Ficha de Leitura: Multidão: guerra e democracia na era do império – Antonio Negri e Michael Hardt

HARDT, Michael; NEGRI, Antonio. Multidão: guerra e democracia na era do império. Rio de Janeiro: Record, 2004.

Prefácio:

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Pode-se dizer, simplificando muito, que a globalização tem duas faces. Numa delas, o Império dissemina em caráter global sua rede de hierarquias e divisões que mantém a ordem através de novos mecanismos de controle e permanente conflito. A globalização, contudo, também é a criação de novos circuitos de cooperação e colaboração que se alargam pelas nações e os continentes, facultando uma quantidade infinita de encontros. (…) Também a multidão pode ser encarada como uma rede: uma rede aberta e em expansão na qual todas as diferenças podem ser expressas e livre e igualitariamente, uma rede que proporciona os meios de convergência para que possamos trabalhar e viver em comum. (p.12)

 

A multidão é múltipla. A multidão é composta de inúmeras diferenças internas que nunca poderão ser reduzidas a uma unidade ou identidade única – diferentes culturas, raças, etinias, gêneros e orientações sexuais; diferentes formas de trabalho; diferentes maneiras de viver; diferentes visões de mundo; e diferentes desejos. A multidão é uma multiplicidade de todas essas diferenças singulares (p.12)

 

A multidão é um conceito aberto e abrangente que tenta apreender a importância das recentes mudanças na economia global.(…) hoje em dia a produção já não pode ser concebida apenas em termos econômicos, devendo ser encarada de maneira mais ampla como produção social – não apenas a produção de bens materiais, mas também a produção de comunicações, relações e forma de vida. A multidão, assim, compõe-se potencialmente de todas as diferentes configurações da produção social. Mais uma vez, uma rede distributiva como a Internet constitui uma boa imagem de base ou modelo para a multidão. (p.13 -14)

Guerra

  • Exceções

Inúmeros conflitos armados manifestam-se hoje através do planeta, alguns breves e limitados a um lugar específico, outros prolongados e expansivos. Talvez esses conflitos não devessem ser encarados como casos de guarra, e sim de guerra civil. (…) Essa guerra civil já não seria entendida agora no contexto de um espaço nacional, pois deixou de ser esta a unidade efetiva de soberania, mas no ambiente global. (…) Cada guerra local não deve ser encarada isoladamente, e sim como parte de uma grande constelação, ligada em graus variados tanto a outras zonas de guerra quanto a áreas que atualmente não se encontram em guerra. A pretensão de soberania desse combatente é na melhor da hipóteses duvidosa. Eles estão lutando, isto sim, por um domínio relativo no interior das hierarquias nos níveis mais altos e baixos do sistema global. (p. 22)

 

A guerra era um limitado estado de exceção. (…) Como retrocederam o espaço e o tempo isolados da guerra, nos conflitos limitados entre Estados soberanos, fica parecendo que a guarra começou a vazar de volta, inundando todo o terreno social. O estado de exceção tornou-se permanente e generalizado; a exceção transformou-se em regra, permeando tanto as relações internacionais quanto o espaço interno. (p. 26)

O “estado de exceção” é um conceito da tradição jurídica alemã que se refere a suspensão temporária da constituição e do império da lei, semelhando ao conceito de estado de sítio e à noção de poderes de emergência nas tradições francesa e inglesa. Uma longa tradição de pensamento constitucional considera que em épocas de greves crises e perigo, como o tempo de guerra, a constituição deve ser suspensa temporariamente, conferindo-se poderes extraordinários a um executivo forte ou mesmo a um ditador, para proteger a república. (p. 26 – 27)

 

É verdade que a retórica de muitos dirigentes e partidários dos Estados Unidos muitas vezes recorre à virtude republicana que faz da América uma exceção, como se essa base ética atribuísse aos Estados unidos o destino histórico de liderar o mundo. Na realidade, a verdadeira base do estado de exceção hoje em dia é o segundo excepcionalismo americano, seu poderio excepcional e sua capacidade de dominar a ordem global. De acordo com esta lógica, num estado de emergência, o soberano deve posicionar-se acima da lei e assumir o controlo. Nada existe de ético ou moral nesta inferência; trata-se de uma questão de pura força, e não de direito. esse papel excepcional dos Estado Unidos no estado global de exceção serve apenas para eclipsar e desgastar a tradição republicana que atravessa a história do país. (p. 29)

