Ficha de Leitura: O media turn alemão – Adalberto Müller

MÜLLER, Adalberto. O media turn alemão: introduções à teoria da mídia. In: Linhas imaginárias: poesia, mídia, cinema. Porto Alegre, RS: Sulina, 2012.

 

“A relação da mídia – aquilo que hoje entendemos por mídia – com a arte ganhou celebridade no tantas vezes lido e ainda misterioso texto de Walter Benjamin, A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica” (MÜLLER, Adalberto. Linhas imaginárias: poesia, mídia, cinema. Porto Alegre, RS: Sulina, 2012, p. 27)

“No ensaio de 1936, Benjamin parte do pressuposto de que utilização de métodos industriais na copiagem e na reprodução de obras de arte (‘reprodutibilidade técnica’) retiram a arte de seu contexto ‘natural’, fazendo que ela perca sua ‘aura’, ou seja, sua atmosfera de autenticidade, seu caráter irrepetível, sua origem humana e sua relação com uma tradição: ‘as técnicas de reprodução, assim se pode formular em geral, retiram o reproduzido do domínio da tradição’.” (MÜLLER, Adalberto. Linhas imaginárias: poesia, mídia, cinema. Porto Alegre, RS: Sulina, 2012, p. 28)

“O ‘meio’ – Benjamin usa o termo Médium correspondendo a mídia – de que nos servimos para organizar a percepção do mundo se modifica com a reprodução técnica: as coisas distantes se tornam próximas, a reprodutibilidade da obra de arte – como, no caso do cinema – tem como corolário sua massificação, e a massificação retira da obra de arte seu caráter de ritual. A obra de arte perde assim seu valor de culto, que se vê substituído por seu valor de exposição, e passa a ser produto de consumo industrializado.” (MÜLLER, Adalberto. Linhas imaginárias: poesia, mídia, cinema. Porto Alegre, RS: Sulina, 2012, p. 28)

“[Benjamin constata que] ser escritor é, em nosso tempo, atributo de qualquer um que comece a escrever para a miríade de jornais, revistas, livros especializados – o que diminui a distância entre autor e seu público: ‘O leitor está preparado para, a qualquer momento, transformar-se em escritor’, afirma a certa altura” (MÜLLER, Adalberto. Linhas imaginárias: poesia, mídia, cinema. Porto Alegre, RS: Sulina, 2012, p. 29)

“talvez a tese mais surpreendente do ensaio de Benjamin seja a de que o cinema – essa nova mídia – modifica radicalmente nosso conceito de realidade, criando nova forma de apreendê-la. […] a ilusão criada pelo teatro acontece em um lugar real, a cena. Já o ‘acontecimento’ (das Geschehen) do cinema ocorre distante da visão do espectador: seu lugar verdadeiro é a mesa de montagem; é a montagem que cria a ilusão de que algo acontece. […] o aparato técnico (Apparatur) do cinema ‘penetra profundamente na realidade’” (MÜLLER, Adalberto. Linhas imaginárias: poesia, mídia, cinema. Porto Alegre, RS: Sulina, 2012, p. 29)

“Enquanto o curandeiro mantém ‘distância natural’ entre si e o paciente – por meio da mera imposição das mãos, sem tocá-lo -, o que lhe dá maior autoridade, o cirurgião diminui a distância, movimentando suas mãos dentro dos órgãos do paciente, nivelando-se com ele ‘de homem para homem’. Pois bem, assim também acontece com o pintor e o cinegrafista: ‘O pintor observa em seu trabalho uma distância natural em relação ao que é dado (ins Gewebe der Gegebenheit). Por isso, as imagens criadas por ambos são distintas. A do pintor é total; a do cinegrafista é espedaçada e deverá encontrar sua totalidade na montagem.” (MÜLLER, Adalberto. Linhas imaginárias: poesia, mídia, cinema. Porto Alegre, RS: Sulina, 2012, p. 30)

“[McLuhan sustenta] que as mídias são ‘extensões’ do corpo humano e, ao mesmo tempo, são ‘canais mágicos’. […] Da mesma forma, McLuhan se aproveita do conceito de prótese para falar das mídias. Mas o fundamental é que, em nossa relação ‘normal’ com as mídias, estas são como amputações: valemo-nos delas como extensões de nosso corpo, mas, no entanto, fingimos que não existem, não as percebemos como parte de nosso corpo. O que leva McLuhan a essa conclusão é que, em vez de percebermos as mídias (os meios), percebemos seu conteúdo e a este damos toda a importância. Tal é o sentido da frase ‘the medium is the message’” (MÜLLER, Adalberto. Linhas imaginárias: poesia, mídia, cinema. Porto Alegre, RS: Sulina, 2012, p. 31)

