Ficha de Leitura: Ética – Spinoza

SPINOZA, Benedictus de. Ética. Trad. Tomaz Tadeu. Belo Horizonte: Autêntica, 2009.

Deus

  • Definições

Por causa de si compreendo aquilo cuja a essência envolve a existência, ou seja, aquilo cuja natureza não pode ser concebida senão como existente.(p. 13)

Por substância compreendo tudo aquilo que existe em si mesmo e que por si mesmo é concebido, isto é, aquilo cujo conceito não exige o conceito de outra coisa do qual deva ser formado.(p. 13)

Por atributo compreendo aquilo que, de uma substância, o intelecto percebe como constituindo a sua essência. (p. 13)

Por modo compreendo as afecções de uma substância, ou seja, aquilo que existe em outra coisa, por meio da qual é também concebido. (p. 13)

Por Deus compreendo um ente absolutamente infinito, isto é, uma substância que consiste de infinitos, cada um dos quais exprime uma essência eterna e infinita. (p.13)

  • Axiomas

Tudo o que existe , existe em si mesmo ou em outra coisa. (p. 14)

Não se pode compreender, uma por meio da outra, coisas que nada tem de comum entre si; ou seja, o conceito de uma não envolve o conceito de outra.(p.14)

  • Proposições

Proposição 6. […] Não podem existir, na natureza das coisas, duas substâncias de mesmo atributo, isto é, que tenham algo de comum entre si. Portanto, uma não pode ser causa da outra.(p.15)

Proposição 7. À natureza de uma substância pertence o existir.
Demonstração. Uma substância não pode ser produzida por outa coisa. Ela será, portanto, causa de si mesma, isto é, à natureza pertence o existir.(p.16)

Proposição 11. Deus, ou seja, uma substância que consta de infinitos atributos, cada um dos quais exprime uma essência eterna e infinita, existe necessariamente. (p.19)

Proposição 14. Além de Deus não pode existir nem ser concebida nenhuma substância. (p.22)

Proposição 15. Tudo o que existe, existe em Deus, e sem Deus, nada pode existir nem ser concebido. (p.23)

Proposição 15. […] a matéria, enquanto substância, é divisível e composta de partes. (p.26)

Proposição 17. Deus age exclusivamente pelas leis de sua natureza e sem ser coagido por ninguém.
Escólio. […] aquilo que é causa, tanto da essência quanto da existência de algum efeito, deve diferir desse efeito tanto no que toca à essência quanto no que toca a existência.(p.29)

Proposição 18. Deus é causa imanente, e não transitiva, de todas as coisas.
Demonstração. Tudo o que existe, existe em Deus, e por meio de Deus deve ser concebido; portanto, Deus é causa das coisas que nele existem, que era o primeiro ponto. Ademais, além de Deus, não pode existir nenhum substância, isto é, nenhuma coisa, além de Deus, existe em si mesma, que era o segundo ponto. Logo, Deus é causa imanente, e não transitiva, de todas as coisas. (p.29)

Proposição 24. A essência das coisas produzidas por Deus não envolve a existência.
Demonstração. […] aquilo cuja natureza (considerada em si mesma, obviamente)  envolve a existência é causa de si mesmo e existe exclusivamente pela necessidade da natureza.
Corolário.  Segue-se disso que Deus é não apenas a causa pela qual as coisas começam a existir, mas também pela qual preservam em seu existir, ou seja, Deus é causa de ser das coisas. Pois quer as coisas existam, quer não, toda a vez que consideramos sua essência, descobrimos que ela não envolve nem a existência nem a duração. E por isso, não é sua essência que pode ser a causa de sua existência, nem de sua duração, mas apenas deus, cuja natureza é a única a qual pertence o existir. (p.32)

Proposição 26. Uma coisa que é determina a operar de alguma maneira foi necessariamente assim determinada por Deus; e a que não foi determinada por Deus não pode determinar a si própria a operar. (p.33)

Proposição 33. As coisas não poderiam ter sido produzidas por Deus de nenhuma outra maneira nem em qualquer outra ordem que não naquelas em que foram produzidas. (p. 37)

  • Apêndice

[…] expliquei a natureza de Deus e suas propriedades: […] que (e de que modo) é causa livre de todas as coisas; que todas as coisas existem em Deus e dele dependem de tal maneira que não podem existir nem ser concebidas sem ele; que, enfim, todas as coisas foram predeterminadas por Deus, não certamente pela liberdade de sua vontade, ou seja, por seu absoluto beneplácito, mas por sua natureza absoluta, ou seja, por sua infinita potência (p.41)

 

A natureza e a origem da mente

  • Definições

1. Por corpo compreendo um modo que exprime, de uma maneira definida e determinada. a essência de Deus, enquanto considerada como coisa extensa.
3. Por ideia compreendo um conceito da mente, que a mente forma porque é uma coisa pensante. (p. 51)

  • Axiomas

1. A essência do homem não envolve a existência necessária, isto é, segundo a ordem da natureza tanto pode ocorrer que este ou aquele homem exista quanto que não exista.
2. O homem pensa.
3. Os modos do pensar tais como a amor, o desejo, ou qualquer outro que se designa pelo nome de afeto do ânimo, não podem existir se não existir, no mesmo indivíduo, a ideia da coisa amada, desejada, etc. Uma ideia, em troca, pode existir ainda que não exista qualquer outro modo de pensar.
4. Sentimos que um certo corpo é afetado de várias maneiras. (p. 52)

  • Proposições

Proposição 1. O pensamento é um atributo de Deus, ou seja, Deus é uma coisa pensante (p.52)

