Memória Viamense

Será apresentada na Semana Acadêmica da Arquivologia dia 20/10/2010, a monografia de conclusão de curso de Carlos Dinarte, sob orientação da Professora Doutora Lizete Dias de Oliveira. O trabalho intitulado Blog Memória Viamense: preservação da memória e construção coletiva do conhecimento no Departamento de Memória de Viamão, traz à tona questões como preservação digital, disseminação da informação, baseada no Paradigma Pós-Custodial, memória social, imagem e contexto. O trabalho teve como “plano de fundo” o livro A Nova Desordem Digital, de David Weinberger.

Defesa da Monografia

Ficha de Leitura: DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL: AS FIGURAS DA REVOLUÇÃO, de Ismail Xavier

Sertão Mar

Deus e o Diabo na Terra do Sol: As Figuras da Revolução
In: Sertão Mar – Glauber Rocha e a Estética da Fome

a) Entre o passado e o futuro, a brecha do presente

“[…]câmara e atores se deslocam de modo a traduzir visualmente o que é dito nos versos, numa representação que funde o espaço das imagens e o espaço da canção de cordel.” (XAVIER, Ismail. Deus e o Diabo na Terra do Sol: As Figuras da Revolução. In: Sertão Mar: Glauber Rocha e a Estética da Fome. São Paulo, SP: Brasiliense, 1983, p. 70)

“A montagem nos fornece uma composição que se recusa a procurar aquela exposição clara de uma sucessão de gestos contínuos e perfeitamente situados na evolução das manobras de perseguidaor e perseguido. Estamos longe da alongada batalha ou tiroteio que marca os confrontos finais de Griffith a John Ford, de O Cangaceiro, de Lima Barreto, a Mandacaru Vermelho, de Nélson Pereira dos Santos. Em Deus e o Diabo, a regra do espetáculo é outra. E a sucessão de imagens esquematiza a ação diegética de modo a conformá-la e compatibilizá-la com a canção em seu ritmo e tonalidade.” (XAVIER, Ismail. Deus e o Diabo na Terra do Sol: As Figuras da Revolução. In: Sertão Mar: Glauber Rocha e a Estética da Fome. São Paulo, SP: Brasiliense, 1983, p. 70)

“A teatralidade impressa ao duelo, seu toque cavalheiresco e, em particular, o estilo da morte de Corisco (grita “mais forte são os poderes do povo” e cai de braços abertos com a espada na mão) são indicações claras: a organização das imagens não quer assumir o tom da ação natural ilustrada por uma canção. Todo o discurso parece estar comandado pelas coordenadas da lenda, como se as palavras do cantador e a série de imagens fossem ambas produto de uma única ‘visão das coisas’.” (XAVIER, Ismail. Deus e o Diabo na Terra do Sol: As Figuras da Revolução. In: Sertão Mar: Glauber Rocha e a Estética da Fome. São Paulo, SP: Brasiliense, 1983, p. 71)

“[…]o estilo telegráfico […]se afasta da montagem típica ao cinema-indústria” (XAVIER, Ismail. Deus e o Diabo na Terra do Sol: As Figuras da Revolução. In: Sertão Mar: Glauber Rocha e a Estética da Fome. São Paulo, SP: Brasiliense, 1983, p. 71)

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Ensaio sobre o cinema do simulacro – André Parente

“ (…) grande parte dos nosso consagrados cineastas de outrora não são hoje senão produtores de filmes, homens de negócios e interesses espúrios, capazes de, a exemplo de grande parte de nosso empresariado, fazer uma política qualquer para salvar suas empresas e seus projetos, em detrimento de uma verdadeira política para o cinema brasileiro. Quem age assim, está inviabilizando duplamente o cinema: em primeiro lugar, porque essa política imdediatista e arrivista, no sentido mais amplo da palavra, é uma sentença de morte do cinema a médio e longo prazo; em segundo lugar, porque o cinema não se confunde com os filmes, e é justamente por isso que o cinema tem um papel estratégico – na refelxão sobre a questão da produção do novo, por exemplo – no campo do audiovisual.” (PARENTE, André. Ensaios sobre o cinema do simulacro. RJ: Pazulin, 1998)

“ O principal problema do nosso cinema deve-se à forma como ele pode, ou não, se inserir, como produto no campo do audiovisual, notadamente no mercado da imagem eletrônica (televisão e home-video). A razão é simples: não se pode mais pensar o cinema independente de sua inscrição no domínio do audiovisual, e isso, em qualquer lugar do mundo. “(PARENTE, André. Ensaios sobre o cinema do simulacro. RJ: Pazulin, 1998)

“Quando Godard recebeu o prêmio Cezar pelo conjunto de sua obra, fez uma declaração que é esclarecedora a esse respeito: ´Agradeço aos profissionais da profissão (lema do Cezar), mas, eu sinto muito ter que dizer , não sou um profissional, não faço filmes, faço cinema´.”(PARENTE, André. Ensaios sobre o cinema do simulacro. RJ: Pazulin, 1998)

“ O cinema não pára de ressuscitar a televisão, enquanto a televisão não pára de assassinar o cinema.” (PARENTE, André. Ensaios sobre o cinema do simulacro. RJ: Pazulin, 1998)

“ Todos nós sabemos que nem o cinema nem a televisão surgiram para atender a uma necessidade de criação ou comunicação. As diversas ´ linguagens ´  audiovisuais foram inventadas, ao longo deste século, como forma de afirmações de visões de mundo, em função de vontades, estéticas, éticas, políticas.” (PARENTE, André. Ensaios sobre o cinema do simulacro. RJ: Pazulin, 1998)

“Se a modernidade desses movimentos nasce da crise da representação, é precisamente porque o que surge com ela, em primeiro plano, é a questão da possibilidade, ou melhor, da necessidade de produção do novo. O novo é o que escapa à representação do mundo, como dado, como cópia. O novo significa a emergência da imaginação no mundo da razão, e, conseqüentemente, implica uma liberação dos modelos disciplinares.” (PARENTE, André. Ensaios sobre o cinema do simulacro. RJ: Pazulin, 1998)

“ O que nos interessa hoje é um audiovisual da criação que remeta à afirmação do real enquanto novo, um cinema que rompa com os modelos da representação e os antigos ideais de verdade da indústria. No entanto, não basta boa vontade e prazer em criar, produzir, comunicar, mesmo que essa boa vontade e prazer tragam consigo idéias e imagens justas porque bonitas (pós-moderno) ou bonitas porque justas (pré-moderno). As imagens do cineasta e as palavras do cineasta necessitam da necessidade, da marca da necessidade. E essa necessidade, que faz das idéias, das imagens e dos signos algo de novo, depende cada vez mais de um espaço crítico. O espaço crítico é o operador necessário que faz do moderno não um signo vazio, um significante sem referente social, mas um agenciamento coletivo. Lembremos que, para Paul Klee, o povo é que continua a faltar no projeto moderno. No entanto, devemos evocar artistas como Guimarães e Glauber, que souberam tão bem inventar, com suas obras, uma relação imanente com o povo: cada um, a seu modo, soube fazer do povo expressão de suas obras.” (PARENTE, André. Ensaios sobre o cinema do simulacro. RJ: Pazulin, 1998)

“Hoje, cada vez mais, o espaço crítico , que não se confunde com a crítica, é o espaço necessário para que a produção artística do novo seja como um porvir das novas linguagens.” (PARENTE, André. Ensaios sobre o cinema do simulacro. RJ: Pazulin, 1998)

Tropicalismo, antropologia, mito, ideograma – Glauber Rocha

“Consideramos como o ínicio de uma revolução cultural no Brasil, o ano de1922. Naquele ano existiu forte movimento cultural de reação à cultura  acadêmica e oficial. Deste período, o expoente foi Oswald de Andrade. Seu trabalho cultural, sua obra, que é verdadeiramente genial, ele definiu como antropofágica, referindo-se à tradição dos índios canibais. Como esses comiam os homens brancos, ele dizia de haver comido toda a cultura brasileira e aquela colonial. Morreu com pouquíssimos textos publicados.” (ROCHA, Glauber. Tropicalismo, antropologia, mito, ideograma. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: papirus, 1996)

“O tropicalismo, a antropofagia e seu desenvolvimento são a coisa mais importante hoje na cultura brasileira.” (ROCHA, Glauber. Tropicalismo, antropologia, mito, ideograma. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: papirus, 1996)

“Primeiro se descobriu, se bem que em forma bastante esquemática, por que no Brasil as Ciências Sociais são primitivas, o subdesenvolvimento econômico; depois veio a idéia de que o subdesenvolvimento era integral. O cinema brasileiro partiu da constatação desta totalidade, de seu conhecimento e da consciência da necessidade de superá-la de maneira também total, em sentido estético, filosófico, econômico: superar o subdesenvolvimento com os meios do subdesenvolvimento. O tropicalismo, a descoberta antropofágica, foi uma revelação: provocou consciência, uma atitude diante da cultura colonial que não é uma rejeição à cultura ocidental como era no início (e era loucura, por que não temos metodologia): aceitamos a ricezione (recepção) integral, a ingestão dos métodos fundamentais de uma cultura completa e complexa mas também a transformação mediante os nosso succhi (sucos, substâncias) e através da utilização e elaboração da política correta. É a partir deste momento que nasce uma procura estética nova, e é um fato recente.” (ROCHA, Glauber. Tropicalismo, antropologia, mito, ideograma. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: papirus, 1996)

“Tropicalismo é aceitação, ascensão do subdesenvolvimento, por isso existe um cinema antes e depois do tropicalismo.” (ROCHA, Glauber. Tropicalismo, antropologia, mito, ideograma. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: papirus, 1996)

“Esta relação antropofágica é de liberdade.” (ROCHA, Glauber. Tropicalismo, antropologia, mito, ideograma. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: papirus, 1996)

“Com o sistema imperialista não se pode fazer concorrência, mas se faz um filme que chega diretamente ao inconsciente coletivo, à disposição mais verdadeira e profunda de um povo, então se pode até vencer.” (ROCHA, Glauber. Tropicalismo, antropologia, mito, ideograma. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: papirus, 1996)

“É uma procura estética política que se move debaixo do signo de individualização do inconsciente coletivo, e para isso existe o aproveitamento de elementos típicos da cultura popular utilizados criticamente.” (ROCHA, Glauber. Tropicalismo, antropologia, mito, ideograma. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: papirus, 1996)

“Nós somos um povo ligado historicamente à saga, à épica. Nós temos uma grande tradição filosófica; e é um mal. Mas seria um mal maior uma filosofia de importação que não corresponde à história. Por isto a antropofagia é mais importante.” (ROCHA, Glauber. Tropicalismo, antropologia, mito, ideograma. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: papirus, 1996)

“Tínhamos de construir as estruturas e descobrir os cineastas. Isto foi feito. Agora existe uma mudança de tática, com um trabalho enorme para difundir as possibilidades do cinema.” (ROCHA, Glauber. Tropicalismo, antropologia, mito, ideograma. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: papirus, 1996)

“Falar de mito e linguagem é fundamental. É o centro  do nosso problema. Se tendemos para uma revolução global, total, a linguagem deve ser compreendida no sentido marxista, como expressão da consciência.” (ROCHA, Glauber. Tropicalismo, antropologia, mito, ideograma. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: papirus, 1996)

“Para nós o problema é de mais imediata compreensão, porque o analfabetismo leva a um tipo de percepção complexa e nós queremos desenvolver nosso cinema em uma dialética histórica permanente com a situação em movimento.” (ROCHA, Glauber. Tropicalismo, antropologia, mito, ideograma. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: papirus, 1996)

“O cinema do futuro é Ideogramático. É uma difícil pesquisa sobre os signos. Para isto não basta uma ciência mas é necessário um processo de conhecimento e autoconhecimento que investe toda a existência e sua integração com a realidade. O mito é o ideograma primário e nos serve, temos necessidade dele para conhecermo-nos e conhecer. A mitologia, qualquer mitologia, é ideogramática e as formas fundamentais de expressão cultural artística a elas se referem continuamente. Depois poderemos desenvolver outras coisas, mas, este é um passo fundamental. O surrealismo para os povos latino-americanos é o tropicalismo.” (ROCHA, Glauber. Tropicalismo, antropologia, mito, ideograma. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: papirus, 1996)

“O nosso não é o surrealismo do sonho, mas da realidade. Buñuel é um surrealista e seus filmes mexicanos são os primeiros filmes tropicalistas e antropofágicos.” (ROCHA, Glauber. Tropicalismo, antropologia, mito, ideograma. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: papirus, 1996)

“A função histórica do surrealismo no mundo hispano-americano oprimido foi aquela de ser instrumento para o pensamento em direção de uma libertação anárquica, a única possível. Hoje utilizada dialeticamente, em sentido profundamente político, em direção do esclarecimento e da agitação.” (ROCHA, Glauber. Tropicalismo, antropologia, mito, ideograma. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: papirus, 1996)

“O Cinema Ideogramático quer dizer isto: forma desenvolvida e aprofundada da consciência, a própria consciência, em relação direta com a construção das condições revolucionárias.” (ROCHA, Glauber. Tropicalismo, antropologia, mito, ideograma. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: papirus, 1996)

“A excelente crítica de Bazin formou apenas Godard – embora Truffaut pudesse ser um grande cineasta se fizesse psicoanálise.” (ROCHA, Glauber. Tropicalismo, antropologia, mito, ideograma. In: PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha. Campinas, SP: papirus, 1996)

A Extetyka do Sonho – Glauber Rocha

em: http://memoriasdosubdesenvolvimento.blogspot.com/2007/06/esttica-do-sonho-manifesto-de-glauber_16.html

 

“O sentimento de colaboração humana renova e revela uma nova categoria de indivíduo, mas é necessário para isso que a velha cultura seja revolucionada.”

“Nenhuma estatística pode informar a dimensão da pobreza. A pobreza é a carga autodestrutiva máxima de cada homem.”

“Na medida que a desrazão planeja a revolução, a razão planeja a repressão.” “O sonho é o único direito que não se pode proibir.”

“O Povo é o mito da burguesia.”

“A revolução é a anti-razão que comunica as tensões e rebeliões do mais irracional de todos os fenômenos que é a pobreza.”

“A revolução, como possessão do homem que lança sua vida rumo a uma idéia, é o mais alto astral do misticismo.”

“As revoluções se fazem na imprevisibilidade da prática histórica que é a cabala do encontro das forças irracionais das massas pobres.”

“A revolução é uma mágica porque é o imprevisto dentro da razão dominadora.”

“A cultura popular será sempre uma manifestação relativa quando apenas inspiradora de uma arte criada por artistas ainda sufocados pela razão burguesa.”

“A cultura popular não é o que se chama tecnicamente de folclore, mas a linguagem popular de permanente rebelião histórica.”

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