Ficha de Leitura: Da teoria da comunicação às teorias da mídia – Erick Felinto

FELINTO, Erick. Da teoria da comunicação às teorias da mídia Ou, temperando a epistemologia com uma dose de cibercultura. In: dossiê: cidades midiáticas (PPG UFRJ), vol. 14 número 1. Rio de Janeiro, RJ: 2011

 

Resumo

No contexto brasileiro da pesquisa em comunicação, as investigações de caráter epistemológico enfrentam um perigoso esvaziamento. O pequeno interesse pelos temas teóricos, expresso inclusive pela baixa popularidade dos GTs de Teoria da Comunicação em associações como a Compós e a Intercom, merece análise cuidadosa. O objetivo deste trabalho é sugerir algumas interpretações a respeito do singular estado e das dificuldades enfrentadas pela teoria da comunicação no Brasil. Mais que isso, aponta nas questões levantadas pelas mídias digitais e suas novas teorias um possível caminho para enfrentar os impasses teóricos no campo da comunicação no Brasil.

Epígrafe

‘What do you think Marshall McLuhan ought to do if he wants to be taken more seriously in the world today?’ [entrevistador de televisão]

‘Marshall McLuhan is taken far too seriously…’ [McLuhan]

Entrevista na televisão canadense, 1967.”

“O que significa dizer, efetivamente, ‘teoria da comunicação’? O singular é bastante enganoso. Sabemos que não existe uma teoria, senão várias, com diferentes abordagens, olhares e procedimentos, contudo, abstraímos esse plural em benefício de certa idéia de unidade na diversidade. A enorme variedade de abordagens, métodos e escolas (com fundamentação em áreas que vão da sociologia à filosofia) é compactada sob a égide de um ideal disciplinar. Nas disciplinas universitárias que se dedicam a historiar as diversas teorias da comunicação, a reflexão da Escola de Frankfurt é inserida em matrizes de enunciação que permitem colocá-la no mesmo plano dos estudos de recepção, por exemplo. Ambas fazem parte desse vasto e organizado panorama histórico que, tradicionalmente, inclusive, se apresenta com inclinações evolucionistas. Os olhares equivocados do passado seriam continuamente corrigidos pelo progresso da teoria e da ciência. Tal unidade do diverso seria garantida por aquilo que constitui o ‘campo’ da comunicação, seu recorte específico, com a definição dos horizontes próprios de pesquisa. Todavia, é aí precisamente que começam nossos problemas.” (FELINTO, Erick. Da teoria da comunicação às teorias da mídia Ou, temperando a epistemologia com uma dose de cibercultura. In: dossiê: cidades midiáticas (PPG UFRJ), vol. 14 número 1. Rio de Janeiro, RJ: 2011, p. 236)

“temos feito investimento de tempo considerável na definição do que significa o ‘campo da comunicação’. Ainda que se reconheça (e seria muita ingenuidade não fazê-lo) que as considerações epistêmicas são sobredeterminadas por questões de ordem política e de outras naturezas, o tom dominante na maioria dos trabalhos é o da necessidade do estabelecimento de um lócus de legitimação essencialmente epistemológico do discurso teórico sobre a comunicação.” (FELINTO, Erick. Da teoria da comunicação às teorias da mídia Ou, temperando a epistemologia com uma dose de cibercultura. In: dossiê: cidades midiáticas (PPG UFRJ), vol. 14 número 1. Rio de Janeiro, RJ: 2011, p. 236)

“Para muitos, inclusive, o que garantiria a suposta unidade do campo comunicacional seria a noção de mídia. Esse destaque da noção permanece como algo mais ou menos constante, com eventuais tentativas de flexibilização do que significa exatamente o termo. Buscando esse caminho de relativa flexibilização, por exemplo, Jairo Ferreira expressa os diferentes percursos teóricos como tentativas de ‘responder a angústias do campo a partir de enfoques próprios, singulares’ (FERREIRA, 2003, p. 9). A palavra usada aqui é sintomática. De fato, em muitos dos estudos sobre o tema, parece tratar-se de uma angústia que apenas uma boa terapêutica epistêmica poderia curar.” (FELINTO, Erick. Da teoria da comunicação às teorias da mídia Ou, temperando a epistemologia com uma dose de cibercultura. In: dossiê: cidades midiáticas (PPG UFRJ), vol. 14 número 1. Rio de Janeiro, RJ: 2011, p. 237)

