadas das diferentes culturas. Além disso, para ser experimentado, o Ser teria de tornar-se parte de uma cultura. Assim que atravessar esse limiar, porém, deixará de ser, claro, Ser. Por isso, a revelação do Ser, no acontecimento da verdade, tem de se perceber a si mesma como um duplo movimento contínuo de vir para diante (em direção ao limiar) e de se retirar (afastando-se do limiar), de revelação e ocultação” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 96)

“a mesma estrutura constitui a concepção mais ampla de Heidegger de uma História do Ser [Seingeschichte]. Se o Ser se revela ou não, não depende apenas da (maior ou menor) serenidade que cada Dasein é capaz de investir. Depende também de cada momento específico no tempo da Humanidade. Nesse sentido, Heidegger estava convencido, por exemplo, que a Grécia antiga tinha uma possibilidade incomparavelmente maior de estar presente na revelação do Ser do que, digamos, os habitantes do início do século XX” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 96)

“[Recapitulemos] a função do Dasein (palavra usada por Heidegger para designar a ‘existência humana’) no acontecimento da verdade. […] Dasein não é sinônimo das definições padrão de ‘sujeito’ ou ‘subjetividade’ [que] pertence[m] ao contexto epistemológico do paradigma sujeito/objeto. Dasein é o ser-no-mundo, isto é, a existência humana que está sempre já em contato – funcional e espacial – com o mundo. O mundo com o qual o Dasein está em contato está ‘ao-alcance-da-mão’, é um mundo sempre já interpretado. Ao pressupor a situação de Ser-no-mundo, Heidegger caracteriza a possível contribuição do Dasein para a revelação do Ser como serenidade [Gelassenheit], a capacidade de deixar que as coisas aconteçam. Então, o impulso ou a iniciativa para a revelação do Ser (se é que tais palavras são adequadas) parece vir do lado do Ser, não do lado do Dasein. Assim, é interessante que outra determinação da serenidade seja o seu estatuto de estar de ‘fora da distinção entre atividade e passividade’. Na medida em que o Dasein, para Heidegger, tem de estar-no-mundo (e não pode, como um sujeito, estar-em-frente-do-mundo), também é plausível que ele descreva a serenidade como a capacidade de ‘abandonar quaisquer imaginação e projeção transcendentes’. Claramente, o Dasein não deve ocupar uma posição que possa estar conectada à manipulação, à transformação ou à interpretação do mundo.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 97)

“Eis um excerto de A origem da obra de arte [de Heidegger] que faz convergir alguns aspectos que tenho citado – o acontecimento da verdade como um evento que nos faz ver as coisas de ‘um modo diferente do habitual’, por exemplo, e esse modo ‘diferente’ associado ao ‘nada’, isto é, a uma dimensão de onde estão ausentes todas as distinções culturais:

Então, a arte é o surgimento e o acontecimento da verdade. Mas será então que a verdade surge do nada? De fato, assim é, se por nada se entender a mera negação daquilo que é, e se aqui pensarmos naquilo que é como um objeto presente, no sentido comum, que a partir daí surge à luz e é desafiado pela existência da obra como só presumivelmente um ser verdadeiro. A verdade não resulta nunca de objetos que estão presentes e são comuns. Pelo contrário, o abrir-se do Aberto, o descerrar do que é, acontece apenas enquanto é projetada a abertura’” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 98)

“Heidegger ocupa algumas páginas com a recordação de um antigo templo grego, e é aí que, na sua tentativa de caracterizar o Ser, desenvolve dois outros conceitos, ‘mundo’ e ‘terra’” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 99)

“Uma resposta complexa à pergunta de como a presença do templo pode contribuir para provocar a revelação do Ser é dada nas descrições contrastantes de ‘mundo’ e ‘terra’: ‘O mundo é a abertura autorreveladora dos trilhos largos de decisões simples e essenciais no destino de um povo histórico. A terra é a vinda espontânea para diante daquilo que continuamente se autoisola e, nessa medida, dá abrigo e esconderijo’” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 99)

“um aspecto muito importante e às vezes ignorado do texto de Heidegger [é] a ideia de que ver as coisas como fazendo parte do Ser, isto é, independentemente das formas que se lhes impõem as culturas historicamente específicas, não quer dizer que essas coisas ou não tenham nenhuma forma ou tenham formas necessariamente imutáveis (‘eternas’). Portanto, não deveremos concluir, por exemplo, que o Ser revelado a um antigo camponês ou filósofo grego teria sido o mesmo Ser que pode ser revelado a nós, dois milênios e meio mais tarde. ‘Terra’ poderia referir-se a Ser como substância, e ‘mundo’ às configurações e estruturas em mudança, das quais o Ser como substância pode se tornar uma parte.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 102)

“A outra solução para o estatuto de ‘mundo’ […] entende que, para Heidegger, o Ser revela-se sempre e só na forma e na substância (assim como contra ou por meio da forma e da substância) de coisas que fazem parte de culturas específicas (‘seres’ e ‘mundos’ como configurações de tais coisas). É que, ao contrário das ideias platônicas, o Ser não deve ser uma coisa geral, nem uma coisa meta-histórica ‘por sob’ ou ‘atrás’ de um mundo de superfícies. Talvez seja simples defini-lo como proponho: o Ser são as coisas tangíveis, consideradas independentemente das situações culturais específicas – o que não é simples de fazer nem provável de acontecer” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 102)

“Uma coisa parece certa, sejam quais forem nossas interpretações de ‘mundo’. Sempre que uma situação cultural específica desaparece (‘se o deus escapa do templo’), as coisas pertencentes a essa situação deixam de poder ser o ponto de partida para uma revelação do Ser, pois lhes falta ‘mundo’ como dimensão integrante que parece dar-lhes vitalidade” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 103)

“Por mais provisória que seja minha tentativa de revelar a complexidade do conceito heideggeriano de Ser, não há dúvida de que o conceito está muito próximo do de ‘presença’ (que procurei identificar, no início deste capítulo, como o ponto convergência entre diferentes reflexões contemporâneas, que tentam ir além de uma epistemologia metafísica e de sentido)”. Ambos os conceitos […] implicam substância; ambos estão relacionados com o espaço; ambos podem se associar ao movimento” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 103

“o que propus chamar de ‘os movimentos’ do Ser, na concepção heideggeriana, tornam impossível pensar no Ser como algo estável. O mais importante ponto de convergência, porém, é a tensão entre o sentido (isto é, aquilo que torna as coisas culturalmente específicas), de um lado, e a presença ou Ser, de outro.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 104)

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“é tempo de romper com certos tabus discursivos […], de desenvolver conceitos que possam ao menos permitir apreender os fenômenos de presença, em vez de só podermos passar ao largo dessa dimensão […:] a única estratégia que poderá nos ajudar a progredir nisso é o recurso a culturas e discursos pré ou não-metafísicos do passado” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 105)

“Por falta de conhecimento da cultura grega da Antiguidade, recorro, para me inspirar, à cultura medieval e ao contraste entre a cultura medieval e o início da cultura moderna” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 105)

“O que pretendo propor […] é um conjunto de conceitos […] que nos ajude a ultrapassar o estatuto exclusivo da interpretação nas Humanidades” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 105)

“apesar do princípio de que todos os discursos de autodescrição coletiva contêm elementos de cultura de sentido e de presença, está certo supor que alguns fenômenos culturais (por exemplo, os sacramentos da Igreja Católica ou a racionalidade de atuais cultos afro-brasileiros) estão mais do lado da cultura de presença, ao passo que outros (como a antiga política de Roma ou a burocracia do início do Império Espanhol) são predominantemente fundados na cultura de sentido” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 106)

Primeiro, a autorreferência humana predominante numa cultura de sentido é o pensamento (poderíamos dizer também a consciência ou a res cogitans), enquanto a autorreferência predominante numa cultura de presença é o corpo” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 106)

Segundo, […] a ‘subjetividade’ ou ‘o sujeito’ ocupam o lugar da autorreferência humana predominante numa cultura de sentido, enquanto nas culturas de presença os seres humanos consideram que seus corpos fazem parte de uma cosmologia (ou de uma criação divina). Nesse caso, não se vêem como excêntricos ao mundo, mas como parte do mundo. […] Numa cultura de presença, além de serem materiais, as coisas do mundo têm um sentido inerente (e não apenas um sentido que lhes é conferido por meio da interpretação), e os seres humanos consideram seus corpos como parte integrante da sua existência” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 107)

Terceiro, o conhecimento, numa cultura de sentido, só pode ser legítimo se tiver sido produzido por um sujeito no ato de interpretar o mundo […] Para uma cultura de presença, o conhecimento é legítimo se for conhecimento tipicamente revelado. É conhecimento revelado pelos(s) deus(ES) ou por outras variedades daquilo que se poderá descrever como ‘eventos de autorrevelação do mundo’. […] o impulso para esses eventos de autorrevelação nunca vem do sujeito […] O ‘conhecimento’  resultante da revelação e do desvelamento, porém, […] não é apenas conceitual. Pensar de acordo com o conceito heideggeriano de Ser deve nos dar coragem para imaginar que o ‘conhecimento’ revelado ou desvelado pode ser a substância que aparece, que se apresenta à nossa frente (mesmo com seu sentido inerente), sem requerer a interpretação como transformação em sentido.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 108)