“Em um jogo de basquete – à noite, claro – ou em uma cirurgia cerebral, o meio/a mídia é a luz elétrica, mas não a percebemos. Percebemos o ‘conteúdo’ daquilo que esta transmite/possibilita. Porque ‘o ‘conteúdo’ de um meio nos cega para as características desse meio’. (MÜLLER, Adalberto. Linhas imaginárias: poesia, mídia, cinema. Porto Alegre, RS: Sulina, 2012, p. 31)

“[segundo McLuhan,] o conteúdo de uma mídia é outra mídia. Um filme visto na tevê remete ao cinema. O cinema, por sua vez, remete ao livro impresso, que, por usa vez, remete à escrita, que, por sua vez, remete à fala. Vivemos o tempo todo cercados pelas mídias, mas não as percebemos e, por isso, somos ‘amputados’ de uma extensão de nosso corpo” (MÜLLER, Adalberto. Linhas imaginárias: poesia, mídia, cinema. Porto Alegre, RS: Sulina, 2012, p. 31)

“se não observarmos as mídias, não entenderemos nosso mundo. ‘Nosso mundo’, para McLuhan, é traduzido pelo termo ambiente. As tecnologias – e, para McLuhan assim como para Kittler, tecnologia é sinônimo de mídia – modificam os ambientes humanos. Esses ambientes – no plural – ‘are not passive wrappings, but active processes’ (MÜLLER, Adalberto. Linhas imaginárias: poesia, mídia, cinema. Porto Alegre, RS: Sulina, 2012, p. 32)

“[O helenista Millman Perry] observou, na década de 1920, que o ‘gênio’ de Homero é na verdade uma série de ‘fórmulas’ mnemônicas da tradição oral dos aedos e que a constituição de seus epítetos e do ritmo de seus versos é um formulaic speech, isto é, uma série de fórmulas mnemônicas derivadas da tradição oral. Erick Havelock, por sua vez, demonstra que a introdução da palavra escrita entre os gregos ‘destribaliza’ aquela civilização,modificando seu meio ambiente. Antes da palavra escrita, os gregos usavam uma ‘enciclopédia tribal’, baseada em uma sabedoria operacional, transmitida pelas fórmulas dos poetas. A alfabetização e os livros dão origem a novo ‘programa’ cultural”. (MÜLLER, Adalberto. Linhas imaginárias: poesia, mídia, cinema. Porto Alegre, RS: Sulina, 2012, p. 32)

“Com o advento do indivíduo destribalizado, foi necessário surgir uma nova educação. Platão imaginou esse programa para homens alfabetizados. Era baseado nas Ideias. Com o alfabeto fonético, a sabedoria classificada tomou o lugar da sabedoria operacional de Homero e Hesíodo e da enciclopédia tribal. A educação através de dados classificados tornou-se o programa do Ocidente desde então.” (McLUHAN, Marshall, citado em MÜLLER, Adalberto. Linhas imaginárias: poesia, mídia, cinema. Porto Alegre, RS: Sulina, 2012, p. 33)

“Quando os missionários distribuíram os machados [para nativos australianos], sobretudo a mulheres e crianças, a autoridade masculina entrou em colapso, modificando o meio ambiente, ‘destribalizando-o’. O mesmo ocorreu, segundo McLuhan, com os meios escrita, dinheiro ou roda, que foram formas de ‘destribalizar’ a sociedade ocidental, modificando o ambiente. McLuhan considera que, a partir do fim do século XIX, vive-se nova mudança de meio ambiente, com a introdução da eletricidade. A eletricidade é esse novo meio – invisível para quem é ‘amputado’ – que torna possível o surgimento de outros meios, como o cinema, o rádio e a televisão. Na verdade, a eletricidade, para McLuhan, transforma todos os meios, possibilitando várias formas de aceleração, encurtando as distâncias, transformando o mundo em uma ‘aldeia global’. Pois a eletricidade ‘retribaliza’, na medida em que destrói o meio ambiente criado pela escrita e pelo advento da imprensa – a ‘galáxia de Gutenberg’. Esse meio ambiente fundamentava duas noções essenciais, as de indivíduo (sujeito) e de Estado (estado nacional). Na era da eletricidade, tais fundamentos entram em crise.” (MÜLLER, Adalberto. Linhas imaginárias: poesia, mídia, cinema. Porto Alegre, RS: Sulina, 2012, p. 33)