“No fundo da questão encontra-se, portanto, um problema de natureza disciplinar. No Brasil, a teoria da comunicação vem se constituindo, em escala significativa, como (re)proposição de suas fundações epistêmicas, de seu desenho enquanto ‘campo’ ou ‘objeto’ (e os dois termos aparecem na literatura, por vezes, de forma intercambiável). […] não obstante a qualidade e profundidade das discussões travadas, toda essa energia pouco tem sido direcionada a buscar novas perspectivas teóricas  ou a diagnosticar transformações no cenário midiático contemporâneo.” (FELINTO, Erick. Da teoria da comunicação às teorias da mídia Ou, temperando a epistemologia com uma dose de cibercultura. In: dossiê: cidades midiáticas (PPG UFRJ), vol. 14 número 1. Rio de Janeiro, RJ: 2011, p. 237

“a introdução das tecnologias digitais desempenhou papel fundamental. Não tanto porque elas tenham revolucionado inteiramente a história humana, como muitos dos discursos triunfalistas apregoam, mas principalmente devido ao fato de terem posto em relevo certas questões que antes não se manifestavam de forma tão evidente quanto agora.”

 

“Afonso Albuquerque indicou como as novas mídias digitais colocaram em cheque os modelos teóricos tradicionais (e mesmo a identidade do campo) da pesquisaem comunicação, até então pautada pelo paradigma emissor-mensagem-receptor (E-M-R) característico da mass media research (2002). Aqui vale a pena fazer um parêntesis e observar, de fato, que o grosso das discussões sobre a identidade da comunicação se deu no contexto da mass media research. E não é casual o fato de que existam diferenças gritantes entre os métodos, perspectivas teóricas e posições disciplinares adotadas nos universos de pesquisa das mídias digitais e das tecnologias de comunicação massiva. Não apenas, como já seria de esperar, devido às diferenças estruturais que caracterizam esses ambientes midiáticos, senão também devido ao fato de que o digital (e as formas de conhecimento que lhe são culturalmente coetâneas) favoreceu a problematização do próprio cerne da noção de comunicação.” (FELINTO, Erick. Da teoria da comunicação às teorias da mídia Ou, temperando a epistemologia com uma dose de cibercultura. In: dossiê: cidades midiáticas (PPG UFRJ), vol. 14 número 1. Rio de Janeiro, RJ: 2011, p. 238)

“Como disciplina fundamentalmente preocupada com a investigação de processos de significação entre emissores e receptores, a comunicação se caracterizou como uma investigação de ordem hermenêutica. E, notadamente, a história das teorias e dos métodos de pesquisa em comunicação apresenta um viés quase que exclusivamente hermenêutico. De análise de conteúdo aos estudos de recepção, trata-se essencialmente de interpretar sentidos. Nesse circuito, o componente propriamente tecnológico e material dos meios foi quase que inteiramente esquecido. O mais importante eram os emissores e receptores humanos que se encontravam nas pontas da cadeia comunicacional,na qual os meios apareciam como pouco mais que instrumentos de transmissão de informação. Desse modo, não espanta que os modelos tradicionais da teoria da comunicação tenham quase sempre considerado o ruído como elemento negativo a ser eliminado dos processos comunicativos.” (FELINTO, Erick. Da teoria da comunicação às teorias da mídia Ou, temperando a epistemologia com uma dose de cibercultura. In: dossiê: cidades midiáticas (PPG UFRJ), vol. 14 número 1. Rio de Janeiro, RJ: 2011, p. 239)