 

  • O estado de guerra global

 

Quando o estado de exceção torna-se regra e o tempo de guerra é interminável, a tradicional distinção entre guerra e política fica cada vez mais obscura. (p. 33)

 

Michel Foucault chega a afirmar que a função de pacificação social do poder político implica em estar constantemente reinscrevendo esta fundamental relação de força numa espécie de guerra silenciosa, reinscrevendo-a também nas instituições sociais, nos sistemas de desigualdade desigualdade econômica e até mesmo na esfera das relações pessoais e sexuais. Em outras palavras, a guera transforma-se na matriz geral de todas as relações de poder e técnicas de dominação, esteja ou não envolvido no derramamento de sangue. A guerra transformou-se num regime de biopoder, vale dizer, uma forma de governo destinada não apenas a controlar a população, mas a produzir e a reproduzir todos os aspectos da vida social. essa guerra traz morte mas também, paradoxalmente, deve produzir vida. isto não significa que a guerra foi domesticada ou que sua violência tenha sido atenuada, e sim que a vida cotidiana e o funcionamento normal  do poder passaram a ser permeados pela ameaça da violência da guerra.(p. 33 – 34)

 

(…) o discurso metafórico da guerra é invocado como manobra política estratégica para conseguir a total mobilização de forças sociais em torno de um objetivo de únião que é típico de um esforço de guerra. Por exemplo, a guerra contra a pobreza lançada no meado da década de 1960 nos Estados Unidos pelo governo Johnson recorria ao discurso da guerra para evitar os choques partidários e arregimentar as forças nacionais em torno de um objetivo da política interna. Como a pobreza é um inimigo abstrato e os meios para cobatê-la não são violentos, o discurso de guerra neste caso é meramente retórico. (…) Passamos, assim, das invocações metafóricas e retóricas da guerra para guerras reais contra inimigos indefinidos e imateriais.(p. 34 – 35)

 

(…) guerra contra um conceito ou conjunto de práticas, mais ou menos como uma guerra de religião, não conhece limites espaciais ou temporais definidos. (p.35)

 

Apresentar o inimigo como encarnação do mal serve para torná-lo absoluto, assim como à guerra contra ele, tirando-o da esfera política – o mal é inimigo de toda a humanidade. (p. 37)

 

A face interna das doutrinas da guerra justa e da guerra contra o terrorismo é um regime empenhado no controle social quase completo (…). (p. 39)

 

(…) hoje em dia o estado de guerra transformou-se pelo contrário em nossa condição global permanente, a suspensão da democracia tende também a tornar-se regra, e não a exceção. (p. 40)

 

  • Biopoder e Segurança

 

A guerra só se torna efetivamente absoluta com o desenvolvimento tecnológico de armas que pela primeira vez tornaram possível a destruição em massa e mesmo a destruição global. As armas de destruição global rompem a moderna dialética da guerra. (p. 41)

 

O biopoder não exerce apenas o poder de destruição em massa da vida (como o que é ameaçado pelas armas nucleares), mas também a violência individualizada. Quando chega a se individualizar em sua forma extrema, o biopoder transforma-se em tortura. (p. 41)

 

Mais importante que as tecnologias negativas de aniquilação e tortura, então, é o caráter construtivo do biopoder. A guerra global não só deve trazer a morte como também produzir e regular a vida. (p. 42)

 

A segurança exige que se esteja constantemente e ativamente coindicionando o ambiente através de ações militares e/ou policiais.  Só um mundo ativamente condicionado pode ser considerado seguro. Este conceito de segurança é portanto uma forma de biopoder, na medida em que encarna a missão de produzir e transformar a vida social em seu nível mais geral e global. (p. 43)