Proposição 6. Os modos de qualquer atributo têm Deus por causa, enquanto ele é considerado exclusivamente sob o atributo do qual eles são modos e não enquanto é considerado sob algum outro atributo.
Demonstração. Cada atributo, com efeito, é concebido por si mesa, independente de qualquer outro. É por isso que os modos de cada atributo envolvem o conceito de seu próprio atributo e não de um outro. Assim, esses modos têm Deus por causa, enquanto ele é considerado exclusivamente sobre o atributo do qual eles são modos, e não quanto considerado sob algum outro atributo. (p. 55)

Proposição 7. […] tudo o que pode ser concebido por um intelecto infinito como constituindo a essência de uma substância apenas e, consequentemente, a substância pensante e a substância extensa são uma só e a mesma substância, compreendia ora sob um atributo, ora sob o outro. Assim, também um modo de extensão e a ideia desse modo são uma só e mesma coisa, que exprime, entretanto, de duas maneiras. (p.55)

Proposição 10. À essência do homem não pertence o ser da substância, ou seja, a substância não constitui a forma do homem.
Demonstração. Com efeito, o ser da substância envolve a existência necessária. Se, pois, à essência do homem pertencesse o ser da substância, então, da existência da substância se seguiria necessariamente a existência do homem e, como consequência, o homem existiria necessariamente, o que é absurdo.
Corolário. Disso se segue que a essência do homem é constituída por modificações definidas dos atributos de Deus.
Escólio. Todos devem, certamente, admitir que sem Deus nada pode existir nem ser concebido. Com efeito todos reconhecem que Deus é a única causa de todas as coisas, tanto da sua existência quanto da sua essência; isto é, Deus é causa das coisas não apenas sob o aspecto, como se costuma dizer, de seu vir a existir, mas também sob o aspecto de seu ser. […]. É que, certamente, sem Deus, as coisas singulares não podem existir nem ser concebidas e, no entanto, Deus não pertence a sua essência. Afirmei, em vez disso, que o que constitui necessariamente a essência de uma coisa é aquilo que, se dado, a coisa é posta e que, se retirado, a coisa é retirada, ou aquilo sem o qual a coisa não pode existir nem ser concebida, e inversamente, aquilo que sem a coisa não pode existir nem ser concebido. (p. 58 – 59)

Proposição 12. Tudo aquilo que acontece no objeto da ideia que constitui a mente humana deve ser percebido pela mente humana, ou seja, a ideia daquilo que acontece nesse objeto existirá necessariamente na mente; isto é, se o objeto da ideia que constitui a mente humana é um corpo, nada poderá acontecer nesse corpo que não seja percebido pela mente. (p. 60)

Proposição 13. O objeto da ideia que constitui a mente humana é o corpo, ou seja, um modo definido da extensão, existente em ato e nenhuma outa coisa.
Corolário. Segue-se disso que o homem consiste de uma mente e de um corpo, e que o corpo humano existe tal como o sentimos.
Escólio. Do que procede, compreendemos não apenas que a mente humana está unida ao corpo, mas também o que se deve compreender por união de mente e corpo. Ninguém, entretanto, poderá compreender essa união adequadamente, ou seja, distintamente, se não conhecer, antes, adequadamente, a natureza de nosso corpo. […]. Digo, porém, que, em geral, quanto mais um corpo é capaz, em comparação com outros, de agir simultaneamente sobre um número maior de coisas, ou de padecer simultaneamente de um número maior de coisas, tanto mais sua mente é capaz em comparação com outras, de perceber, simultaneamente, um número maior de coisas. E quanto mais as noções de um corpo dependem apenas dele próprio, e quanto menos outros corpos cooperam com ele no agir, tanto mais sua mente é capaz de compreender distintamente. É por esses critérios que podemos reconhecer a superioridade de um a mente sobre as outras, bem como compreender por que não temos de nosso corpo senão um conhecimento muito confuso […].
Lema 1. Os corpos se distinguem entre si pelo movimento e pelo repouso, pela velocidade e pela lentidão, e não pela substância.
Lema 3. Um corpo, em movimento ou em repouso, deve ter sido determinado ao movimento ou ao repouso por outro, o qual, por sua vez, foi também determinado ao movimento ou ao repouso por outro, e este último, novamente, por outro e, assim, sucessivamente, até o infinito. (p.61 62)
Axioma 1. Todas as maneira pelas quais um corpo qualquer é afetado por outro seguem-se da natureza do corpo afetado e, ao mesmo tempo, da natureza do corpo que o afeta. Assim, um só mesmo corpo em razão da diferença da natureza dos corpos que o movem, é movido de diferentes maneiras, e, inversamente, corpos diferentes são movidos de diferentes maneiras por um só e mesmo corpo.
Lema 4. Se alguns dos corpos que compõem um corpo – ou seja um indivíduo composto de vários corpos – dele se separam e, ao mesmo tempo, outros tantos, da mesma natureza, tomam o lugar dos primeiros, o indivíduo conservará sua natureza, tal como era antes, sem qualquer mudança de forma. (p. 63 64)
Demonstração (Lema 7). […] a natureza inteira é um só indivíduo, cujas partes, isto é, todos os corpos, variam de infinitas maneiras, sem qualquer mudança do indivíduo inteiro. (p. 65)

  • Postulados

1. O corpo humano compõe-se de muitos indivíduos (de natureza diferente), cada um dos quais é também altamente composto.
2. Dos indivíduos de que se compõe o corpo humano, alguns são fluidos, outros, moles, e outros, enfim, duros.
3. Os indivíduos que compõem o corpo humano e, consequentemente, o próprio corpo humano, são afetados pelos corpos exteriores de muitas maneiras (p. 66)