“Em sua brilhante arqueologia dos vírus de computador, Jussi Parikka mostra como o ruído (e conseqüentemente os vírus) passam, em uma sociedade de riscos, a ser parcialmente incorporados à lógica cultural: ‘em lugar de encarar o ruído como algo reterritorializado fora do evento comunicacional, a sociedade de risco efetivamente não exclui os perigos e os riscos, mas os inclui’ (PARIKKA, 2007, p.72). Eles continuam, porém, a receber uma marca negativa, mas já não são mais simplesmente descartados: “exclusão – mas apenas via inclusão” (ibid.). Parikka, todavia, vai mais longe, procurando demonstrar o potencial criativo dos ruídos, vírus e acidentes: eles desestabilizam os sistemas, eles põem em cheque a ordem estabelecida e demandam novas reconfigurações.” (FELINTO, Erick. Da teoria da comunicação às teorias da mídia Ou, temperando a epistemologia com uma dose de cibercultura. In: dossiê: cidades midiáticas (PPG UFRJ), vol. 14 número 1. Rio de Janeiro, RJ: 2011, p. 240)

“A concepção comunicacional clássica engendrou uma espécie de ‘metafísica da comunicação’ que nos tornou, talvez, confiantes demais em sua eficácia e transparência. Uma metafísica fundada em pressupostos humanistas, na qual o sujeito humano ocupa posição absolutamente central, como senhor e mestre da tecnologia e do significado. Desse modo, faz todo sentido do mundo, por exemplo, que José Luiz Braga tenha buscado no ‘paradigma indiciário’ de Carlo Ginzburg ‘um modelo epistemológico bem ajustado a necessidades da área’ (GINZBURG, 2007, p. 3). Aparte a ironia de uma proposta de autonomização do campo comunicacional baseada em um paradigma  interdisciplinar estudado por um conhecido historiador, o trabalho mostra, de forma clara, o domínio do modelo hermenêutico no pensamento comunicacional. Não há dúvidas de que podemos considerar a comunicação uma ‘disciplina indiciária’, como sugere Braga com argumentação impecável. O único problema é que tal dimensão encobriu, freqüentemente, outros olhares enriquecedores dos fenômenos midiáticos. Não há espaço para outras perspectivas, já que o sentido está em toda parte, à espera apenas de um Sherlock que o interprete apropriadamente. E falar do sentido, é algo que já temos feito há bastante tempo.” (FELINTO, Erick. Da teoria da comunicação às teorias da mídia Ou, temperando a epistemologia com uma dose de cibercultura. In: dossiê: cidades midiáticas (PPG UFRJ), vol. 14 número 1. Rio de Janeiro, RJ: 2011, p. 240)

“Será, de fato, que hoje o papel central dos meios de comunicação é ‘comunicar’?

Ou terão eles prioritariamente outras funções ligadas à regulação social e à produção de experiências de natureza não semântica? Friedrich Kittler, um dos nomes mais importantes das novas teorias de mídia alemães, assume uma posição decididamente pós-humanista e extra-semântica ao explicitar sua tese do apriori medial. Falar em um apriori medial significa dizer que as tecnologias de comunicação e informação constituem elemento central na determinação das realidades humanas e dos processos de cognição. A questão central de Kittler, sumarizada de forma competente por Winthrop-Young, consiste na pergunta sobre ‘como homens e instituições são influenciados ou formados por determinadas práticas e ordens discursivas (Redeordnungen), sem com isso repetir as antigas proposições materialistas’ (WINTHROP-YOUNG, 2005, p. 22).” (FELINTO, Erick. Da teoria da comunicação às teorias da mídia Ou, temperando a epistemologia com uma dose de cibercultura. In: dossiê: cidades midiáticas (PPG UFRJ), vol. 14 número 1. Rio de Janeiro, RJ: 2011, p. 241)

“Em lugar de materialismos tradicionais, que tomam objetos e tecnologias como substâncias inertes, cabe reconsiderar a noção de agência e libertá-la de sua prisão humanista. No contexto de tal reconsideração, podem dar-se deslocamentos importantes na maneira como enxergamos os meios. Talvez seja este um momento particularmente propício para analisá-los mais como processos de registro e sistemas de inscrição e arquivo (Aufschreibesysteme), como também faz Kittler, e menos como tecnologias de comunicação.” (FELINTO, Erick. Da teoria da comunicação às teorias da mídia Ou, temperando a epistemologia com uma dose de cibercultura. In: dossiê: cidades midiáticas (PPG UFRJ), vol. 14 número 1. Rio de Janeiro, RJ: 2011, p. 241)