 

a guerra deixou de ser um elemento final das sequências de poder – a força letal como último recurso – para se tornar o primeiro fundamental elemento, constituindo a base da própria política. (p. 44)

 

a aplicação constante e coordenada da violência torna-se condição necessária para o funcionamento da disciplina do controle. Para que possa desempenhar este papel social e político fundamental, a guerra deve ser capaz de desempenhar a função constituinte ou reguladora: terá de tornar-se ao mesmo tempo uma atividade processual e uma atividade reguladora, ou de ordenação, criando e mantendo hierarquias sociais, uma forma de biopoder voltada para a promoção e a regulação da vida social. (p. 45)

 

o estado de guerra regulador da nossa época imperial reproduz e regula a ordem vigente; ele cria a lei e a jurisdição desde o interior. (p. 46)

 

a guerra fria não era uma guerra justa porque podia destruir as ameaças comunistas e soviéticas, mas porque era capaz de contê-las. Neste caso, a expressão “guerra justa” já não é uma justificação moral de atos de violência e destruição limitados no tempo, como era tradicionalmente, e sim da permanente manutenção de uma estase da ordem global. (p.48)

 

  • Violência Legítima

 

o Estado não só dispõe de esmagadora vantagem material sobre todas as demais forças sociais em sua capacidade de violência como é também o único ator social que pode exercer a violência em caráter legal e legítimo. (p.49)

 

Estados-nação  certamente dispõem de variados graus de capacidade militar, mas em princípio têm todos o mesmo direito de usar a violência, ou seja, de promover a guerra.(p.49)

 

A dificuldade de estabelecer uma definição coerente e estável de terrorismo está intimamente ligada ao problema dos estabelecimento de um conceito adequado de violência legítima. (p.51)

 

violência legítima é quando a sua fundamentação é moral e justa, mas ilegítima, mas ilegítima se sua fundamentação é moral e injusta. (p.51)

 

A nós parece que atualmente a violência não é legitimada de maneira mais eficaz com base em alguma estrutura estabelecida a priori, seja moral ou legal, mas apenas a posteriori, de acordo com os seus resultados. Poderia parecer que a violência do forte é automaticamente legitimada, e a violência do fraco, imediatamente taxada de terrorismo, mas a lógica de legitimação tem mais a ver com efeitos da violência. (p. 55)

 

Qualquer poder militar e/ou será investido de legitimidade somente na medida em que se mostrar eficaz na correção de desordens globais – não necessariamente restabelecer a paz, mas manter a ordem. Por esta lógica, um poder como as forças armadas americanas pode exercer uma violência que seja ou não leal ou moral, e enquanto esta violência resultar na reprodução da ordem imperial, será legitimada. (p. 55)

 

Contra-Insurgências

 

A guerra fria consolidou esta alternativa global de tal maneira que a maioria dos Estados-nação foi obrigada a se alinha com um lado ou com outro. Em nosso atual estado de guerra imperial, no entanto, os Estados-nação soberanos já não definem basicamente os lados do conflito. Existem hoje novos protagonistas no campo de batalha, e sua clara identificação constitui uma das principais tarefas no delineamento dessa genealogia. (p. 65)

 

(referência ao início dos anos 1970) Foram anos não apenas de crises monetárias e ecoômicas mas també, ao mesmo tempo, do início da destruição do Estado de bem-estar social e da transferência da hegeminia de produção econômica da fábrica para setores mais sociais e imateriais. (p. 67)

 

  • Revolução nos assuntos militares

 

Hoje as unidades de combate devem ser pequenas; devem associar capacidade de ação em terra e mar; e devem estar preparadas para vários tipos de missão, da busca e resgate à ajuda humanitária, passando pelos combates ativos em pequena e média escala. (p. 70) Usa-se o máximo de tecnologias de informação e comunicação.