“Essas três primeiras oposições […] tornam plausível, quarto, que – explícita ou implicitamente – cada cultura opere com concepções diferenciadas daquilo que entende por signo. É claro que numa cultura de sentido o signo tem de ter precisamente a estrutura metafísica que Ferdinand de Saussure defende ser a sua condição universal: a união de um significante puramente material com um significado (ou ‘sentido’) puramente espiritual. Ora, é importante acrescentar que, numa cultura de sentido, o significante ‘puramente material’ deixa de ser objeto de atenção quando se identifica o seu sentido ‘subjacente’. Uma forma (para nós) muito menos familiar de signo […é a] definição aristotélica de signo, que já expliquei, segundo a qual um signo é a junção de uma substância (algo que exige espaço) e uma forma (algo que torna possível que a substância seja percebida). Este conceito-signo dispensa a distinção clara entre o puramente espiritual e o puramente material nos dois lados do que se junta no signo.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 108)

“gostaria de mencionar minha recordação de um guia turístico no Japão, que, depois de me ter descrito os significados precisos, um por um, de cada uma das diferentes rochas num famoso jardim de pedras, acrescentou: ‘Mas a beleza dessas pedras também está em que elas estão sempre chegando perto do nosso corpo, sem nunca nos pressionarem.’ Um mundo assim, […] onde a verdade pode ser a substância, ou seja, o mundo da cultura da presença, é um mundo em que, quinto, os seres humanos querem relacionar-se com a cosmologia envolvente por meio da inscrição de si mesmos, ou seja, de seus corpos, nos ritmos dessa cosmologia. Numa cultura de presença, a vontade de desviar ou de alterar esses ritmos […] é vista como sinal da inconstância humana ou, pura e simplesmente, como pecado. Pelo contrário, numa cultura de sentido, os seres humanos tendem a ver a transformação (a melhora, o embelezamento, etc.) do mundo como sua principal vocação. Aquilo que chamamos de ‘motivação’ é imaginar um mundo parcialmente transformado pelo comportamento humano, e qualquer comportamento orientado para realizar essas imaginações é uma ‘ação’. Tais visões do futuro e tais tentativas de tornar reais essas visões surgem, tanto mais legítimas, quanto mais são fundadas num conhecimento do mundo produzido pelo homem. O que mais chega perto de um conceito de ‘ação’ numa cultura de sentido é, numa cultura de presença, o conceito de ‘magia’, ou seja, a prática de tornar presentes coisas que estão ausentes [e vice-versa]. Porém, a magia nunca apresenta a si mesma como fundada num conhecimento humano. Ao contrário, ela depende de receitas [secretas ou reveladas], cujo conteúdo mostrou fazer parte dos movimentos imutáveis numa cosmologia em que os seres humanos se consideram integrados” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 109

“Se o corpo é a autorreferência predominante numa cultura de presença, então, sexto, o espaço – ou seja, a dimensão que se constitui ao redor dos corpos – deve ser a dimensão primordial em que se negociem a relação entre os diferentes seres humanos e a relação entre os seres humanos e as coisas do mundo. Em contrapartida, o tempo é a dimensãoo primordial em qualquer cultura de sentido, pois parece existir uma associação inevitável entre a consciência e a temporalidade (lembre-se o conceito husserliano de ‘corrente de consciência’). Acima de tudo, porém, o tempo é a dimensão primordial em qualquer cultura de sentido pois leva tempo para concretizar as ações transformadoras por meio das quais as culturas de sentido definem a relação entre os seres humanos e o mundo.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 110)

“Ora, se o espaço é a principal dimensão pela qual numa cultura de presença, a relação entre os seres humanos, isto é, entre corpos humanos, se constitui, então, sétimo, esta relação pode ser constantemente transformada (e de fato muitas vezes é transformada) em violência – ou seja, na ocupação e no bloqueio do espaço pelos corpos – contra outros corpos. Para as culturas de sentido, em contrapartida, é habitual (talvez seja mesmo obrigatório) adiar infinitamente o momento da verdadeira violência e, assim, transformar a violência em poder, o que poderemos definir como potencial para [violência]. Quanto mais a autoimagem de determinada cultura corresponde à tipologia da cultura de sentido, mais ela tentará ocultar e até excluir a violência como o mais avançado potencial de poder. [Houve] historiadores e filósofos da nossa cultura que, nas décadas mais recentes, confundiram relações de poder com relações definidas pela distribuição do conhecimento. Mas as linhas de distribuição do conhecimento só vão coincidir com as linhas de relações de poder enquanto as linhas de distribuição do conhecimento estiverem, em última análise, cobertas, mesmo numa cultura de sentido, pelo potencial e pela ameaça da violência física” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 111)

Oitavo: numa cultura de sentido, o conceito de evento é inseparável do valor de inovação e, consequentemente, do valor de surpresa. Numa cultura de presença, porém, a inovação equivale à saída – necessariamente ilegítima – das regularidades de uma cosmologia e dos códigos de conduta humana inerentes a essa cosmologia. Por isso, imaginar uma cultura de presença implica o desafio de imaginar um conceito de ‘eventidade’, desconectado da inovação e da surpresa. Tal conceito recordar-nos-ia que até mesmo as transformações e mudanças regulares, que podemos prever e esperar, implicam um momento de descontinuidade. Sabemos que, pouco depois das oito da noite, a orquestra começará a tocar a abertura de uma peça que tantas vezes ouvimos. Apesar disso, a descontinuidade que marca o momento em que produzem os sons iniciais ‘atinge-nos’ – e produz um efeito de ‘eventidade’ que não trans consigo nem surpresa nem inovação” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 111)

“O exemplo de um evento de palco cênico leva-nos, nono, ao lúdico e à ficção como conceitos por meio dos quais as culturas de sentido caracterizam interações em que os participantes têm uma ideia vaga, limitada ou nula das motivações que lhes orientam o comportamento. Essa ausência de (uma consciência das) motivações dos seus comportamentos é a razão pela qual, em situações de jogo ou de ficção, as regras – sejam preestabelecidas ou definidas à medida que decorre o jogo – ocupam o lugar das motivações dos participantes. Uma vez que as ações, definidas como comportamento humano estruturado por motivações conscientes, não têm lugar nas culturas de presença, estas não são capazes de produzir um equivalente dos conceitos de lúdico ou de ficção – nem o contraste entre lúdico/ficção e a seriedade das interações do cotidiano. Se, numa cultura de sentido, a seriedade das interações do cotidiano encontra um contraste interno no jogo e na ficção, as culturas de presença têm de ser suspensas – durante períodos de tempo estritamente definidos – sempre que queiram permitir uma exceção nos ritmos de vida fundados na cosmologia. É essa a estrutura que os acadêmicos, inspirados na obra de Mikhail Bakhtin, chamam metonimicamente de ‘carnaval’.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 112)

“os debates parlamentares são um ritual adequado às culturas de sentido, ao passo que a Eucaristia é um ritual prototípico das culturas de presença. […] Mas qual será o objetico de um ritual que produz a presença real de Deus – se essa presença real de Deus já constitui um enquadramento geral, uma condição da vida humana? A única resposta é que a celebração da Eucaristia, cotidianamente, não só manterá, como intensificará a já existente presença real de Deus. A noção de intensificação nos faz entender que nas culturas de presença não é raro quantificar aquilo que não estaria disponível para quantificação numa cultura de sentido: […] emoções, por exemplo, ou as impressões de proximidade, ou escalas de aprovação e de resistência.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 113)

“Gostaria de concluir este capítulo – que dediquei às várias tentativas de imaginar uma relação com os textos e com o mundo em geral que não seja uma relação exclusivamente interpretativa – com outra tipologia. […] essa segunda tipologia concentra-se em diferentes tipos de apropriação-do-mundo pelos seres humanos” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 113)

Comer as coisas do mundo, o que inclui práticas de antropofagia e de teofagia, ‘mascar a Madame Bovary’, como Nietzsche um dia imaginou, ou comer o corpo e beber o sangue de Cristo pertencem a um modo óbvio e crucial de apropriação-do-mundo – […] sobre o qual, porém, não gostamos de falar […] A razão mais óbvia para essa antipatia não apenas intelectual é a tensão entre a nossa cultura como cultura predominantemente centrada no sentido, por um lado, e o comer o mundo como modo mais direto de nos tornarmos um só com as coisas do mundo na sua presença tangível, por outro. (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 114)

“em cada tipo de apropriação-do-mundo, aqueles que são os agentes de apropriação […] sentem o receio de se tornar objetos desse mesmo tipo de apropriação. Portanto, comer o mundo vai sempre provocar nos seres humanos, como partes corpóreas do mundo, o medo de que eles próprios possam ser comidos. É por isso que a maioria das sociedades faz do ato de comer carne humana um tabu” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 114)