“quiçá seja esse também o momento de investigar não apenas quais significados circulam pelos sistemas midiáticos, mas como, em tais sistemas tecnológicos, pode-se dar a emergência de sentidos em geral. Ou seja, como a partir do não-sentido (a dimensão material dos meios) surgem as condições para a manifestação do sentido.” (FELINTO, Erick. Da teoria da comunicação às teorias da mídia Ou, temperando a epistemologia com uma dose de cibercultura. In: dossiê: cidades midiáticas (PPG UFRJ), vol. 14 número 1. Rio de Janeiro, RJ: 2011, p. 241)

“O apriori medial já não é mais uma tese defendida unicamente por Kittler. Ela se tornou um dos temas mais importantes de reflexão no panorama alemão. Stefan Münker a define como um ‘medial turn’ (inspirando-se no linguistic turn da filosofia), particularmente expressivo de fato, no ambiente acadêmico germânico. Os meios não apenas nada têm de transparentes, senão também constituem nossa relação com o mundo e definem as condições transcendentais do pensamento.” (FELINTO, Erick. Da teoria da comunicação às teorias da mídia Ou, temperando a epistemologia com uma dose de cibercultura. In: dossiê: cidades midiáticas (PPG UFRJ), vol. 14 número 1. Rio de Janeiro, RJ: 2011, p. 241)

“Não sem razão, os alemães são obcecados com esse conceito [de meio] e sua definição – sempre, naturalmente, tentativa. Isso significaria, então, que se deve subscrever à tese da delimitação do ‘campo comunicacional’ através do vetor dos meios? Estaria neles a resposta que permitiria, no fim das contas, atribuir uma identidade ao campo? Seria realmente alentador se as coisas fossem tão simples assim. Mas não, tudo indica que continuaremos angustiados! Pois as noções de meio e mediação, em um processo paradoxal, vieram ocupar o centro das discussões sobre sociedade e cultura ao mesmo tempo em que sofreram um dramático processo de erosão.” (FELINTO, Erick. Da teoria da comunicação às teorias da mídia Ou, temperando a epistemologia com uma dose de cibercultura. In: dossiê: cidades midiáticas (PPG UFRJ), vol. 14 número 1. Rio de Janeiro, RJ: 2011, p. 241-2)

“segundo Münker, […] o surgimento das tecnologias digitais marcou uma cesura na história cultural. Nas pegadas de Kittler, Münker explica tal cesura com base no fato de que, pela primeira vez, dispomos de um ‘meio que pode emular todos os outros meios, assim como assumir suas funções’ (MÜNKER, 2009, p. 11). O computador seria, nas palavras do primeiro, o meio para acabar com todos os meios: “uma completa interconexão dos meios (Medienverbund) sob uma base digital irá eliminar o próprio conceito de meio” (KITTLER, 1986, p. 8).” (FELINTO, Erick. Da teoria da comunicação às teorias da mídia Ou, temperando a epistemologia com uma dose de cibercultura. In: dossiê: cidades midiáticas (PPG UFRJ), vol. 14 número 1. Rio de Janeiro, RJ: 2011, p. 242)

“Numa visão clássica, a comunicação consistiria na transmissão de sentido (humano) através dos meios tecnológicos. Eles estariam ali apenas para mediar tal transmissão. Mas que fazer dos meios em uma época em que as máquinas se “comunicam” cada vez mais com outras máquinas, em sistemas fechados nos quais o mais importante é a manutenção de seu funcionamento?” (FELINTO, Erick. Da teoria da comunicação às teorias da mídia Ou, temperando a epistemologia com uma dose de cibercultura. In: dossiê: cidades midiáticas (PPG UFRJ), vol. 14 número 1. Rio de Janeiro, RJ: 2011, p. 242)

“Uma das figuras heróicas da historiografia de Kittler, curiosamente, constitui também quase uma origem para a genealogia tradicional dos estudos da mass media research. Em Shannon se articula, avant la lettre, um paradigma teórico não hermenêutico. Em sua teoria, o que importa essencialmente não é nem o meio nem o conteúdo da mensagem, mas sim como alcançar o máximo de eficácia em sua transmissão. A teoria matemática da comunicação, assim como a cibernética e a teoria dos sistemas (especialmente em sua vertente luhmanniana) são paradigmas teóricos que colocam o  maquinismo e os determinantes sistêmico sem uma posição privilegiada em relação aos agentes humanos. Como diz Winthrop-Young, com boa dose de humor, ‘Shannon é um Foucault com maiores dotes matemáticos’ (2005, p. 138). Isso porque, como Foucault, Shannon preocupa-se com o tema da regulação dos sistema através de mecanismos de reforço e redundância.” (FELINTO, Erick. Da teoria da comunicação às teorias da mídia Ou, temperando a epistemologia com uma dose de cibercultura. In: dossiê: cidades midiáticas (PPG UFRJ), vol. 14 número 1. Rio de Janeiro, RJ: 2011, p. 242)