Proposição 16. Corolário. […] as ideias que temos dos corpos exteriores indicam mais o estado de nosso corpo do que a natureza dos corpos exteriores… (p.67)

Proposição 19. A mente humana não conhece o próprio corpo humano e não sabe que ele existe senão por meio das ideias das afecções pelas quais o corpo é afetado. (p.70)

Proposição 24. A mente humana não envolve o conhecimento adequado das partes compõem o corpo humano.
Demonstração.  As partes que compõem o corpo humano não pertencem à essência do próprio corpo senão enquanto transmitem entre si os seus movimentos segundo uma proporção definida, e não enquanto possam ser consideradas como indivíduos, sem qualquer relação com o corpo humano. Com efeito, as partes do corpo humano são indivíduos altamente compostos, cujas partes podem separar-se do corpo humano e transmitir seus movimentos a outros corpos, segundo outras proposições, conservando o corpo humano, inteiramente sua natureza e forma. (p.73)

Proposição 34. Toda ideia que é, em nós, absoluta, ou seja, adequada e perfeita, é verdadeira.
Demonstração. Quando dizemos que existe, em nós, uma ideia adequada e perfeita, não dizemos senão que, em Deus, enquanto ele constitui a essência de nossa mente, existe uma ideia adequada e perfeita e, consequentemente, não dizemos senão que esta ideia é verdadeira. (p. 77)

Proposição 35. Escólio. Os homens enganam-se ao se julgarem livres, julgamento a que chegam apenas porque estão conscientes de suas ações, mas ignoram as causas pelas quais são determinados. É, pois, por ignorarem as causas de suas ações que os homens têm essa ideia de liberdade. Com efeito, ao dizerem que as ações humanas dependem da vontade estão apenas pronunciando palavras sobre as quais não têm a mínima ideia. Pois, ignoram, todos, o que seja a vontade e como ela move o corpo. (p. 77)

Proposição 40. […] falarei brevemente sobre as causas que estão na origem dos termos ditos transcendentais, tais como ente, coisa, algo. Esses termos surgem porque o corpo humano, por ser limitado, é capaz de formar, em si próprio, distinta e simultaneamente, apenas um número preciso de imagens. Se esse número é ultrapassado, tais imagens começam a se confundir. E se é largamente ultrapassado, todas as imagens se confundirão inteiramente entre si. Sendo assim, é evidente que a mente humana poderá imaginar, distinta e simultaneamente, tantos corpos quantas são as imagens que podem ser simultaneamente formadas no seu próprio corpo. Ora, no momento em que as imagens se confundem inteiramente no corpo, a mente imaginará todos os corpos também confusamente e sem qualquer distinção, agrupando-os como se de um único atributo se tratasse, a saber o atributo de ente, coisa. etc. (p.80)

Prop. 40. Escólio 2. […] percebemos muitas coisas e formamos noções universais: 1. A partir de coisas singulares, que os sentidos representam mutilada, confusamente e sem a ordem própria do intelecto. Por isso passei a chamar essas percepções de conhecimento originado da experiência errática. 2. a partir de signos; por exemplo, por ter ouvido ou lido certas palavras, nós nos recordamos das coisas e delas formamos ideias semelhantes àquelas por meio das quais imaginamos as coisas. Vou me referir, posteriormente, a esses dois modos de considerar as coisas, como conhecimento de primeiro gênero, opinião ou imaginação. 3. Por termos, finalmente, noções comuns e ideias adequadas das propriedades das coisas. A este modo me referirei como razão e conhecimento de segundo gênero. Além desses dois gêneros de conhecimento, existe ainda um terceiro, como mostrarei a seguir, que chamaremos de ciência intuitiva. Este gênero de conhecimento parte da ideia adequada da essência formal de certos atributos de Deus, para chegar ao conhecimento adequado da essência das coisas. (p.81 -82)

Proposição 41. O conhecimento de primeiro gênero é a única causa de falsidade, enquanto o conhecimento de segundo gênero e o de terceiro é necessariamente verdadeiro.
Demonstração. Dissemos, no esc. prec., que pertencem ao conhecimento de primeiro gênero todas aquelas ideias que são inadequadas e confusas; e, como consequência, esse conhecimento é a única causa da falsidade. Dissemos, além disso, que pertencem ao conhecimento de segundo e de terceiro gênero aquelas ideias que são adequadas, e portanto, este conhecimento é necessariamente verdadeiro. (p. 82)

Proposição 42.  O conhecimento de segundo e de terceiro gênero, e não o de primeiro, nos ensina a distinguir o verdadeiro do falso. (p. 82)

Proposição 48.  Não há, na mente, nenhuma vontade absoluta ou livre: a mente é determinada a querer isto ou aquilo por uma causa que é, também ela, determinada por outra, e esta última, por sua vez, por outra, e assim até o infinito. (p.87)

Proposição 49. Escólio. É preciso também fazer uma cuidadosa distinção entre as ideias e as palavras pelas quais significam as coisas. Pois muitos – seja por confundirem inteiramente essas três coisas, quer dizer, as imagens, as palavras e as ideias, seja por não distinguirem com o devido cuidado, nem, enfim, com a devida prudência – ignoraram inteiramente essa doutrina sobre a vontade, cujo conhecimento, entretanto, é absolutamente indispensável para conduzir sabiamente tanto a indagação quanto a vida. […] a ideia (por se um modo do pensar) não consiste nem na imagem de alguma coisa, nem em palavras. Pois a essência das palavras e das imagens é constituída exclusivamente de movimentos corporais, os quais não envolvem, de nenhuma maneira, o conceito do pensamento. (p.90)