“[McLuhan trata de] compreender culturalmente os fenômenos que modificam o ambiente em que os seres humanos vivem – um pouco como Darwin fez para as espécies não humanas, só que ao avesso, pois, segundo McLuhan, é a espécie (o homem) que modifica o ambiente.” (MÜLLER, Adalberto. Linhas imaginárias: poesia, mídia, cinema. Porto Alegre, RS: Sulina, 2012, p. 34)

“Depois de trezentos anos de explosão, por meio de tecnologias fragmentárias e mecânicas, o mundo ocidental está implodindo. Durante as eras mecânicas, estendemos nossos corpos no espaço. Hoje, depois de mais de um século de tecnologia elétrica, estendemos o nosso próprio sistema nervoso num abraço global, abolindo tanto o espaço quanto o tempo, no que concerne o nosso planeta. Rapidamente nos aproximamos da fase final das extensões do homem – a simulação tecnológica da consciência, quando o processo criativo de conhecimento irá ser coletiva e corporativamente estendido para a sociedade humana inteira, assim como estendemos nossos sentidos e nervos em várias mídias” (McLUHAN, M. Citado em MÜLLER, Adalberto. Linhas imaginárias: poesia, mídia, cinema. Porto Alegre, RS: Sulina, 2012, p. 33)

“convém distinguir, como fazem os alemães, entre mídia (Médium/Medien) e meio (Mittel) […] Mas, se pensarmos que, a partir da língua alemã, qualquer coisa pode ser um meio (Mittel) para qualquer coisa – por exemplo, um fragmento de madeira pode ser usado como meio de transporte; uma lanterna pode servir de meio de comunicação -, chegaremos à conclusão de que nem todo meio é necessariamente uma mídia. O conceito de mídia está necessariamente ligado aos conceitos de cognição, informação e comunicação. O microscópio, por exemplo, é um tipo de mídia usado para a cognição e para a informação, mas não para a comunicação.” (MÜLLER, Adalberto. Linhas imaginárias: poesia, mídia, cinema. Porto Alegre, RS: Sulina, 2012, p. 35)

“[Siegfried J.] Schmidt estabelece definição ‘orientada sistemicamente’ de mídia, considerando que esse conceito comporta os seguintes fatores:

  • instrumentos semióticos de comunicação – línguas naturais, gestos;
  • materiais da comunicação – jornais;
  • meios técnicos para produção e difusão de produtos midiáticos – computadores ou câmeras;
  • organizações sociais de produção e difusão de produtos midiáticos – editoras, ou radiodifusoras, com todos os seus pressupostos econômicos, jurídicos, sociais e políticos; e
  • enfim, os próprios produtos midiáticos – artigos de jornal, emissões de rádio e tevê.” (MÜLLER, Adalberto. Linhas imaginárias: poesia, mídia, cinema. Porto Alegre, RS: Sulina, 2012, p. 36)

“essas mídias não podem ser entendidas isoladamente, pois uma mídia sempre remete a outra, como ensinou McLuhan. Uma vez feita essa observação, Schmidt procura demonstrar como a conjunção dos fatores comunicação, cognição, cultura e mídia constroi o que chamamos de realidade.” (MÜLLER, Adalberto. Linhas imaginárias: poesia, mídia, cinema. Porto Alegre, RS: Sulina, 2012, p. 36)

“Falo de meios de comunicação de massa, pois, quando os produtos midiáticos são produzidos por máquinas e distribuídos por organizações econômicas. Chamo de mídias de massa especificamente todos os meios técnicos de comunicação usados para a produção e a distribuição de produtos midiáticos.” (SCHMIDT, S. Citado em MÜLLER, Adalberto. Linhas imaginárias: poesia, mídia, cinema. Porto Alegre, RS: Sulina, 2012, p. 37)

“A cada tipo de mídia utilizada, corresponde um tipo de comunicação e, antes disso, um tipo de percepção/construção da realidade” (MÜLLER, Adalberto. Linhas imaginárias: poesia, mídia, cinema. Porto Alegre, RS: Sulina, 2012, p. 37)

“Quando as relações de produção e consumo passaram a depender da publicidade, na segunda metade do século XVIII, a publicidade restringia-se aos jornais. […] com o advento das mídias óticas e sonoras do século XX – e com todo o processo de criação de sociedades complexas -, o trabalho de publicidade se torna tão especializado a ponto de dividir-se em inúmeros setores […] Por outro lado, a publicidade também influencia no desenvolvimento das mídias – o cinema, por exemplo, desenvolveu-se, nos Estados Unidos, em parte devido aos anúncios exibidos durante as sessões -, no comportamento e até mesmo na literatura. Tome-se por exemplo o poema de Manuel Bandeira [Balada das três mulheres do sabonete Araxá], publicado em 1936” (MÜLLER, Adalberto. Linhas imaginárias: poesia, mídia, cinema. Porto Alegre, RS: Sulina, 2012, p. 38)