“Se Foucault oferecia a esses teóricos um modelo de história cultural onde as redes discursivas determinam comportamentos e formas institucionais em procedimentos de poder, faltava, porém, a ele a consideração do papel dos meios em tais processos.” (FELINTO, Erick. Da teoria da comunicação às teorias da mídia Ou, temperando a epistemologia com uma dose de cibercultura. In: dossiê: cidades midiáticas (PPG UFRJ), vol. 14 número 1. Rio de Janeiro, RJ: 2011, p. 242-3)

“trata-se de investigar não apenas as fontes ‘literárias’ (registros escritos), mas interfaces, superfícies, meios de transmissão. No âmbito da “arqueologia dos meios” (Medienarchäologie), o arquivo constitui uma entidade eminentemente midiática, o lócus onde se busca ‘a lei medial que dirige a ordem das coisa sem sua própria produção’ (Ernst, ibid.). Um elemento, precisamente, que as novas teorias ofereceram com seu apriori medial. Dentro desse panorama, o tema da transmissão e interpretação dos sentidos é esvaziado ou torna-se secundário.” (FELINTO, Erick. Da teoria da comunicação às teorias da mídia Ou, temperando a epistemologia com uma dose de cibercultura. In: dossiê: cidades midiáticas (PPG UFRJ), vol. 14 número 1. Rio de Janeiro, RJ: 2011, p. 243)

“Como diz David Wellbery em sua introdução à tradução em inglês de Aufschreibesysteme 1800/1900, ‘Aqui não existem verdades ocultas a serem desveladas, nenhuma profundidade debaixo dos textos da qual nos caberia se apropriar. Tudo permanece na superfície, precisamente porque essa materialidade superficial dos próprios textos – sua inscrição dentro de uma rede discursiva – é o lócus de sua eficácia histórica’ (WELLBERY, 1999, p. xvii).” (FELINTO, Erick. Da teoria da comunicação às teorias da mídia Ou, temperando a epistemologia com uma dose de cibercultura. In: dossiê: cidades midiáticas (PPG UFRJ), vol. 14 número 1. Rio de Janeiro, RJ: 2011, p. 243)

“a noção de mídia, recorrentemente invocada como garantia epistemológica do recorte do campo, é muito pouco explorada para que possa constituir um porto seguro aos pesquisadores angustiados com a terra ingonita que surge à sua frente. Se por vezes se admite a multiplicidade semântica desse conceito, tímidos

foram os esforços para esmiuçá-lo com maior precisão. Como admite Jairo Ferreira, a discussão ‘em torno da mídia poderia, é claro, render uma obra’ (FERREIRA, 2003, p. 10) – da qual ainda não dispomos, infelizmente. Entretanto, no mais das vezes, a mídia e os ‘processos de mediação’ são tratados como termos auto-evidentes ou pouco problemáticos.” (FELINTO, Erick. Da teoria da comunicação às teorias da mídia Ou, temperando a epistemologia com uma dose de cibercultura. In: dossiê: cidades midiáticas (PPG UFRJ), vol. 14 número 1. Rio de Janeiro, RJ: 2011, p. 243-4)

“as discussões têm se dado numa moldura conceitual onde os problemas de fundo sempre são de natureza fundamentalmente hermenêutica. ‘Interpretação’ é a palavra mais popular de muitos dos trabalhos dedicados à definição do campo comunicacional, ainda que, paradoxalmente, se afirme o tempo todo a necessidade de encontrar vetores propriamente científicos de delimitação do campo.” (FELINTO, Erick. Da teoria da comunicação às teorias da mídia Ou, temperando a epistemologia com uma dose de cibercultura. In: dossiê: cidades midiáticas (PPG UFRJ), vol. 14 número 1. Rio de Janeiro, RJ: 2011, p. 244)