 

(referência aos americanos) a sofisticação de sua tecnologia e a precisão de suas armas permitem aos militares americanos atacar seus inimigos de uma distância segura e de forma precisa e definitiva, eliminando-os cirurgicamente como se fossem tumores cancerígenos do organismo social global, com mínimos efeitos colaterais. A guerra torna-se, assim, virtual do ponto de vista tecnológico e incorpórea do ponto de vista militar; (p.73)

 

  • Assimetria e domínio em pleno espectro

 

As missões atribuídas aos militares alternam entre fazer a guerra e fazer a paz, impor a paz ou construir uma nação – e às vezes é com efeito difícil saber a diferença entre cada uma delas.A tendência para que seja cada vez menor a diferença entre guerra e paz que conhecemos anteriormente de uma perspectiva filosófica ressurge agora como um elemento da estratégia militar. (p. 83)

 

A Escola de Frankfurt, os situacionistas e vários críticos da tecnologia e da comunicação centram-se no fato de que o poder nas sociedades capitalistas vem-se tornando totalitário mediante a produção de sujeitos dóceis. (p.84)

 

Resistência

 

O primado da resistência

 

Marx desenvolve a dinâmica da produção e do trabalho capitalistas, muito embora o capital e a mercadoria sejam resultado do trabalho – tanto em termos materiais, pois são produzidos pelo trabalho, quanto políticos, pois o capital deve estar constantemente reagindo  às ameaças e avanços do trabalho. Assim, embora a exposição de Marx comece pelo capital, sua investigação deve começar pelo  trabalho e estar constantemente reconhecendo que na realidade o trabalho é primordial. O mesmo se aplica a resistência. ainda que o emprego comum da palavra sugira o contrário – que a resistência é uma resposta ou reação -, a resistência é primordial em matéria de poder. (p. 98)

 

A cena contemporânea do trabalho e da produção (…) está sendo transformada sob a hegemonia do trabalho imaterial, ou seja trabalho que produz produtos imateriais, como a informação, o conhecimento, ideias, imagens, relacionamentos e afetos. Isto não significa que não exista mais uma classe operária industrial trabalhando em máquinas com suas mãos calejadas ou que não existam mais trabalhadores agrícolas cultivando o solo. Não quer dizer nem mesmo que tenha diminuído em caráter global a quantidade desses trabalhadores. Na realidade, os trabalhadores envolvidos basicamente na produção imaterial constituem uma pequena minoria do conjunto global. o que isto significa, na verdade, é que as qualidades e as características da produção imaterial tendem hoje a transformar as outras formas de trabalho  e mesmo a sociedade como um todo. (p. 100)

 

A produção de ideias, conhecimentos e afetos, por exemplo, não cria apenas meios através dos quais a sociedade é formada e sustentada; esse trabalho imaterial também produz diretamente relações sociais. O trabalho imaterial é biopolítico na medida em que se orienta para a criação de novas formas de vida social; já não tende, portanto, a limitar-se ao econômico, tornando-se também imediatamente uma força social, cultural e política. Em última análise, em termos filosóficos, a produção envolvida aqui é a  produção de subjetividade, a criação e a reprodução de novas subjetividades na sociedade. Quem somos, como encaramos o mundo, como interagimos uns com os outros: tudo isto é criado através dessa produção biopolítica e social. (p. 101)

 

o trabalho imaterial tende a assumir a forma social de redes baseadas na comunicação, na colaboração e nas relações afetivas. O trabalho imaterial só pode ser realizado em comum, e está cada vez mais inventando novas redes independentes de cooperação através das quais produzir. Sua capacidade de investir e transformar todos os aspectos da sociedade e sua forma em redes colaborativas são características extraordinariamente poderosas que o trabalho imaterial vem disseminando para outras formas de trabalho. (p. 101) (formação da multidão)

 

A grande produção de subjetividade da multidão, suas capacidades biopolíticas, sua luta contra a pobreza, sua constante busca da democracia – tudo isto coincide aqui com a genealogia dessas resistências que se estendem do início da era moderna até a nossa. (p. 103)

 

Inventado lutas em rede

 

As classes subordinadas (…) nunca esqueceram que as leis que legitimam a violência de Estado são normas transcendentais  que mantém os privilégios da classe dominante (especialmente os direitos dos proprietários) e a subordinação do resto da população. (p.117)