“Schmidt chama nosso mundo de Medienkulturgesellschaft, sociedade midiática-cultural, uma sociedade que não se define apenas pelas relações de produção, mas também – ou sobretudo – pelas transformações midiáticas” (MÜLLER, Adalberto. Linhas imaginárias: poesia, mídia, cinema. Porto Alegre, RS: Sulina, 2012, p. 39)

“A realidade das mídias é a realidade das sociedades midiático-culturais, a técnica e as relações de produção criam não apenas um objeto para o sujeito, mas sobretudo um sujeito para o objeto. Da escrita ao computador, cada mudança midiático-tecnológica levou, na história, a uma incontornável modificação da comunicação e da compreensão da realidade” (SCHMIDT, S.. citado em MÜLLER, Adalberto. Linhas imaginárias: poesia, mídia, cinema. Porto Alegre, RS: Sulina, 2012, p. 39)

“[Vilém Flusser] divide a história da humanidade esquematicamente em três momentos: o momento da imagem (Bild); o momento da escrita (Schrift); o momento da imagem técnica (Techno-Bild). Também considera que a sociedade humana constitui-se fundamentalmente a partir de relações de comunicação. O homem distingue-se, assim, dos demais animais não apenas por seu caráter racional de homo sapiens, mas porque é capaz de comunicar-se de diferentes formas e de construir códigos de comunicação que tornam possível transmitir a experiência adquirida de geração a geração, o que constitui uma história. A comunicação só é possível porque existem códigos, que são sistemas simbólicos” (MÜLLER, Adalberto. Linhas imaginárias: poesia, mídia, cinema. Porto Alegre, RS: Sulina, 2012, p. 40)

“As imagens pintadas nas cavernas são símbolos que reduzem as quatro dimensões do ‘mundo’ – do espaço, do tempo e da relação entre as coisas – a uma superfície bidimensional, uma ‘cena’. Neste tipo de imagem, a relação entre as coisas é dada de maneira simultânea, em sincronicidade. O exemplo que Flusser apresenta repetidas vezes é o de um desenho contendo dois bonequinhos, um sol e um cachorro dentro de um retângulo. A cena representa um ‘passeio’, mas esse estado de coisas surge na relação simultânea e não hierárquica que estabeleço entre as partes do desenho […] A utilização da escrita consiste em abolir a simultaneidade ‘mágica’ em proveito de uma linearização irreversível […] As imagens se transformam em linhas, a pré-história se transforma em história. Pois o código linear da escrita implica nova experiência com o tempo, ‘a saber, com o tempo linear, com a corrente do progresso inadiável, com a dramática irrepetibilidade do projeto’” (MÜLLER, Adalberto. Linhas imaginárias: poesia, mídia, cinema. Porto Alegre, RS: Sulina, 2012, p. 41)

“em vez de considerar a passagem da préhistória à história como fruto das relações de produção – como faz Marx -, Flusser coloca no centro da cena teórica a mudança de código social, isto é, a passagem da imagem à escrita. […] este vê, como característica central da humanidade, a capacidade de conservar e transmitir informações às gerações sucedâneas. e não apenas informações hereditárias, mas informações adquiridas. Esta capacidade está ligada a nossa própria constituição física, a nosso corpo, cujos órgãos principais são a voz e as mãos: assim como as mãos criam (‘informam’) utensílios […], a voz (o aparelho fonador) é capaz de ‘informar’ (transmitir) conteúdos necessários à conservação e à transformação das experiências adquiridas. A mão que cria os utensílios e a voz que comunica as experiências estão, pois, na base da constituição da cultura. As primeiras culturas, no entanto, não conhecem ‘mediação’ entre a informação da voz – que se perde no ar, dissipando-se – e a informação dos utensílios – que tem maior duração, mas tende a se desfigurar. O alfabeto – e consequentemente a escrita – permite realizar essa mediação, transformando o caráter dissipativo da cultura oral em ‘objeto duro’ e, ao mesmo tempo, possibilitando que os utensílios possam ser descritos minuciosamente, garantindo-se assim sua conservação e evolução técnica.” (MÜLLER, Adalberto. Linhas imaginárias: poesia, mídia, cinema. Porto Alegre, RS: Sulina, 2012, p. 41)