“não seria interessante reestruturar essas discussões sobre a teoria da comunicação em nosso meio a partir de uma consideração mais atenta dos impactos dos novos meios digitais? […] cabe perguntar se essa carência de atenção ao digital não se deva ao fato de que muitos pressupostos epistemológicos envolvidos na discussão derivem de sua adesão a uma forma mentis típica da comunicação massiva. Já adverti, anteriormente, que possivelmente a maior contribuição do paradigma digital aos estudos comunicacionais seja a possibilidade enxergar questões antes pouco visíveis (ou reformular inovadoramente as antigas questões). O tema das interfaces, por exemplo, colocou em plena visibilidade a dimensão material dos meios, bem como a ocasional resistência das superfícies midiáticas à livre circulação dos sentidos. A interface não é somente aquilo que permite a interação e os fluxos de sentido, mas que, simultaneamente e de forma paradoxal, os obstaculariza.” (FELINTO, Erick. Da teoria da comunicação às teorias da mídia Ou, temperando a epistemologia com uma dose de cibercultura. In: dossiê: cidades midiáticas (PPG UFRJ), vol. 14 número 1. Rio de Janeiro, RJ: 2011, p. 244)

“ainda não dispomos de um vocabulário adequado para dar conta das questões prementes da cultura e da sociedade na presente situação. Não há dúvida de que nos encontramos numa situação embaraçosa quando mesmo o termo cibercultura, bastante usado entre nós (e nome de GT da Compós), já é considerado ultrapassado e antiquado por pensadores como Manovich e Zielinski.” (FELINTO, Erick. Da teoria da comunicação às teorias da mídia Ou, temperando a epistemologia com uma dose de cibercultura. In: dossiê: cidades midiáticas (PPG UFRJ), vol. 14 número 1. Rio de Janeiro, RJ: 2011, p. 245)

“Não estou sugerindo que tenhamos, neste momento, que abandonar todos os problemas tradicionais da ‘teoria da comunicação’. Minha proposta é mais modesta e posso sintetizá-la em quatro pontos:

1. A preocupação com a definição do campo e a delimitação de seus marcos surgiu, em boa parte, como resposta a um estado de grande instabilidade e falta de rigor científico no domínio institucionalizado das ‘ciências sociais aplicadas’ (mais um termo infeliz!) no Brasil. Há indicativos de que já é outra a situação em que nos encontramos hoje e, portanto, estaríamos prontos a dar um passo adiante. Mas mesmo que ainda não nos encontremos no melhor dos mundos possíveis, um deslocamento do eixo de nossas preocupações centrais do tema do campo para a questão da medialidade pode oferecer pistas mais valiosas para repropor os problemas da comunicação na era digital;” (FELINTO, Erick. Da teoria da comunicação às teorias da mídia Ou, temperando a epistemologia com uma dose de cibercultura. In: dossiê: cidades midiáticas (PPG UFRJ), vol. 14 número 1. Rio de Janeiro, RJ: 2011, p. 245)

“2. Devemos temperar nossa inclinação às questões de fundo hermenêutico com abordagens capazes de contemplar mais profundamente o impacto material dos meios. Nesse aspecto, autores como Kittler (1986), Zielinski (2002), Gumbrecht (1994) ou Ernst (2002) teriam muito a colaborar. Um estudo como o já citado Digital Contagions, de Jussi Parikka, realiza com maestria essa combinação entre práticas interpretativas e investigação das materialidades midiáticas. Advertindo que a noção de discurso não deve ser entendida em um sentido unicamente textual, Parikka explica o que entende por ‘texto’:

‘Eu abordo textos como máquinas de produção, como criadores de efeitos, afetos e pensamentos que se entrelaçam com os planos não discursivos da cultura e, desse modo, eles são sempre multiplicidades que não podem ser reduzidas aos usos e interpretações majoritários ou hegemônicos. Sempre há potencial para outras e novas conexões (PARIKKA, 2007, p. 31)’;” (FELINTO, Erick. Da teoria da comunicação às teorias da mídia Ou, temperando a epistemologia com uma dose de cibercultura. In: dossiê: cidades midiáticas (PPG UFRJ), vol. 14 número 1. Rio de Janeiro, RJ: 2011, p. 245)