Penetrar coisas e corpos – ou seja, contato corporal e sexualidade, agrssão, destruição e assassínio – constitui um segundo tipo de apropriação-do-mundo, no qual a fusão de corpos com outros corpos ou com coisas inanimadas é sempre transitória e, por isso, abre necessariamente um espaço de distância ao desejo e à reflexão. Penso que esse contexto explica por que a sexualidade permite uma conotação tão forte com a morte, com o arrebatar outro corpo ou ser arrebatado por ele. Tal como no desejar a morte, essa conotação pode vir do desejo de tornar eterna uma união transitória. Mas tal como no temer a morte, parece ser desencadeada, mais uma vez, pelo medo de uma reviravolta. […] Uma estratégia […] de defletir esse medo é, claro, o hábito quase generalizadamente aceito em nossa cultura de espiritualizar a sexualidade até o ponto em que ela se torna mútua autoexpressão e comunicação.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 115)

“Há um modo de apropriação-do-mundo no qual, por um lado, a presença do mundo ou do outro é ainda fisicamente sentido, embora, por outro lado, não se perceba um objeto real que pudesse justificar esse sentimento. É aquilo a que se chama misticismo. É interessante, no âmbito dessa tipologia, que nossa cultura classifique todas as formas de misticismo como formas de vida espiritual – o que deixa [em aberto] o problema da dupla experiência de que tais estados de arrebatamento místico muitas vezes são induzidos por práticas corporais altamente ritualizadas e vêm sempre com a percepção de um impacto físico. […] também o misticismo pode se transformar no medo de ser possuído. Como o misticismo pode ser relacionado a uma posição de sujeição pelo menos incipientemente desenvolvida entre os seus praticantes, isso significa que ele se relaciona com o medo de perder para sempre o controle sobre si mesmo. Esse medo em particular obrigou a maioria dos místicos famosos a dedicar longas e complexas reflexões à questão de saber que prevenções e mecanismos poderiam assegurar a possibilidade de retorno de um estado de possessão mística. Talvez mais interessante, e certamente mais radical, é a estratégia inversa de alguém que se dispõe voluntariamente ao ato violento de ser possuído por um deus. Nesse caso, que é o caso dos chamados pais-de-santo na maioria dos cultos afro-brasileiros, parece ser o desejo de ser possuído, transformado em intenção e estratégia completas de ser possuído, que deflete o medo de ser arrebatado.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 116)

“É claro que a interpretação e a comunicação como modos de apropriação-do-mundo exclusivamente espirituais correspondem, nessa tipologia, ao pólo da cultura de sentido. […] [aqui também há um] medo específico produzido por aquilo que podemos querer chamar de ‘comunicação total’. Esse é, claro, o medo de ser acessível, nos nossos pensamento e sentimentos mais íntimos, de ser acessível e aberto como um livro à astúcia interpretativa de pais e professores, maridos, esposas e agentes secretos. Há um ritual de fazer defletir esse medo que, nas suas estruturas básicas, corresponde precisamente à abertura deliberada do pai-de-santo ao ato de possessão por um deus. Os seus equivalentes, numa cultura de comunicação, são a psicanálise e a psicoterapia. Será que o que de fato importa na psicanálise, mais do que o resultado de ser lido, é ultrapassar o medo de ser lido […?] A estratégia complementar é a arte de fingir, a arte de esconder os mais íntimos sentimentos e pensamentos por trás da máscara de uma ‘expressão’ que não expressa coisa nenhuma. Trata-se, como já citei, da arte que convenceu Maquiavel de que o rei católico Fernando de Aragão era a primeira encarnação do político moderno. O modo mais perfeito de alguém se esconder atrás de uma máscara é fazer silêncio absoluto. E o silêncio liga-se com o mutismo das coisas produzidas pela sua presença. Por outro lado, não existe emergência de sentido que não alivie o peso da presença.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 117)

 

Epifania/Presentificação/Dêixis: futuros para as Humanidades e as Artes

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“Ora, em que poderia consistir a promessa de um futuro disciplinar fundado numa nova epistemologia? Claro que podemos desde já imaginar que todas as fronteiras das disciplinas acadêmicas, tais como as conhecemos, teriam de ser redesenhadas. Mas, como tantas antecipações sobre como seria esse redesenho já se revelaram (às vezes estranhamente) erradas, e como aqui o meu interesse pelo futuro é um interesse por práticas intelectuais, mais do que por mapas disciplinares, recorrerei neste capítulo a uma tripartição muito tradicional, que tem funcionado e ainda funciona em muitas (embora não em todas, como é óbvio) disciplinas das Humanidades. Refiro-me mais propriamente à tripartição inspiradoramente pouco sofisticada e largamente autoexplicativa dessas disciplinas em ‘estética’, ‘história’ e ‘pedagogia’. […] Até em minha tenra juventude acadêmica, por exemplo, imaginei […] que o estudo histórico dos artefatos culturais invariavelmente nos ajudaria a considerar e a entender o seu valor estético; que o valor estético estaria invariavelmente na capacidade de transportar uma mensagem ética; e que, por isso, dependendo em larga medida das perspectivas éticas desses artefatos, o valor estético-ético relativo de qualquer texto ou obra de arte que estivéssemos ensinando nos daria uma base de orientação pedagógica.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 122)

“hoje, evitaria alinhar essas áreas ou subcampos [da estética, história e pedagogia] numa ordem intuitiva ou dedutiva qualquer. Se tivesse de considerar alguma delas prioritária (não vejo urgência em fazê-lo) talvez escolhesse a estética, pela relevância epistemológica particular inerente ao tipo de epifania que pode suscitar – sem, no entanto, afirmar que a experiência estética consiga produzir tal epifania.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 122-3)

“O que hoje mais me interessa no campo da história, a presentificação de mundos passados – ou seja, as técnicas que produzem a sensação (ou melhor, a ilusão) de que os mundos do passado podem tornar-se de novo tangíveis – é uma atividade sem qualquer capacidade de explicar os valores relativos das diferentes formas de experiência estética (desde que tais explicações sejam aquilo que estávamos habituados a pensar como função do conhecimento histórico em relação à estética).” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 123)

“Mas, como a nova concepção do campo da história partilha com o campo da estética o componente distintivo de presença, e como não pretende oferecer nenhuma orientação ética imediata ou mesmo ‘política’, o programa de presentificação presta-se à acusação tradicional de estar promovendo uma ‘estetização da história’. Minha primeira linha de defesa seria simplesmente devolver a pergunta sobre o que estaria errado com tal estetização da história.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 123)

“Finalmente, quanto ao campo do ensino, em anos mais recentes fui-me convencendo de que nem a experiência estética nem a experiência histórica […] dispõem de nenhum potencial que pudesse resultar numa orientação superior ao comportamento e à ação, tanto em nível individual quanto coletivo. Além do mais, duvido que essa orientação, mesmo se estivesse imediatamente disponível, fosse uma função do nosso ensino, pelo menos em nível acadêmico. Pelo contrário, estou convencido de que a tarefa mais importante que temos hoje é confrontar os alunos com a complexidade intelectual, o que significa que devemos concentrar nossa atenção nos gestos dêiticos, apontando a condensação ocasional dessa complexidade” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 123)

“na sua convergência, as movimentações para dar mais destaque ao elemento da presença na experiência estética, a estetização potencial da história e a proposta de libertar o nosso ensino da obrigação de oferecer orientação ética podem criar, mais uma vez, maior consciência da proximidade que a prática artística concreta pode ter relativamente às nossas atividades acadêmicas.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 124)

2

“não tentamos argumentar a favor da experiência estética fazendo alusão a quaisquer valores que estivessem além do sentimento intrínseco de intensidade que ela pode causar; por fim, pretendíamos alargar o âmbito dos potenciais objetos de experiência estética, pela transgressão do cânone das suas formas tradicionais (como ‘literatura’, ‘música clássica’ ou ‘pintura de vanguarda’)” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 125)

“Minha primeira preocupação, mais pessoal, com aquela classe [de Stanford] era ser um professor suficientemente bom para evocar nos alunos e fazê-los sentir momentos específicos de intensidade, que eu recordava com prazer e, sobretudo, com nostalgia” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 125)

“Não existe nada de edificante em momentos assim: nenhuma mensagem, nada a partir deles que pudéssemos, de fato, aprender […] O que sentimos não é mais do que um nível particularmente elevado no funcionamento de algumas de nossas faculdades gerais, cognitivas, emocionais e talvez físicas. A diferença que fazem esses momentos parece estar fundada na quantidade. E gosto de combinar o conceito quantitativo de ‘intensidade’ com o sentido de fragmentação temporal da palavra ‘momento’, pois ser – por muitos momentos frustrantes de perda e de separação – que não existe modo seguro de produzir momentos de intensidade, e é ainda menor a esperança de nos agarrar a eles ou de prolongar sua duração.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 127)

“Por que, às vezes, lembramos deles como momentos felizes e outras vezes como momentos tristes – mas sempre com uma sensação de perda ou de nostalgia? Essa é a segunda questão que quero tratar, a do apelo específico que esses momentos exercem sobre nós, a questão das razões que nos motivam a procurar a experiência estética e a expor nossos corpos e nossas mentes ao seu potencial. […] minha hipótese inicial é que aquilo que chamamos ‘experiência estética’ nos dá sempre certas sensações de intensidade que não encontramos nos mundos histórica e culturalmente específicos do cotidiano em que vivemos.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 128)