 

à medida que cada vez mais adotava as características da produção biopolítica, disseminando-se por todo o tecido social, a guerra de guerrilha colocava mais diretamente como sua  meta a produção de subjetividade – subjetividade econômica e cultural, tanto material quanto imaterial. (p. 118)

 

As redes de informação, comunicação e cooperação – os eixos fundamentais da produção pós-fordista – começam a definir novos movimentos guerrilheiros. Não só esses movimentos utilizam tecnologias como a Internet como ferramentas de organização, como também começam a adotar tecnologias como modelos para as suas próprias estruturas organizacionais. (p. 120)

 

A organização em rede (…) baseia-se na pluralidade contínua de seus elementos e redes de comunicação, de tal maneira que  a redução a uma estrutura  d e comando centralizada é impossível. (p. 120)

 

Nas últimas décadas do século XX também surgiram, especialmente nos Estados Unidos, numerosos movimentos que costumam ser agrupados sobre a rubrica “política de identidade”, tendo nascido basicamente das lutas feministas, das lutas de lésbicas e gays e das lutas de fundo racial. A característica organizacional mais importante destes movimentos é a insistência na autonomia e a recusa de qualquer hierarquia centralizada, de líderes ou porta-vozes. (p. 124)

 

A estrutura disseminada em rede constitui o modelo de uma organização absolutamente democrática que corresponde às formas dominantes de produção econômica e social e também vem a ser a mais poderosa arma contra a estrutura vigente de poder. (p. 127) resistência

 

Resistir à guerra, portanto resistir a legitimação dessa ordem global, torna-se assim uma tarefa ética comum. (…) sabemos que a produção capitalista e a vida (e a produção) da multidão estão associadas de maneira cada vez mais íntima e se determinam reciprocamente. (p. 130)

 

Multidão

 

A população, naturalmente, é composta de numerosos indivíduos e classes diferentes, mas o povo sintetiza ou reduz essas diferenças sociais a uma identidade. A multidão, em contraste, não é unificada, mantendo-se plural e múltipla. Por isto, segundo a tradição dominante da filosofia política, é que o povo pode governar como poder soberano, e a multidão, não. A multidão é composta de um conjunto de singularidades – e com singularidades queremos nos referir aqui a um sujeito cuja diferença não pode ser reduzida a uniformidade, uma diferença que se mantém diferente. (p. 139)

 

A multidão, contudo, embora se mantenha múltipla, não é fragmentada, anárquica ou incoerente. (p. 139)

 

A multidão é um sujeito social internamente diferente e múltiplo cuja constituição e ação não se baseiam na identidade ou na unidade (nem muito menos na indiferença), mas naquilo que tem em comum. (p. 140)

 

O capital já não domina apenas regiões limitadas da sociedade. À medida em que o domínio impessoal do capital se estende por toda a sociedade, muito além das pardes da fábrica, e em termos geográficos por todo o planeta, o comando capitalista tende a tornar-se um “não-lugar”, ou na realidade, um todo lugar. (p. 142)

 

 Classes Perigosas

 

  • O Devir Comum do Trabalho

 

Nos escritos históricos de Marx (…) sua análise trata separadamente de numerosas classes de trabalho e capital. A tese empírica da teoria de classes de Marx é que existem as condições que tornam possível uma única classe de trabalho. Esta tese é parte na verdade de uma proposta política para a unificação das lutas de trabalho no proletariado como classe. (P. 145)

 

A classe é efetivamente um conceito biopolítico ao mesmo tempo econômico e político. Quando dizemos biolítico, além disso, significa também que nosso entendimento do trabalho não pode limitar-se ao trabalho assalariado, devendo referir-se às capacidades criativas humanoas em toda a sua generalidade (p. 145)

 

Uma abordagem inicial consiste em conceber a multidão como sendo formada por todos aqueles que trabalham sob o domínio do capital, e assim, potencialmente, como a classe daqueles que recusam o domínio do capital. O conceito de multidão é portanto muito diferente do de classe operária, pelo menos tal como este veio a ser usado nos séculos XIX e XX. (p. 147)