A origem e a natureza dos afetos

  • Definições

1. Chamo de causa adequada aquela cujo efeito pode ser percebido clara e distintamente por ela mesma. Chamo de causa inadequada ou parcial, por outro lado, aquela cujo, efeito não pode ser compreendido por ela só.
3.Por afeto compreendo as afecções do corpo, pelas quais sua potência de agir é aumentada ou diminuída, estimulada ou refreada, e, ao mesmo tempo, as ideias dessas afecções.
      Explicação. Assim, quando podemos ser a causa adequada de alguma dessas afecções, por afeto compreendo, então, uma ação; em caso contrário, uma paixão. (p. 98)

  • Postulados

1.O corpo humano pode ser afetado de muitas maneiras, pelas quais sua potência de agir é aumenta ou diminuída, enquanto outras tantas não tornam sua potência de agir nem maior nem menor. (p.99)

  • Proposições

Proposição 1. A nossa mente, algumas vezes, age; outras, na verdade, padece. Mais especificamente, à medida que tem ideias adequadas, ela necessariamente age; à medida que tem ideias inadequadas, ela necessariamente padece (p. 99)

Proposição 2. Nem o corpo pode determinar a mente a pensar, nem a mente pode determinar o corpo ao movimento ou ao repouso, ou a qualquer outro estado (se é que isso existe). (p. 100)
Escólio. […] muitos acreditam que só fazemos livremente aquelas coisas que perseguimos sem muito empenho, pois o apetite por essas coisas pode ser facilmente mitigado pela recordação de alguma outra coisa de que nos lembramos com frequência, mas que fazemos muito pouco livremente aquelas coisas que perseguimos com um afeto intenso, o qual não pode ser atenuado pela recordação de alguma outra coisa. Se a experiência, entretanto, não mostrasse aos homens que fazemos muitas coisas das quais, depois, nos arrependemos, e que, frequentemente, quando somos afligidos por afetos opostos, percebemos o que é melhor, mas fazemos o que é pior, nado os impediria de acreditar que fazemos tudo livremente. (p.102)

Prop. 2. […] os homem se julgam livres apenas porque estão conscientes de suas ações, mas desconhecem as causas pelas quais são determinados. Ensina também que as decisões da mente nada mais são do que os próprios apetites: elas variam, portanto, de acordo com a variável disposição do corpo. Assim, cada um regula tudo de acordo com o seu próprio afeto, e além disso, aqueles que são afligidos por afetos opostos não sabem o que querem, enquanto aqueles que não tem nenhum afeto são, pelo menor impulso, arrastados de um lado para o outro. (p.102 – 103)

Prop. 2. […]não podemos, pela decisão da mente fazer qualquer coisa sem que dela tenhamos uma lembrança prévia. (p.103)

Proposição 3.  As ações da mente provêm exclusivamente das ideias adequadas, enquanto as paixões dependem exclusivamente das ideias inadequadas.
Escólio. Vemos, assim, que as paixões só estão referidas à mente enquanto ela tem algo que envolve uma negação, ou seja, enquanto ela é considerada como uma parte da natureza, a qual, por si só, sem as outras partes, não pode ser percebida clara e distintamente. Pelo mesmo raciocínio, poderia demonstrar que as paixões estão referidas às coisas singulares da mesma maneira que estão referida à mente, e que não podem ser percebidas de outro modo (p. 104)

Proposição 6. Cada coisa esforça-se, tanto quanto em si, por preservar o seu ser. (p. 105)

Proposição 9. […]Ora, como a mente, por meio das ideias das afecções do corpo, está necessariamente consciente de si mesma, ela está consciente, portanto, do seu esforço.
Escólio. Esse esforço, à medida que está referido simultaneamente à mente e ao corpo chama-se apetite, o qual portanto, nada mais é do que a própria essência do homem, de cuja natureza necessariamente se seguem aquelas coisas que servem para a sua conservação, e as quais o homem está, assim determinado a realizar. (p.106)

Proposição 11. Escólio. […] “Assim, por alegria compreenderei, daqui por diante, uma paixão pela qual a mente passa a uma perfeição maior; Por tristeza, em troca, compreenderei uma paixão pela qual a mente passa a uma perfeição menor” (p.107)

Proposição 13. Quando a mente imagina aquelas coisas que diminuem ou refreiam a potência de agir do corpo, ela se esforça, tanto quanto pode, por se recordar de coisas que excluam a existência das primeiras. (p. 108)

Proposição 16. Simplesmente por imaginarmos que uma coisa tem algo de semelhante com um objeto que habitualmente afeta a mente de alegria ou de tristeza, ainda que aquilo pelo qual a coisa se assemelha ao objeto não seja a causa eficiente desses afetos, amaremos, ainda assim, aquela coisa ou a odiaremos. (p.110)

Proposição 18. O homem é afetado pela imagem de uma coisa passada ou de uma coisa futura do mesmo afeto de alegria ou de tristeza de que é afetado pela imagem de uma coisa presente. (p.111)

Proposição 25. Esforçamo-nos por afirmar, quanto a nós e à coisa amada, tudo aquilo que imaginamos afetar, a nós ou a ela, de alegria; e, contrariamente, por negar tudo aquilo que imaginamos afetar, a nós ou a ela, de tristeza. (p. 115)