“prefiro falar, tanto quanto possa, de ‘momentos de intensidade’ e de ‘experiência vivida” [aestetisches Erleben], em vez de dizer ‘experiência estética’ [aestetische Ehrfahrung], pois a maioria das tradições filosóficas associa o conceito de ‘experiência’ a interpretação, isto é, a atos de atribuição de sentido. Quando uso os conceitos de Erleben ou de ‘experiência vivida’, ao contrário, quero referir-me a eles no sentido estrito da tradição fenomenológica, a saber, como centrados em, ou como tematizações de, certos objetos da experiência vivida )objetos que, em nossas condições culturais, oferecem graus específicos de intensidade sempre que os chamamos de ‘estéticos’). A experiência vivida ou Erleben pressupõe, por um lado, que a percepção puramente física [Wahrnehmung] já terá ocorrido e que, por outro, a experiência [Ehrfahrung] lhe seguirá como resultado de atos de interpretação do mundo.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 129)

“o que nos fascina em momentos de experiência estética, […] o que nos atrai sem vir acompanhado de uma consciência clara dos motivos para tal atração é sempre algo que nossos mundos cotidianos não conseguem disponibilizar” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 129)

“nossos mundos cotidianos são cultural e historicamente específicos, segue-se que também os objetos da experiência estética terão de ser culturalmente específicos.Quanto ao outro lado da situação cujas estruturas procuro descrever, não é claro para mim se teremos de pressupor, para os leitores, espectadores e ouvintes atraídos por esses objetos da experiência estética, historicamente específicos, uma historicidade correspondente nas suas formas de experiência estética.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 129)

“não devemos – não deveríamos – limitar nossa análise da experiência estética ao lado do receptor e dos investimentos mentais (e talvez também físico) que tal receptor possa fazer. Aparentemente, esses investimentos e seus resultados vão depender, pelo menos em parte, dos objetos de fascínio que começaram por ativá-los e evocá-los. Esta é uma das razões por que, numa descrição geral da experiência estética, é importante lidar com esses objetos – ainda que talvez o ritmo comparativamente mais veloz da sua transformação os faça resistentes à integração numa teoria geral.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 130)

 

“Se a experiência estética é sempre evocada por e sempre se refere a momentos de intensidade que não podem fazer parte dos respectivos mundos cotidianos em que ela ocorre, segue-se que a experiência estética se localizará necessariamente a certa distância desses mundos. Tal conclusão óbvia leva a uma terceira camada na análise da experiência estética, a saber, a estrutura situacional dentro da qual essa experiência tipicamente ocorre.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 130)

“não há um modo sistemático, nem pedagógico, de conduzir os alunos (ou outras vítimas de boas intenções pedagógicas) ‘na direção’ da experiência estética; […] não existe um resultado possível, óbvio ou típico que a experiência estética acrescente aos nossos cotidianos. Para uma descrição geral dessa condição situacional, quero recorrer agora ao conceito de ‘insularidade’ que Mikhail Bakhtin desenvolveu ao analisar a cultura carnavalesca. ‘Insularidade’ parece trazer conotações menos historicamente específicas do que o conceito de ‘autonomia estética – no qual a distância do cotidiano já é interpretada como um ganho de independência subjetiva. Proponho, pois, que se reserve a expressão ‘autonomia estética’ para formas específicas desenvolvidas pela condição estrutural geral de ‘insularidade’ nos séculos XVIII e XIX.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 131)

“A consequência mais relevante que decorre da insularidade da experiência estética é a incomensurabilidade entre a experiência estética e a propagação institucional de normas éticas […] É que as normas éticas fazem parte dos mundos cotidianos historicamente específicos, ao passo que já afirmamos que a experiência estética retira o seu fascínio (no sentido literal da expressão) do fato de oferecer momentos de intensidade que não podem fazer parte de mundos cotidianos específicos. Portanto, faz sentido dizer que a combinação da estética com a ética, ou seja, a projeção de normas éticas sobre os potenciais objetos da estética, levará inevitavelmente à erosão da intensidade potencial desses objetos. Dito de outro modo, adaptar a intensidade estética a requisitos éticos significa normalizá-la e até mesmo diluí-la. Sempre que se esperar que a principal função de uma obra de arte seja a transmissão ou a exemplificação de uma mensagem ética, teremos de perguntar […] se não teria sido mais eficaz articular essa mensagem em formas e conceitos mais diretos e explícitos” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 131)

“Existem dois modos principais de entrar em situações de insularidade. O mais dramático (por assim dizer) é a modalidade de ser arrebatado pela ‘relevância imposta’ [auferlegte Relevanz]. Nesse caso, o súbito aparecimento de certos objetos de percepção desvia a nossa atenção das rotinas diárias em que estamos envolvidos e, de fato, por um momento, nos separa delas. Quando a natureza se transforma em acontecimento, cumpre muitas vezes essa função: pensemos num relâmpago, principalmente no primeiro relâmpago de uma tempestade, ou recorde-se a luz agressiva do sol que nos cega quando saímos do avião na Califórnia, vindos de um país da Europa Central.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 132)

“Uma tal eventidade é certamente diferente de uma situação de aula, em que procuramos facilitar o acontecimento do aparecimento estético, embora estejamos completamente cientes de que nenhum esforço pedagógico garantirá a vinda da experiência concreta. Mas podemos apontar a presença de determinados objetos da experiência e convidar os alunos à serenidade, isto é, a estarem ao mesmo tempo concentrados e disponíveis, sem deixarem que a concentração calcifique na tensão de um esforço.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 132)

“[Perguntaram a Pablo Morales, nadador,] por que, após se ter afastado da competição, havia voltado a qualificar-se para as Olimpíadas e a ganhar uma nova medalha de ouro. Sem hesitar, Morales respondeu que fizera esse esforço extraordinário porque estava viciado na sensação de ‘estar perdido na intensidade concentrada’. A escolha da palavra ‘intensidade’ confirma que a diferença trazida pela experiência estética é, sobretudo, uma diferença de quantidade: desafios radicais produzem níveis radicais de desempenho, nas mentes e nos corpos. O fato de Morales querer sentir-se ‘perdido’ corresponde ao elemento estrutural de insularidade, ao elemento de distância em relação aos mundos cotidianos, que faz parte da situação de experiência estética. […] ‘concentrada’ – o que parece indicar que a disposição de serena disponibilidade antecipa a presença enérgica de um objeto de experiência futura,” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 133)

“a questão decisiva neste contexto: o que nos fascina nos objetos de experiência estética? Da nossa segunda reflexão resulta claro que, sejam quais forem os traços identificáveis num objeto de experiência estética, o estatuto das nossas respostas será sempre historicamente específico – mesmo se, do lado da experiência, o ritmo da transformação histórica for muito lento. Ao procurar o desejo sempre mais ou menos oculto que poderia nos motivar a transcender os mundos cotidianos de hoje (o que, claro, também significa que procuramos fenômenos e condições cotidianas com que estamos absolutamente saturados), não conheço resposta mais convincente do que a que Jean-Luc Nancy deu nas páginas inicias do livro The Birth to Presence, em que defende que hoje em dia nada é mais cansativo do que a produção de outra nuance de sentido, de ‘só mais um pouco de sentido’.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 134)

“Aquilo de que […] sentimos falta num mundo tão saturado de sentido, e, portanto, aquilo que se transforma num objeto principal de desejo (não totalmente consciente) na nossa cultura […] são fenômenos e impressões de presença” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 134)

“A presença e o sentido, porém, sempre aparecem juntos e sempre estão em tensão. É impossível compatibilizá-los ou reuni-los numa estrutura fenomênica ‘bem equilibrada’. Não pretendo entrar em uma comparação, nem em uma discussão pormenorizada das diferentes definições filosóficas de ‘sentido’ e/ou de ‘senso’ […], mas compreendo que aquilo que faz o sentido, isto é, a consciência de uma escolha que ocorreu (ou o conhecimento das alternativas àquilo que se escolheu), é a própria dimensão de consciência que é negada pelo tipo de presença física que desejamos ou que simplesmente não entra em jogo. A luz ofuscante do Sol ou o tal relâmpago, quando me atingem, não são vividas como ‘o outro’ de um dia menos luminoso ou da trovoada. Tipologicamente falando, a dimensão de sentido é predominante nos mundos cartesianos, em mundos para os quais a consciência (ou seja, o conhecimento das alternativas) constitui o cerne da autorreferência humana.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 135)

“Em vez de termos de pensar sempre e sem parar no que mais pode haver, às vezes parecemos ligados num nível da nossa existência que, pura e simplesmente, quer as coisas do mundo perto da nossa pele” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 135)

“Nancy também observa – e é por isso que destaca o movimento duplo de um ‘nascimento para a presença’ e de um ‘desaparecer da presença’ – que os efeitos de presença que podemos viver já estão sempre permeados pela ausência. […] para nós, os fenômenos de presença não podem deixar de ser aquilo que chamo de ‘efeitos de presença’; numa cultura que é predominantemente uma cultura de sentido, só podemos encontrar esses efeitos […] embrulhados em, e talvez até mediados por nuvens e almofadas de sentido. É muito difícil – talvez impossível – não ‘ler’” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 135)