“3. Precisamos nos colocar em permanente estado de alerta contra a fixação de palavras ou conceitos, de modo que entendamos ‘comunicação’, ‘mídia’ e outros correlatos como construtos em processo de contínua reconfiguração histórico-cultural. Ou seja, não existem nem a ‘comunicação’ nem o seu campo como processos acabados e atemporalmente definidos. É preciso apontar constantemente os pontos de fuga, os territórios de miscigenação, as zonas de  interface. Toda tentativa de construir fronteiras disciplinares absolutamente  rigorosas a partir de determinantes epistemológicos está, hoje, condenada ao fracasso;” (FELINTO, Erick. Da teoria da comunicação às teorias da mídia Ou, temperando a epistemologia com uma dose de cibercultura. In: dossiê: cidades midiáticas (PPG UFRJ), vol. 14 número 1. Rio de Janeiro, RJ: 2011, p. 246)

“4. Valeria aprender a lição ensinada por Bruno Latour (e muitos outros no escopo das novas teorias de mídia) a respeito da multiplicidade dos atores no cenário social. Não somos os únicos, nem necessariamente os mais importantes agentes do que está se desdobrando diante de nossos olhos. A cultura é um fenômeno tecnológico desde suas origens, mas hoje, mais que em qualquer outra época, a tecnologia se torna tema central de debate. Os atores não humanos ocupam uma posição tão decisiva que nossos pudores humanistas não têm mais onde se sustentar. Abandonar as últimas fortalezas do humanismo clássico não significa termos que adotar uma perspectiva maquínica (como faz Manuel De Landa, em seu interessante exercício de ficção teórica War in the Age of Intelligent Machines, 1991), mas sim que precisamos repensar profundamente conceitos como os de agência e tecnologia. Para as novas teorias da mídia, isso implica um decisivo envolvimento com a importante questão do pós-humanismo – que, felizmente, já tem sido abordada com competência por pesquisadores do nosso ‘campo’ (Cf.SANTAELLA, 2003, SIBILIA, 2002, RÜDIGER, 2008).” (FELINTO, Erick. Da teoria da comunicação às teorias da mídia Ou, temperando a epistemologia com uma dose de cibercultura. In: dossiê: cidades midiáticas (PPG UFRJ), vol. 14 número 1. Rio de Janeiro, RJ: 2011, p. 246)

“Teorias têm, como tudo mais, datas de nascimento e de morte. Não obstante as pretensões metafísicas embutidas em sua estrutura profunda, a teoria e a ciência estão tão sujeitas a condicionantes históricos quanto qualquer outra coisa. A arqueologia da mídia, um programa de pesquisa que vem alcançando crescente êxito em diferentes contextos acadêmicos, sugere que tenhamos um engajamento cada vez mais ativo com a noção de história. Não se trata simplesmente de resgatar passados irrealizados – narrar a história dos vencidos, como já propunha Benjamin precisamente nas suas Teses sobre o Conceito de História. Trata-se de sugerir heteronomias, de imaginar futuros possíveis, de esboçar linhas de fuga.” (FELINTO, Erick. Da teoria da comunicação às teorias da mídia Ou, temperando a epistemologia com uma dose de cibercultura. In: dossiê: cidades midiáticas (PPG UFRJ), vol. 14 número 1. Rio de Janeiro, RJ: 2011, p. 247)

“Já não temos mais a opção do observador afastado que contempla o mundo (raiz mesmo da palavra ‘teoria’) em poderosa abstração angelical. Temos que esperar muito menos da ciência, o que paradoxalmente pode ser um ganho, já que a imaginação poderia ser convocada a preencher os vazios deixados pelo saber. Parafraseando Kant, dir-se-ia: tivemos de suprimir o saber para abrir espaço para a imaginação.” (FELINTO, Erick. Da teoria da comunicação às teorias da mídia Ou, temperando a epistemologia com uma dose de cibercultura. In: dossiê: cidades midiáticas (PPG UFRJ), vol. 14 número 1. Rio de Janeiro, RJ: 2011, p. 247)

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