Proposição 49. A causa permanecendo igual, o amor e o ódio para com uma coisa que imaginamos se livre devem ser maiores do que o amor e o ódio para com uma coisa necessária.
Demonstração. Uma coisa que imaginamos ser livre deve ser percebida por si mesma, independentemente das outras. Se, portanto imaginarmos que ela é causa de alegria ou de tristeza, por causa dessa imaginação, nós a amaremos ou a odiaremos, o que faremos com o maior dos amores ou com o maior dos ódios que possa surgir de um afeto. Mas se imaginarmos a coisa que é a cauda desse afeto como necessária, imaginaremos, então, como causa desse afeto não ela sozinha, mas juntamente com outras e, portanto menores serão o amor e o ódio para com ela.
Escólio. Disso se segue que os homens, por se julgarem livres, são tomados, um para com os outros, de um amor ou de um ódio maiores do que os que têm para com as outras coisas. (p. 129 – 130)

Proposição 50. Escólio. As coisas que são, por acidente, causas de esperança ou de medo são chamadas de bons ou de maus presságios. Além disso, à medida que esses presságios são causas de esperança ou de medo, eles são causas de alegria ou de tristeza e, consequentemente, dessa maneira, nós os amamos ou o odiamos, e nos esforçamos por utilizá-los como meios para obter as coisas que esperamos ou por afastá-los como obstáculos ou causas de medo. Ademais, por natureza, somos constituídos de maneira a acreditarmos facilmente nas coisas que esperamos e, dificilmente, nas coisas que tememos, e a estimá-las, respectivamente, acima ou abaixo do justo. É essa a origem das superstições que, em toda a parte, afligem os homens. (p. 130)

Proposição 52. […] À admiração opõe-se ao desprezo, cuja a causa é, em geral, entretanto, a que se descreve a seguir. Por vermos que alguém admira, ama, teme4, etc., alguma coisa, ou porque alguma coisa parece, à primeira vista, semelhante àquelas coisas que admiramos, amamos, tememos, etc. nós somos inicialmente, determinados a admirá-la, amá-la, temê-la, etc. Mas se depois por sua presença ou por uma contemplação mais cuidadosa somos forçados a recusar-lhe tudo aquilo que possa ser causa de admiração, amor, medo, etc., então a mente permanece determinada, pela própria presença dessa coisa, a pensar mais naquilo que o objeto não tem do que naquilo que o objeto tem, ao contrário do habitual, pois diante da presença de um objeto, pensa-se, sobretudo, naquilo que ele tem. (p.133)

Proposição 53. Quanto a mente considera a si própria e sua potência de agir, ela se alegra, alegrando-se tanto mais quanto mais distintamente imagina a si própria e a sua potência. (p. 133)

Proposição 56. Há tantas espécies de alegria, de tristeza e de desejo e, consequentemente, tantas espécies de cada um dos afetos que desses são compostos (tal como flutuação de ânimo) ou derivados (tais como o amor, o ódio, a esperança, o medo, etc.), quando são as espécies de objetos pelos quais somos afetados.
Escólio. […] por gula, embriaguez, luxúria, avareza e ambição não compreendemos nada mais do que um amor ou um desejo imoderado de comer, de beber, de copular, de riquezas e de glória. Além disso, esses afetos, à  medida que distinguimos de outros apenas pelo objeto a que estão referidos, não têm afetos que lhe sejam opostos. Com efeito, a temperança, a sobriedade e, enfim, a castidade, que costumamos opor à gula, à embriaguez, e a luxúria, não são afetos ou paixões: apenas manifestam a potência de ânimo que regula esses afetos. (p.136 – 137)

Proposição 59. Escólio. […] os afetos podem compor-se entre si de tantas maneiras, o que faz surgir tantas variações, que se torna impossível determinar seu número. (p. 140)

  • Definições dos afetos

1. O desejo é a própria essência do homem, enquanto esta é concebida como determinada, em virtude de uma dada afecção qualquer de si própria, a agir de alguma maneira. (p.140)
2. A alegria é a passagem do homem de uma perfeição menor para uma maior.
3. A tristeza é a passagem do homem de uma perfeição maior para uma menor. (p. 141)
6. O amor é uma alegria acompanhada da ideia de uma causa exterior. (p. 142)
12. A esperança é uma alegria instável, surgida da ideia de uma coisa futura ou passada, de cuja a realização temos alguma dúvida. (p. 143)
13. O medo é uma tristeza instável, surgida da ideia de uma coisa futura ou passada, de cuja realização temos alguma dúvida.
Explicação. Segue-se, dessas definições, que não há esperança sem medo, nem medo sem esperança. Com efeito, supõe-se que quem está apegado à esperança, e tem dúvida sobre a realização de alguma coisa, imagina algo que exclui a existência da coisa futura e, por tanto, dessa maneira, entristece-se. Como consequência, enquanto está apegado à esperança, tem medo de que a coisa não se realize. Quem, contrariamente, tem medo, isto é, que tem dúvida sobre a realização de alguma coisa que odeia, também imagina algo que exclui a existência dessa coisa e, portanto, alegra-se. E, como consequência, dessa maneira, tem esperança de que essa coisa não se realize. (p. 144)

  • Definição geral dos afetos

O afeto, que se diz pathema [paixão] do ânimo, é uma ideia confusa, pela qual a mente afirma a força de existir, maior ou menor do que antes, de seus corpo ou de uma parte dele, ideia pela qual, se presente, a própria mente é determinada a pensar uma coisa em vez de outra. (p.152)