“os objetos da experiência estética […] se caracterizam por uma oscilação entre efeitos de presença e efeitos de sentido. É verdade, em princípio, que todas as nossas relações (humanas) com as coisas do mundo devem ser relações fundadas ao mesmo tempo na presença e no sentido, mas, nas atuais condições culturais, precisamos de uma estrutura específica (a saber, a situação de ‘insularidade’ e a predisposição para a ‘intensidade concentrada’) para a verdadeira experiência [Erleben] da tensão produtiva, da oscilação” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 136)

“minha tese sobre a oscilação entre efeitos de presença e efeitos de sentido é bem próxima do que Hans-Georg Gadamer quis dizer quando sublinhou que, para além de sua dimensão apofântica, ou seja, para além da dimensão que pode e deve ser redimida pela interpretação, os poemas têm um ‘volume’ – ou seja, uma dimensão que exige a nossa voz” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 136)

“Suponho também […] que minhaconclusão venha a convergir com a tese de Niklas Luhmann, segundo a qual o ‘sistema da arte’ é o único sistema social no qual a percepção (no sentido fenomenológico de uma relação humana com o mundo, mediada pelos sentidos) é não só a condição prévia da comunicação sistêmico-intrínseca, mas também, juntamente com o sentido, é parte do que essa comunicação implica” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 136)

“eu arriscaria dizer que o que [Luhmann] considerou específico no sistema da arte bem pode ser a possibilidade da experiência [Erleben] simultânea de efeitos de sentido e de efeitos de presença. Sempre que ela se apresente diante de nós, devemos viver essa simultaneidade como uma tensão ou como uma oscilação.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 137)

“A relação entre efeitos de presença e efeitos de sentido também não é uma relação de complementaridade, na qual uma função atribuída a cada uma das partes em relação à outra daria à copresença das duas a estabilidade de um padrão estrutural. Ao contrário, podemos dizer que a tensão/oscilação […] dota o objeto de experiência estética de um componente provocador de instabilidade e desassossego.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 137)

“na Argentina não se deve dançar tangos que tenham letra […] A razão por trás dessa convenção parece ser que, numa situação desequilibrada de simultaneidade entre efeitos de sentido e efeitos de presença, prestar atenção à letra de um tango tornaria muito difícil seguir com o corpo o ritmo da música […]; quem tentar captar a complexidade semântica que faz tão melancólicas as letras do tango privar-se-á do prazer completo que pode surgir da fusão dos movimentos do tango com o seu corpo. […] o oposto também é verdade: enquanto dançam, mesmo os mais perfeitos bailarinos conseguem captar a complexidade semântica das letras”” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 138)

“a situação de experiência estética é específica, na medida em que nos permite viver esses dois componentes na sua tensão” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 138)

“existem distribuições específicas entre o componente de sentido e o componente de presença – que depende da materialidade (isto é, da modalidade mediática) de cada objeto da experiência estética. Por exemplo, a dimensão de sentido será sempre predominante quando lemos um texto […]. Inversamente, acredito que a dimensão de presença predominará sempre que ouvimos música […] Mas, por menor que em determinadas circunstâncias mediáticas se possa tornar a participação de uma ou da outra dimensão, penso que a experiência estética – pelo menos em nossa cultura – sempre nos confrontará com a tensão, ou oscilação, entre presença e sentido. Eis a razão pela qual uma concepção exclusivamente semiótica (na minha terminologia, exclusivamente metafísica) do signo não consegue fazer jus à experiência estética. Por um lado, precisamos de um conceito-signo semiótico para descrever e analisar sua dimensão de sentido. Por outro, precisamos também de um conceito-signo diferente – a junção aristotélica de ‘forma’ e ‘substância’, por exemplo – para a dimensão de presença na experiência estética. Se, como já defendi, é verdade que as duas dimensões nunca chegarão a transformar-se numa estrutura estável de complementaridade, então é preciso entender que não só é desnecessário, como é analiticamente contraproducente tentar desenvolver uma combinação, um metaconceito complexo que unifique definições semióticas e definições não-semióticas do signo.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 139)

“Com ‘epifania’ não quero dizer, de novo, simultaneidade, tensão e oscilação entre sentido e presença; quero dizer, sobretudo, a sensação, citada e teorizada por Jean-Luc Nancy, de que não conseguimos agarrar os efeitos de presença, de que eles – e, com eles, a simultaneidade da presença e do sentido – são efêmeros. De modo mais preciso: sob o título ‘epifania’ pretendo comentar três características que moldam a maneira como se apresenta diante de nós a tensão entre presença e sentido: pretendo comentar a impressão de que a tensão entre presença e sentido, quando ocorre, surge do nada; a emergência dessa tensão como tendo uma articulação espacial; a possibilidade de descrever sua temporalidade como um ‘evento’.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 141)

“Se admitirmos […] que não existe experiência estética sem um efeito de presença e não há efeitos de presença sem que esteja em jogo a substância; se, além disso, admitirmos que, para ser percebida, uma substância tem de ter forma; e se, finalmente, aceitarmos (como fiz na reflexão anterior) que o componente de presença na tensão ou oscilação que constitui a experiência estética nunca pode ser estabilizado, segue-se que sempre que um objeto da experiência estética surge e por momentos produz em nós essa sensação de intensidade, ela parece vir do nada. Antes, tal substância ou forma nunca estivera diante de nós. […] Heidegger afirma precisamente: ‘a arte, então, é o surgir e o acontecer da verdade’” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 141)

“Uma vez que aquilo que parece surgir do nada tem uma substância e uma forma, é inevitável que a epifania exija uma dimensão espacial (ou, pelo menos, uma impressão dessa dimensão). Esse é outro tema do ensao de Heidegger, A origem da obra de arte, desenvolvido principalmente em relação ao conceito de ‘terra’ e na ocnhecida passagem sobre o templo grego: ‘As firmes torres do templo tornam visível o invisível espaço do ar. A solidez da obra contrasta com a emergência da espuma, e a sua quietude revela a ira do mar. Árvore e grama, águia e touro, cobra e grilo começam por entrar nas suas formas distintivas e parecer o que são. Os gregos chamavam phusis essa emergência e esse surgimento em si mesmo e em todas as coisas. Isso também esclarece e ilumina aquilo sobre que e no que o homem funda sua habitação. Chamamos esse chão a terra’” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 141-2)

“Nos gêneros teatrais Nô e Kabuki, da tradição japonesa, a dimensão espacial da epifania […] parece ser o elemento central da apresentação. Todos os atores chegam ao palco através de uma ponte que atravessa o público e, numa complexa coreografia de passos para frente e para trás, essa chegada muitas vezes ocupa mais tempo (e mais atenção dos espectadores) do que a atuação propriamente dita dos atores no palco.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 142)

“Por fim, há três aspectos que conferem ao componente de epifania, no âmbito da experiência estética, o estatuto de evento. Em primeiro lugar (e já citei essa condição), nunca sabemos se ou quando ocorrerá uma epifania. Em segundo lugar, quando ocorre, não sabemos que intensidade terá: não há dois relâmpagos com a mesma composição, que ocorram exatamente da mesma maneira. Finalmente (e acima de tudo), a epifania na experiência estética é um evento, pois se desfaz como surge. Isso é óbvio – ao ponto de ser banal – nos casos do relâmpago e da música, mas penso que também é verdade na leitura de literatura ou até mesmo na reação a um quadro […] penso que, do mesmo modo, a temporalidade em que sentimos, por exemplo, que esse quadro vem até nós, será sempre a temporalidade de um momento. Talvez nenhum fenômeno ilustre melhor esse caráter de evento da epifania estética do que um bom jogo de um time esportivo. Uma bela jogada de futebol americano ou de beisebol, de futebol ou de hóquei […] é a epifania de uma forma complexa e incorporada. Assim como uma epifania, uma bela jogada é sempre um evento: jamais podemos prever se surgirá, ou quando; se surgir, não sabemos como será (mesmo se, retrospectivamente, formos capazes de descobrir semelhanças com outras belas jogadas que tivermos visto antes); desfaz-se, literalmente, à medida que surge. Não há fotografia que consiga captar uma bela jogada.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 143)

“Havia proposto definir ‘poder’ como o potencial para ocupar ou bloquear espaços com corpos, e ‘violência’ como a concretização desse poder, ou seja, como atuação ou evento. Reportando-me agora à nossa discussão acerca do caráter epifânico da experiência estética, e seguindo a observação de que a epifania sempre implica a emergência de uma substância e, mais especificamente, a emergência de uma substância que parece surgir do nada, podemos postular que não pode existir epifania e, consequentemente, não pode haver genuína experiência estética sem um momento de violência – pois não existe experiência estética sem epifania, isto é, sem o evento da substância que ocupa espaço.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 144)