“a linearização imposta pela escrita tem como corolário a ideia histórica de progresso. A História, para Flusser, é a história desse código, a escrita, que se aperfeiçoou com o livro, e com as bibliotecas – os quais permitiram que as informações […] fossem transmitidas em escala crescente, possibilitando as transformações tecnológicas.” (MÜLLER, Adalberto. Linhas imaginárias: poesia, mídia, cinema. Porto Alegre, RS: Sulina, 2012, p. 42)

“Historicamente, os textos escritos surgem para criticar – em Platão, por exemplo – a ‘idolatria’ das imagens, para ‘des-mitizar’ as imagens. No entando, os textos passam a programar a sociedade, criando uma correspondente ‘textolatria’, na qual as mensagens históricas – v.g. escritas – tornaram-se inimagináveis, puramente conceptuais. É neste momento de crise da escrita – ou ‘crise das humanidades’ – que surgem as tecnoimagens ou imagens técnicas.” (MÜLLER, Adalberto. Linhas imaginárias: poesia, mídia, cinema. Porto Alegre, RS: Sulina, 2012, p. 42)

“[tecnoimagens são] instrumentos para tornar imaginável a mensagem dos textos. Os textos se dirigiriam, originalmente, contra as imagens, a fim de torná-las transparentes para a vivência concreta, a fim de libertar a humanidade da loucura alucinatória. Função comparável é a das tecnoimagens: dirigem-se contra os textos, a fim de libertar a humanidade da loucura conceptual” (FLUSSER, V., citado em MÜLLER, Adalberto. Linhas imaginárias: poesia, mídia, cinema. Porto Alegre, RS: Sulina, 2012, p. 42)

“a imagem técnica pressupõe um conjunto de conceitos: na imagem fotográfica, não é a ‘realidade’ que eu deveria estar vendo, mas os conceitos químico-óticos que permitem a fixação da imagem no celulóide por meio de um princípio de camera obscura. Isso constitui a ‘caixa preta’ da tecnologia, que pressupõe programas e programadores. Para o fotógrafo de família, o ato fotográfico não é mais do que acionar um programa. Para o ‘artista’, no entanto, resta a possibilidade de abrir a ‘caixa preta’ e entender o funcionamento do aparelho. Neste caso, ‘o trabalho fotográfico será feito para forçar o aparelho a servir para aquilo que ele não foi programado’” (MÜLLER, Adalberto. Linhas imaginárias: poesia, mídia, cinema. Porto Alegre, RS: Sulina, 2012, p. 43)

“Mídias são estruturas (materiais ou não, técnicas ou não) nas quais os códigos funcionam. Por isso, o telefone, a sala de aula, o corpo e o futebol são mídias. Elas permitem aos códigos funcionar, e cada mídia de um modo específico” (LUHMANN, N. citado em MÜLLER, Adalberto. Linhas imaginárias: poesia, mídia, cinema. Porto Alegre, RS: Sulina, 2012, p. 43)

“[Flusser estabelece] a distinção entre dois tipos básicos de mídia, de acordo com o modo como as informações são codificadas e transmitidas: as mídias discursivas e as mídias dialógicas. No primeiro caso, uma mensagem codificada é transmitida da memória de um emissor à memória de um receptor; no segundo caso, uma mensagem codificada circula entre diferentes memórias. Os exemplos que Flusser dá para o primeiro caso são o cinema e os cartazes; para o segundo, a bolsa de valores e a praça central de uma cidade. Mas o cinema ou o cartaz podem se transformar em mídias dialógicas, assim como uma praça dominada pelo discurso de um político pode se tornar discursiva. Disto conclui-se que a função de um código não depende ‘de um eidos metafísico da mídia – como queria acreditar McLuhan – mas, sim, de como se manuseia uma mídia’” (MÜLLER, Adalberto. Linhas imaginárias: poesia, mídia, cinema. Porto Alegre, RS: Sulina, 2012, p. 44)

“Vilém Flusser já sentia a tendência a uma nova forma de comunicação em rede, que viria a se concretizar por meio do computador e da internet. Este tipo de rede, para Flusser, criaria a nova mídia dialógica, capaz de criar um novo tipo de sociedade. Mas Flusser não pôde viver o suficiente para ver que também essa mídia dialógica poderia transformar-se em mídia discursiva, solapando, por meio do uso – por grandes corporações – aquela sua característica inicial ao diálogo e à transformação. Contudo, e ao mesmo tempo, Flusser ainda nos obriga a pensar na necessidade de entrar na caixa-preta da informática e das redes ‘álfanuméricas’ […] e colocar lá dentro o grão de poesia necessário a qualquer revolução” (MÜLLER, Adalberto. Linhas imaginárias: poesia, mídia, cinema. Porto Alegre, RS: Sulina, 2012, p. 45)

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