A servidão humana ou a força dos afetos

 

  • Prefácio

Chamo de servidão a impotência humana de regular ou refrear os afetos. Pois submetido aos afetos não está sob o próprio comando, mas sob o do acaso, a cujo poder está a tal ponto sujeitado que é, muitas vezes, forçado, ainda que perceba o que é melhor para si, a fazer, entretanto, o pior. (p.155)

Com efeito, de nenhuma coisa singular se pode dizer que é mais perfeita por preservar mais tempo no existir. Pois, a duração das coisas não pode ser determinada por sua essência, porque a essência das coisas não envolve qualquer tempo definido e determinado de existência. Uma coisa qualquer, entretanto, seja ela mais perfeita ou menos perfeita, sempre poderá perseverar no existir, razão pela qual, sob esse aspecto, todas as coisas são iguais. (p.158)

  • Definições

1. Por bem compreenderei aquilo que sabemos, com certeza, nos ser útil.
2. Por mal compreenderei, por sua vez, aquilo que sabemos, com certeza, nos impedir que desfrutemos de algum bem (p. 158)

  • Proposições

Proposição 1. Escólio. […] as imaginações não se desvanecem pela presença do verdadeiro, enquanto verdadeiro, mas porque se apresentam outras imaginações mais fortes que excluem a essência presente das coisas que imaginamos… (p.160)

Proposição 2. Padecemos a maneira que somos uma parte da natureza, parte que não pode ser concebida por si mesma, sem as demais. (p. 160)

Proposição 6. A força de uma paixão ou de um afeto pode superar as outras ações do homem, ou sua potência, de tal maneira que este afeto permanece, obstinadamente nele fixado. (p. 162)

Proposição 7. Um afeto não pode ser refreado nem anulado senão por um afeto contrário e mais forte do que o afeto a ser refreado. (p.162)

Proposição 8. O conhecimento do bem e do mal nada mais é do que o afeto de alegria ou de tristeza, à medida que dele estamos conscientes. (p. 163)

Proposição 17. O desejo que surge do conhecimento verdadeiro do bem e do mal, enquanto tal conhecimento diz respeito a coisas contingentes , pode ser ainda mais facilmente refreado pelo desejo de coisas que estão presentes.
Escólio. Julgo, com isso, ter demonstrado por que os homens são movidos mais pela opinião do que pela verdadeira razão, e por que o conhecimento verdadeiro do bem e do mal provoca perturbações do ânimo e leva, muitas vezes, a todo tipo de licenciosidade. Vem daí o que disse o poeta Vejo o que é melhor e o aprovo, mas sigo o que é pior. Parece que o Eclesiastes tinha em mente a mesma coisa quando disse: Quem aumenta seu saber, aumenta sua dor.(p. 167)

Proposição 18. Demonstração. O desejo é a própria essência do homem, isto é, o esforço pelo qual o homem se esforça por preservar em seu ser. Por isso o desejo que surge da alegria é estimulado ou aumentado pelo próprio afeto de alegria. (p.168)

Prop. 18. Demonstração. […] os homens não podem aspirar nada que seja mais vantajoso para conservar o seu ser do que estarem, todos, em concordância em tudo, de maneira que as mentes e os corpos de todos componham como que uma só mente e um só corpo, e que todos, em conjunto, se esforcem tanto quanto possam, por conservar o seu ser, e que busquem juntos, o que é de utilidade comum para todos. Disso se segue que os homens que se regem pela razão, isto é, os homens que buscam, sob a condução da razão, o que lhes é útil, nada apetecem para si que não desejam também para os outros e são, por isso, justos, confiáveis e leais. (p.169)

Proposição 29. Uma coisa singular qualquer, cuja natureza é inteiramente diferente da nossa, não pode estimular nem refrear a nossa potência de agir e absolutamente, nenhuma coisa pode ser, para nós, boa ou má, a não ser que tenha algo em comum conosco. (p. 173)

Proposição 31. A medida que uma coisa concorda com a nossa natureza, ela é necessariamente boa. (p. 174)

Proposição 32. À medida que os homens estão submetidos as paixões, não se pode dizer que concordam em natureza.
Demonstração. Quando se diz que as coisas concordam em natureza, compreende-se que concordam em potência, e não em impotência ou em negação e, consequentemente, tampouco em paixão. Por isso, à medida que os homens estão submetidos as paixões, não se pode dizer que concordem em natureza. (p. 175)

Proposição 33. À medida que são afligidos por afetos que são paixões, os homens podem discrepar em natureza e, igualmente, sob a mesma condição, um único e mesmo homem é volúvel e inconstante. (p. 175)

Proposição 35. Apenas à medida que vivem sob a condução da razão, os homens concordam, sempre e necessariamente, em natureza.
Demonstração. […] como cada um deseja, pelas leis de sua natureza, o que é bom e se esforça por afastar o que julga ser mau; e, como, além disso, aquilo que julgamos segundo o ditame da razão, ser bom ou mau, é necessariamente bom ou mau.; então, apenas à medida que vivem sob a condução da razão, os homens necessariamente fazem o que é necessariamente bom para a natureza humana e, consequentemente, para cada homem, isto é, aquilo que concorda com a natureza de cada homem. Por isso, igualmente, à medida que vivem sob a condução da razão, os homens concordam, sempre e necessariamente, entre si.
Corolário 1. […] o homem age  inteiramente pelas leis de sua natureza quando vive sob a condução da razão. (p. 177)