 

o conceito de multidão (…) reporusa na tese de que não existe uma propriedade política entre as formas de trabalho: todas as formas de trabalho hoje em dia  são socialmente produtivas, produzem em comum e também compartilham um potencial de resistir à dominação do capital. Podemos encarar essa realidade como uma igualdade de oportunidades de resistência. (p. 147)

 

Devemos enfatizar que o trabalho envido em toda a produção imaterial continua sendo material – mobiliza nossos corposa e nossos cérebros, como qualquer trabalho. O que é imaterial é o seu produto. Reconhecemos que a este respeito a expressão  trabalho imaterial  é muito ambígua. Talvez fosse melhor entender a nova forma hegemônica como “trabalho biopolítico”, ou seja, trabalho que cria não apenas bens materiais mas tambéns relações e, em última análise, a própria vida social. (p. 150)

 

Nos países  dominantes, o trabalho imaterial é um elemento central daquelas que segundo as estatísticas são ocupações que mais crescem, como atendentes em lanchonetes, vendedores, engenheiros de computação, professores e trabalhadores do setor da saúde. (p. 157)

não existe um “exercito industrial”, na medida em que os operários industriais já não constituem uma unidade compacta e coerente, antes funcionando como uma forma de trabalho entre mjuitas outras redes definidas pelo paradigma imaterial. (p. 177)

 

na era do pós-fordismo já não existem as formas estáveis e garantias de empregos com que muitos setores da classe operária podiam anteriormente contar nos países dominantes. o que se costuma chamar de flexibilidade do mercado de trabalho significa que nenhum emprego é seguro. já não existe uma divisão clara, e sim uma ampla área cinzenta na qual todos os trabalhadores oscilam de maneira precária entre o emprego e o desemprego. (p. 178)

 

verifica-se uma condição de existência e atividade criativa cada vez mais comum definindo toda a multidão. (p. 182)

 

Não existe nenhuma linha social separando os trabalhadores produtivos dos improdutivos. Na realidade, as velhas distinções marxistas entre trabalho produtivo e improdutivo, assim como entre trabalho produtivo e reprodutivo, que sempre foram ambíguas devem já agora ser completamente descartadas. (p. 182)

 

Excurso 1: Método: Na trilha de Marx

 

A chave do método do materialismo histórico é que a teoria social deve ser modelada segundo os contornos da realidade social contemporânea. Em contraste com vários idealismos que propõem arcabouços teóricos independentes e trans-históricos, aplicáveis a todas as realidades sociais.

(p. 189)

 

(Marx explica) nosso entendimento deve adaptar-se ao mundo social contemporâneo, mudando, portanto, com a história: deve haver correspondência entre o método e a substância, forma e conteúdo. Isto significa, no entanto, que à medida que a história avança e a realidade social se transforma, as velhas teorias deixam de ser aplicáveis. precisamos de novas teorias para novas realidades. (p. 189)

 

De Corpore

 

A vida no mercado

toda propriedade privada sempre precisou de proteção policial, mas no paradigma da produção imaterial verifica-se uma expansão

 

“A propriedade privada tornou-nos tão obtusos e injustos”, escreve ele [Marx], que desprezamos todas as formas de ser, pelo simples desejo de ter. Todas as capacidades humanas, inclusive o conhecimento, o pensamento, o sentimento, o amor – em suma, toda a vida -, são comprometidas pela propriedade privada. p. 244

 

Bachtin conduz esta batalha de uma perspectiva materialista, ou seja, de um ponto de vista que privilegia sujeitos falantes e suas formas de expressão como chave para a história dos sistemas de signos. A crítica literária materialista não é aqui uma questão de reduzir as formas poéticas a condições econômicas, políticas ou sociais, e sim de reconhecer que a literatura, como produção linguística faz parte dessa realidade e de apreender o sujeito expressivo no interior desse mundo de relações. p. 271

 

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