Eduardo Peñuela Cañizal, um dos fundadores da ECA-USP, morre aos 80 anos

via Agência FAPESP

Intelectual de origem espanhola era considerado um dos maiores especialistas do país nas áreas de teoria do cinema e poética das manifestações não verbais. Deixou uma vasta obra escrita, publicada em livros, artigos especializados e textos de divulgação.

Morreu na noite de domingo (13/04), aos 80 anos, Eduardo Peñuela Cañizal, um dos fundadores da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Professor titular aposentado do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão da ECA e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da Universidade Paulista (Unip), Cañizal chegara naquele mesmo dia de uma viagem profissional à Espanha e assistia a uma partida de futebol pela televisão quando foi vítima de um infarto do miocárdio.
Cañizal nasceu na Espanha em 21 de novembro de 1933. Seu pai, militante da causa republicana, foi preso após a implantação da ditadura fascista de Francisco Franco em 1938. Uma vez em liberdade, para escapar às perseguições políticas, teve que se exilar com a família no Brasil.
“Cañizal chegou aqui ainda menino, mas a infância na Espanha deixou nele marcas profundas, inclusive um certo sotaque, que manteve pela vida afora”, disse à Agência FAPESP seu amigo Norval Baitello Junior, professor titular na Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e membro da coordenação da área de Ciências Humanas e Sociais da FAPESP.
Intelectual prolífico, Cañizal adquiriu renome internacional no campo da teoria do cinema e da poética das manifestações não verbais. “Ele foi um dos primeiros no Brasil a estudar a obra de Buñuel e o cinema surrealista em geral. Buñuel foi a porta de entrada dele no mundo das imagens. Era talvez o maior especialista em Buñuel no país”, informou Baitello Junior.
Cañizal gradou-se em Letras na USP em 1959. Concluiu seu doutorado em 1965, com tese sobre a poesia da chilena Gabriela Mistral (ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura de 1945). E conquistou a livre-docência, três anos mais tarde, com trabalho sobre a poesia do peruano César Vallejo. Já focado no cinema, fez, nas décadas de 1970 e 1980, pós-doutorados nas Universidades de Tufts e Stanford, nos Estados Unidos.
“Em 1964, ele lecionava na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São José do Rio Preto, então uma das faculdades isoladas do Estado de São Paulo. Com o golpe militar, sofreu perseguição política e demissão, o que motivou sua transferência para a Universidade de São Paulo”, relatou Baitello Junior. “Uma vez na USP, teve atuação de primeiro plano na criação da ECA, levando adiante um projeto ousado, que integrava em uma única escola as áreas de cinema, teatro, jornalismo, rádio, televisão e outras. Mas, também na ECA, viria a sofrer perseguições políticas da parte de professores que simpatizavam com o regime militar”, acrescentou o amigo.
Cañizal deixou uma vasta obra escrita, na forma de livros, capítulos de livros, artigos em periódicos especializados e textos de divulgação em jornais e revistas. Entre seus livros estão El oscuro encanto de los textos visuales – dos ensayos sobre imágenes oníricas (Sevilha, Arcibel Editores, 2010); La Inquietante ambigüedad de la imagen (Cidade do México, Universidad Autónoma Metropolitana, 2004); O olhar à deriva: mídia, significação e cultura (São Paulo, Annablume, 2003); e Urdidura de sigilos. O cinema de Pedro Almodóvar (São Paulo, Annablume, 1996).
“Foi também um viajante incansável, mantendo intenso intercâmbio internacional, mas sempre enfatizando a difusão da cultura brasileira”, disse Baitello Junior

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