Proposição 35. Escólio. […] homem é um Deus para o homem. Entretanto, é raro que os homens vivam sob a condução da razão. Em vez disso, o que ocorre é que eles são, em sua maioria, invejosos e mutuamente nocivos. Mas, apesar disso, dificilmente podem levar uma vida solitária, de maneira que, em sua maior parte, apreciam muito a definição segundo a qual o homem é um animal social. E, de fato, a verdade é que, da sociedade comum dos homens advêm muitos mais vantagens do que desvantagens. Riam-se os satíricos, pois, das coisas humanas, o quanto queiram; execrem-nas os teólogos; enalteçam os melancólicos, o quanto possam, a vida inculta e agreste, condenando os homens e maravilhando-se com os animais. Nem por isso deixarão de experimentar que, por meio da ajuda mútua, os homens conseguem muito mais facilmente aquilo de que precisam, e que apenas pela união das suas forças podem evitar os perigos que os ameaçam por toda a parte. (p. 178)

Proposição 37. Escólio 2. […] Se os homens vivessem sob a condução da razão, cada um desfrutaria desse seu direito sem nenhum prejuízo para os outros. Como, entretanto, estão submetidos a afetos, os quais superam, em muito a potência ou a virtude humana, eles são, muitas vezes, arrastados para diferentes direções e são reciprocamente contrários, quando o que precisam é de ajuda mútua. (p. 181)

Proposição 40. É útil aquilo que conduz à sociedade comum dos homens, ou seja, aquilo que faz com que os homens vivam em concórdia e, inversamente, é mau aquilo que traz discórdia à sociedade civil. (p.184)

Proposição 46. Quem vive sob a condução da razão se esforça, tanto quanto pode, por retribuir com amor ou generosidade, o ódio, a ira, o desprezo, etc. de um outro para com ele.
Demonstração. Todos os afetos de ódio são maus. Por isso, quem vive sob a condução da razão, se esforçará, tanto quanto pode, por fazer com que não seja afligido por afetos de ódio e, consequentemente, se esforçará para que um outro não padeça desse afetos. (p.187)

Proposição 47. […] Assim, quanto mais nos esforçarmos por viver sob a condução da razão, tanto mais nos esforçarmos por depender menos da esperança e por nos livrar do medo; por dominar, o quanto pudermos, o acaso; e por dirigir nossas ações  de acordo com o conselho seguro da razão. (p.188)

Proposição 59. A todas as ações às quais somos determinados, em virtude de um afeto que é uma paixão, podemos ser determinados, sem esse afeto, pela razão.
Demonstração. Agir segundo a razão não é senão fazer aquilo que se segue da necessidade de nossa natureza, considerada em si só. Por outro lado, a tristeza é má à medida que diminui ou refreia essa potência de agir. Não podemos, portanto, ser determinados, em função desse fato, a qualquer ação que, conduzidos pela razão, não pudéssemos realizar. Além disso, a alegria só é má à medida que impede que o homem seja capaz de agir e, enquanto tal, portanto, tampouco poderíamos ser determinados a qualquer ação que, conduzidos pela razão, não pudéssemos realizar. (p.194 – 195)

Proposição 61. O desejo que surge da razão não pode ser excessivo. (p. 196)

Proposição 62. À medida que a mente concebe as coisas segundo o ditame da razão, ela é igualmente afetada, quer ser trate da ideia de uma coisa futura ou passada, quer se trate da ideia de uma coisa presente. (p. 197)

Proposição 63. Quem se deixa levar pelo medo e faz o bem para evitar o mal não se conduz pela razão. (p. 197)

Proposição 66. Escólio. […] facilmente veremos em que se diferencia o homem que se conduz apenas pelo afeto, ou pela opinião, do homem que se conduz pela razão. Com efeito, o primeiro, queira ou não, faz coisas que ignora inteiramente, enquanto o segundo, não obedece a ninguém mais que a si próprio e só faz aquelas coisas que sabe serem importantes na vida e que, por isso deseja ao máximo. Chamo, pois, ao primeiro, servo, e ao segundo, homem livre. (199 – 200)

Proposição 73. O homem que se conduz pela razão é mais livre na sociedade civil, onde vive de acordo com as leis comuns, do que na solidão, onde obedece apenas a si mesmo. (p.203)

  • Apêndice

Capítulo 2. […] A força e a expansão desses desejos devem ser definidas não pela potência humana, mas pela potência das coisas que estão fora de nós. Por isso, os primeiros desejos são, apropriadamente, chamados de ações, enquanto os segundos são chamados de paixões; pois os primeiros indicam, sempre, a nossa potência, enquanto os segundos indicam, ao contrário, a nossa impotência e um conhecimento mutilado.

Capítulo 3. As nossas ações – isto é, aqueles desejos que são definidos pela potência do homem, ou seja, pela razão – são sempre boas, enquanto as outras tanto podem ser boas quanto más. (p. 204)

Capítulo 4. Assim, na vida, é útil, sobretudo, aperfeiçoar, tanto quanto pudermos, o intelecto ou a razão, e nisso, exclusivamente, consiste  a sua felicidade ou beatitude do homem. Pois, a beatitude não é senão a própria satisfação do ânimo que provém do conhecimento intuitivo de Deus. E, da mesma maneira, aperfeiçoar o intelecto não é senão compreender a Deus, os seus atributos e as ações que se seguem da necessidade de sua natureza. Por isso, o fim ultimo do homem que se conduz pela razão, isto é, o seu desejo supremo, por meio do qual procura regular todos os outros, é aquele que o leva a conceber, adequadamente, a si mesmo e a todas as coisas que podem ser abrangidas sob o seu intelecto. (p. 205)