“há uma diferença entre rotular um ato de violência como ‘belo’ (o que pode ser um modo de estetizar a violência) e afirmar que a violência é um dos componentes da experiência estética. Não estou dizendo simplesmente que ‘a violência é bela’ (pode ser bela, mas não o é por princípio) e excluo qualquer convergência necessária entre experiência estética e normas éticas. […] se insistíssemos numa definição da estética que excluísse a violência, não eliminaríamos apenas o aparato de guerra, a destruição de edifícios e os acidentes de tráfego, mas também fenômenos como o futebol americano, o boxe e o ritual da tourada. Permitir a associação da experiência estética à violência, ao contrário, ajuda a compreender por que certos fenômenos e eventos se nos revelam tão irresistivelmente fascinantes – embora saibamos que, pelo menos em alguns casos, essa ‘beleza’ segue junto da destruição de vidas.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 145)

“mesmo em formas de experiência estética em que – de um ponto de vista estritamente físico – o efeito da violência é apenas uma ilusão, pois não existe nem substância nem espaço tridimensional em jogo (por exemplo, quando nos viciamos no ‘ritmo’ de um texto em prosa que lemos em silêncio ou quando um quadro nos ‘prende’ a atenção), sabemos que o seu efeito em nós também pode ser ‘violento’, quase no sentido da nossa primeira definição, no sentido de nos ocupar e, desse modo, bloquear nosso corpo.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 145)

“há muito a experiência estética tem sido associada a acolher o risco de perder o domínio sobre nós mesmos – pelo menos por algum tempo” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 145)

“Se não existe nada de edificante na experiência estética, nada de positivo a aprender, qual o efeito de nos perdermos no fascínio que a oscilação entre efeitos de presença e efeitos de sentido pode produzir? […] a experiência estética nos impede de perder por completo uma sensação ou uma recordação da dimensão física nas nossas vidas. Recorrendo mais uma vez a uma intuição heideggeriana, podemos estabelecer uma diferença categórica entre essa dimensão recuperada de autorreferência, a autorreferência de fazermos parte do mundo das coisas e aquela outra autorreferência humana que tem dominado a moderna cultura ocidental, acima de tudo na ciência moderna: a autoimagem de um espectador diante de um mundo que se apresenta como um quadro.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 146)

“Em ‘Muerte’ […, Garcia] Lorcatroça de todos os humanos (e até de todos os animais) que vê tentarem com grande ambição ser algo diferente do que são. Só o arco de gesso, escreve no, final, é o que é – e de um modo feliz o é: ‘Mas o arco de gesso / que grande, que invisível, que diminuto, / sem esforço!’ O pensamento existencialista sugerido pelo poema de Lorca é evidente: só a nossa morte, só o momento em que viramos matéria pura (e nada mais do que matéria) verdadeiramente conseguirá completar a nossa integração no mundo das coisas. Só a morte nos dará aquela calma perfeita pela qual – ao menos às vezes, em nossas vidas – ansiamos” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 147)

Gelassenheit figura, tanto como parte da disposição com que nos devemos dispor à experiência estética, quanto como o estado existencial a que a experiência estética pode nos conduzir. […] decidi descrever essa serenidade particular […] como a sensação de estar em sintonia com as coisas do mundo. […] Mais do que corresponder a uma cosmologia ideal, a expressão ‘em sintonia’ refere-se a uma situação muito específica em nossa cultura contemporânea, a saber, a sensação de ter acabado de recuperar um vislumbre do que podem ser ‘as coisas do mundo’. Talvez seja precisamente disso que trata, de um ponto de vista existencial, a autorrevelação do Ser – a autorrevelação em geral, e não apenas a autorrevelação como epifania estética. Experiência (no sentido de Erleben, ou seja, mais do que Wahrnehmen e menos do que Erfahren), experiências as coisas do mundo na sua coisidade pré-conceitual reativará uma sensação pela dimensão corpórea e pela dimensão espacial da nossa existência” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 147)

“Voltando a alguns conceitos clássicos da estética filosófica, poderemos afirmar que a revelação do Ser pode se dar, tanto na modalidade do belo, quanto na modalidade do sublime; podemos dizer que ela pode nos transportar para um estado de clareza apolínea ou para um estado de arrebatamento dionisíaco. Independentemente dessas dinstinções (que, noutros contextos, seriam cruciais), creio que estamos sempre – deliberada ou inconscientemente – citando epifanias quando usamos a palavra ‘estética’ em nossa situação cultural específica. Com essa palavra, citamos epifania que, pelo menos por alguns momentos, nos fazem sonhar, nos fazem ansiar por saber e nos fazem até recordar como seria bom viver em sintonia com as coisas do mundo.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 148)

3

“Na Idade Média, todas as ações e eventos do passado eram considerados possíveis orientações para a formação do presente e do futuro – pois ainda não se acreditava que o mundo humano estava em constante transformação. Por isso, todas as narrativas acerca do passo, tidas como verdadeiras, podiam se tornar ‘exemplos.’ A cultura do Renascimento, ao contrário, falando de modo muito esquemático, só considerava ‘metade do seu apssado’ para a orientação do presente. Os humanistas dos séculos do início da era moderna esperavam encontrar ‘exemplos’ relevantes para suas próprias vidas na antiguidade da Grécia e de Roma – mas não no mundo medieval que os antecedera (eles foram os primeiros a descrevê-lo como um período de ‘trevas’). Desde o final do século XVII e durante o século XVIII emergiu uma construção do tempo que viemos a chamar de ‘tempo histórico’. Ela se afirmou tão solidamente que há pouco ainad tendíamos a considerá-la o único cronótopo possível. O tempo histórico aumentava significativamente o patamar de ‘apernder com o passado’, pois implicava a necessidade de identificar as ‘leis’ que tinham conduzido a mudança histórica no passado e de extrapolar esse movimento para o futuro, se quiséssemos antecipar os desenvolvimentos a acontecer. Mas nem esse modo oneroso (como costumavam dizer os marxistas, ‘científico’) de aprender com o passado sobreviveu ao nosso ceticismo atual. O mais recente desenvolvimento não é que rejeitamos qualquer prognóstico do futuro, considerando-o absolutamente impossível – é antes que o antevemos tão complicado (e tão caro) que preferimos fazer cálculos de risco, isto é, preferimos imaginar o quanto nos custaria se não ocorressem determinadas situações que esperamos que suceda. Quando conhecemos o preço, podemos comprar seguros – em vez de procurar adquirir certezas sobre o que o futuro trará.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 149)

“essas discussões [sobre modernidade e pós-modernidade] eram um sintoma de que o cronótopo do ‘tempo histórico’ estava chegando ao fim e que, chamemos ‘moderno’ ou ‘pós-moderno’ ao nosso presente, esse processo de sair do tempo histórico parece que já ficou para trás. […] O ‘tempo histórico implicava supor que as coisas não resistiriam à mudança no tempo, mas que, como o presente e o futuro não podiam deixar de ser diferentes do passado e como estávamos, por isso, constantemente deixando o passado para trás, havia um modo de ‘aprender com o passado’, precisamente pela tentativa de identificar ‘leis’ de mudança histórica e desenvolver, com base nessas ‘leis’, cenários possíveis para o futuro. Entre esse passado e esse futuro, o presente parecia ser um berve momento de transição no qual os humanos davam forma à sua subjetividade, usavam sua capacidade por meio da imaginação e da escolha entre possíveis futuros, e tentavam contribuir para concretizar o futuro específico que haviam escolhido.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 150

“Substituir o prognóstico pelo cálculo de riscos, por exemplo, significa que agora experimentamos o futuro como inacessível – pelo menos, para efeitos práticos. Ao mesmo tempo, estamos mais do que nunca ansiosos (e mais bem preparados, no nível do conhecimento e até no da tecnologia) para preencher o presente com artefatos do passdo e reproduções fundadas nesses artefatos.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 151)

“nossa ânsia em preencher o sempre crescente presente com artefatos do passado pouco tem a ver com […] o projeto tradicional da história como disciplina acadêmica, com o projeto de interpretar (ou seja, de reconceitualizar) o nosso conhecimento sobre o passado oucom o objetivo de ‘aprender com a história’. Pelo contrário, o modo como certos museus organizam suas perças faz lembrar os espetáculos de son et lumière que alguns lugares históricos na  França começaram a mostrar na década de 1950, bem como o poder de sedução que têm romances históricos como O nome da rosa ou filmes como Radio days, Amadeus ou Titanic. Há aí um desejo de presentificação” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 151)

“Esse desejo de presentificação pode estar associado à estrutura de um presente amplo, no qual já não sentimos que estamos ‘deixando o passado para trás’ e o futuro está bloqueado. Um presente assim amplo acabaria por acumular diferentes mundos passados e os seus artefatos numa esfera de simultaneidade” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 152)

“ainda está para surgir uma nova cultura histórica – correspondente a esse novo cronótopo – e […] um nível muito básico (talvez meta-histórico) do nosso fascínio com o passado está se tornando visível” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 152)

“Sob a designação mundo-da-vida, Edmund Husserl propõe reunir a totalidade das operações intelectuais e mentais que esperamos que todos os seres humanos de todas as culturas e de todos os tempos possam (sejam capazes de) fazer. Os ‘mundos cotidianos’ historicamente específicos podem, então, ser analisados como seleções múltiplas de uma série de possibilidades que o mundo-da-vida disponibiliza. Uma das caraterísticas mais surpreendentes do mundo-da-vida […] é a capacidade humana geral de imaginar operações mentais e intelectuais que a mente humana não é capaz de realizar. Em outras palavras: faz parte do conteúdo do nosso mundo-da-vida imaginar – e desejar – capacidades que estão além das fronteiras do mundo-da-vida. Os atributos com que as diferentes culturas dotaram seus deuses – onisciência, eternidade, onipresença ou força excepcional – são um reduto dessas imaginações. Se afirmamos, com base nessa reflexão, que aquilo que imaginamos estar além das fronteiras do mundo-da-vida virá a constituir objetos – meta-historicamente estáveis – de desejo, podemos especular que diferentes desejos de atravessar as fronteiras do mundo-da-vida em direções diferentes podem originar diferentes correntes básicas de energia que conduzirão todas as culturas historicamente específicas. A dupla limitação temporal da vida humana pelo nascimento e pela morte, por exemplo, criará o desejo de atravessar essas duas fronteiras do mundo-da-vida, e a metade desse desejo será mais especificamente a vontade de atravessar a fronteira do nosso nascimento – em direção ao passado. […] O objeto desse desejo subjacente a todas as culturas históricas, historicamente específicas, seria a presentificação do passado, ou seja, a possibilidade de ‘falar’ com os mortos ou de ‘tocar’ os objetos dos seus mundos.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 153)

‘as técnicas de rpesentificação do passado tendem obviamente a enfatizar a dimensão do espaço – pois só em exibição espacial conseguimos ter a ilusão de tocar objetos que associamos ao passado” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 154)

“a tendência para a espacialização nos torna mais atentos às limitações da historiografia como meio textual nas atividades de tornar presente o passado. Certamente, os textos e os conceitos são os meios mais adequados para uma abordagem interpretativa do passado. Mas até mesmo as mais básicas jogadas intelectuais de historicização parecem aletrar-se assim que elas começam a servir ao desejo de tornar presente o passado, e essas alterações obrigam-nos a revisitar alguns requisitos básicos da profissão de historiador” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 154)

“Só essa dupla operação [do historiador] de descobrir objetos sem qualquer uso prático e erfrear-se de lhes encontrar um uso pode produzir ‘objetos históricos’ e lhes atribuir uma aura específica – pelo menos aos olhos do historiador e do observador historicamente sensível. Mas, neste ponto, em vez de perguntar o que tais objetos, tornados objetos históricos, podem ‘querer dizer’ – que é a pergunta acertada se os quisermos ver como sintomas de um passado que, em última análise, nos permitirá compreender melhor o presente -, em vez de perguntar por um sentido, a presentificação empurra noutra direção. O desejo de presença nos leva a imaginar como nos teríamos relacionado intelectualmente, e os nossos corpos, com determinados objetos (em vez de perguntar o que esses objetos ‘querem dizer’) se tivéssemos encontrado com eles nos seus mundos cotidianos históricos.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 155)

“Um dos ganhos da capacidade de nos deixarmos literalmente atrair pelo passado, nessas condições, pode estar na circunstância de que, ao atravessarmos o limiar de mundo-da-vida que é o nosso nascimento, damos as costas ao futuro sempre-ameaçador e sempre-presente da nossa morte. Mas para nossa nova relação com o passado, mais importante ainda do que dar as costas à morte é que, num nível geral e num nível institucional, rejeitemos a questão de saber que benefícios podemos esperar deum compromisso com o passado. Uma boa razão para deixar essa questão em aberto, deixar que a invocação do passado aconteça, é que qualquer possível resposta à pergunta sobre os ganhos práticos limitará o espectro de modalidades pelas quais podemos nos deliciar com o apssado – e simplesmente gozar o nosso contato com ele.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 155)

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“o problema não é, pelo menos não primeiramente, como acolher na sala de aula esse desejo de presença. Pretendo debater se tais conceitos modificados de ‘estética’ e de ‘história’, as duas maiores estruturas no âmbito das quais proponho abordar os objetos culturais, podem – e devem – ter impacto nos modos comopensamos o ensino e nos modos como cumprimos nossos compromissos pedagógicos. Entre essas duas estruturas vejo duas convergências que prometem ter algum relevância para questões de pedagogia. A primeira dessas convergências é a afirmação de um clara distância em relação aos nossos mundos cotidianos; tanto o acontecimento das epifanias quanto o ato de historicização parecem implicá-la e exigi-la. A experiência estética nos impõe uma insularidade situacional e temporal, ao passo que a historicização pressupõe uma capacidade de descobrir e uma predisposição para reconhecer o estututo disfuncional que certos objetos da nossa atenção têm nos ambientes que os envolvem. A segunda convergência que pretendo citar é uma dupla hesitação relativamente ao nosso hábito de interpretar, isto é, de atribuir sentido aos objetos da nossa atenção. […] pode ser impossível evitar atribuir sentido a uma epifania estética ou a um objeto histórico. Mas […] nosso desejo de presença será mais bem servido se tentarmos parar por um momento antes de começarmos a construir sentido – e se nos deixarmos ser agarrados por uma oscilação em que os efeitos de presença invadem os efeitos de sentido.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 156-7)

“bom ensino acadêmico consiste em pôr a compelxidade em cena; trata-se de chamar a atenção dos alunos para fenômenos e problemas complexos, mais do que prescrever modos de compreender certos problemas e, em última análise de lidar com eles. Em outras palavras, o bom ensino acadêmico deveria ser dêitico, mais do que interpretativo e orientado para soluções.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 159)

“podemos regressar ao novo – enfático – conceito de ‘leitura’, que provavelmente vem da experiência específica que os leitores têm tido com certos tipos de literatura moderna. Tal ‘leitura’, tanto leitura de livros quanto leitura do mundo, não é simplesmente uma atribuição de sentido. É o movimento interminável, o movimento alegre e doloroso entre perder e voltar a ganhar controle intelectual e orientação – que pode ocorrer no confronto com (quase?) todos os objetos culturais, desde que ele ocorra nas condições de baixa pressão de tempo, isto é, sem que se espere de imediato uma ‘solução’ ou uma ‘resposta’. Esse movimento é exatamente aquilo a que nos referimos quando dizemos que uma aula ou um seminário ‘ampliou’ o nosso pensamento.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 159)

“Luhmann, por exemplo, caraterizava a universidade como um ‘sistema social secundário’, ou seja, um sistema social cuja função seria a produção de complexidade – por distinção e como reação à maioria dos outros sistemas sociais, que Luhmann via como sendo orientados a reduzir a complexidade dos seus ambientes. Graças à complexidade gerada pela combinação da pesquisa acadêmica e do ensino nas universidades, as sociedades dispõem de lternativas àquilo que em cada momento são os desafios da transição” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 160)

“Max Weber sublinhou que a pesquisa e o ensino nas universidades deveriam centrar-se primeiramente em todos os ‘fatos desagradáveis’, perspectivas contraintuitivas e achados improváveis que pudessem encontrar. A coragem necesária para nos expor a problemas não resolvidos e a trajetórias intelectuais imprevisíveis era, para Weber, o que distinguia a verdadeira ‘aristocracia da mente’. Tanto Weber como Luhmann juntavam-se assim a uma tradição fundada já em 1810 por Wilhelm von Humboldt, que defendia que o ensino acadêmico deveria sobretudo caracterizar-se pelo ‘entusiasmo produzido pela livre interação de alunos e professores’ que se concentram em ‘problemas não resolvidos’, em estilos inetlectuais diferenciados, só secundariamente dedicados à tarefa de transmitir ‘conhecimento estável e inquestionável’” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 160)

“não pode haver dúvidas de que a maioria das aulas estritamente limitadas à transmissão de conhecimento padrão em berve será – e deverá ser – substituída por uma variedade de aparatos tecnológicos que não exigem a copresença física de alunos e professores” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 161)

“Regressar à visão de Humboldt da sociabilidade específica das instituições acadêmicas […] e ao conceito de ‘pensamento de risco’ pode nos ajudar a afinar os nossos argumentos a favor da verdadeira presença na sala de aula.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 161)

“Deveria haver (e haverá normalmente) reações diferentes aos diferentes encontros dos alunos com a complexidade, e se a complexidade inicial que eles encontram não está ainda domada, interpretada ou reduzida, essas reações terão o estatuto de (mini)eventos, pois serão de fato imprevisíveis – e portanto, decisivas para continuar a desenvolver a interação de professores e alunos. A principal tarefa do professor, em aula, consiste em manter tais reações à superfície e em canalisá-las para uma conversa, entre os alunos, que vá para além do que uma rea~çao individual à complexidade alguma vez poderia ir.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 162)

“Por ora estou determinado a oferecer alguma resistência […] ao furor de substituir cada bocadinho de interação em presença real, que ainda resta, por aquelas telas de computador deploravelmente higiênicas. Além disso, parece quase inevitável (embora seja, de algum modo, estranho) que tenha de encerrar esse capítulo dizendo que foi talvez necessario passar po um desenvolvimento relativamente complicado do conceito de presença para entender que a nossa própria profissão de ensino, muito especificamente e em modos ainda não completamente compreendidos, sempre teve a ver com a presença real. Mas nada garante que continue assim. O futuro da presença necessita do nosso compromisso presente.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 163)

Ficar quieto um momento: sobre redenção

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“tantas vezes desejo, em retrospectiva, que alguma conversa tivesse sido uma ‘conversa perfeita’, ou que um dia tivesse sido ‘um dia perfeito’. Sei agora que nunca me permitirei chamar a um dia ‘um dia perfeito’ sem ter a certeza que o que foi bom nele para mim conquistou o meu corpo – ao porto, de fato, de me dar a sensação de que, de algum modo, eu fui a corporificação daquele dia perfeito. […] quando falo, tantas vezes com demasiada ênfase e entusiasmo, sober a presença refiro-me principalmente a essa sensação de ser a corporificação de algo.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 167)

“Como não conseguia me convencer de que um dia podia ser um dia de fato homogeneamente perfeito, acabei por aceitar que provavelmente já é bom haver uma alternância entre intensidade e perfeito apaziguamento. Talvez seja como o dia e a noite. Pode-se provocar e até comprar intensidade. O problema (a assimetria) é que, embora eu saiba que tal intensidade acabará por tornar-se cansativa (ou mesmo entediante), o apaziguamente nunca chega sem que eu desejo que a intensidade dure mais” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 168)

“Será que o Gelassenheit, de Heidegger, não poderia significar ao mesmo tempo estar calmo e bem desperto? Talvez não haja assim tanta oposição entre estar completamente agitado e completamente sossegado. Talvez o (famoso) ‘desejo de ser uma árvore’ (e o de ser um arco de gesso) não seja apenas desejo de morte. Não é o Gelasseinheit também o estado perfeito de presença? A intensidade de querer ser e de estar ali, sem quaisquer efeitos de distância. Tais momentos poderiam ser a origem da tensão entre presença e sentido” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 169)

“Tão logo pergunto ‘como se pode chegar lá?’ – ao intenso apaziguamento da presença -, vem ao pensamento a palavra ‘redenção’. Mas essa redenção não seria apenas, como em quaisquer versões românticas e teológicas do conceito, um regresso a um estado primordial em que a inocência se houvesse perdido por causa de qualquer ‘pecado original’. A redenção que imagino seria um regresso – e mais. Imagino a redenção como um estado a atingir por meio do paradoxo do êxtase, isto é, forçando uma relação inicial, uma dada situação de distância, até um grau de excentricidade e mesmo de frenesi, na esperança de atingir uma união – melhor ainda, uma presença-no-mundo – que no início parecia estar tão fora do alcance quanto qualquer outro sonho. Como chegaríamos lá? Talvez isolando, de preferência no tal dia perfeito, fortes sentimentos individuais de alegria ou de tristeza – e concentrando-nos neles com nossos corpos e nossos pensamentos; deixando que esses sentimentos diminuam a distância etre nós (o sujeito) e o mundo (o objeto) até o ponto em que a distância possa transformar-se subitamente num estado não mediado de estar-no-mundo.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 170)

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“[a presença] Poderia ser redenção de uma obrigação permanente de movimento e mudança, tanto no sentido de mudanças ‘históricas’ infinitas que nos são impostas, em todos os níveis da nossa existência, quanto no sentido da obrigação que impomos a nós mesmos, que nos faz querer nos ‘ultrapassar’ e nos transformar sempre. Sentindo que tal movimento permanente tem origem fora de nós, pelo menos desde o início do século XX tendemos a atribuir sua dinâmica à ‘sociedade’. Jean-François Lyotard denominou mobilização geral o sentimento de seguir os ritmos desses movimentos majoritariamente intransitivos – e frequentemente veementes” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 170)

“Hoje em dia, o trabalho nos deixa mais tempo livre do que qualquer geração antes de nós teve, mas, mesmo assim, nunca tempos tempo o suficiente. Sem dúvida, estarmos enredados nessa mobilização geral nos faz desejar aqueles momentos de concentração nas ‘coisas do mundo’ e no intenso apaziguamente que essa concentração traz consigo.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 171)

“[Georges Batille dizia] sobre a relação (culturalmente determinada) que (não) mantemos com os nossos corpos, que nossa distância em relação a essa concentração e a esse apaziguamento pode ter crescido a ponto de corrermos o risco de já não sentirmos falta daquilo que perdemos” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 171)

“As tecnologias contemporâneas de comunicação quase cumpriram o sonho de onipresença, que é o sonho de fazer a experiência vivida tornar-se independente dos locais que nossos corpos ocupam no espaço (nesse sentido, é um sonho ‘cartesiano’). […] Estamos ‘disponíveis’ – estar ‘disponível’ é estar em modo de ‘mobilização geral’ – para chamadas de trabalho quando saímos em um programa.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 172)

“Muito claramente, nossas reações podem ir para um lado ou para outro. […] quanto mais perto estamos de cumprir os sonhos de onipresença e quanto mais definitiva parece ser a subseqüente perda dos nossos corpos e da dimensão espacial da nossa existência, maior se torna a possibilidade de reacender o desejo que nos atrai para as coisas do mundo e nos envolve no espaço dele.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 172)

“esse é o conteúdo surpreendentemente complexo […] do conceito de ‘efeitos especiais’ (‘efeitos especiais’ são apenas uma parte do que chamei […] de ‘efeitos de presença). […] no seu ápice, as tecnologias contemporâneas de comunicação, paradoxalmente, podem nos devolver aquilo que se tornou tão ‘especial’ por ter sido excluído pelo mesmo ambiente que consiste da acumulação e da combinação de aparelhos” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 172)

“talvez não seja tão importante […] tentar recuperar um sentimento, induzido pela mídia, de como deve ser estar num cruzeiro que afunda no Atlântico Norte. Mas importa, julgo, nos expor aos efeitos especiais que reproduzem o impacto de um ataque aéreo” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 173)

“[nosso ambiente mediático] alienou de nós as coisas do mundo e o presente – mas, ao mesmo tempo, tem o potencial de nos devolver algumas das coisas do mundo. E se de novo se tornasse claro que estar sentado à mesma mesa para jantar (ou, dá no mesmo, fazer amor) não tem a ver só com comunicação, não é simples ‘troca de informação’, então talvez se tornasse importante e útil […] ter conceitos que nos permitam apontar o que nas nossas vidas é irreversivelmente não conceitual.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 173)

“haveria muito a ganhar se […] nos permitissem, pelo menos de vez em quando, ficar em sossego um instante, em meio ao ruído tecnológico e epistemológico da nossa mobilização geral. Procrastinar não será uma ameaça: estamos num ambiente que não nos permitirá pausas maiores que momentos de presença.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 174)

3

“[Entre as objeções a minhas teses], Mais agressiva é a questão de saber se não existirá uma patologia – a patologia do ‘fetichismo’ – por trás do desejo de estar em sintonia com as coisas do mundo. Não consigo ver nenhuma afinidade entre o que defendo e o sentido que Karl Marx deu a essa palavra. Com fetichismo ele critica uma ligação aos aspectos ‘físicos’ dos produtos, uma fixação que nos torna incapazes de compreender esses produtos como sintoma e expressão de relações sociais, mais especificamente como sintoma e expressão de ‘condições de produção econômica’ especificamente capitalistas. Se preciso reagir especificamente a esse sentido da palavra ‘fetichismo’, terei de insistir mais uma vez: não estou interessado em uma repressão radical da dimensão do sentido – à qual pertenceria uma compreensão das condições de presença.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 177)

“Na tradição freudiana, o conceito de fetichismo ilustra a fixação que alguém tem em certos (tipos de) objetos, fixação e dependência que não podem ser explicadas por nenhum interesse consciente dos indivíduos nesses objetos. Portanto, a pergunta crucial que decorre do uso freudiano do conceito é a de saber se o desejo de estar em sintonia com as coisas do mundo implica necessariamente o risco de gerar uma dependência – ou seja, saber se esse desejo pode obliterar a nossa capacidade de manter uma distância das coisas do mundo. Uma das respostas terá de ser, portanto, que estar mais sensível às coisas do mundo em geral não significa estar fixado em coisas específicas. No entanto, eu gostaria, acima de tudo, de voltar a perguntar se a preocupação com o fetichismo não implica uma – problemática – fixação na ‘distância’ intelectual (e mesmo espacial) como valor absoluto.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 178)

5

“No [teatro tradicional japonês] Nô e no Kabuki, todos os atores chegam ao palco e deixam o palco através de uma ponte […], passando no meio do púbico, até o palco (os lugares mais próximos do meio da ponte são os mais caros). Esse emergir e desaparecer das personae teatrais muitas vezes chega a demorar mais do que as próprias cenas e interações com os atores no palco.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 184)

“se [o espectador ocidental] tiver paciência suficiente para deixar crescer em si a lentidão das saídas e das entradas das formas e a presença sem forma, então no fim de três ou quatro horas o Nô pode fazê-lo compreender como sua relação com as coisas do mundo se alterou. Talvez comece até a sentir a calma que lhe permite deixar vir as coisas, e talvez cesse de perguntar o que essas coisas querem dizer – pois elas parecem apenas presentes e plenas de sentido. Talvez observe como, enquanto deixa lentamente as coisas emergirem, se torna parte delas.” (GUMBRECHT, Hans. Produção de Presença. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC. Rio de Janeiro, RJ: 2010, p. 184)

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