Capítulo 11. Não é pelas armas, entretanto, que se pacificam os ânimos, mas pelo amor e pela generosidade. (p. 206)

Capítulo 27. […] o corpo humano é composto de muitas partes, de variadas naturezas, que precisam, continuamente, de uma alimentação variada, para que o corpo inteiro seja uniformemente capaz de fazer todas as coisas que podem se seguir de sua natureza e, como consequência, para que a mente também seja uniformemente capaz de conceber muitas coisas. (p.209)

Capítulo 28. Entretanto, para obter essas coisas, dificilmente bastariam as forças de cada um, se os homens não prestassem serviços uns aos outros . O fato é que todas as coisas acabaram por se resumir ao dinheiro. Daí que sua imagem costuma ocupar inteiramente a mente do vulgo , pois dificilmente podem imaginar alguma outra espécie de alegria que não seja a que vem acompanhada da ideia de dinheiro como sua causa. (p.209)

Capítulo 32. A potência humana é, entretanto, bastante limitada, sendo infinitamente superada pela potência das coisas exteriores. Por isso, não temos o poder absoluto de adaptar as coisas exteriores ao nosso uso. Contudo, suportaremos com equanimidade os acontecimentos contrários ao que postula o princípio de atender à nossa utilidade, se tivermos consciência de que fizemos nosso trabalho; de que a nossa potência não foi suficiente para poder evitá-las; e de que somos uma parte da natureza inteira, cuja ordem seguimos.  Se compreendermos isso clara e distintamente, aquela parte de nos mesmos que é definida pela inteligência, isto é, a nossa melhor parte, se satisfará plenamente com isso e se esforçará por preservar nessa satisfação. Pois, a medida que compreendemos, não podemos desejar senão aquilo que é necessário, nem nos satisfazer, absolutamente, senão com o verdadeiro. Por isso, à medida que compreendemos isso corretamente, o esforço da melhor parte de nós mesmos está em acordo com a ordem da natureza inteira. (p.210)

 

A potência do intelecto ou a liberdade humana

  • Axiomas

1. Se. em um mesmo sujeito, são suscitadas duas ações contrárias, deverá, necessariamente, dar-se uma mudança, em ambas, ou em apenas uma delas, até que deixem de ser contrárias.
2. A potência de um efeito é determinada pela potência de sua causa, à medida que sua essência é explicada ou definida pela essência de sua causa. (p. 216)

  • Proposições

Proposição 3. Um afeto que é uma paixão deixa de ser uma paixão assim que formamos dele uma ideia clara e distinta. (p. 216)

Proposição 5. Demonstração. O afeto para com uma coisa que nós imaginamos ser livre é maior que o afeto para com uma coisa que imaginamos como como necessária. (p. 218)

Proposição 6. À medida que a mente compreende as coisas como necessárias, ela tem um maior poder sobre os seus afetos, ou seja, deles padece menos. (p. 218)

Proposição 9. Demonstração. Um afeto é mau ou nocivo apenas à medida que impede a mente de poder pensar. Por isso o afeto que determina a mente a considerar muitos objetos ao mesmo tempo é menos nocivo do que um afeto, tão forte quanto o primeiro, que ocupa a mente na contemplação de um só ou de poucos objetos, ou de maneira que ela não possa pensar em outros.

Proposição 10. Durante o tempo em que não estamos tomados por afetos que são contrários à nossa natureza, nós temos o poder de ordenar e concatenar as afecções do corpo segundo a ordem própria do intelecto. (p.220)
Escólio. Portanto, o melhor que podemos fazer, enquanto não temos um conhecimento perfeito dos nossos afetos, é conceber um princípio corretos de viver, ou seja, regras seguras de vida, confiá-las a memória, e aplicá-las continuamente aos casos particulares que, com frequência , se apresentam na vida. (p.221)
Escólio. Deve-se  observar, entretanto, que ao ordenar nossos pensamentos e imaginação aquilo que cada coisa tem de bom, para que sejamos, assim, sempre determinados a agir segundo o afeto da alegria. (p. 222)

Proposição 14. A mente pode fazer com que todas as afecções do corpo, ou seja, as imagens das coisas, esteja referidas à ideia de Deus.

Proposição 21. A mente não pode imaginar nada, nem se recordar das coisas passadas, senão enquanto dura o corpo. (p. 227)

Proposição 23. […] pode-se dizer que a nossa mente dura e que a sua existência pode ser definida por um tempo preciso apenas à medida que envolve a existência atual do corpo; e, apenas sob essa condição, ela tem o poder de determinar a existência das coisas pelo tempo e de concebê-las segundo a duração. (p.228)

Proposição 27. Desse terceiro gênero de conhecimento provém a maior satisfação da mente que pode existir.
Demonstração.  A virtude suprema da mente consiste em conhecer Deus, ou seja, em compreender as coisas por meio do terceiro gênero de conhecimento, virtude que é tanto maior quanto mais a mente conhece as coisas por meio desse mesmo gênero. Por isso, quem conhece as coisas por meio desse gênero de conhecimento passa à suprema perfeição humana e, consequentemente, é afetado da sua alegria, a qual vem acompanhada da ideia de si mesmo e de sua própria virtude. Logo, desse terceiro gênero de conhecimento provém a maior satisfação que pode existir. (p. 229)

Proposição 38. Quanto mais coisas a mente compreende por meio do segundo e terceiro gêneros de conhecimento, tanto menos dela padece dos afetos que são maus, e tanto menos teme a morte. (p. 234)

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: